Celulite
Conceito
Celulite é uma infecção bacteriana aguda, piogênica e de disseminação rápida da derme profunda e do tecido subcutâneo, que em geral complica uma ferida, úlcera ou dermatose preexistente.
Manifesta-se como placa eritematosa, quente, edemaciada e dolorosa, sem demarcação nítida em relação à pele sã.
Erisipela é a variante superficial: acomete a derme superior e os linfáticos superficiais, tem bordas nitidamente demarcadas e elevadas ("em degrau"), cor vermelho-vivo e sensação de ardor/queimação, com envolvimento linfático proeminente e aspecto de "casca de laranja" (peau d'orange).
O aspecto de casca de laranja resulta do edema cutâneo superficial ao redor dos folículos pilosos, que permanecem ancorados à derme subjacente e produzem os pontos deprimidos.
O termo erisipela tem três acepções distintas na literatura: infecção limitada à derme superior e linfáticos superficiais (em oposição à celulite, que compromete derme profunda e gordura subcutânea); celulite restrita à face; e, em vários países europeus, simples sinônimo de celulite.
Na prática, a separação etiológica entre as duas entidades vem perdendo sustentação: bacteremias por Staphylococcus aureus ocorrem em taxas semelhantes (cerca de 14%) nos dois grupos, mais da metade das culturas de ferida positivas em uma série de 1142 pacientes com erisipela cresceu S. aureus, e a presença de todos os sinais clássicos de erisipela não aumentou a proporção de estreptococos identificados (68%).
Por isso, as diretrizes norte-americanas agrupam ambas sob "infecções de pele e partes moles" e orientam a conduta pela presença ou ausência de purulência, e não pelo rótulo erisipela versus celulite.
O termo celulite não deve ser aplicado a inflamação cutânea que acompanha coleções de pus (bursite séptica, furúnculo, abscesso): nesses casos o tratamento principal é a drenagem, e o antimicrobiano tem papel secundário ou é dispensável.
Todo eritema de membro inferior não é celulite: a apresentação é inespecífica e imita e é imitada por várias dermatoses e vasculopatias (pseudocelulite).
Epidemiologia
A celulite está entre as infecções que mais motivam hospitalização; nos Estados Unidos gera cerca de 2,3 milhões de atendimentos anuais em emergência, e as internações por celulite representam cerca de 10% de todas as hospitalizações por doenças infecciosas.
Entre 13,9% e 17% dos pacientes atendidos em emergência com celulite são internados; nos Países Baixos a incidência anual estimada é de 22 casos por 1000 habitantes, com internação de aproximadamente 7% dos casos.
Esses 7% internados respondem por 83% de todo o gasto em saúde atribuível à celulite; a mortalidade dos internados é de cerca de 2,5%.
O membro inferior é acometido em 70% a 80% dos casos, e nas extremidades a apresentação é caracteristicamente unilateral.
Nos adultos, o sítio mais comum é o membro inferior; nas crianças, cabeça e pescoço; em usuários de drogas injetáveis, os locais de injeção nos braços.
Há variação sazonal: infecções estreptocócicas de pele são mais frequentes no inverno em países frios, enquanto regiões quentes registram mais erisipela no verão.
Espera-se aumento da incidência pelo crescimento da prevalência dos principais fatores predisponentes (diabetes, obesidade e envelhecimento).
A recorrência é regra em uma parcela grande: quase 30% das internações por celulite são por recidiva, e as taxas de recorrência em 2, 3 e 5 anos são de 17%, 29% a 47% e 47%; em quem já teve recidiva, a taxa em 5 anos sobe para 57%.
Pacientes com infecção prévia têm recorrência anual de cerca de 8% a 20%, geralmente no mesmo sítio.
Em pessoas vivendo com HIV, as taxas de recorrência em 1 e 3 anos são de 29% e 47%.
