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Alopecia cicatricial

Padrão inflamatório(Alopecias cicatriciais primárias, Alopecia com cicatriz, Scarring alopecia, Cicatricial alopecia, Alopecia cicatricial primária)

Conceito

Alopecia cicatricial é a perda de cabelo acompanhada de destruição irreversível do folículo piloso, que é substituído por tecido conjuntivo.

O achado que define o quadro é a ausência de óstios foliculares na área de alopecia, visível a olho nu e na tricoscopia.

Nas alopecias cicatriciais primárias o folículo piloso é o alvo direto do processo inflamatório, e a classificação se faz pelo tipo de infiltrado inflamatório predominante (linfocítico, neutrofílico ou misto).

Nas alopecias cicatriciais secundárias o folículo é apenas um "espectador inocente", destruído por um processo que acomete a pele de forma inespecífica: queimaduras, radiodermite, neoplasias cutâneas, sarcoidose, amiloidose e necrobiose lipoídica.

O líquen plano pilar e a alopecia frontal fibrosante são as formas linfocíticas mais estudadas; a foliculite decalvante é a alopecia cicatricial neutrofílica primária mais comum, diagnosticada em cerca de 2,8% dos pacientes atendidos por queixa de queda de cabelo.

A intervenção precoce é o ponto central do manejo, porque o folículo já destruído não se recupera: o objetivo do tratamento é controlar a inflamação, deter a progressão e preservar os folículos ainda funcionantes.

Epidemiologia

O líquen plano pilar acomete sobretudo mulheres de meia-idade.

A alopecia frontal fibrosante é mais comum em mulheres na pós-menopausa, é considerada variante do líquen plano pilar e tem sido descrita também em homens.

A alopecia cicatricial centrífuga central predomina em mulheres, com forte predomínio em pessoas de ascendência africana.

A foliculite decalvante afeta principalmente adultos jovens e de meia-idade, com predomínio no sexo masculino.

A celulite dissecante do couro cabeludo ocorre tipicamente em homens jovens negros.

A foliculite queloidiana da nuca (acne queloidiana) é mais frequente em homens; em séries norte-americanas foi descrita mais em afro-americanos, depois em latinos, asiáticos e brancos (categorias autodeclaradas dos estudos).

O lúpus eritematoso discoide, que também produz alopecia cicatricial, tem predomínio feminino e é mais frequente em afro-americanos (categoria autodeclarada); apenas 5% a 20% dos pacientes com lúpus discoide evoluem para lúpus eritematoso sistêmico.

A dermatose pustulosa erosiva do couro cabeludo ocorre em homens idosos, calvos e com fotodano acentuado.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Uso de alisantes químicos, pentes quentes, penteados tracionantes e pomadas (alopecia cicatricial centrífuga central)
  • Mutação em PADI3 (alopecia cicatricial centrífuga central)
  • Uso frequente (pelo menos duas vezes por semana) de hidratantes faciais e de fotoprotetores químicos, e de produtos contendo dióxido de titânio (alopecia frontal fibrosante)
  • Alérgenos de contato em cosméticos e produtos de higiene aplicados no couro cabeludo e na face: 76% dos pacientes com alopecia frontal fibrosante ou líquen plano pilar de uma coorte tiveram teste de contato positivo para alérgeno clinicamente relevante
  • Colonização por Staphylococcus aureus (foliculite decalvante)
  • Trauma local e perda da integridade da barreira epidérmica (foliculite decalvante)
  • Irritação mecânica crônica da nuca por barbear rente, colarinhos e capacetes (foliculite queloidiana)
  • Tabagismo (lúpus discoide)
  • Radiação ultravioleta (lúpus discoide)
  • Fotodano intenso e trauma prévio, inclusive cirúrgico (dermatose pustulosa erosiva do couro cabeludo)
  • Líquen plano cutâneo, mucoso e ungueal (metade dos pacientes com líquen plano pilar)
  • Líquen plano pigmentoso e pápulas faciais na alopecia frontal fibrosante
  • Hipotireoidismo, rosácea e líquen plano pilar em mulheres com alopecia frontal fibrosante (estudo caso-controle); prevalência aumentada de doenças autoimunes e de alterações tireoidianas em relação à população geral, sem consenso sobre rastrear todos os pacientes
  • Síndrome de Graham-Little-Piccardi-Lassueur (variante do líquen plano pilar)
  • Espectro fenotípico foliculite decalvante-líquen plano pilar
  • Tétrade de oclusão folicular: acne conglobata, hidradenite supurativa, celulite dissecante do couro cabeludo e cisto pilonidal
  • Colonização e infecção por Staphylococcus aureus na foliculite decalvante
  • Lúpus eritematoso sistêmico em 5% a 20% dos pacientes com lúpus discoide (maior risco na forma disseminada, no início na infância, em pacientes mais jovens e com título alto de anticorpo antinuclear)
  • Alopecia androgenética concomitante (impacta a escolha do tratamento)

