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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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© 2026 Dr. Caio Formiga, DermatologistaCRM/TO 3606 · RQE 2226 · Membro da SBDPrivacidade
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Dermatomiosite

Padrão inflamatório(DM, Dermatomiosite clássica, Dermatomiosite amiopática, Dermatomiosite clinicamente amiopática, Dermatomiosite juvenil, Miopatia inflamatória idiopática)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchadosVeja também

Conceito

Miopatia inflamatória autoimune sistêmica caracterizada por fraqueza muscular proximal e por achados cutâneos frequentemente patognomônicos.

Faz parte do espectro das miopatias inflamatórias idiopáticas e cursa com envolvimento cutâneo, muscular, pulmonar, articular, cardíaco e gastrointestinal.

A doença muscular deixou de ser obrigatória para o diagnóstico, existindo formas com pele acometida e músculo clinicamente poupado (dermatomiosite amiopática/hipomiopática).

Resulta de processo autoimune humoral e celular desencadeado por fatores ambientais em indivíduos geneticamente suscetíveis, com autoanticorpos específicos que definem diferentes fenótipos clínicos.

Tem forte associação com malignidade na forma do adulto, o que torna o rastreio de neoplasia parte central do manejo.

Epidemiologia

Predomina no sexo feminino, em proporção aproximada de 2 mulheres para 1 homem.

É mais frequente e potencialmente mais grave em pessoas negras do que em pessoas brancas (categorias autodeclaradas nos estudos).

A distribuição etária é bimodal, com pico na infância (4 a 14 anos) e pico no adulto (40 a 60 anos).

Cerca de 25% dos pacientes com doença de início no adulto têm neoplasia subjacente.

A dermatomiosite juvenil ocorre abaixo dos 16 anos (média de 7 anos), com predomínio feminino (de 2 a 5 meninas para 1 menino), e não aumenta o risco de malignidade.

Em coorte brasileira de adultos com dermatomiosite definida, a idade média foi de 47 anos, com predomínio de mulheres (67%) e de brancos (81%, autodeclarados); neoplasias foram identificadas em 22% dos pacientes.

A incidência das miopatias inflamatórias idiopáticas chega a 19 por 1.000.000 pessoas-ano no adulto e a 4 por 1.000.000 pessoas-ano na criança.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Sexo feminino
  • Predisposição genética (HLA-DR3, HLA-B8, HLA-DR52)
  • Exposição à radiação ultravioleta
  • Fármacos (hidroxiureia, estatinas, inibidores de TNF-alfa, inibidores de checkpoint, D-penicilamina, ciclofosfamida, vacina BCG, anti-inflamatórios não esteroidais)
  • Infecções virais
  • Neoplasia maligna na forma do adulto (até 25% a 40%), com risco maior quando a doença começa acima dos 40 anos
  • Doença pulmonar intersticial
  • Fenômeno de Raynaud
  • Síndrome antissintetase
  • Outras doenças do tecido conjuntivo (lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Sjögren, esclerose sistêmica)

Autoanticorpos e fenótipos correspondentes

  • Anti-TIF1-gama (p155): dermatomiosite clinicamente amiopática ou hipomiopática, dermatomiosite clássica associada a câncer no adulto, doença cutânea grave, envolvimento gastrointestinal
  • Anti-NXP2 (p140): malignidade e calcinose no adulto; doença muscular grave, calcinose e sangramento gastrointestinal na criança
  • Anti-Mi2: achados cutâneos clássicos, doença muscular leve, boa resposta ao tratamento; eritema flagelado
  • Anti-MDA5/CADM-140: dermatomiosite amiopática com doença pulmonar intersticial rapidamente progressiva, úlceras cutâneas e orais, pápulas palmares dolorosas, paniculite, alopecia difusa
  • Anti-Jo-1 e demais antissintetase (PL-7, PL-12, OJ, EJ): síndrome antissintetase com miosite, mãos de mecânico, artrite, fenômeno de Raynaud e doença pulmonar intersticial
  • Anti-SRP: dermatomiosite ou polimiosite fulminante, com envolvimento cardíaco e mau prognóstico
  • Anti-SAE: doença cutânea grave, erupções por hidroxicloroquina
  • Anti-Ku, anti-PM/Scl, anti-U1-RNP: síndromes de sobreposição

Patogênese

Há distúrbio da imunidade humoral (autoanticorpos de células B, entre eles os autoanticorpos específicos de miosite) e da imunidade celular, com linfócitos CD8+ na pele e no músculo e apoptose.

Fatores ambientais e genéticos contribuem para o desenvolvimento da doença.