Estudo transversal norte-americano com 259 pacientes internados pelo pronto-socorro com celulite de membro inferior mostrou que 30,5% tinham, na verdade, pseudocelulite; nesse grupo a idade média foi de 60,4 anos e metade era do sexo feminino (autodeclaração de cor/etnia no estudo: 71% brancos não hispânicos, 13% negros, 8% hispânicos, 8% outros).
Fatores de risco e doenças associadas
- História prévia de celulite (o mais forte preditor de novo episódio)
- Linfedema (fator de risco maior, tanto para o primeiro episódio quanto para recorrência)
- Edema crônico e insuficiência venosa
- Tinea pedis e outras alterações do espaço interdigital (fissura, maceração, descamação, eritrasma)
- Úlcera crônica de perna e úlcera de estase
- Trauma cutâneo prévio, incluindo cirurgia
- Dermatoses com quebra de barreira (eczema, dermatite de estase)
- Idade avançada
- Diabetes melito
- Obesidade
- Desnutrição
- Tabagismo
- Etilismo
- Situação de rua
- Uso de drogas injetáveis (incluindo a injeção subcutânea)
- Dissecção de linfonodos e radioterapia (mastectomia radical, quadrantectomia com esvaziamento axilar e irradiação mamária)
- Retirada de veia safena para revascularização miocárdica
- Lipoaspiração
- Piercing corporal
- Imunossupressão, neutropenia, asplenia e imunodeficiência celular grave
- Cirrose, insuficiência cardíaca, insuficiência renal
- Imersão em água doce ou salgada e mordeduras de animais ou humanos (definem agentes atípicos)
- Linfedema crônico (presente em 25% a 60% dos pacientes com celulite recorrente)
- Insuficiência venosa crônica e dermatite de estase
- Tinea pedis e outras dermatofitoses interdigitais
- Diabetes melito (maiores taxas de incidência, complicações e hospitalização)
- Obesidade
- Insuficiência cardíaca congestiva
- Neutropenia e hipoalbuminemia (marcadores de risco de desfecho adverso)
- Cirrose e doença hepática não relacionada a hepatite (esta última aumenta a recorrência em pessoas vivendo com HIV)
- Infecção pelo HIV
- Câncer de mama tratado com cirurgia axilar e radioterapia (celulite do braço ou da mama ipsilateral)
Patogênese
A infecção se instala quando micro-organismos rompem a barreira cutânea, sobretudo em pele frágil ou com defesas locais reduzidas.
A porta de entrada frequentemente é discreta e passa despercebida; quando identificável, costuma ser trauma, úlcera, fissura interdigital, dermatose inflamatória prévia ou ferida cirúrgica.
Nos casos de celulite de perna, os estreptococos responsáveis com frequência residem nos espaços interdigitais macerados, descamativos ou fissurados, o que faz da tinea pedis, do eritrasma e de outras alterações do espaço interdigital reservatórios-chave.
Outros reservatórios ocasionais são o canal anal e a vagina, esta última especialmente para celulite por estreptococo do grupo B em pacientes com câncer ginecológico prévio tratado com cirurgia e radioterapia.
A grande maioria dos casos decorre de estreptococos beta-hemolíticos, com predomínio do grupo A (Streptococcus pyogenes), mas também dos grupos B, C, F e G; estudos sorológicos prospectivos sugerem que mais de 70% dos casos são estreptocócicos.
Staphylococcus aureus causa celulite com menor frequência e, quando o faz, associa-se tipicamente a ferida aberta ou trauma penetrante prévio, incluindo sítios de injeção de drogas ilícitas; é o agente mais comum em crianças.
A celulite associada a úlcera diabética ou úlcera de decúbito crônica costuma ser mista, com cocos gram-positivos, aeróbios gram-negativos e anaeróbios; em infecções de pé diabético ameaçadoras do membro, os patógenos recuperados foram aeróbios gram-positivos em 56%, aeróbios gram-negativos em 22% e anaeróbios em 22%.
