Eritema multiforme é uma doença mucocutânea aguda, imunomediada, caracterizada por lesões em alvo de distribuição acral com zonas concêntricas de alteração de cor.
Pode acometer pele e/ou mucosas.
Chama-se eritema multiforme minor quando há acometimento mucoso mínimo ou ausente e sem sintomas sistêmicos (doença de von Hebra).
Chama-se eritema multiforme major quando há lesões em alvo com acometimento mucoso grave e sintomas sistêmicos (febre, artralgias).
O curso é autolimitado na maioria dos casos, mas um subgrupo desenvolve doença recorrente (episódios frequentes ao longo de anos) ou persistente (lesões contínuas sem remissão completa).
É uma entidade distinta da síndrome de Stevens-Johnson (SSJ) e da necrólise epidérmica tóxica (NET).
A incidência exata é desconhecida, com prevalência estimada entre 0,01% e 1%.
Predomina em adultos jovens, com leve predomínio no sexo feminino e sem predileção por grupo étnico.
É mais frequente na primavera e no outono.
Mycoplasma pneumoniae tem importância particular como causa na criança.
O MIRM (exantema e mucosite induzidos por Mycoplasma pneumoniae) predomina em homens jovens, com idade média em torno de 12 anos.
A variante oral acomete tipicamente mulheres de meia-idade, com doença recorrente limitada à cavidade oral.
Fatores de risco e doenças associadas
Cerca de 90% dos casos são causados por infecção, sendo o vírus herpes simples (HSV) o gatilho mais comum.
O HSV-1 está mais associado ao eritema multiforme do que o HSV-2.
O eritema multiforme associado ao herpes (HAEM) é a principal causa de eritema multiforme minor.
Um surto de herpes labial geralmente precede o eritema multiforme em 1 a 3 semanas (intervalo médio de cerca de 8 a 10 dias).
No HAEM, os achados resultam de reação imune mediada por células contra células que expressam antígenos virais e contêm o gene da DNA polimerase do HSV (pol).
Fragmentos de DNA do HSV, incluindo o gene pol, são fagocitados por macrófagos e progenitores de células de Langerhans CD34+ (portadores do receptor cutâneo de homing CLA) e transportados até a epiderme, onde o DNA viral fragmentado é transferido aos queratinócitos.
A regulação positiva da E-caderina aumenta a ligação das células de Langerhans contendo HSV às células endoteliais.
A expressão de fragmentos de DNA viral, incluindo o gene pol, ativa células T CD4+ auxiliares tipo 1 (Th1) HSV-específicas, com liberação de interferon-gama e amplificação inflamatória inespecífica por células T autorreativas, levando à necrose epidérmica.
Em pacientes com HAEM, as células CD34+ apresentam depuração deficiente do DNA viral, favorecendo sua entrega à pele.
O eritema multiforme induzido por fármaco associa-se a TNF-alfa, perforina e granzima B, em contraste com o interferon-gama do HAEM.
No eritema multiforme persistente, as vias JAK-STAT parecem envolvidas: as citocinas IFN-gama e IL-15 estão aumentadas nas lesões e diminuem com a inibição de JAK; o TNF é apenas fracamente positivo nas lesões.
Anticorpos anti-plaquinas (desmoplaquina I/II, envoplaquina e periplaquina) foram descritos em lesões de eritema multiforme, sobretudo em formas recidivantes e de difícil tratamento.
Há suscetibilidade genética associada ao alelo HLA-DQB1*0301 (presente em 66% dos pacientes versus 31% dos controles), com associação mais forte no HAEM, e aos alelos HLA-B35, HLA-B62 e HLA-DR53 no eritema multiforme recorrente.
No eritema multiforme relacionado ao Mycoplasma pneumoniae, o desenvolvimento das lesões mucosas é atribuído a lesão direta do agente ou a lesão vascular mediada por imunocomplexos.
Classificação
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Conteúdo para assinantes. Assinar →
O curso agudo caracteriza-se por lesões que surgem em 24 horas, com erupção completa em 72 horas (aparecendo ao longo de 3 a 5 dias), autolimitada, com resolução sem sequelas em 1 a 2 semanas.
O período do início à resolução costuma ser inferior a 4 semanas.
O eritema multiforme major com acometimento mucoso grave pode persistir por até 6 semanas e associar-se a complicações oculares quando não há cuidado ocular adequado.
As lesões cutâneas não cicatrizam, mas pode haver hiperpigmentação pós-inflamatória por meses.
Um subgrupo evolui com doença recorrente, de morbidade substancial, ou persistente, contínua e refratária.
No eritema multiforme recorrente há em média 6 episódios por ano por 6 a 10 anos, e a remissão é difícil de manter mesmo com tratamento.
O MIRM tem prognóstico geralmente excelente, com mortalidade em torno de 3%.
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Dermatologia como ela acontece na prática: do diagnóstico ao tratamento.
Aprenda comigo →Atendimento dermatológico em Palmas, TO: caioformiga.com.
Consulte comigo →