A predisposição genética inclui polimorfismos de vários alelos HLA: HLA-DR3 e HLA-B8 na forma juvenil e HLA-DR52 nos pacientes com anticorpos anti-Jo-1.

O polimorfismo TNF-alfa-308A, associado à forma juvenil, aumenta a trombospondina-1, potente fator antiangiogênico, e leva a maior oclusão capilar.

Malignidade, radiação ultravioleta, infecções virais e fármacos desencadeiam o processo autoimune no indivíduo suscetível, e as diferenças entre os autoanticorpos específicos explicam as distintas manifestações clínicas.

Cerca de 80% dos pacientes com dermatomiosite associada a câncer têm anticorpos contra TIF-1-gama (p155) ou NXP-2 (p140).

A dermatomiosite induzida por fármacos associa-se sobretudo à hidroxiureia (mais de 50% dos casos), além de estatinas, inibidores de TNF-alfa, inibidores de checkpoint (ipilimumabe), D-penicilamina, ciclofosfamida, vacina BCG e anti-inflamatórios não esteroides.

A forma induzida por hidroxiureia tem latência longa (média de 60 meses), nunca cursa com miosite e tem anticorpo antinuclear positivo em apenas 16% dos casos; a forma induzida por outros fármacos surge em até 2 meses, cursa com fraqueza muscular ou miosite em 80% e tem anticorpo antinuclear positivo em 54%.

Ambas as formas induzidas por fármacos apresentam lesões cutâneas patognomônicas (heliótropo, pápulas de Gottron) e resolvem-se em 1 a 2 meses após a suspensão do medicamento.

O alvo primário é o endotélio dos capilares endomisiais, atacado pelo complexo de ataque à membrana (C3b, C3bNEO, C4b e C5b-9).

Clínica

  • Fraqueza muscular proximal, simétrica e lentamente progressiva, mais dos extensores que dos flexores
  • Acometimento preferencial de quadríceps, tríceps, ombros, cintura pélvica e flexores do pescoço, com dificuldade para subir escadas, levantar-se e pentear os cabelos
  • Mialgia costuma estar ausente
  • Disfagia, com risco de pneumonia aspirativa, pelo acometimento da musculatura esofágica e orofaríngea
  • Pápulas de Gottron (patognomônicas): pápulas liquenoides violáceas sobre as articulações interfalângicas e metacarpofalângicas e outras superfícies extensoras
  • Sinal de Gottron: eritema macular sobre as articulações (cotovelos, joelhos, interfalângicas distais e proximais e metacarpofalângicas)
  • Sinal do heliótropo: eritema violáceo das pálpebras, com ou sem edema periorbital, por inflamação do músculo orbicular subjacente
  • Eritema macular violáceo confluente, simétrico e fotodistribuído
  • Eritema facial que envolve a região malar e as dobras melolabiais, ao contrário do lúpus, que poupa os sulcos nasolabiais
  • Eritema linear sobre os tendões extensores das mãos e dos antebraços
  • Poiquilodermia fotodistribuída (hiperpigmentação, hipopigmentação, telangiectasias e atrofia)
  • Sinal do V do decote, no tórax anterior
  • Sinal do xale, no dorso superior e nos ombros
  • Sinal do coldre, na face lateral das coxas
  • Mãos de mecânico: hiperceratose áspera e fissuras nas faces lateral e palmar dos dedos, mais nos dígitos radiais
  • Cutícula distrófica, de aspecto esfarrapado
  • Alças capilares dilatadas na prega ungueal proximal, alternadas com áreas de rarefação vascular
  • Eritema periungueal
  • Prurido, com frequência intenso, sobretudo no couro cabeludo
  • Dermatite psoriasiforme do couro cabeludo e alopecia não cicatricial
  • Calcinose cutânea, mais comum na forma juvenil, em cotovelos, joelhos e nádegas, que pode ulcerar
  • Pápulas palmares eritematosas dolorosas, com hiperceratose ou ulceração (anti-MDA5)
  • Vasculite com úlceras cutâneas, sinal de gravidade que, no adulto, se associa a malignidade
  • Lesões necróticas e ulcerativas por vasculopatia cutânea (anti-MDA5)
  • Eritema flagelado (anti-Mi2)
  • Paniculite (anti-MDA5)
  • Lipodistrofia
  • Hipertricose
  • Fenômeno de Raynaud (síndrome antissintetase)
  • Alterações da mucosa oral (anti-TIF1)
  • Eritrodermia, associada a malignidade
  • Doença pulmonar intersticial difusa, de gravidade variável (15% a 65%)
  • Artralgia e artrite não erosiva
  • sinal de Keining: telangiectasia periungueal com cutícula distrófica ou hipertrofiada e microinfartos hemorrágicos

