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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Eritema multiforme

Padrão inflamatório(Eritema polimorfo, EM, Eritema multiforme minor, Eritema multiforme major, Doença de von Hebra)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchadosVeja também

Conceito

Eritema multiforme é uma doença mucocutânea aguda, imunomediada, caracterizada por lesões em alvo de distribuição acral com zonas concêntricas de alteração de cor.

Pode acometer pele e/ou mucosas.

Chama-se eritema multiforme minor quando há acometimento mucoso mínimo ou ausente e sem sintomas sistêmicos (doença de von Hebra).

Chama-se eritema multiforme major quando há lesões em alvo com acometimento mucoso grave e sintomas sistêmicos (febre, artralgias).

O curso é autolimitado na maioria dos casos, mas um subgrupo desenvolve doença recorrente (episódios frequentes ao longo de anos) ou persistente (lesões contínuas sem remissão completa).

É uma entidade distinta da síndrome de Stevens-Johnson (SSJ) e da necrólise epidérmica tóxica (NET).

Epidemiologia

A incidência exata é desconhecida, com prevalência estimada entre 0,01% e 1%.

Predomina em adultos jovens, com leve predomínio no sexo feminino e sem predileção por grupo étnico.

É mais frequente na primavera e no outono.

Mycoplasma pneumoniae tem importância particular como causa na criança.

O MIRM (exantema e mucosite induzidos por Mycoplasma pneumoniae) predomina em homens jovens, com idade média em torno de 12 anos.

A variante oral acomete tipicamente mulheres de meia-idade, com doença recorrente limitada à cavidade oral.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Infecção por herpes simples (HSV-1 mais que HSV-2), o gatilho mais comum
  • Herpes labial recorrente
  • Infecção por Mycoplasma pneumoniae: causa mais comum de eritema multiforme major, importante na criança (MIRM e RIME)
  • Outras infecções virais: Epstein-Barr, citomegalovírus, influenza, hepatite B, HIV, varicela-zóster, adenovírus, enterovírus e SARS-CoV-2
  • Histoplasma capsulatum, com frequência acompanhado de eritema nodoso
  • Fármacos (menos de 10% dos casos): anti-inflamatórios não esteroides, sulfonamidas, antiepilépticos, antibióticos (penicilinas) e inibidores de TNF-alfa
  • Vacinações, raramente: COVID-19, pneumocócica, sarampo-rubéola, HPV, DTP e hepatite
  • Candidíase vulvovaginal
  • Menstruação
  • Alta ingestão de ácido benzoico (conservante alimentar)
  • Doença inflamatória intestinal, no eritema multiforme persistente
  • Malignidade hematológica e tumores sólidos, no eritema multiforme persistente ou refratário
  • Radiação
  • Genótipos HLA-DQB1*0301, HLA-B35, HLA-B62 e HLA-DR53, no eritema multiforme recorrente
  • Hepatite C, gatilho das formas recorrente e persistente
  • Aftose complexa
  • Erupção polimorfa à luz
  • Síndrome de Rowell (lúpus eritematoso)
  • Anticorpos anti-plaquinas/anti-desmoplaquina (eritema multiforme recalcitrante)

Patogênese

Cerca de 90% dos casos são causados por infecção, sendo o vírus herpes simples (HSV) o gatilho mais comum.

O HSV-1 está mais associado ao eritema multiforme do que o HSV-2.

O eritema multiforme associado ao herpes (HAEM) é a principal causa de eritema multiforme minor.

Um surto de herpes labial geralmente precede o eritema multiforme em 1 a 3 semanas (intervalo médio de cerca de 8 a 10 dias).

No HAEM, os achados resultam de reação imune mediada por células contra células que expressam antígenos virais e contêm o gene da DNA polimerase do HSV (pol).

Fragmentos de DNA do HSV, incluindo o gene pol, são fagocitados por macrófagos e progenitores de células de Langerhans CD34+ (portadores do receptor cutâneo de homing CLA) e transportados até a epiderme, onde o DNA viral fragmentado é transferido aos queratinócitos.

A regulação positiva da E-caderina aumenta a ligação das células de Langerhans contendo HSV às células endoteliais.

