Cicatrização e cicatrizes (hipertrófica, atrófica e contratura)
Conceito
A cicatriz é o produto final da reparação de uma ferida cutânea que atingiu a derme, com substituição do tecido original por matriz colágena; a pele reparada nunca recupera a arquitetura nem a resistência do tecido íntegro.
A cicatrização normal percorre três fases: inflamatória (começa em 6 a 8 horas e dura 3 a 4 dias), proliferativa (do quinto ao sétimo dia, podendo durar até um mês) e de remodelação (inicia em 3 a 4 semanas e pode se estender por um ano).
A resistência da cicatriz aumenta progressivamente: cerca de 5% na primeira semana, 20% em 3 semanas, 50% em 3 meses e 80% em um ano; nunca alcança a resistência da pele íntegra.
A maturação da cicatriz leva pelo menos 2 anos: a cicatriz recente é elevada, eritematosa e endurecida, e a cicatriz madura é plana, clara e macia. A epiderme fecha em 7 a 10 dias, mas a derme só recupera 90% da resistência após 3 meses, e é esse descompasso que engana paciente e cirurgião.
Quando a reparação é excessiva, surgem as cicatrizes patológicas, doenças fibroproliferativas da derme reticular com deposição exagerada de colágeno: a cicatriz hipertrófica e o queloide.
A cicatriz hipertrófica é elevada, mas fica contida dentro dos limites da ferida que a originou, costuma ser linear, cresce por 3 a 6 meses, atinge um platô e tende a regredir espontaneamente ao longo do tempo.
O queloide ultrapassa as bordas da ferida, invade a pele sã, não regride e recidiva após excisão isolada; é entidade distinta, com manejo próprio, e está na página de queloide.
Há evidência de que as duas sejam polos do mesmo distúrbio, separadas pela intensidade e pela duração da inflamação da derme reticular, e muitas cicatrizes apresentam características intermediárias; ainda assim, a conduta se decide pela borda da ferida.
Lesões superficiais que não atingem a derme reticular não geram cicatriz hipertrófica nem queloide.
Quando a reparação é deficiente ou o tecido perde volume, a cicatriz é atrófica ou deprimida; quando se retrai sobre uma articulação, produz contratura, com perda funcional.
Embora benignas, as cicatrizes causam prurido, dor, restrição de movimento, desfiguração e impacto documentado sobre a qualidade de vida.
Epidemiologia
A cicatriz hipertrófica é a cicatriz patológica mais comum nos países ocidentais e é a regra após queimadura profunda e após feridas em áreas de tensão.
Após queimadura, o risco de cicatriz hipertrófica é de cerca de 4% quando a ferida cicatriza em menos de 10 dias e sobe para 70% ou mais quando a cicatrização leva 21 dias ou mais.
As cicatrizes fibroproliferativas predominam no sexo feminino, e o estrogênio associa-se a quadros mais graves; localizam-se preferencialmente em articulações e dobras corporais, pela distensão constante desses locais durante os movimentos.
Em casuística brasileira, o fototipo III de Fitzpatrick foi o mais frequente entre os portadores de cicatrizes fibroproliferativas.
Pacientes de fototipos altos têm risco cerca de 15 vezes maior de desenvolver cicatriz patológica do que pacientes de pele clara, com predomínio do queloide nesses grupos.
Em série de 378 cicatrizes hipertróficas e queloides operados, 1,06% correspondia, na verdade, a outra doença.
As estrias de distensão ocorrem sobretudo na puberdade e na gravidez, com predomínio no sexo feminino.
Fatores de risco e doenças associadas
- Ferida que atinge a derme reticular (lesão superficial não produz cicatriz patológica)
- Cicatrização lenta: queimadura que leva 21 dias ou mais para epitelizar
- Queimadura extensa ou profunda e cirurgia reconstrutiva de grandes queimados
- Ferida infectada, com hematoma, corpo estranho ou hipóxia tecidual
- Fechamento de ferida sob tensão e sutura apenas dérmica, que não alivia a tensão da derme reticular
- Incisão que cruza articulação ou que corre perpendicular às linhas de menor tensão da pele
- Enxerto de pele, que não se expande e tende à contratura secundária
- Sítios de alta tensão mecânica: grandes articulações, parede torácica anterior, escápula, ombro, abdome inferior
- Idade jovem, adolescência e gravidez
- Fototipos altos e história familiar de cicatriz patológica (detalhados na página de queloide)
- Atividade física extenuante e trabalho manual pesado, que estiram a ferida em cicatrização
- Corticoterapia prolongada, puberdade, gravidez e síndrome de Marfan (para as estrias de distensão)
- Grandes queimados (a tempestade de citocinas eleva o risco de cicatriz patológica por pelo menos um ano)
- Acne, foliculite e outras infecções cutâneas que precedem a cicatriz patológica
- Síndrome de Marfan (estrias de distensão)
- Queloide, entidade fibroproliferativa distinta que compartilha a patogênese inflamatória da derme reticular
Patogênese
Fase inflamatória: plaquetas liberam PDGF, EGF, TGF-alfa e TGF-beta; neutrófilos afluem nas primeiras 48 horas e são sucedidos pelos macrófagos, célula absolutamente indispensável à cicatrização, que fagocitam detritos e secretam fatores de crescimento.
