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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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© 2026 Dr. Caio Formiga, DermatologistaCRM/TO 3606 · RQE 2226 · Membro da SBDPrivacidade
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Dermatoses da gestação

Padrão inflamatório(Dermatoses específicas da gravidez, Dermatoses específicas da gestação, Specific dermatoses of pregnancy)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchados

Conceito

As dermatoses específicas da gravidez são um grupo heterogêneo de doenças inflamatórias pruriginosas que ocorrem exclusivamente durante a gestação e/ou no período pós-parto imediato.

O prurido é o sintoma dominante e nunca deve ser negligenciado na gestante, exigindo investigação diagnóstica precisa.

A classificação atual, proposta após estudo retrospectivo de dois centros com mais de 500 gestantes, reconhece quatro entidades: penfigoide gestacional, erupção polimórfica da gravidez, colestase intra-hepática da gravidez e erupção atópica da gravidez.

A erupção atópica da gravidez reúne quadros antes descritos separadamente como prurigo da gravidez, foliculite pruriginosa da gravidez, prurigo gestacional e eczema da gravidez.

A psoríase pustulosa da gravidez (impetigo herpetiforme) é hoje considerada uma variante da psoríase pustulosa generalizada desencadeada pela gestação, e não uma dermatose atópica ou autoimune bolhosa.

O momento de início, a morfologia e a localização das lesões são as principais pistas para o diagnóstico diferencial entre elas.

Apenas o penfigoide gestacional (imunofluorescência) e a colestase intra-hepática (ácidos biliares séricos) dispõem de testes diagnósticos específicos.

A distinção é clinicamente relevante porque o penfigoide gestacional e a colestase intra-hepática acarretam risco fetal, enquanto a erupção polimórfica e a erupção atópica são incômodas apenas para a mãe.

Epidemiologia

A erupção atópica da gravidez é a dermatose específica mais comum, respondendo por cerca de 50% dos casos, e costuma iniciar precocemente (75% antes do terceiro trimestre).

A erupção polimórfica da gravidez tem incidência aproximada de 1 em 160 gestações e predomina em primigestas no terceiro trimestre ou pós-parto imediato (15%).

O penfigoide gestacional é raro, com incidência de 1 em 2.000 a 1 em 50.000-60.000 gestações, variando conforme a prevalência dos haplótipos HLA-DR3 e DR4; estudos populacionais relatam 0,5 a 2,0 casos por milhão de pessoas ao ano.

A idade mediana das mulheres com penfigoide gestacional situa-se entre 17 e 41 anos, com início em torno de 26 a 32 anos.

A colestase intra-hepática da gravidez tem prevalência de 0,2% a 2,4% na Europa Central, sendo particularmente frequente na Escandinávia e na América do Sul, com as maiores taxas no Chile (15% a 28%).

A colestase intra-hepática ocorre em famílias e recorre em 45% a 70% das gestações subsequentes.

O penfigoide gestacional recidiva na maioria das gestações seguintes, geralmente mais precoce e mais grave; gestações "puladas" (não acometidas) são raras (cerca de 5% a 8%).

A erupção polimórfica da gravidez tipicamente não recorre, exceto em gestações múltiplas, quando pode surgir mais cedo e recidivar.

A erupção atópica da gravidez costuma recorrer em gestações subsequentes pelo substrato atópico.

