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Dermatomiosite

Padrão inflamatório(DM, Dermatomiosite clássica, Dermatomiosite amiopática, Dermatomiosite clinicamente amiopática, Dermatomiosite juvenil, Miopatia inflamatória idiopática)

Conceito

Miopatia inflamatória autoimune sistêmica caracterizada por fraqueza muscular proximal e por achados cutâneos frequentemente patognomônicos.

Faz parte do espectro das miopatias inflamatórias idiopáticas e cursa com envolvimento cutâneo, muscular, pulmonar, articular, cardíaco e gastrointestinal.

A doença muscular deixou de ser obrigatória para o diagnóstico, existindo formas com pele acometida e músculo clinicamente poupado (dermatomiosite amiopática/hipomiopática).

Resulta de processo autoimune humoral e celular desencadeado por fatores ambientais em indivíduos geneticamente suscetíveis, com autoanticorpos específicos que definem diferentes fenótipos clínicos.

Tem forte associação com malignidade na forma do adulto, o que torna o rastreio de neoplasia parte central do manejo.

Epidemiologia

Predomínio no sexo feminino (cerca de 2:1).

Mais frequente e potencialmente mais grave em afrodescendentes do que em pessoas brancas.

Distribuição etária bimodal: pico na infância (4–14 anos) e pico no adulto (40–60 anos).

Cerca de 25% dos pacientes com doença de início no adulto têm neoplasia subjacente.

A dermatomiosite juvenil ocorre em pacientes com menos de 16 anos (média de 7 anos), com predomínio feminino (2–5:1), e não se associa a aumento do risco de malignidade.

Em coorte brasileira de adultos com dermatomiosite definida, a idade média foi de 47 anos, com predomínio de mulheres (67%) e de brancos (81%); neoplasias foram identificadas em 22% dos pacientes.

A incidência das miopatias inflamatórias idiopáticas no adulto chega a 19 por 1.000.000 pessoas-ano e, na criança, a 4 por 1.000.000 pessoas-ano.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Sexo feminino
  • Predisposição genética (HLA-DR3, HLA-B8, HLA-DR52)
  • Exposição à radiação ultravioleta
  • Neoplasia subjacente (forma do adulto)
  • Fármacos (hidroxiureia, estatinas, inibidores de TNF-alfa, inibidores de checkpoint, D-penicilamina, ciclofosfamida, vacina BCG, AINEs)
  • Infecções virais
  • Idade acima de 40 anos ao início da doença (risco de câncer)
  • Neoplasia maligna (forma do adulto, até 25%–40%)
  • Anti-TIF1-gama (p155): DM clinicamente amiopática/hipomiopática, DM clássica associada a câncer no adulto, doença cutânea grave, envolvimento GI
  • Anti-NXP2 (p140): malignidade e calcinose no adulto; doença muscular grave, calcinose e sangramento GI na criança
  • Anti-Mi2: achados cutâneos clássicos, doença muscular leve, boa resposta ao tratamento; eritema flagelado
  • Anti-MDA5/CADM-140: DM amiopática com DPI rapidamente progressiva, úlceras cutâneas e orais, pápulas palmares dolorosas, paniculite, alopecia difusa
  • Anti-Jo-1 e demais antissintetase (PL-7, PL-12, OJ, EJ): síndrome antissintetase com miosite, mãos de mecânico, artrite, Raynaud e DPI
  • Anti-SRP: DM/PM fulminante com envolvimento cardíaco e mau prognóstico
  • Anti-SAE: doença cutânea grave, erupções por hidroxicloroquina
  • Anti-Ku, anti-PM/Scl, anti-U1-RNP: síndromes de sobreposição
  • Síndrome antissintetase
  • Doença pulmonar intersticial
  • Fenômeno de Raynaud
  • Outras doenças do tecido conjuntivo (LES, síndrome de Sjögren, esclerose sistêmica)

Patogênese

Há evidência de distúrbio da imunidade humoral (autoanticorpos de células B, como os autoanticorpos específicos de miosite) e da imunidade celular/apoptose (linfócitos CD8+ na pele e no músculo).

Fatores ambientais e genéticos contribuem para o desenvolvimento da doença.

