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Ectima

Padrão inflamatório(Ectima estreptocócico, Ectima vulgar, Impetigo ulcerado, Piodermite ulcerada)

Conceito

Piodermite bacteriana ulcerada em que a infecção atravessa toda a epiderme e atinge a derme.

É considerada a forma profunda do impetigo: parte do mesmo espectro de infecção piogênica superficial da pele, porém com destruição tecidual em plano mais profundo.

Os agentes são os mesmos das piodermites superficiais: Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A) e Staphylococcus aureus, isolados ou em associação.

A lesão elementar evolui de vesicopústula para úlcera de aspecto "em saca-bocado" (bordas abruptas, como se um fragmento de pele tivesse sido retirado com um punch), recoberta por crosta espessa e aderente.

Por comprometer a derme, cicatriza com sequela permanente, comportamento oposto ao do impetigo não bolhoso, que reepiteliza sem deixar cicatriz.

O termo não deve ser confundido com ectima gangrenoso, entidade distinta, ligada a bacteriemia por Pseudomonas aeruginosa em paciente imunossuprimido.

Epidemiologia

Predomina em crianças, faixa etária em que o impetigo é a infecção bacteriana cutânea mais frequente.

O impetigo, do qual o ectima é a variante profunda, responde por cerca de 10% das queixas cutâneas na população pediátrica, com pico entre 2 e 5 anos de idade e incidência maior no verão e no outono.

Considerando todas as faixas etárias, a frequência é igual entre homens e mulheres; entre adultos, os homens são mais acometidos.

A incidência é maior em climas quentes e úmidos e em países tropicais e em desenvolvimento.

Em climas quentes e úmidos predomina a forma estreptocócica das piodermites; em climas temperados, a estafilocócica.

Aglomerações favorecem a transmissão: creches, presídios e domicílios com muitos moradores por cômodo.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Má higiene pessoal
  • Desnutrição
  • Imunossupressão
  • Diabetes mellitus
  • Escoriação de picadas de inseto (mecanismo mais frequente)
  • Trauma, cortes, cirurgia e queimaduras
  • Escabiose, pediculose e outras dermatoses pruriginosas que levam à coçadura
  • Dermatite atópica e eczema (rompimento da barreira cutânea)
  • Varicela e herpes simples com escoriação das lesões
  • Aglomeração domiciliar, creche e ambiente institucional
  • Clima quente e úmido
  • Colonização nasal por Staphylococcus aureus
  • Portador de infecção prévia por piodermite (autoinoculação)
  • Escabiose
  • Pediculose
  • Dermatite atópica
  • Infecção pelo HIV e outras imunodeficiências
  • Desnutrição
  • Diabetes mellitus
  • Portador nasal crônico de Staphylococcus aureus

Patogênese

Qualquer quebra da barreira cutânea expõe receptores de fibronectina, indispensáveis para a colonização por Streptococcus pyogenes e Staphylococcus aureus.

Uma vez instalada a lesão, a autoinoculação para outros sítios pela coçadura é regra.

Cerca de 35% da população é portadora de Staphylococcus aureus, com colonização preferencial das narinas anteriores, seguidas de períneo, axilas e espaços interdigitais dos pés, reservatório que aumenta o risco de piodermite.

No ectima, a invasão bacteriana não se limita à epiderme: progride até a derme, produzindo necrose e ulceração, o que explica a cicatriz residual.

A escoriação de picadas de inseto é o mecanismo desencadeante mais citado, ao romper a barreira e inocular a bactéria em profundidade.

Clínica

  • Início com pequeno número de vesicopústulas sobre base eritematosa
  • Evolução das vesicopústulas para úlcera "em saca-bocado": bordas nítidas e abruptas, como recortadas a punch
  • Fundo purulento da úlcera
  • Crosta espessa e aderente, de cor melicérica (mel) ou castanho-enegrecida, cobrindo a úlcera
  • Bordas de tonalidade violácea
  • Halo eritematoso ao redor da lesão
  • Lesões em geral em pequeno número
  • Membros inferiores como localização preferencial (pernas)
  • Lesões podem ser dolorosas
  • Linfadenopatia regional discreta pode acompanhar
  • Ausência habitual de sintomas sistêmicos (febre é incomum)
  • Resolução espontânea lenta, sempre com cicatriz residual
  • Sinais de dermatose de base escoriada (picadas de inseto, escabiose) frequentemente presentes ao redor

Classificação

  • Impetigo não bolhoso: erosão superficial com crosta melicérica, cura sem cicatriz
  • Impetigo bolhoso: bolhas flácidas e colarete de escama, cura sem cicatriz
  • Ectima: forma profunda/ulcerada, atinge a derme, cura com cicatriz

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Complicações e cuidados

  • Cicatriz residual permanente (regra no ectima, ao contrário do impetigo)
  • Alterações pigmentares residuais
  • Glomerulonefrite pós-estreptocócica (cerca de 5% das piodermites estreptocócicas; sorotipos nefritogênicos 1, 4, 12, 25 e 49 do Streptococcus pyogenes)
  • Glomerulonefrite instalando-se 1 a 3 semanas após a infecção cutânea, com febre, hipertensão, edema e hematúria; hematúria e proteinúria transitórias podem durar semanas a meses
  • Insuficiência renal aguda em minoria de casos
  • Celulite
  • Linfangite
  • Septicemia
  • Artrite séptica
  • Escarlatina
  • Não há risco de febre reumática após piodermite estreptocócica (diferente da faringite estreptocócica)

Prognóstico

Bom com tratamento antibiótico sistêmico adequado, com cura em cerca de 10 dias.

A resolução espontânea é possível, porém lenta.

A cicatriz é a regra, pois a ulceração alcança a derme; nesse ponto o prognóstico estético é pior que o do impetigo, que reepiteliza sem sequela.

A recidiva é frequente enquanto persistirem o fator predisponente (escabiose, picadas, má higiene) e a colonização nasal.

O prognóstico sistêmico depende da vigilância da glomerulonefrite pós-estreptocócica, que deve ser rastreada nos casos de etiologia estreptocócica com sinais de comprometimento renal.

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Referências

  1. Impetigo. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023.
  2. Interventions for impetigo. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2012.
  3. Infecções cutâneas bacterianas graves. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2020.

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