Erupção acneiforme
Conceito
Erupção acneiforme designa um grupo de dermatoses papulopustulosas que simulam a acne vulgar, porém com apresentação monomórfica e ausência característica de comedões.
As lesões são pápulas e pústulas inflamatórias de início abrupto, geralmente em áreas ricas em glândulas sebáceas, como face, couro cabeludo, tórax superior e dorso, podendo estender-se ao tronco e a áreas fotoexpostas.
Diferentemente da acne vulgar, não há formação primária de comedões e a evolução é monomórfica, com as lesões no mesmo estágio.
As causas incluem fármacos, exposição ocupacional (cloracne), radiação, infecção folicular (foliculite por Malassezia) e fatores mecânicos.
A forma associada aos inibidores do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR) e a outras terapias-alvo antineoplásicas tem padrão clínico, prognóstico e manejo próprios.
Epidemiologia
A erupção papulopustulosa induzida por inibidores do EGFR ocorre em mais de 80% dos pacientes tratados, com relatos de 50% a 100% em algumas séries.
A erupção grave (grau 2 ou superior) é mais frequente com anticorpos monoclonais (10% a 17%) do que com inibidores de tirosina-quinase de baixo peso molecular (5% a 9%).
Fatores associados a maior risco incluem, para o erlotinibe, não fumantes, pele clara e idade acima de 70 anos; para o cetuximabe, sexo masculino e idade abaixo de 70 anos.
A cloracne acomete indivíduos com exposição ocupacional a hidrocarbonetos aromáticos clorados.
Fatores de risco e doenças associadas
- Exposição ocupacional a hidrocarbonetos aromáticos clorados (dioxinas)
- Radiação ionizante
- Pressão e fricção mecânica repetidas (capacetes, mochilas, colarinhos)
- Não fumante, pele clara e idade acima de 70 anos (erlotinibe)
- Sexo masculino e idade abaixo de 70 anos (cetuximabe)
- Gravidade da erupção por inibidores do EGFR associada a melhor resposta antitumoral
Medicamentos associados
- Corticosteroides sistêmicos ou tópicos
- Andrógenos e esteroides anabolizantes (testosterona)
- Halógenos (iodetos e brometos)
- Isoniazida
- Lítio
- Fenitoína e outros anticonvulsivantes
- Contraceptivos orais com progestágenos androgênicos
- Vitaminas B2, B6 e B12
- Upadacitinibe
Terapias-alvo antineoplásicas
- Inibidores do EGFR (cetuximabe, panitumumabe, gefitinibe, erlotinibe, lapatinibe)
- Inibidores de mTOR (sirolimo e tacrolimo)
- Inibidores multiquinase (sunitinibe e sorafenibe)
- Inibidores de MEK (trametinibe)
Patogênese
Na acne medicamentosa, diversos fármacos induzem erupção folicular por mecanismos variados, sem a formação comedoniana inicial da acne vulgar.
Nos inibidores do EGFR, a inibição do receptor altera o ciclo celular dos queratinócitos, que liberam quimiocinas inflamatórias (CCL2, CCL5 e CXCL10), levando a infiltração inflamatória e à erupção clínica.
A cloracne resulta da exposição a hidrocarbonetos aromáticos clorados (dioxinas), encontrados em condutores e isolantes elétricos e em inseticidas, fungicidas e herbicidas.
A acne por radiação decorre de metaplasia epitelial induzida por radiação ionizante nos folículos, com formação de tampões hiperceratóticos.
A acne mecânica resulta de pressão e fricção repetidas com obstrução da unidade pilossebácea.
A foliculite por Malassezia (pitirospórica) decorre da proliferação de leveduras do gênero Malassezia no folículo.
Clínica
- Pápulas e pústulas inflamatórias monomórficas de início abrupto
- Ausência característica de comedões
- Distribuição em áreas ricas em glândulas sebáceas (face, couro cabeludo, tórax superior e dorso)
- Predomínio no tronco em relação à face na acne medicamentosa
- Lesões monomórficas clássicas na acne induzida por corticosteroides
- Erupção por inibidores do EGFR com início 1 a 3 semanas após o começo do tratamento
- Erupção por EGFR em áreas acneicas habituais e áreas fotoexpostas (nariz, bochechas, mento, fronte, região perioral, couro cabeludo e tronco superior)
- Prurido, dor, ardência e irritação frequentes na erupção por EGFR
- Gravidade da reação por EGFR correlacionada positivamente com a resposta clínica ao medicamento
- Cloracne com predomínio em face, pescoço (inclusive região retroauricular), axila, escroto e pênis
- Cloracne com comedões e cistos que surgem semanas após a exposição, com surtos recorrentes por anos
- Acne por radiação com pápulas comedo-símiles em área previamente irradiada
- Acne mecânica com padrão de distribuição incomum conforme o fator externo provocador
- Foliculite por Malassezia com pápulas e pústulas foliculares monomórficas pruriginosas
Classificação
- Acne medicamentosa (corticosteroides, andrógenos, halógenos, lítio, isoniazida, anticonvulsivantes, inibidores do EGFR e outras terapias-alvo)
- Erupção papulopustulosa por inibidores do EGFR e terapias-alvo antineoplásicas
- Cloracne (acne ocupacional por hidrocarbonetos aromáticos clorados)
- Acne por radiação
- Acne mecânica
- Foliculite por Malassezia (pitirospórica)
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Complicações e cuidados
- Impacto psicossocial e redução da qualidade de vida
- Infecções secundárias
- Necessidade de redução de dose ou descontinuação da terapia antineoplásica
- Alterações pós-inflamatórias persistentes (eritema e hiperpigmentação)
- Cicatrizes (cloracne)
- Surtos recorrentes por anos após a exposição (cloracne)
Prognóstico
A erupção acneiforme medicamentosa costuma resolver com a suspensão do agente causador.
A erupção por inibidores do EGFR surge em 1 a 3 semanas, atinge o pico em 4 a 6 semanas e regride após 6 a 8 semanas, mas pode deixar alterações pós-inflamatórias (eritema e hiperpigmentação) por meses a anos.
O início mais tardio da erupção (após 5 semanas do começo da terapia antineoplásica) associa-se a maior redução de lesões com o tratamento tópico.
A cloracne tem tratamento difícil, com surtos recorrentes por muitos anos após a exposição e tendência a cicatrizes.
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Referências
- Clinical practice guidelines for the prevention and treatment of EGFR inhibitor-associated dermatologic toxicities. Supportive Care in Cancer. 2011.
- Prevention and management of acneiform rash associated with EGFR inhibitor therapy: a systematic review and meta-analysis. Asia-Pacific Journal of Clinical Oncology. 2022.
- Topical management strategies for acneiform eruptions induced by cancer drugs. Cureus. 2025.
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