Patogênese

No líquen plano pilar admite-se perda do privilégio imunológico da região do bulge do folículo, com destruição das células-tronco foliculares e substituição do folículo por fibrose.

O infiltrado é linfocítico, com aumento de linfócitos T citotóxicos CD8 positivos no bulge e no infundíbulo tanto no líquen plano pilar quanto na alopecia frontal fibrosante.

Estudo de imuno-histoquímica encontrou mais células CD68 positivas, menor expressão de CD86 e maior expressão de CD163 e de interleucina-4 no líquen plano pilar do que na alopecia frontal fibrosante, sugerindo polarização diferente dos macrófagos (fenótipo M2 predominante no líquen plano pilar).

Na alopecia frontal fibrosante, células T reguladoras FOXP3 positivas estão paradoxalmente aumentadas nas áreas afetadas em comparação com o couro cabeludo sadio, e não há diferença no perfil de receptores hormonais entre área afetada e não afetada.

Postula-se para a alopecia frontal fibrosante a combinação de suscetibilidade genética e gatilhos ambientais; há associação relatada com o uso de fotoprotetores e hidratantes faciais, e dióxido de titânio (filtro ultravioleta) foi identificado na haste dos cabelos de pacientes.

Na alopecia cicatricial centrífuga central foi descrita mutação em PADI3 em parte dos pacientes.

Na foliculite decalvante a patogênese é multifatorial: predisposição genética, colonização por Staphylococcus aureus, biofilmes bacterianos, perda da integridade da barreira epidérmica, trauma, anormalidade congênita dos óstios foliculares e disfunção da imunidade local.

Na celulite dissecante e na hidradenite supurativa o mecanismo comum é a oclusão folicular.

Clínica

  • Ausência de óstios foliculares na área alopécica é o achado comum e definidor de todas as alopecias cicatriciais

Líquen plano pilar

  • Áreas de alopecia irregulares, únicas ou multifocais, mais comuns no vértice, sem distribuição em faixa
  • Eritema perifolicular, descamação perifolicular e hiperceratose folicular com halo violáceo estreito na periferia das placas
  • Prurido, dor e ardor no couro cabeludo (tricodinia)
  • Metade dos pacientes tem lesões cutâneas ou ungueais de líquen plano

Alopecia frontal fibrosante

  • Recuo lento e progressivo da linha de implantação frontotemporal, em faixa, com pele atrófica e brilhante e pápulas perifoliculares
  • Rarefação ou perda bilateral das sobrancelhas, pista diagnóstica precoce
  • Acometimento de região occipital, costeletas, cílios e pelos corporais
  • Pápulas faciais não inflamatórias, líquen plano pigmentoso, lesões hipocrômicas, eritema difuso da face e do pescoço e veias frontais proeminentes
  • Padrão pseudo-franja (preservação de uma fileira de cabelos anterior à área de alopecia) associado a curso menos grave
  • Síndrome de Graham-Little-Piccardi-Lassueur: tríade de alopecia cicatricial do couro cabeludo, perda não cicatricial de pelos axilares e pubianos e pápulas foliculares espinhosas semelhantes a ceratose pilar no tronco e nos membros

Alopecia cicatricial centrífuga central

  • Alopecia que começa no vértice e se expande de forma centrífuga, crônica e progressiva, levemente dolorosa
  • "Cabelos de boneca" (tufos de vários fios emergindo de um mesmo óstio dilatado, correspondente à politriquia)
  • Pseudopelada de Brocq: placas de alopecia cicatricial sem sinais inflamatórios evidentes, forma linfocítica de apresentação

