Candidíase
Conceito
Infecção causada por leveduras do gênero Candida, que acomete pele, mucosas, unhas e, ocasionalmente, outros órgãos.
Candida albicans é a espécie mais comum nas infecções localizadas e sistêmicas.
As leveduras são saprófitas do trato gastrointestinal e da mucosa vaginal, tornando-se patogênicas em situações de desequilíbrio da flora ou de imunodepressão.
A doença varia desde formas superficiais (mucosas e cutâneas) e isoladas até o acometimento sistêmico.
A candidíase mucocutânea crônica é forma persistente ou recorrente de unhas, pele, boca e genitais, frequentemente associada a erros inatos da imunidade.
Epidemiologia
Distribuição universal.
É comum em recém-nascidos, mas também acomete adultos e idosos.
Profissionais expostos a umidade, como empregadas domésticas, lavadeiras de louça, cozinheiros e enfermeiros, são mais propensos.
A candidíase esofágica e das vias aéreas superiores são doenças definidoras de AIDS.
A candidíase orofaríngea e a esofágica eram as principais infecções oportunistas na era pré-HAART em pacientes com HIV.
A candidíase vulvovaginal acomete todas as camadas sociais e é problema comum no mundo todo.
Cerca de 5% a 8% das mulheres adultas apresentam candidíase vulvovaginal recorrente.
Candida albicans responde pela maioria das vaginites por Candida; o restante são espécies não-albicans, mais comumente Candida glabrata, que afeta 10% a 20% das mulheres em muitas regiões.
As espécies não-albicans, sobretudo C. glabrata, causam desproporcionalmente a candidíase vulvovaginal recorrente.
Fatores de risco e doenças associadas
- Umidade e maceração cutânea
- Oclusão e calor nas dobras
- Diabetes mellitus e hiperglicemia
- Imunossupressão (HIV/AIDS, quimioterapia, transplante)
- Uso de antibióticos de amplo espectro
- Corticoterapia tópica ou sistêmica
- Extremos de idade (recém-nascidos e idosos)
- Prematuridade e muito baixo peso ao nascer
- Gestação
- Contraceptivos orais e terapia estrogênica
- Próteses dentárias
- Exposição ocupacional a água (empregadas, cozinheiros, lavadeiras, enfermeiros)
- Dispositivos médicos plásticos e cateteres
- Erros inatos da imunidade (CARD9, dectina-1, defeitos da via IL-17, STAT1 ganho de função, STAT3, APECED)
- Endocrinopatias autoimunes (hipoparatireoidismo e insuficiência adrenal na APECED)
- Intercurso sexual e hábitos de higiene íntima (candidíase vulvovaginal)
- Diabetes mellitus
- Infecção por HIV/AIDS
- Candidíase mucocutânea crônica
- APECED / APS-1 (hipoparatireoidismo, insuficiência adrenal, distrofia ectodérmica)
- Síndrome de hiper-IgE (STAT3/AD-HIES, DOCK8/AR-HIES)
- Mutação STAT1 de ganho de função
- Deficiência de CARD9
- Deficiência de dectina-1 (CLEC7A)
- Imunodeficiências combinadas graves (SCID)
- Neutropenia e doença granulomatosa crônica
- Síndrome de Down, com predisposição a infecções por leveduras
Patogênese
As espécies de Candida formam biofilme em dispositivos médicos de plástico.
As SAPs (proteinases aspárticas secretórias) e as fosfolipases auxiliam na adesão fúngica e na invasão tecidual.
A transição de levedura para pseudo-hifas e hifas (formação de micélio) aumenta a colonização e a invasão do epitélio.
A defesa do hospedeiro contra Candida envolve imunidade inata e adaptativa.
O reconhecimento ocorre por receptores como TLR 2 e 4, dectina-1, dectina-2 e mincle, que reconhecem componentes da parede celular, incluindo as beta-glucanas.
A sinalização segue pela via CARD9/BCL10/MALT1 com ativação do NF-kB e produção de IL-1beta, IL-6 e IL-23.
Os linfócitos Th17 e a via da IL-17 são centrais na proteção contra a candidíase mucocutânea.
Defeitos no reconhecimento de Candida (dectina-1/CLEC7A, CARD9), na produção ou sinalização de IL-17 (IL-17F, IL-17RA, IL-17RC, ACT1/TRAF3IP2) ou no desenvolvimento e função de Th17 (STAT1 ganho de função, STAT3/AD-HIES, APECED/AIRE) predispõem à candidíase mucocutânea crônica.
Na candidíase vulvovaginal, os hormônios reprodutivos femininos, sobretudo o estrogênio, aumentam o conteúdo de glicogênio vaginal e favorecem a colonização.
