Erisipela
Conceito
Infecção bacteriana aguda da derme superficial e média e dos vasos linfáticos superficiais.
Corresponde a uma variante superficial da celulite, que atinge a derme profunda e o tecido subcutâneo.
Manifesta-se como placa eritematosa quente, dolorosa, bem delimitada, de bordas elevadas ("em degrau") e coloração vermelho-vivo, geralmente acompanhada de febre.
É também conhecida como "fogo-de-santo-antônio".
O principal agente etiológico é o Streptococcus beta-hemolítico do grupo A de Lancefield (Streptococcus pyogenes).
Na prática, os critérios clínicos e bacteriológicos que separam erisipela de celulite têm baixa especificidade, e alguns autores propõem considerá-las uma única entidade (dermo-hipodermite bacteriana).
Epidemiologia
Ambos os sexos são acometidos, com discreto predomínio no feminino.
Atinge sobretudo a quinta e a sexta décadas de vida.
A incidência estimada na França é de 10 a 100 casos por 100.000 habitantes ao ano.
As hospitalizações por erisipela, celulite ou abscesso aumentam acentuadamente com a idade, com aumento de cinco vezes dos 54 anos para os 85 anos ou mais.
Os membros inferiores são o local mais acometido (cerca de 70% a 74% dos casos), seguidos pela face (cerca de 11%).
Em casuística brasileira de pacientes internados, a erisipela correspondeu a 0,87% das internações, com idade média de 51 anos e 68% dos pacientes acima de 40 anos.
Fatores de risco e doenças associadas
- Linfedema
- Insuficiência venosa crônica
- Insuficiência arterial
- Obesidade (índice de massa corporal maior que 30)
- Diabetes mellitus
- Etilismo crônico
- Tinea pedis e micose interdigital
- Onicomicose
- Úlcera de membro inferior
- Ferida ou trauma local
- Intertrigo
- Dermatoses preexistentes (dermatite, eczema, xerose)
- Escoriações e doenças cutâneas escoriativas
- Episódio prévio de erisipela ou celulite
- Cirurgia prévia no local (safenectomia, linfadenectomia, cirurgia conservadora de mama)
- Idade avançada
- Imunossupressão, neoplasia, corticoterapia ou quimioterapia
- Linfedema crônico
- Obesidade
- Tinea pedis e onicomicose
- Erisipela de repetição como marcador de linfedema primário subclínico
Patogênese
A bactéria penetra na pele por meio de uma porta de entrada, ou seja, uma solução de continuidade cutânea.
Portas de entrada comuns são micoses interdigitais e tinea pedis, onicomicose, fissuras nos pés, úlceras de membro inferior e intertrigo.
O agente prolifera na derme superficial e dissemina-se pelos vasos linfáticos, com envolvimento linfático proeminente.
O linfedema é fator patogênico central, pois a linfa estagnada favorece o crescimento bacteriano.
Cada episódio pode lesar os vasos linfáticos e agravar o linfedema, criando um ciclo de recorrência.
Fatores gerais que comprometem a imunidade celular, como diabetes mellitus, etilismo, corticoterapia, quimioterapia e neoplasias, reduzem a quimiotaxia e a fagocitose dos polimorfonucleares e facilitam a infecção cutânea.
As culturas de sangue e de aspirado costumam ser negativas.
Os testes sorológicos anti-DNase B e antiestreptolisina O (ASLO) são os melhores exames confirmatórios da etiologia estreptocócica.
Clínica
- Placa eritematosa vermelho-vivo
- Bordas bem delimitadas e elevadas ("em degrau")
- Calor local
- Dor ou sensação de queimação
- Edema
- Aspecto de casca de laranja (peau d'orange) por edema linfático
- Febre, calafrios e mal-estar
- Náuseas ou vômitos
- Linfangite com estrias eritematosas lineares proximais
- Linfadenopatia regional dolorosa
- Bolhas e vesículas (erisipela bolhosa)
- Pústulas, crostas e descamação
- Distribuição quase sempre unilateral
- Localização preferencial em membros inferiores e face
- Porta de entrada visível (intertrigo, tinea pedis, úlcera, fissura)
Classificação
- Erisipela de membro inferior (forma mais comum)
- Erisipela da face
- Erisipela bolhosa
- Erisipela necrótico-hemorrágica
- Erisipela recorrente/recidivante
Histopatologia Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Diagnósticos diferenciais Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Manejo Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Procedimentos relacionados Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Complicações e cuidados
- Abscesso
- Necrose cutânea
- Fasciíte necrotizante
- Trombose venosa profunda e tromboflebite
- Bacteremia e septicemia
- Glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica
- Endocardite
- Artrite séptica
- Linfedema crônico
- Recorrência ou recidiva
- Elefantíase nostra verrucosa
- Óbito (raro)
Prognóstico
A evolução é favorável em 80% a 90% dos casos com tratamento adequado.
A mortalidade da erisipela ou celulite não complicada é baixa, mas pode variar conforme as comorbidades e o antibiótico utilizado.
A recorrência é frequente: pode ocorrer em cerca de 12% dos casos em até seis meses, em torno de 14% em um ano e em até 45% em três anos, tendendo a repetir-se no mesmo local.
Cada recidiva pode agravar o linfedema e predispor a novos episódios.
O tempo de internação relaciona-se diretamente com a idade, o número de fatores de risco e a presença de complicações.
Pérola clínica Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Referências
- Cellulitis: a review. JAMA. 2016.
- Estudo clínico de 35 pacientes com diagnóstico de erisipela internados no Hospital Central da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2004.
- Interventions for the prevention of recurrent erysipelas and cellulitis. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2017.
- Risk factors for non-purulent leg cellulitis: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Dermatology. 2017.
Achados (clique para explorar)
Veja também
Dermatologia como ela acontece na prática: do diagnóstico ao tratamento.
Aprenda comigo →Atendimento dermatológico em Palmas, TO: caioformiga.com.
Consulte comigo →