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Eritema nodoso hansênico

Padrão inflamatório(Reação hansênica tipo 2, Reação tipo 2, ENH, Eritema nodoso leproso)

Conceito

O eritema nodoso hansênico é a reação hansênica do tipo 2, uma complicação imunomediada da hanseníase multibacilar.

Ocorre nas formas virchowiana (lepromatosa, LL) e dimorfa-virchowiana (borderline lepromatosa, BL), de alta carga bacilar.

É mediado principalmente pela formação e deposição de imunocomplexos, com inflamação multissistêmica.

Caracteriza-se por surtos de nódulos subcutâneos eritematosos dolorosos, acompanhados de febre e sintomas sistêmicos.

Além da pele, acomete nervos, articulações, olhos, testículos, linfonodos e rins.

Pode surgir antes, durante ou após a conclusão da poliquimioterapia.

É causa importante de morbidade, incapacidade e mortalidade na hanseníase.

Epidemiologia

Afeta cerca de 50% dos pacientes com hanseníase virchowiana (LL) e 5 a 10% dos dimorfos-virchowianos (BL).

No Brasil, aproximadamente 37% dos casos novos de BL e LL desenvolvem eritema nodoso hansênico.

Na Ásia, as frequências variam entre 19 e 26% dos casos de BL e LL na Índia, no Nepal e na Tailândia.

Predomina no sexo masculino; em estudo multicêntrico a razão homem:mulher foi de 2,8:1.

Acomete sobretudo adultos jovens, com idade mediana em torno de 30 anos.

Os surtos ocorrem mais frequentemente durante o primeiro ano de poliquimioterapia.

Cerca de um terço dos pacientes tem o diagnóstico de hanseníase feito ao mesmo tempo da reação.

Menos de 10% dos pacientes apresentam episódio único; a maioria evolui com episódios múltiplos ou forma crônica.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Hanseníase multibacilar, formas virchowiana (LL) e dimorfa-virchowiana (BL)
  • Índice baciloscópico (IB) alto, maior ou igual a 4+
  • Alta carga bacilar
  • Início da poliquimioterapia, sobretudo no primeiro ano de tratamento
  • Gravidez e lactação (fatores precipitantes descritos, não confirmados em estudos prospectivos)
  • Puberdade
  • Infecções intercorrentes
  • Vacinação
  • Estresse psicológico
  • Hanseníase virchowiana (lepromatosa, LL)
  • Hanseníase dimorfa-virchowiana (borderline lepromatosa, BL)
  • Índice baciloscópico elevado
  • Polimorfismos genéticos em NOD2, IL6 e NRAMP1

Patogênese

É uma reação mediada por imunocomplexos, com deposição de complexos de antígeno de Mycobacterium leprae e complemento nos tecidos (fenômeno tipo Arthus).

A imunofluorescência direta demonstra depósitos granulares de imunoglobulina e complemento na derme das lesões, ausentes na hanseníase virchowiana não complicada.

Há também participação da imunidade celular, com ativação de linfócitos T e de macrófagos.

O subtipo de linfócito T predominante nas lesões é o CD4+, ao contrário da hanseníase virchowiana, em que predominam os CD8+.

Ocorre elevação do fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa) circulante e nos tecidos.

Citocinas como IL-1beta, IL-4, IL-6 e TNF-alfa são componentes-chave da patogênese.

Há expressão de mRNA de TNF-alfa e IL-12 na pele, com IL-4 ausente ou baixa, o que sustenta a participação de linfócitos T do tipo Th1.

Perfis Th22, produtores de TNF-alfa e IL-6 sem IL-17, podem contribuir para a evolução da reação tipo 2.

A expressão de FoxP3 (linfócitos T reguladores) foi detectada nas lesões, associada ao infiltrado granulomatoso.

Polimorfismos nos genes NOD2, IL6 e NRAMP1 foram associados a maior suscetibilidade ao eritema nodoso hansênico.