Lúpus eritematoso discoide

  • Placas eritematosas que evoluem com escama aderente, atrofia e cicatriz, com hipopigmentação central e hiperpigmentação periférica (mais evidente na pele negra), acometendo couro cabeludo, face e orelhas (especialmente a concha)
  • "Língua de gato" (langue du chat), projeções ceratósicas em espícula na face inferior da escama destacada, correspondentes aos tampões foliculares

Foliculite decalvante

  • Pápulas e pústulas foliculares, erosões e crostas purulentas ou hemorrágicas, em surtos, com desenvolvimento posterior de áreas cicatriciais
  • Tufos de pelos (vários fios emergindo de um mesmo óstio dilatado)
  • Vértice é a localização mais comum; barba, pescoço, axilas e região pubiana também podem ser afetados
  • Prurido, hiperestesia e tricodinia
  • Espectro fenotípico foliculite decalvante-líquen plano pilar: pústulas foliculares e tufos de pelos coexistindo ou alternando com eritema perifolicular e descamação branca perifolicular
  • Celulite dissecante do couro cabeludo (perifoliculite capitis abscedens et suffodiens): nódulos inflamatórios múltiplos que formam trajetos fistulosos amolecidos, intercomunicantes e purulentos, com drenagem, cicatriz e alopecia sobrejacentes
  • Celulite dissecante: preferência pelo vértice e pela região occipital

Foliculite queloidiana da nuca

  • Pápulas foliculares firmes, cupuliformes e pruriginosas na nuca e no couro cabeludo occipital
  • Pápulas queloidianas que coalescem em placas com distribuição em faixa próxima à linha posterior de implantação, com alopecia cicatricial nas áreas envolvidas
  • Dermatose pustulosa erosiva do couro cabeludo: pústulas, crostas e erosões em couro cabeludo fotodanificado
  • Tricoscopia (líquen plano pilar e alopecia frontal fibrosante): eritema peripilar, descamação peripilar tubular e ausência de óstios foliculares
  • Tricoscopia (foliculite decalvante): tufos de pelos, descamação tubular amarelada com alargamento em colarinho na extremidade distal, pústulas foliculares, crostas, hiperplasia perifolicular em padrão de estrela e vasos dispostos concentricamente em torno da haste emergente
  • Tricoscopia (foliculite decalvante tardia): áreas brancas e vermelho-leitosas e ausência de óstios foliculares
  • Teste de tração positivo com cabelos anágenos indica atividade nas alopecias cicatriciais

Classificação

  • Alopecia cicatricial primária: folículo piloso é o alvo direto da inflamação
  • Alopecia cicatricial secundária: folículo é destruído como espectador inocente (queimadura, radiodermite, neoplasia cutânea, sarcoidose, amiloidose, necrobiose lipoídica)

Primária linfocítica

  • Lúpus eritematoso discoide
  • Líquen plano pilar
  • Alopecia frontal fibrosante
  • Pseudopelada de Brocq
  • Alopecia cicatricial centrífuga central
  • Mucinose folicular (alopecia mucinosa)
  • Ceratose folicular espinulosa decalvante

Primária neutrofílica

  • Foliculite decalvante
  • Celulite dissecante do couro cabeludo
  • Acne necrótica

