Condiloma acuminado
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Conceito
Condiloma acuminado é a manifestação clínica benigna mais comum da infecção anogenital pelo papilomavírus humano (HPV).
Corresponde a lesões proliferativas do epitélio da genitália, do ânus e da região perianal, podendo envolver as regiões inguinal e púbica.
Em mais de 95% dos casos é causado pelos HPV de baixo risco oncogênico dos tipos 6 e 11.
Trata-se da infecção sexualmente transmissível de maior transmissibilidade, superior à do herpes genital e do HIV.
As lesões visíveis representam apenas uma minoria dos indivíduos infectados, já que a maioria das infecções pelo HPV é assintomática ou subclínica.
Epidemiologia
É a doença sexualmente transmissível de maior contágio, com estimativas globais de incidência de verrugas anogenitais de 160 a 289 casos por 100.000 pessoas-ano.
Na Europa, a incidência anual estimada varia de 0,13% a 0,16% da população geral.
A prevalência global de qualquer genótipo de HPV é de cerca de 11,7% a partir de amostras de citologia cervical.
No Brasil, estudo em 26 capitais e no Distrito Federal com 6.387 mulheres de idade média de 21,6 anos identificou prevalência de HPV de 53,6%.
Aproximadamente 1% a 2% da população infectada desenvolverá verrugas anogenitais e cerca de 2% a 5% das mulheres cursarão com alterações na colpocitologia oncótica.
Verrugas se desenvolvem em 14,6% a 64,2% dos infectados pelos HPV 6 ou 11.
O período de incubação entre a infecção genital pelo HPV e o aparecimento das verrugas é variável, sendo mais curto nas mulheres (mediana de 2,9 meses) que nos homens (mediana de 11,0 meses).
A prevalência da infecção é maior em mulheres com menos de 30 anos.
O risco geral estimado de exposição à infecção pelo HPV é de 15% a 25% a cada nova parceria sexual.
Mulheres no início da atividade sexual e com parceria única apresentaram risco de contrair HPV de 28,5% ao final do primeiro ano e de 50% ao final do terceiro ano.
Fatores de risco e doenças associadas
- Início da atividade sexual em idade jovem
- Múltiplas parcerias sexuais
- Homens que fazem sexo com homens
- Imunossupressão (infecção pelo HIV, transplante, imunossupressores)
- Tabagismo
- Desnutrição
- Diabetes mellitus mal controlado
- Ausência de circuncisão (a circuncisão reduz o risco de transmissão do HPV)
- Não uso de preservativo
- Coinfecção por HPV de alto risco (16, 18)
- Outras IST simultâneas em cerca de 20% dos casos (clamídia, HIV, sífilis)
- Infecção pelo HIV e outras causas de imunossupressão
- Neoplasia intraepitelial cervical (NIC) e câncer de colo uterino
- Papilomatose respiratória recorrente
- Carcinoma espinocelular anogenital
Patogênese
O HPV é um vírus DNA de cadeia dupla, não encapsulado, da família Papillomaviridae, que infecta células epiteliais escamosas cutâneas e mucosas.
O capsídeo é composto pelas proteínas L1 (proteína estrutural maior) e L2 (proteína estrutural menor), importantes para a ligação e entrada nas células epiteliais.
Os HPV são espécie-específicos e requerem epitélio escamoso plenamente diferenciado para completar seu ciclo de vida.
A infecção produtiva só ocorre quando o vírus infecta os ceratinócitos da camada basal; as proteínas precoces (E1 a E7) são responsáveis pela replicação do DNA e imortalização dos ceratinócitos, enquanto as tardias (L1 e L2) são expressas na epiderme superficial e codificam as proteínas estruturais necessárias à formação do vírion.
Os genes E1 e E2 são os primeiros a se expressar nos estratos basal e espinhoso, controlando a transcrição dos demais genes e a replicação do DNA viral.
A proteína E4 desorganiza a rede de citoqueratina, levando à coilocitose.
Os genes E5, E6 e E7 permitem a replicação viral acima da camada basal, com amplificação viral.
E6 e E7 reduzem a resposta imune do hospedeiro (por exemplo, TLR-9 e IL-8) e, nos subtipos mucosos de alto risco, atuam como oncoproteínas.
E6 promove destruição do p53 mediada por ubiquitina, com redução da apoptose e aumento da replicação e das mutações.