Fatores de risco e doenças associadas

  • primigravidez (erupção polimórfica da gravidez)
  • ganho de peso materno excessivo (erupção polimórfica)
  • gestação múltipla ou gemelar (erupção polimórfica)
  • distensão abdominal acentuada e estrias distensas (erupção polimórfica)
  • história pessoal ou familiar de atopia e níveis elevados de IgE (erupção atópica)
  • haplótipos HLA-DR3 e HLA-DR4 (penfigoide gestacional)
  • gestação anterior acometida, com recorrência mais precoce e grave (penfigoide gestacional, colestase, erupção atópica)
  • anticoncepcionais orais e menstruação como gatilhos de recidiva
  • predisposição genética e mutações em transportadores biliares como ABCB4/MDR3 (colestase intra-hepática)
  • residência em regiões de alta prevalência, como Escandinávia, América do Sul e Chile (colestase intra-hepática)
  • doença de Graves e outras doenças autoimunes (penfigoide gestacional)
  • mola hidatiforme e coriocarcinoma (penfigoide gestacional)
  • diátese atópica e níveis elevados de IgE (erupção atópica da gravidez)
  • mutações em transportadores biliares e história familiar (colestase intra-hepática)
  • psoríase pustulosa generalizada e hipocalcemia (impetigo herpetiforme)

Patogênese

No penfigoide gestacional, a resposta imune inicial ocorre na placenta, onde trofoblastos e células do estroma amniocoriônico expressam de modo aberrante antígenos do complexo principal de histocompatibilidade classe II.

Essa expressão anômala permite a apresentação do antígeno BP180 (colágeno tipo XVII, BPAG2), presente na placenta, nas membranas fetais e na zona da membrana basal da pele, ao sistema imune materno.

Formam-se autoanticorpos IgG fixadores de complemento, sobretudo da subclasse IgG1 (antigo "fator herpes gestationis"), dirigidos ao domínio NC16A do BP180, que reagem de forma cruzada com a proteína cutânea.

A ligação à membrana basal ativa o complemento (C3), deposita imunocomplexos, atrai e degranula eosinófilos e gera dano tecidual com clivagem subepidérmica e formação de bolhas.

Há forte associação com os haplótipos HLA-DR3 (61% a 80%) e HLA-DR4 (52% a 53%), presentes em combinação em 45% das pacientes versus 3% dos controles.

Flutuações de hormônios sexuais explicam surtos com a menstruação ou com anticoncepcionais orais e a exacerbação no parto.

Na erupção polimórfica da gravidez a patogênese permanece incerta; teorias centrais envolvem distensão abdominal com dano do tecido conjuntivo das estrias, além de fatores hormonais e imunológicos, com aumento de células CD1a no infiltrado sugerindo que estruturas antes inertes adquiririam caráter antigênico.

A colestase intra-hepática decorre de defeito na excreção de sais biliares, com elevação dos ácidos biliares séricos; mutações em genes de proteínas transportadoras da bile (por exemplo ABCB4/MDR3) foram identificadas, e metabólitos de estrógeno e progesterona são colestáticos, tornando o defeito evidente apenas nas altas concentrações hormonais do fim da gestação.

Os ácidos biliares tóxicos atravessam a circulação fetal e provocam anoxia placentária aguda e depressão cardíaca fetal.

A erupção atópica da gravidez resulta do desvio imunológico gestacional para resposta Th2, com redução da imunidade celular e das citocinas Th1 (IL-2, interferon-gama, IL-12) e predomínio das citocinas Th2 (IL-4, IL-10), explicando a exacerbação ou a primeira manifestação de alterações atópicas.

Clínica

  • prurido intenso como sintoma cardinal e frequentemente inicial em todas as entidades

Penfigoide gestacional

  • Pápulas e placas urticariformes eritematosas que iniciam no abdome, caracteristicamente envolvendo a região periumbilical (81% dos casos)
  • Progressão para vesículas e bolhas tensas sobre base eritematosa, com posterior disseminação para tronco, membros, palmas e plantas
  • Poupa habitualmente a face e as mucosas
  • Início no segundo ou terceiro trimestre ou pós-parto imediato, com surto no parto em cerca de 75%

Erupção polimórfica da gravidez

  • Pápulas urticariformes intensamente pruriginosas que iniciam sobre as estrias abdominais e coalescem em placas
  • Poupa caracteristicamente a região periumbilical, além de face e extremidades
  • Disseminação para nádegas e coxas proximais, podendo surgir vesículas de 1 a 2 mm (nunca bolhas), eritema não urticariforme, lesões em alvo e eczematosas em metade dos casos