A expressão de fragmentos de DNA viral, incluindo o gene pol, ativa células T CD4+ auxiliares tipo 1 (Th1) HSV-específicas, com liberação de interferon-gama e amplificação inflamatória inespecífica por células T autorreativas, levando à necrose epidérmica.

Em pacientes com HAEM, as células CD34+ apresentam depuração deficiente do DNA viral, favorecendo sua entrega à pele.

O eritema multiforme induzido por fármaco associa-se a TNF-alfa, perforina e granzima B, em contraste com o interferon-gama do HAEM.

No eritema multiforme persistente, as vias JAK-STAT parecem envolvidas: as citocinas IFN-gama e IL-15 estão aumentadas nas lesões e diminuem com a inibição de JAK; o TNF é apenas fracamente positivo nas lesões.

Anticorpos anti-plaquinas (desmoplaquina I/II, envoplaquina e periplaquina) foram descritos em lesões de eritema multiforme, sobretudo em formas recidivantes e de difícil tratamento.

Há suscetibilidade genética associada ao alelo HLA-DQB1*0301 (presente em 66% dos pacientes versus 31% dos controles), com associação mais forte no HAEM, e aos alelos HLA-B35, HLA-B62 e HLA-DR53 no eritema multiforme recorrente.

No eritema multiforme relacionado ao Mycoplasma pneumoniae, o desenvolvimento das lesões mucosas é atribuído a lesão direta do agente ou a lesão vascular mediada por imunocomplexos.

Clínica

  • Início abrupto de máculas eritematosas simétricas e fixas que evoluem para pápulas e depois para lesões em alvo
  • Lesões precoces em pápulas edematosas eritematosas arredondadas, que podem lembrar picada de inseto ou urticária papular
  • Erupção que se desenvolve em 24 a 72 horas (ao longo de 3 a 5 dias), com lesões fixas surgindo nas primeiras 72 horas
  • Alvo típico (lesão primária clássica) com três zonas concêntricas: centro escuro/purpúrico vesicular ou necrótico, anel intermediário pálido edematoso elevado e halo externo de eritema macular
  • Alvo típico bem delimitado
  • Alvo atípico papular (elevado e palpável) com apenas duas zonas e borda periférica mal definida
  • Distribuição simétrica acral com predileção pelas superfícies extensoras
  • Dorso das mãos e antebraços como locais mais comuns
  • Predomínio nas extremidades em relação ao tronco, com acometimento palmoplantar frequente
  • Evolução possível para configurações geográficas, policíclicas e anulares
  • Fenômeno isomórfico (Koebner) e fotoacentuação
  • Agrupamento de lesões em cotovelos e joelhos e edema das dobras ungueais
  • Prurido ou queimação leve possíveis
  • Eritema multiforme minor: alvos com acometimento mucoso mínimo ou ausente e sem sintomas sistêmicos
  • Eritema multiforme major: acometimento mucoso grave associado a sintomas sistêmicos (febre, artralgias, mal-estar)
  • Sintomas prodrômicos (mal-estar, febre, mialgia) uma semana antes, comuns quando há acometimento mucoso
  • Mucosa oral é a mais acometida (até 70% dos casos): mucosa labial, mucosa jugal, gengiva não aderida e vermelhão dos lábios
  • Lesões mucosas primárias em vesículas ou alvos elevados que rompem rapidamente, tornando-se erosões dolorosas pós-bolhosas
  • Crostas hemorrágicas no vermelhão de ambos os lábios
  • Gengiva tipicamente poupada, o que ajuda a diferenciar da gengivoestomatite herpética primária
  • Acometimento ocular, genital, respiratório e faríngeo possível (cerca de 25% genital e 17% ocular no eritema multiforme recorrente)
  • Frequência de lesões mucosas estimada em 25% a 60%
  • Eritema multiforme oral (variante): úlceras orais múltiplas, irregulares, autolimitadas e recorrentes
  • Eritema multiforme por Mycoplasma pneumoniae (MIRM): mucosite proeminente (oral em 94% e ocular em 82%), acometimento cutâneo esparso ou ausente, distribuição mais troncular e morfologia vesiculobolhosa
  • Eritema multiforme recorrente: seis ou mais episódios por ano; média de 6 episódios por ano e duração de 6 a 10 anos
  • Eritema multiforme persistente: lesões contínuas, papulonecróticas ou bolhosas, disseminadas e sem interrupção