Situações particulares apontam agentes atípicos: neutropenia (Escherichia coli, enterobactérias, Pseudomonas aeruginosa), cirrose (E. coli, Klebsiella, Pseudomonas, Proteus, Aeromonas, Vibrio, Acinetobacter), exposição a água doce (Aeromonas hydrophila), água salgada (Vibrio vulnificus), peixes de aquicultura (Streptococcus iniae), ferimentos por espinha/osso de peixe (Erysipelothrix rhusiopathiae, Vibrio vulnificus, Mycobacterium marinum), mordedura humana (Eikenella corrodens, anaeróbios orais) e mordedura de cão ou gato (Pasteurella multocida e outras).
Bacteremia é fonte pouco comum: celulite pneumocócica na face ou nos membros pode ocorrer em diabetes, etilismo, lúpus eritematoso sistêmico, síndrome nefrótica ou neoplasia hematológica; celulite meningocócica é rara; Vibrio vulnificus pode causar celulite bacterêmica com bolhas hemorrágicas após ingestão de ostras cruas por pacientes com cirrose, hemocromatose ou talassemia.
O edema é elemento central da patogênese: dificulta a drenagem linfática, permite acúmulo de fluido rico em proteínas que serve de meio para as bactérias e impede a migração de células apresentadoras de antígeno.
O próprio episódio de celulite lesa os canais linfáticos locais, deixando linfedema residual que perpetua o ciclo de recorrências; as recidivas podem ter duração maior que o episódio inicial.
Idade avançada (atrofia cutânea, má circulação, imunossenescência), diabetes e obesidade comprometem simultaneamente barreira cutânea, imunidade e vasculatura, o que explica o risco elevado nesses grupos.
Na obesidade mórbida a pele é mais suscetível a lesão e demora mais a reparar; a desnutrição causa cicatrização deficiente, perda de elasticidade e imunossupressão relativa.
Em alguns pacientes a inflamação cutânea e as manifestações sistêmicas pioram logo após o início do antibiótico, provavelmente porque a destruição súbita dos patógenos libera enzimas potentes que amplificam a inflamação local.
Ocasionalmente a celulite resulta de disseminação a partir de osteomielite subjacente ou de foco profundo à distância (por exemplo, celulite crepitante da coxa esquerda como manifestação de abscesso diverticular colônico).
Clínica
- Placa eritematosa, quente, edemaciada e dolorosa, de limites imprecisos, com progressão rápida
- Sensibilidade à palpação e calor local sempre presentes; o eritema pode ser rosado a vermelho-vivo
- Localização predominante nos membros inferiores; acometimento praticamente sempre unilateral
- Febre, calafrios, mal-estar, taquicardia, confusão mental, hipotensão e leucocitose podem preceder em horas as alterações cutâneas
- Linfangite (estrias eritematosas ascendentes) e linfadenomegalia regional dolorosa
- Superfície com aspecto de casca de laranja (peau d'orange) por edema perifolicular
- Vesículas, bolhas, erosões, petéquias e equimoses podem se desenvolver; em casos graves, necrose
- Porta de entrada identificável em parte dos casos: fissura interdigital, úlcera, escoriação, picada de inseto, ferida cirúrgica
- Erisipela: placa vermelho-viva, com borda nítida e elevada, sensação de queimação, com predileção por membro inferior (sítio mais comum) e face
- Celulite periorbitária (pré-septal): acomete pálpebra e tecidos anteriores ao septo orbitário; agentes S. aureus, pneumococo e estreptococo do grupo A
- Celulite orbitária (a ser diferenciada da periorbitária): redução da motilidade ocular, redução da acuidade visual e risco de trombose de seio cavernoso
- Celulite bucal por Haemophilus influenzae tipo b: lactentes, placa facial (mais comumente periorbitária ou bucal) vermelho-violácea a azulada, precedida de quadro de infecção de vias aéreas superiores, com hemoculturas frequentemente positivas; tornou-se rara após a vacina conjugada Hib
- Celulite perianal estreptocócica: crianças, prurido e eritema perianais, fissuras anais, secreção purulenta e sangramento retal
- Celulite crepitante: crepitação à palpação, produzida por clostrídios ou anaeróbios não formadores de esporos, isolados ou em associação com bactérias facultativas (E. coli, Klebsiella, Aeromonas)