Predisposição genética inclui polimorfismos de vários alelos HLA (HLA-DR3 e HLA-B8 na forma juvenil; HLA-DR52 com anticorpos anti-Jo-1).

O polimorfismo TNF-alfa-308A, associado à forma juvenil, aumenta a trombospondina-1 (potente fator antiangiogênico), levando a maior oclusão capilar.

Fatores ambientais como malignidade, radiação ultravioleta, infecções virais e fármacos desencadeiam o processo autoimune humoral no indivíduo suscetível; as diferenças nos autoanticorpos específicos explicam as distintas manifestações clínicas.

Cerca de 80% dos pacientes com dermatomiosite associada a câncer têm anticorpos contra TIF-1-gama (p155) ou NXP-2 (p140).

A dermatomiosite induzida por fármacos é mais associada a hidroxiureia (mais comum, mais de 50% dos casos), estatinas, inibidores de TNF-alfa, inibidores de checkpoint (ipilimumabe), D-penicilamina, ciclofosfamida, vacina BCG e AINEs.

A forma induzida por hidroxiureia tem latência longa (média de 60 meses), nunca cursa com miosite e apenas 16% têm ANA positivo; a forma não induzida por hidroxiureia surge em até 2 meses, com fraqueza muscular/miosite em 80% e ANA geralmente positivo (54%).

Ambas as formas induzidas por fármacos apresentam lesões cutâneas patognomônicas (heliótropo, pápulas de Gottron) e resolvem em 1 a 2 meses após a suspensão do medicamento.

Clínica

  • Fraqueza muscular proximal, simétrica e lentamente progressiva (extensores mais que flexores)
  • Acometimento preferencial de quadríceps, tríceps, ombros, cintura pélvica e flexores do pescoço, com dificuldade para subir escadas, levantar-se e pentear os cabelos
  • Ausência habitual de mialgia
  • Disfagia e risco de pneumonia aspirativa por acometimento da musculatura esofágica/orofaríngea
  • Pápulas de Gottron (patognomônicas): pápulas liquenoides violáceas sobre articulações interfalângicas e metacarpofalângicas e outras superfícies extensoras
  • Sinal de Gottron: eritema macular sobre as articulações (cotovelos, joelhos, IFD, IFP, MCF)
  • Sinal do heliótropo: eritema violáceo das pálpebras, com ou sem edema periorbital, por inflamação do músculo orbicular subjacente
  • Eritema macular violáceo confluente e simétrico fotodistribuído
  • Eritema facial com envolvimento malar e das dobras melolabiais (diferente do lúpus, que poupa os sulcos nasolabiais)
  • Eritema linear sobre os tendões extensores das mãos e antebraços
  • Poiquilodermia fotodistribuída (hiperpigmentação, hipopigmentação, telangiectasias e atrofia)
  • Sinal do V do decote (tórax anterior)
  • Sinal do xale (dorso superior e ombros)
  • Sinal do coldre (face lateral das coxas)
  • Mãos de mecânico: hiperceratose áspera e fissuras nas faces lateral e palmar dos dedos, mais nos dígitos radiais
  • Cutícula distrófica ("esfarrapada")
  • Alças capilares dilatadas na prega ungueal proximal alternadas com áreas de rarefação vascular
  • Eritema periungueal
  • Prurido frequentemente intenso, sobretudo no couro cabeludo
  • Dermatite psoriasiforme do couro cabeludo e alopecia não cicatricial
  • Calcinose cutânea (mais comum na forma juvenil, favorecendo cotovelos, joelhos e nádegas; pode ulcerar)
  • Pápulas palmares eritematosas dolorosas com hiperceratose/ulceração (associadas a anti-MDA5)
  • Vasculite com úlceras cutâneas (mau sinal; no adulto associa-se a malignidade)
  • Eritema flagelado (associado a anti-Mi2)
  • Paniculite (associada a anti-MDA5)
  • Lipodistrofia
  • Hipertricose
  • Fenômeno de Raynaud (associado à síndrome antissintetase)
  • Alterações da mucosa oral (associadas a anti-TIF1)
  • Lesões necróticas/ulcerativas por vasculopatia cutânea (anti-MDA5)
  • Eritrodermia (associada a malignidade)
  • Doença pulmonar intersticial difusa de gravidade variável (15%–65%)
  • Artralgia e/ou artrite não erosiva