E7 liga-se ao RB, com perda da inibição do fator de transcrição E2F e aumento da expressão de genes importantes para a replicação do DNA.
A resposta do hospedeiro é predominantemente mediada por células, com participação da imunidade inata (TLR-3 e TLR-9).
As camadas epidérmicas mais superficiais têm maiores níveis de L1 e L2, com o vírus completo observado na camada granular e acima dela.
A principal forma de transmissão é a atividade sexual de qualquer tipo, podendo ocorrer deposição do vírus nos dedos por contato genital e autoinoculação.
A transmissão vertical pode ocorrer durante o parto, com formação de lesões cutaneomucosas no recém-nascido ou papilomatose respiratória recorrente; a transmissão por fômites é rara.
Clínica
- Pápulas e placas verrucosas de superfície fosca, aveludada ou em couve-flor
- Lesões pontiagudas, espiculadas, com circunvoluções ou planas
- Tamanho variando de 1 mm a vários centímetros
- Lesões únicas ou múltiplas, sésseis ou pedunculadas
- Cor da pele, eritematosas, acastanhadas ou hiperpigmentadas
- Geralmente assintomáticas, podendo ser pruriginosas, dolorosas, friáveis ou sangrantes
- No homem: folheto interno do prepúcio, sulco bálano-prepucial, glande, pele do pênis e escroto
- Na mulher: vulva, vagina e cérvice, com predileção pelo introito posterior
- Em ambos os sexos: regiões inguinais e perianais, canal anal e meato uretral
- Verrugas do canal anal mais comuns em homens que fazem sexo com homens
- Condilomas planos (verrugas cervicais planas) mais bem visualizados após aplicação de ácido acético, com embranquecimento
- Lesões extragenitais ocasionais em conjuntiva e mucosas nasal, oral e laríngea
- Condiloma gigante de Buschke-Lowenstein: tumor em couve-flor, de crescimento lento e localmente destrutivo, com infiltração profunda anogenital e perianal
Classificação
- HPV de baixo risco oncogênico (6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70, 72, 81), associado a verrugas benignas e lesões intraepiteliais de baixo grau
- HPV de alto risco oncogênico (16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 68, 73, 82), associado a lesões de alto grau e carcinomas
- Condiloma acuminado (lesão pontiaguda, verrucosa)
- Condiloma plano
- Condiloma gigante de Buschke-Lowenstein (carcinoma verrucoso)
- Papulose bowenoide (lesão intraepitelial de alto grau)
- Doença de Bowen e eritroplasia de Queyrat (lesões intraepiteliais de alto grau)
- Lesões intraepiteliais escamosas de baixo grau (LSIL) e de alto grau (HSIL)
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Complicações e cuidados
- Recorrência frequente das lesões (cerca de 50% em um ano)
- Impacto psicossexual (ansiedade, culpa, perda de autoestima)
- Coexistência ou evolução para neoplasias intraepiteliais (VIN, AIN, PIN) e lesões malignas
- Papulose bowenoide
- Condiloma gigante de Buschke-Lowenstein (carcinoma verrucoso)
- Papilomatose respiratória recorrente por transmissão vertical
- Câncer de colo uterino, anal, vaginal, peniano, vulvar e de orofaringe pelos HPV de alto risco
- Obstrução do canal de parto por verrugas muito volumosas (raro)
- Cicatrizes decorrentes de tratamentos destrutivos
Prognóstico
A maioria das verrugas resolve-se em 1 a 2 anos sem tratamento, e a maior parte dos condilomas anogenitais regride espontaneamente em até 2 anos.
As recorrências ocorrem após todas as terapias, com taxas frequentes de 20% a 30%, chegando a cerca de 50% em um ano.
As verrugas anogenitais são, por definição, lesões benignas sem risco de transformação neoplásica em si, mas podem coexistir com lesões pré-malignas ou malignas.
Pacientes imunossuprimidos apresentam pior resposta ao tratamento e maior taxa de recidiva.
A regressão espontânea é frequentemente observada no puerpério.
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Referências
- Gilson R, Nugent D, Werner RN, Ballesteros J, Ross J. 2019.
- Update on human papillomavirus - part II: complementary diagnosis, treatment and prophylaxis. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2021.
- Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: infecção pelo papilomavírus humano (HPV). Epidemiologia e Serviços de Saúde. 2021.
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