- Celulite gangrenosa: necrose do subcutâneo e da pele suprajacente
- Celulite após cirurgia mamária: pode ser recorrente e surgir semanas a meses depois, no braço ipsilateral (pós-mastectomia radical) ou na própria mama (pós-tratamento conservador)
Classificação
- Classificação da diretriz da Infectious Diseases Society of America (IDSA) para infecções não purulentas (celulite/erisipela sem foco de purulência)
- Leve: celulite/erisipela típica, sem foco de purulência e sem sinais sistêmicos de infecção
- Moderada: celulite/erisipela típica com sinais sistêmicos de infecção
- Grave: falha do tratamento antibiótico oral; ou sinais sistêmicos de infecção (temperatura acima de 38 graus Celsius, frequência cardíaca acima de 90 batimentos por minuto, frequência respiratória acima de 24 incursões por minuto ou contagem de leucócitos anormal, definida como acima de 12.000 ou abaixo de 400 células por microlitro); ou paciente imunocomprometido; ou sinais clínicos de infecção profunda, como bolhas, desprendimento cutâneo, hipotensão ou disfunção orgânica
- Classificação de gravidade em quatro classes (classificação de Eron), que estratifica os pacientes pelos sinais sistêmicos, pelas comorbidades e pelos escores padronizados de alerta precoce (Standardised Early Warning Score), com mortalidade e falha terapêutica presumidamente crescentes da classe I à classe IV
- Desempenho da classificação em quatro classes: em dois estudos de coorte houve supertratamento frequente das classes I e II e subtratamento das infecções mais graves (classe IV); a resolução completa ao fim da terapia foi de 83% na classe IV contra 100%, 98% e 96% nas classes I, II e III
- Não existem, até o momento, critérios de internação validados prospectivamente
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Complicações e cuidados
- Abscesso (favorecido por obesidade, tabagismo e atraso no início do antibiótico)
- Bolhas, lesões hemorrágicas e necrose cutânea (mais frequentes em obesos)
- Bacteremia
- Osteomielite
- Endocardite
- Fasciíte necrosante
- Linfedema pós-inflamatório persistente por dano aos canais linfáticos
- Celulite recorrente
- Falência de múltiplos órgãos
- Óbito (mortalidade de cerca de 2,5% entre os internados)
- Complicações iatrogênicas do tratamento desnecessário na pseudocelulite: infecção hospitalar, colite por Clostridium difficile, anafilaxia, exantema medicamentoso, distúrbio gastrointestinal, seleção de micro-organismos resistentes
Prognóstico
A maioria dos casos responde rapidamente ao antibiótico e pode ser conduzida em regime ambulatorial.
Ensaios da era pré-antibiótica registravam cura espontânea de cerca de 70%, o que sugere que parte dos casos é autolimitada; por outro lado, antibiótico empírico inadequado associa-se a tratamento mais prolongado e maior tempo de internação.
A mortalidade entre os pacientes hospitalizados gira em torno de 2,5%.
Insuficiência cardíaca congestiva, neutropenia, hipoalbuminemia, alteração do nível de consciência e secreção pela lesão aumentam o risco de desfecho adverso, incluindo óbito, complicações locais que exijam drenagem cirúrgica e complicações sistêmicas como falência de múltiplos órgãos.
A obesidade predispõe a complicações locais (bolhas, abscesso, lesões hemorrágicas, necrose) e associa-se a menores taxas de cura.
A recorrência é frequente e o linfedema residual perpetua o ciclo; a profilaxia antibiótica reduz recidivas enquanto é mantida, mas o efeito se perde após a suspensão.
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Referências
- Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases. 2014.
- Cellulitis: current insights into pathophysiology and clinical management. The Netherlands Journal of Medicine. 2017.
- Costs and consequences associated with misdiagnosed lower extremity cellulitis. JAMA Dermatology. 2017.
- Clinical practice. Cellulitis. New England Journal of Medicine. 2004.
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