Clínica

  • Surtos de nódulos subcutâneos eritematosos, dolorosos e quentes
  • Nódulos e pápulas eritematosos, superficiais ou profundos
  • Dor é o sintoma mais frequente, presente em cerca de 96% dos pacientes, e frequentemente intensa
  • Lesões de caráter evanescente, em surtos recorrentes
  • Grande número de lesões, acometendo sítios além das pernas
  • Localização preferencial nas coxas mediais e nos antebraços extensores, além das faces extensoras dos membros
  • Febre alta, mal-estar, prostração e sintomas sistêmicos
  • Edema periférico de mãos, pés e face
  • Neurite, com nervos espessados e dolorosos e comprometimento de função neural
  • Artrite, sobretudo de grandes articulações
  • Dactilite
  • Orquite e epididimite
  • Linfadenite e linfadenomegalia
  • Irite, episclerite e uveíte, com risco de perda visual
  • Rinite
  • Comprometimento renal com proteinúria transitória (glomerulonefrite)
  • Dor óssea e à palpação óssea, especialmente sobre a tíbia
  • Formas graves com lesões necróticas, pustulosas, bolhosas e ulceradas
  • Lesões semelhantes a eritema multiforme
  • Nódulos que podem persistir como paniculite crônica dolorosa, evoluindo com fibrose e cicatriz

Classificação

  • Eritema nodoso hansênico agudo, episódio único com duração inferior a 24 semanas
  • Eritema nodoso hansênico recorrente, novo episódio 28 dias ou mais após a interrupção do tratamento da reação
  • Eritema nodoso hansênico crônico, duração de 24 semanas ou mais exigindo tratamento contínuo, com intervalos livres de 27 dias ou menos
  • Gravidade classificada pelo médico assistente em leve, moderado ou grave
  • Escala de gravidade ENLIST (ENLIST ENL Severity Scale, EESS), com pontuação até 8 indicando doença leve e 9 ou mais indicando doença mais grave
  • Formas clínicas graves necrótica, bolhosa, pustulosa e ulcerada

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Complicações e cuidados

  • Dano e comprometimento de função neural, com incapacidade permanente
  • Neuropatia sensitiva e motora periférica
  • Perda visual e cegueira por acometimento ocular (irite, episclerite e uveíte)
  • Orquite com potencial de dano testicular
  • Glomerulonefrite e comprometimento renal
  • Fibrose e cicatrizes decorrentes de paniculite crônica
  • Efeitos adversos do tratamento prolongado com corticosteroides, como diabetes, catarata e hipertensão
  • Neuropatia induzida por talidomida
  • Estrongiloidíase disseminada fatal e reativação de tuberculose sob imunossupressão
  • Aumento da mortalidade
  • Impacto negativo na qualidade de vida e prejuízo socioeconômico

Prognóstico

A maioria dos pacientes evolui com episódios múltiplos ou forma crônica ao longo de muitos anos.

O eritema nodoso hansênico crônico tende a ser mais grave que as formas aguda e recorrente.

É causa importante de morbidade, incapacidade e mortalidade na hanseníase.

O diagnóstico precoce e o tratamento eficaz são essenciais para minimizar dano neural, deformidade e incapacidade.

A mortalidade decorre tanto da própria doença quanto dos efeitos adversos do tratamento prolongado com corticosteroides.

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Referências

  1. Leprosy type 1 reactions and erythema nodosum leprosum. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2008.
  2. ENLIST 1: an international multi-centre cross-sectional study of the clinical features of erythema nodosum leprosum. PLoS Neglected Tropical Diseases. 2015.
  3. A leprosy clinical severity scale for erythema nodosum leprosum: an international, multicentre validation study of the ENLIST ENL Severity Scale. PLoS Neglected Tropical Diseases. 2017.
  4. Leprosy as a complex infection: breakdown of the Th1 and Th2 immune paradigm in the immunopathogenesis of the disease. Frontiers in Immunology. 2017.

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