Classificação

Dermatomiosite do adulto

  • Clássica
  • Clinicamente amiopática (amiopática ou hipomiopática): achados cutâneos clássicos sem doença muscular clínica; associada a anti-CADM-140 (MDA5) e anti-TIF1-gama (p155); quando anti-CADM-140, cursa com doença pulmonar intersticial rapidamente progressiva
  • Miosite associada a câncer: apresenta-se como forma clássica ou amiopática; associa-se a idade avançada, início rápido, necrose cutânea, eritema periungueal, velocidade de hemossedimentação ou creatinoquinase muito elevadas, ausência de síndrome antissintetase e ausência de fenômeno de Raynaud
  • Síndrome antissintetase: autoanticorpos antissintetase (Jo-1, PL-7, PL-12, OJ, EJ), início agudo, sintomas constitucionais, fenômeno de Raynaud, mãos de mecânico, artrite não erosiva e doença pulmonar intersticial
  • Síndromes de sobreposição: associação com outra doença do tecido conjuntivo (anti-U1-RNP na doença mista; anti-Ku; anti-PM/Scl na esclerodermatomiosite)

Dermatomiosite juvenil

  • Clássica (variante Brunsting), a mais comum (90%): início gradual de doença cutânea e muscular clássica, calcinose frequente em locais de trauma, responsiva a corticoide
  • Vasculopática ou ulcerativa (variante Banker), rara (menos de 10%): início rápido de doença muscular grave, vasculite intensa com ulcerações cutâneas, infarto muscular, ulceração ou perfuração gastrointestinal, refratária a corticoide e de mau prognóstico
  • Formas clinicamente amiopática, amiopática e hipomiopática

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Complicações e cuidados

  • Doença pulmonar intersticial, inclusive rapidamente progressiva (anti-MDA5 e antissintetase)
  • Neoplasia maligna associada: ovário, trato gastrointestinal e cólon, mama, pulmão, pâncreas, linfoma não Hodgkin e nasofaringe em asiáticos
  • Disfagia e pneumonia aspirativa
  • Doença cardíaca: alterações eletrocardiográficas subclínicas, pericardite, insuficiência cardíaca congestiva, bloqueio cardíaco, miocardite, arritmias e doença coronariana
  • Fraqueza diafragmática, rara e potencialmente fatal
  • Calcinose cutânea com ulceração, dor e perda de função
  • Úlceras cutâneas e digitais por vasculopatia
  • Envolvimento gastrointestinal com hemorragia, ulceração e perfuração (variante Banker)
  • Infecções graves, favorecidas pela imunossupressão
  • Eventos tromboembólicos relacionados à imunoglobulina intravenosa

Prognóstico

No adulto, as causas mais comuns de morte são malignidade, cardiopatia isquêmica e complicações pulmonares.

O câncer é a principal causa de morte nas miopatias inflamatórias idiopáticas do adulto, muitas vezes por diagnóstico tardio, em estágio avançado.

O envolvimento cardíaco indica mau prognóstico e associa-se a anti-SRP, pericardite e insuficiência cardíaca congestiva.

A variante vasculopática ou ulcerativa (Banker) da dermatomiosite juvenil é refratária a corticoide e tem prognóstico ruim.

Antes do corticoide, a dermatomiosite juvenil tinha prognóstico ruim: um terço dos pacientes morria, um terço evoluía com curso incapacitante e um terço mantinha doença cronicamente ativa; com corticoterapia, a maioria tem desfecho favorável, com sequelas mínimas ou ausentes.

O tratamento tardio ou inadequado com corticoide é preditor importante de mau desfecho e de curso crônico.

O risco de neoplasia é maior no primeiro ano depois do diagnóstico, sobretudo nos três primeiros meses, cai progressivamente ao longo de cinco anos e permanece discretamente elevado em relação à população geral.

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Referências

  1. Clinical manifestations, outcomes, and antibody profile of Brazilian adult patients with dermatomyositis: a single-center longitudinal study. Advances in Rheumatology. 2022.
  2. British Society for Rheumatology guideline on management of paediatric, adolescent and adult patients with idiopathic inflammatory myopathy. Rheumatology. 2022.
  3. International Guideline for Idiopathic Inflammatory Myopathy-Associated Cancer Screening: an International Myositis Assessment and Clinical Studies Group (IMACS) initiative. Nature Reviews Rheumatology. 2023.

Achados (clique para explorar)

eritema violáceopápuladorso das mãosáreas fotoexpostasáreas extensoraspoiquilodermiafaceedema facialtelangiectasiapruridofenômeno de Raynaud

Veja também

Dermatites de interfaceLinfomas cutâneos e doenças linfoproliferativasVasculites e vasculopatias
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