Classificação

  • Eritema multiforme minor: acometimento mucoso ausente ou mínimo, sem sintomas sistêmicos
  • Eritema multiforme major: acometimento mucoso grave (duas ou mais superfícies), com sintomas sistêmicos
  • Classificação por gravidade (proposta recente): grave ou não grave, conforme a intensidade do acometimento mucoso
  • Eritema multiforme agudo: episódio isolado e autolimitado
  • Eritema multiforme crônico: recorrente (episódios repetidos ao longo de anos) ou persistente (lesões contínuas, sem cura completa)
  • Eritema multiforme oral: variante limitada à cavidade oral
  • Subtipos histológicos: epidérmico, dérmico e misto
  • MIRM (exantema e mucosite induzidos por Mycoplasma pneumoniae) e RIME (erupção mucocutânea infecciosa reativa): considerados por alguns autores parte do espectro do eritema multiforme grave de causa infecciosa

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Complicações e cuidados

  • Hiperpigmentação pós-inflamatória: as lesões cutâneas não deixam cicatriz
  • Dor mucosa e baixa ingestão oral, com desidratação e desequilíbrio hidroeletrolítico
  • Ceratite, cicatrização conjuntival, uveíte e comprometimento visual permanente no acometimento ocular
  • Esofagite com estenose esofágica, rara
  • Erosões das vias aéreas superiores, que levam a pneumonia, raras
  • Recorrência, com morbidade substancial
  • Acometimento mucoso persistente por até 6 semanas no eritema multiforme major
  • Sequelas mucosas e cutâneas nas formas graves
  • MIRM: cicatrização cutânea (5,6%), dano mucoso de longo prazo (10%), recorrência (8%) e mortalidade (3%)

Prognóstico

O curso agudo caracteriza-se por lesões que surgem em 24 horas, com erupção completa em 72 horas (aparecendo ao longo de 3 a 5 dias), autolimitada, com resolução sem sequelas em 1 a 2 semanas.

O período do início à resolução costuma ser inferior a 4 semanas.

O eritema multiforme major com acometimento mucoso grave pode persistir por até 6 semanas e associar-se a complicações oculares quando não há cuidado ocular adequado.

As lesões cutâneas não cicatrizam, mas pode haver hiperpigmentação pós-inflamatória por meses.

Um subgrupo evolui com doença recorrente, de morbidade substancial, ou persistente, contínua e refratária.

No eritema multiforme recorrente há em média 6 episódios por ano por 6 a 10 anos, e a remissão é difícil de manter mesmo com tratamento.

O MIRM tem prognóstico geralmente excelente, com mortalidade em torno de 3%.

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Referências

  1. Clinical features, diagnosis, and treatment of erythema multiforme: a review for the practicing dermatologist. International Journal of Dermatology. 2012.
  2. Recent updates in the treatment of erythema multiforme. Medicina (Kaunas). 2021.
  3. Recurrent erythema multiforme: clinical characteristics, etiologic associations, and treatment in a series of 48 patients at Mayo Clinic, 2000 to 2007. Journal of the American Academy of Dermatology. 2010.
  4. Mycoplasma pneumoniae-induced rash and mucositis as a syndrome distinct from Stevens-Johnson syndrome and erythema multiforme: a systematic review. Journal of the American Academy of Dermatology. 2015.
  5. Erythema multiforme. eClinicalMedicine. 2024.
  6. Erythema multiforme: recognition and management. American Family Physician. 2019.

Achados (clique para explorar)

lesão em alvopápuladorso das mãosáreas extensoraspalmas e plantasacometimento de mucosasfenômeno isomórficolesão fixa e persistenterecidiva frequente

Veja também

Dermatites de interfaceMétodo algorítmico das doenças inflamatóriasDermatites vesicobolhosas
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