Primária mista

  • Foliculite queloidiana (acne queloidiana da nuca)
  • Dermatose pustulosa erosiva do couro cabeludo
  • Critérios diagnósticos da alopecia frontal fibrosante (Vañó-Galván, 2018), maiores: alopecia cicatricial frontotemporal do couro cabeludo, na ausência de pápulas foliculares ceratósicas no corpo; alopecia bilateral e difusa das sobrancelhas
  • Critérios diagnósticos da alopecia frontal fibrosante, menores: tricoscopia típica (eritema peripilar, descamação peripilar ou ambos); histopatologia de alopecia cicatricial com padrão de alopecia frontal fibrosante ou líquen plano pilar; acometimento de outras áreas sugestivas (occipital, face, costeletas, pelos corporais); pápulas faciais não inflamatórias
  • Diagnóstico de alopecia frontal fibrosante: dois critérios maiores, ou um maior e dois menores
  • Índice de atividade do líquen plano pilar (LPPAI, 0-10): soma de sintomas (prurido, dor, ardor), sinais (eritema difuso, eritema peripilar, descamação peripilar), teste de tração e progressão percebida pelo paciente, avaliados sem tricoscopia
  • Índice de gravidade da alopecia frontal fibrosante (FFASI): pontuação até 100, combinando extensão da linha de implantação em quatro setores, perda de sobrancelhas e pelos corporais, alterações mucosas e outros achados
  • Escore de gravidade da alopecia frontal fibrosante (FFASS, 0-25): extensão da alopecia frontotemporal, perda de sobrancelhas, eritema e descamação peripilares, prurido e dor
  • Gravidade da foliculite decalvante pelo maior diâmetro da maior placa (Vañó-Galván): grau I menor que 2 cm; grau II de 2 a 4,99 cm; grau III igual ou maior que 5 cm
  • Atividade da foliculite decalvante (FD-PGA): 0 = ausente (sem eritema/hiperceratose perifolicular, sem pústulas ou crostas); 1 = leve (eritema e hiperceratose perifoliculares, sem pústulas ou crostas); 3 = moderada (eritema e/ou hiperceratose interfoliculares além do folículo, algumas pústulas e/ou crostas finas); 4 = grave (eritema e/ou hiperceratose interfoliculares, muitas pústulas e/ou crostas)
  • Escala tricoscópica de atividade da foliculite decalvante (Saceda-Corralo): sinais amarelos (pústulas foliculares +2; hiperceratinização tubular amarela +1; crostas amarelas +1), sinais vermelhos (eritema perifolicular em mais de 50% das unidades foliculares +1; hemorragias perifoliculares +1; vasos arboriformes finos -1); 3 pontos indica surto grave, 2 moderado, 1 reativação discreta e 0 doença controlada
  • Estádios da hidradenite supurativa de Hurley aplicam-se à doença associada, não ao couro cabeludo

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Complicações e cuidados

  • Perda capilar definitiva por destruição irreversível do folículo
  • Prurido, dor, ardor e tricodinia persistentes
  • Perda definitiva de sobrancelhas, cílios e pelos corporais na alopecia frontal fibrosante
  • Cicatriz hipertrófica e queloidiana na foliculite queloidiana da nuca
  • Trajetos fistulosos e drenagem purulenta crônica na celulite dissecante
  • Recidiva frequente após a suspensão do tratamento, sobretudo na foliculite decalvante
  • Perda dos enxertos por reativação da doença após transplante capilar
  • Atrofia cutânea e telangiectasias induzidas por corticoide tópico e intralesional
  • Retinopatia por hidroxicloroquina, com risco crescente após 7 a 10 anos de uso
  • Impacto importante na qualidade de vida

Prognóstico

As alopecias cicatriciais primárias levam à perda capilar permanente; a destruição folicular é irreversível e o objetivo realista é a estabilização.

O curso da foliculite decalvante é tipicamente crônico e recidivante, com necessidade de várias terapias ao longo do tempo; o primeiro tratamento bem-sucedido pode não funcionar nas recidivas e é comum o desenvolvimento de resistência terapêutica.

A alopecia frontal fibrosante tem curso variável e pode estabilizar espontaneamente, o que dificulta atribuir mérito a qualquer terapia isolada.

Indicadores de pior evolução na alopecia frontal fibrosante são o padrão difuso do recesso frontotemporal, a perda de cílios e de pelos corporais e a presença de pápulas faciais; padrão pseudo-franja, acometimento leve das sobrancelhas e início em idade mais jovem associam-se a curso menos grave.

O líquen plano pilar é de difícil controle: em série de 261 pacientes, 42,9% precisaram de fármacos de três classes diferentes e 11,3% nunca alcançaram resposta completa.

A ausência de ensaios clínicos randomizados impede conclusões definitivas sobre qual é o tratamento mais eficaz; a escolha é individualizada e o resultado frequentemente é insatisfatório.

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Referências

  1. Lichen planopilaris and frontal fibrosing alopecia: review and update of diagnostic and therapeutic features. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2022.
  2. Management of folliculitis decalvans: The EADV task force on hair diseases position statement. Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology. 2025.
  3. Treatment modalities for lymphocytic and neutrophilic scarring alopecia. Journal of the American Academy of Dermatology. 2023.

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