A candidíase vulvovaginal recorrente é multifatorial e associa-se à redução da produção de IFN-gama e à atopia.
Elementos hifais aumentam a colonização e a Candida albicans é capaz de penetrar células epiteliais intactas.
Clínica
- Intertrigo candidiásico: eritema, maceração e fissuras nas dobras (interdigital, inframamária, axilar, inguinal), com placas úmidas e revestimento esbranquiçado pruriginoso
- Lesões satélites: pápulas e pústulas eritematoescamosas pequenas e arredondadas ao redor da placa principal
- Candidíase da área da fralda: eritema vermelho-vivo com lesões pustulovesiculares satélites
- Candidíase oral pseudomembranosa (sapinho): lesões cremosas branco-placóides removíveis na mucosa bucal, orofaringe e língua
- Candidíase oral eritematosa/atrófica: máculas eritematosas sem placas brancas no palato ou dorso da língua
- Queilite angular (perleche): fissuras e maceração dos ângulos da boca
- Glossite rombóide mediana
- Candidíase esofágica: dor retroesternal em queimação e odinofagia
- Candidíase vulvovaginal: prurido vulvar, ardor, corrimento branco aderente, eritema e edema vulvovaginal, disúria
- Balanite e balanopostite candidiásica: eritema, pápulas e pústulas na glande e no prepúcio
- Paroníquia candidiásica: lesões eritematoescamosas periungueais dolorosas com perda da cutícula, acometendo a prega ungueal proximal
- Onicomicose candidiásica: onicólise, predominando nas unhas das mãos, que têm mais contato com água
- Erosio interdigitalis blastomycetica: maceração e erosão nos espaços interdigitais das mãos
- Candidíase mucocutânea crônica: infecções persistentes ou recorrentes de unhas, pele, boca e genitais
- Candidíase congênita e neonatal, com acometimento cutâneo no recém-nascido
Classificação
- Formas mucosas: orofaríngea (pseudomembranosa, eritematosa/atrófica, queilite angular, glossite rombóide mediana), esofágica, vulvovaginal, balanite/balanopostite
- Formas cutâneas: intertrigo candidiásico, candidíase da área da fralda, erosio interdigitalis blastomycetica
- Formas ungueais: paroníquia candidiásica, onicomicose candidiásica
- Candidíase mucocutânea crônica (isolada ou sindrômica: APECED, síndrome de hiper-IgE, STAT1 ganho de função)
- Candidíase congênita e neonatal
- Candidíase vulvovaginal não complicada (leve a moderada, menos de quatro episódios/ano, por C. albicans, em hospedeira hígida e não gestante)
- Candidíase vulvovaginal complicada (grave, ou recorrente com quatro ou mais episódios/ano, ou por não-albicans, ou em hospedeira comprometida/gestante/diabética)
- Candidíase invasiva e sistêmica (candidemia e disseminada)
Histopatologia Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Diagnósticos diferenciais Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Manejo Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Procedimentos relacionados Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Complicações e cuidados
- Candidíase esofágica com odinofagia e redução da ingesta
- Candidíase disseminada, invasiva e candidemia
- Vulvovaginite recorrente
- Infecção por espécies não-albicans resistentes a azólicos (C. glabrata, C. krusei)
- Resistência a azólicos por uso prolongado ou repetido
- Onicólise e distrofia ungueal
- Na deficiência de CARD9, candidíase invasiva do sistema nervoso central (meningoencefalite), ossos e linfonodos, e dermatofitose profunda
Prognóstico
A maioria das formas superficiais responde bem ao tratamento antifúngico tópico ou sistêmico.
A recorrência é comum, sobretudo quando os fatores predisponentes não são corrigidos.
Na candidíase vulvovaginal recorrente, a ausência de terapia de manutenção leva a recaída clínica em 50% dos casos em 3 meses.
As formas associadas a erros inatos da imunidade tendem a ser persistentes ou recorrentes e exigem manejo prolongado e específico.
A candidíase invasiva e sistêmica tem prognóstico mais grave.
Pérola clínica Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Referências
- Clinical Practice Guideline for the Management of Candidiasis: 2016 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases. 2016.
- Vulvovaginal candidosis. Lancet. 2007.
- Mucocutaneous Candidiasis: Insights Into the Diagnosis and Treatment. The Pediatric Infectious Disease Journal. 2024.
- ESCMID guideline for the diagnosis and management of Candida diseases 2012: patients with HIV infection or AIDS. Clinical Microbiology and Infection. 2012.
- Update on therapy for superficial mycoses: review article part I. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2013.
Achados (clique para explorar)
Veja também
Dermatologia como ela acontece na prática: do diagnóstico ao tratamento.
Aprenda comigo →Atendimento dermatológico em Palmas, TO: caioformiga.com.
Consulte comigo →