Fase proliferativa: os fatores fibrinogênicos (PDGF, TGF-alfa, TGF-beta e FGF) fazem o fibroblasto proliferar e produzir matriz extracelular; forma-se tecido de granulação em 3 a 5 dias, com fibronectina depois substituída por colágeno III e, por fim, por colágeno I; a reepitelização começa em 24 horas e a contração da ferida é mediada por miofibroblastos, máxima entre 1 e 2 semanas.
Fase de remodelação: regressão do tecido de granulação, reorganização do colágeno e queda progressiva da celularidade e da vascularização, com a cicatriz clareando e amaciando.
Na cicatriz hipertrófica, os níveis de TGF-beta, que deveriam retornar ao basal com a maturação da ferida, permanecem elevados e a via de sinalização segue ativada; participam fibroblastos, miofibroblastos, mastócitos e citocinas como o fator de necrose tumoral alfa.
O evento central é a inflamação prolongada da derme reticular, que acumula células inflamatórias, fibroblastos, neovasos e colágeno; na cicatriz hipertrófica essa inflamação dérmica tende a se esgotar com o tempo, e é por isso que a lesão regride, ao contrário do queloide, em que a inflamação é duradoura.
A força mecânica local é o fator determinante: a tensão sobre a ferida prolonga e agrava a inflamação, e a cicatriz patológica é rara onde a pele quase não se estira, como couro cabeludo, região pré-tibial e pálpebra superior.
A contratura é obra dos miofibroblastos: a retração do tecido cicatricial sobre uma articulação limita o movimento e, ao mesmo tempo, mantém a tensão que perpetua a inflamação, num ciclo que só a liberação cirúrgica interrompe.
A cicatrização lenta é o principal amplificador do risco: quanto mais tempo a ferida permanece aberta e inflamada (queimadura profunda, infecção, hipóxia, corpo estranho), maior a deposição de matriz extracelular e mais espessos os feixes de colágeno.
A cicatriz de queimadura destrói folículos, glândulas sudoríparas, capilares e terminações nervosas, o que explica a desregulação térmica, a xerose e a dor neuropática do queimado.
Nas estrias de distensão, a distensão mecânica rompe o tecido conjuntivo dérmico ao longo das linhas de clivagem, produzindo lesão atrófica linear em vez de cicatriz elevada.
Os fatores genéticos e sistêmicos da cicatriz fibroproliferativa (história familiar, polimorfismos, hipertensão arterial, estados hipercitocinêmicos) estão detalhados na página de queloide, onde têm peso maior.
Clínica
- Cicatriz normal e madura: linha plana ou levemente deprimida, clara, macia, sem crescimento, que amadurece ao longo de pelo menos 2 anos
- Cicatriz favorável: posicionada nas bordas das subunidades estéticas e paralela às linhas de menor tensão da pele
- Prurido e dor são os sintomas mais comuns das cicatrizes patológicas, e o eritema vivo associado a prurido ou dor indica cicatriz ativa, de melhor resposta ao tratamento
Cicatriz hipertrófica
- Placa ou cordão elevado, eritematoso, firme, restrito aos limites da ferida original, em geral linear, aparecendo poucas semanas após a lesão
- Cresce por 3 a 6 meses, estabiliza e tende a regredir espontaneamente quando os fatores de risco são pequenos
- Costuma contrair e pode produzir contratura sobre articulação
- Predomina em áreas de tensão e é a cicatriz típica da queimadura extensa, onde forma placas confluentes e endurecidas
Contratura cicatricial
- Retração da cicatriz que cruza uma articulação ou uma prega, com perda de amplitude de movimento e disfunção articular
- Alerta funcional: contratura grave é indicação cirúrgica de liberação, e a espera só agrava a limitação e mantém a inflamação
- Frequente em mãos, pescoço, axila e face flexora dos membros, sobretudo após queimadura
Cicatriz atrófica e deprimida
- Cicatriz plana ou abaixo do plano da pele, com adelgaçamento do tecido, resultado de reparação deficiente
- Depressão da cicatriz e efeito de almofada (elevação das bordas com afundamento central) entre as imperfeições sutis das cicatrizes cirúrgicas
- Estrias de distensão: lesões atróficas lineares ao longo das linhas de clivagem, de cor violácea na fase inicial, ligadas à puberdade, à gravidez e à síndrome de Marfan; não são cicatrizes elevadas
- Cicatriz alargada: cicatriz plana, porém larga, produzida pelo fechamento sob tensão, distinta da cicatriz hipertrófica por não ser elevada
- Cicatriz de queimadura: além do relevo, pode haver desregulação térmica, xerose, dor neuropática e perda de função por destruição de folículos, glândulas sudoríparas, capilares e terminações nervosas
- Lesão elevada que ultrapassa as bordas da ferida e invade a pele sã não é cicatriz hipertrófica: é queloide, e tem página própria
Classificação
- Cicatriz madura e cicatriz imatura (ainda eritematosa, endurecida e sintomática, nos primeiros meses a 2 anos)