Colestase intra-hepática da gravidez

  • Prurido generalizado extremo sem lesão cutânea primária, iniciando por vezes em palmas e plantas e pior à noite
  • Apenas lesões secundárias por coçadura, de escoriações a nódulos de prurigo, tipicamente em superfícies extensoras dos membros, nádegas e abdome
  • Icterícia em cerca de 10% dos casos, após 2 a 4 semanas, nos episódios mais graves e prolongados

Erupção atópica da gravidez

  • Erupção eczematosa e/ou papular em sítios atópicos típicos (face, pescoço, decote e superfícies flexurais dos membros)
  • Dois terços com alterações eczematosas disseminadas (tipo E) e um terço com lesões papulares e nódulos de prurigo em pernas e braços (tipo P)
  • Xerose cutânea acentuada e outros estigmas menores de atopia; início precoce, em geral no primeiro ou segundo trimestre
  • foliculite pruriginosa da gravidez: pápulas e pústulas foliculares eritêmato-escoriadas, hoje incluída no espectro da erupção atópica
  • recém-nascidos do penfigoide gestacional: cerca de 10% com lesões urticariformes ou vesiculares transitórias por transferência passiva de IgG (penfigoide neonatal)

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Complicações e cuidados

Penfigoide gestacional

  • Aumento de prematuridade e de recém-nascidos pequenos para a idade gestacional, com risco correlacionado à gravidade (início precoce e formação de bolhas)
  • Penfigoide neonatal transitório em cerca de 10% dos recém-nascidos por transferência passiva de IgG
  • Raros casos de curso grave com persistência por anos e conversão para penfigoide bolhoso

Colestase intra-hepática

  • Risco fetal significativo, com prematuridade (19% a 60%), sofrimento fetal intraparto (22% a 33%) e natimortalidade (1% a 2%), correlacionados a ácidos biliares acima de 40 µmol/L
  • Esteatorreia com má absorção de vitaminas lipossolúveis, deficiência de vitamina K e hemorragia intra e pós-parto na mãe e no filho
  • Colelitíase nos episódios mais graves e prolongados
  • erupção polimórfica da gravidez: sem risco materno ou fetal, sem acometimento do recém-nascido
  • erupção atópica da gravidez: sem risco fetal, com possível risco de a criança desenvolver alterações atópicas no futuro
  • efeitos adversos da corticoterapia sistêmica prolongada e risco de insuficiência adrenal neonatal se mantida até o parto

Prognóstico

A erupção polimórfica e a erupção atópica da gravidez têm prognóstico materno e fetal excelente, com resolução das lesões e sem risco ao recém-nascido.

A erupção polimórfica resolve-se em 4 a 6 semanas, independentemente do parto, e geralmente não recorre.

O penfigoide gestacional é autolimitado, com exacerbações e remissões na gestação, surto no parto em cerca de 75% e resolução espontânea em semanas a meses após o parto, podendo recidivar com menstruação e anticoncepcionais e recorrer em gestações futuras.

O prognóstico fetal do penfigoide gestacional é em geral bom, mas há aumento de prematuridade e de recém-nascidos pequenos para a idade gestacional proporcional à gravidade.

Na colestase intra-hepática o prognóstico materno é bom, com desaparecimento do prurido em dias a semanas após o parto, mas o prognóstico fetal é significativamente comprometido e determina a conduta.

A erupção atópica tem prognóstico materno bom mesmo em casos graves, com resposta rápida à terapia, e costuma recorrer em gestações subsequentes.

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Referências

  1. Dermatoses of pregnancy - clues to diagnosis, fetal risk and therapy. Annals of Dermatology. 2011.
  2. Pemphigoid gestationis: current perspectives. Clinical, Cosmetic and Investigational Dermatology. 2017.
  3. Biologic therapy for refractory pemphigoid gestationis: an evidence-based systematic review. JAAD International. 2023.
  4. Dermatologia e gestação. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2005.

Achados (clique para explorar)

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