Classificação

Dermatomiosite do adulto

  • Dermatomiosite clássica
  • Dermatomiosite clinicamente amiopática (amiopática ou hipomiopática): achados cutâneos clássicos sem doença muscular clínica; associada a anti-CADM-140 (MDA5) e anti-TIF1-gama (p155); quando anti-CADM-140, cursa com DPI rapidamente progressiva
  • Miosite associada a câncer (CAM): pode se apresentar como DM clássica ou amiopática; associada a idade avançada, início rápido, necrose cutânea, eritema periungueal, VHS ou CK muito elevados, ausência de síndrome antissintetase e ausência de Raynaud
  • Síndrome antissintetase: autoanticorpos antissintetase (Jo-1, PL-7, PL-12, OJ, EJ), início agudo, sintomas constitucionais, Raynaud, mãos de mecânico, artrite não erosiva e DPI
  • Síndromes de sobreposição: DM associada a outra doença do tecido conjuntivo (anti-U1-RNP na doença mista; anti-Ku; anti-PM/Scl na esclerodermatomiosite)
  • Dermatomiosite juvenil clássica (variante Brunsting): mais comum (90%), início gradual de doença cutânea e muscular clássica, calcinose frequente em locais de trauma, responsiva a corticoide
  • Dermatomiosite juvenil vasculopática/ulcerativa (variante Banker): rara (menos de 10%), início rápido de doença muscular grave, vasculite intensa com ulcerações cutâneas, infarto muscular, ulceração/perfuração gastrointestinal, refratária a corticoide e mau prognóstico
  • Dermatomiosite juvenil: formas clinicamente amiopática, amiopática e hipomiopática

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Complicações e cuidados

  • Doença pulmonar intersticial, inclusive rapidamente progressiva (anti-MDA5/antissintetase)
  • Neoplasia maligna associada (ovário, gastrointestinal/cólon, mama, pulmão, pâncreas, linfoma não Hodgkin, nasofaringe em asiáticos)
  • Disfagia e pneumonia aspirativa
  • Doença cardíaca (alterações eletrocardiográficas subclínicas, pericardite, insuficiência cardíaca congestiva, bloqueio cardíaco, miocardite, arritmias, doença coronariana)
  • Fraqueza diafragmática (rara, potencialmente fatal)
  • Calcinose cutânea com ulceração, dor e perda de função
  • Úlceras cutâneas e digitais por vasculopatia
  • Envolvimento gastrointestinal com hemorragia, ulceração e perfuração (variante Banker)
  • Infecções graves (favorecidas pela imunossupressão)
  • Eventos tromboembólicos (relacionados a IVIG)

Prognóstico

No adulto, as causas mais comuns de morte são malignidade, cardiopatia isquêmica e complicações pulmonares.

O câncer permanece a principal causa de morte em adultos com miopatia inflamatória idiopática, muitas vezes por diagnóstico tardio em estágio avançado.

O envolvimento cardíaco é sinal de mau prognóstico e se associa a anti-SRP, pericardite e insuficiência cardíaca congestiva.

A variante vasculopática/ulcerativa (Banker) da dermatomiosite juvenil tem prognóstico ruim e é refratária a corticoide.

Antes da disponibilidade de corticoide, a dermatomiosite juvenil tinha prognóstico ruim (um terço morria, um terço evoluía com curso incapacitante e um terço com doença cronicamente ativa); com corticoterapia, a maioria tem desfecho favorável, com sequelas mínimas ou ausentes.

O tratamento tardio ou inadequado com corticoide é preditor importante de mau desfecho e curso crônico.

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Referências

  1. Clinical manifestations, outcomes, and antibody profile of Brazilian adult patients with dermatomyositis: a single-center longitudinal study. Advances in Rheumatology. 2022.
  2. British Society for Rheumatology guideline on management of paediatric, adolescent and adult patients with idiopathic inflammatory myopathy. Rheumatology. 2022.
  3. International Guideline for Idiopathic Inflammatory Myopathy-Associated Cancer Screening: an International Myositis Assessment and Clinical Studies Group (IMACS) initiative. Nature Reviews Rheumatology. 2023.

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