- Cicatriz hipertrófica: elevada, restrita aos limites da ferida, com regressão espontânea esperada
- Cicatriz hipertrófica classificada pela gravidade da contratura: contratura grave indica cirurgia de liberação como primeira escolha; contratura leve permite ressecção completa ou tratamento conservador multimodal
- Cicatriz hipertrófica linear e estreita versus cicatriz hipertrófica extensa ou disseminada (típica da queimadura), que muda a estratégia terapêutica
- Cicatriz atrófica, deprimida e alargada: cicatrizes que perdem volume ou se alargam, sem componente fibroproliferativo elevado
- Cicatriz intermediária: apresenta ao mesmo tempo características clínicas e histológicas de queloide e de cicatriz hipertrófica
- Queloide: ultrapassa os limites da ferida, invade a pele sã e não regride espontaneamente (ver página de queloide)
Escalas de avaliação
- Vancouver Scar Scale, que gradua vascularização, pigmentação, flexibilidade e altura
- Patient and Observer Scar Assessment Scale (POSAS), com pontuação pareada do paciente e do observador
- Escala de cicatriz do Japan Scar Workshop, citada entre os instrumentos padronizados
- Escala Analógica Visual e Escala de Avaliação Verbal para dor e prurido
- Limitação reconhecida: as escalas subjetivas têm pouca utilidade em cicatrizes grandes e para avaliar impacto funcional
Métodos objetivos
- Documentação de tamanho e espessura e fotografia seriada
- Ultrassonografia de média e alta resolução
- Imagem tridimensional, sobretudo em estudos clínicos
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Complicações e cuidados
- Prurido e dor persistentes
- Contratura cicatricial com limitação de movimento e disfunção articular
- Desregulação térmica, xerose e dor neuropática na cicatriz de queimadura
- Desfiguração estética, estigmatização e prejuízo da qualidade de vida
- Contratura secundária e cicatriz patológica em anel ao redor da área enxertada
- Necrose da ponta do retalho quando se inclui tecido cicatricial
- Carcinoma espinocelular sobre cicatriz ou úlcera crônica que não fecha (úlcera de Marjolin), com taxa de metástase de 25%
- Atrofia dérmica e subcutânea, telangiectasia, hipopigmentação e acne esteroide pelo corticoide intralesional
- Púrpura, bolha, crosta e discromia pelo laser
- Hiper e hipopigmentação, mílio, eritema persistente e piora paradoxal da cicatriz pela dermoabrasão
- Calor, sudorese, edema, dermatite e erosão de pressão pela pressoterapia
- Foliculite e maceração sob oclusão com silicone
- Dermatite de contato alérgica ao extrato de cebola, à vitamina E tópica e ao formaldeído do adesivo tecidual
Prognóstico
A cicatriz hipertrófica cresce por 3 a 6 meses, estabiliza e tende a regredir espontaneamente, sobretudo quando os fatores de risco são pequenos; a conduta conservadora acelera esse processo.
A revisão cirúrgica da cicatriz hipertrófica costuma dar resultados satisfatórios, ao contrário do que ocorre no queloide, em que a cirurgia isolada recidiva de 45% a 100%.
A cicatriz amadurece por pelo menos 2 anos, e a intervenção pode ser considerada a partir de 60 a 90 dias se a evolução não for favorável; a meta é melhorar, não apagar, e o resultado depende do tamanho, da localização e da predisposição do paciente.
A contratura não tratada mantém a limitação funcional e perpetua a tensão que alimenta a inflamação.
Não existe padrão-ouro nem tratamento universalmente aceito; as terapias combinadas superam as isoladas.
O seguimento deve durar mais de 18 a 24 meses e só se encerra quando a cicatriz está plana e macia.
As cicatrizes hipertróficas são lesões benignas e não sofrem transformação maligna; o carcinoma espinocelular que surge em cicatriz é fenômeno da ferida crônica que não fecha (úlcera de Marjolin), e não da cicatriz elevada.
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Referências
- The Most Current Algorithms for the Treatment and Prevention of Hypertrophic Scars and Keloids: A 2020 Update of the Algorithms Published 10 Years Ago. Plastic and Reconstructive Surgery. 2022.
- Keloid and Hypertrophic Scars Are the Result of Chronic Inflammation in the Reticular Dermis. International Journal of Molecular Sciences. 2017.
- S2k guidelines for the therapy of pathological scars (hypertrophic scars and keloids), update 2020. Journal der Deutschen Dermatologischen Gesellschaft. 2021.
- Tratamento de queloides e cicatrizes hipertróficas: uma revisão descritiva. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. 2023.
- Keloid treatments: an evidence-based systematic review of recent advances. Systematic Reviews. 2023.
- Tratamento para queloides: revisão de literatura. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. 2019.
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