Estria
Conceito
Estria (striae distensae) é uma cicatriz dérmica linear e atrófica que resulta do estiramento rápido da pele com ruptura e reorganização da rede de colágeno e de fibras elásticas da derme.
A lesão orienta-se perpendicularmente à direção da tensão cutânea, acompanhando as linhas de clivagem.
A doença evolui em duas fases: a estria rubra (imatura), inicial, eritematosa a violácea, discretamente elevada e com componente inflamatório ativo; e a estria alba (madura), tardia, hipocrômica, atrófica, fina e enrugada, com aspecto de cicatriz.
A transição da fase rubra para a fase alba leva meses a anos.
Estria nigra é a designação da lesão de coloração enegrecida observada em fototipos altos; estria caerulea designa a lesão de coloração azul-escura.
Estria atrófica (striae atrophicans) é o termo aplicado quando predomina o afinamento acentuado da pele, situação que costuma indicar excesso de corticosteroide endógeno ou exógeno.
É condição benigna e assintomática na maioria dos casos, mas de grande impacto estético e psicossocial.
O diagnóstico é clínico e a biópsia não é necessária nem útil na prática.
Epidemiologia
A prevalência descrita é de 43% a 88% na gestação, de 6% a 86% na puberdade e de cerca de 43% na obesidade.
Na puberdade, estima-se acometimento de cerca de 30% dos adolescentes; na gestação, cerca de 75% das gestantes em séries maiores, com relatos que variam de 55% a 90%.
Até 90% das estrias gravídicas surgem em primigestas.
O início costuma ocorrer no fim do segundo e no início do terceiro trimestre, mas 43% das gestantes já apresentam lesões antes das 24 semanas.
A frequência é aproximadamente duas vezes maior em mulheres do que em homens.
Um estudo comparativo observou maior número de estrias em mulheres negras do que em mulheres brancas de idade, paridade, ganho de peso e história familiar semelhantes; as categorias de cor/etnia são autodeclaradas.
Em estudo de gestantes, houve associação com mulheres não brancas (odds ratio 4,2; intervalo de confiança de 95% 1,9 a 9,6), também por autodeclaração.
As lesões tendem a ser clinicamente mais aparentes em fototipos altos.
Relatou-se maior prevalência em fumantes do que em não fumantes.
Comorbidades como incontinência urinária e disfunção do assoalho pélvico foram associadas à presença de estrias.
Fatores de risco e doenças associadas
- Gestação, sobretudo primigesta
- Idade materna jovem (o risco mais consistente na estria gravídica; 20% das adolescentes tiveram estrias graves, achado ausente em gestantes acima de 30 anos)
- Puberdade e estirão de crescimento
- História familiar de estria (mãe, irmãs, filhas, avós, tias, primas)
- História pessoal prévia de estria, em especial estria nas mamas
- Maior peso antes da gestação e maior peso no parto
- Índice de massa corporal elevado antes da gestação (acima de 26)
- Maior ganho ponderal na gestação (acima de 15 kg)
- Maior peso do recém-nascido
- Maior idade gestacional no parto
- Ganho ou perda rápida de peso
- Obesidade
- Hipertrofia muscular por exercício intenso (musculação)
- Corticoterapia tópica potente e corticoterapia sistêmica prolongada
- Síndrome de Cushing
- Síndrome de Marfan
- Síndrome de Ehlers-Danlos
- Anorexia nervosa
- Doença hepática crônica
- Doenças febris
- Tabagismo
- Níveis sanguíneos reduzidos de vitamina C
- Contraceptivos hormonais e acetato de medroxiprogesterona injetável
- Quimioterápicos, antibioticoterapia prolongada e neurolépticos
- Cirurgia e expansão tecidual
- Baixa escolaridade, desemprego e assistência médica estatal (associações descritas, com confundidores possíveis)
- Síndrome de Cushing (estrias extensas ou atípicas obrigam a rastreio endócrino)
- Síndrome de Marfan (estria tem valor diagnóstico como sinal cutâneo)
- Síndrome de Ehlers-Danlos
- Obesidade
- Anorexia nervosa
- Doença hepática crônica
- Prolapso de órgãos pélvicos, incontinência urinária e disfunção do assoalho pélvico
- Erupção polimórfica da gestação (as pápulas e placas urticadas surgem preferencialmente sobre as estrias de distensão do abdome, poupando o umbigo)
Patogênese
O mecanismo central é o estiramento mecânico rápido da pele, que impõe estresse sobre o tecido conjuntivo dérmico e leva à ruptura da rede de colágeno e de fibras elásticas.
O estiramento estimula mastócitos e macrófagos, que degranulam e liberam enzimas proteolíticas, sobretudo elastases, com elastólise da derme média.
Segue-se reorganização anômala do colágeno e da fibrilina, redução da atividade do fibroblasto na síntese de matriz extracelular de boa qualidade e déficit final de fibras colágenas e elásticas, o que produz a atrofia dérmica.
Mediadores inflamatórios participam da fase inicial e explicam o eritema da estria rubra, que depois evolui para a estria alba hipocrômica.
Fatores hormonais contribuem: o hormônio adrenocorticotrófico estimula a atividade fibroblástica e aumenta o catabolismo proteico, e o excesso de corticosteroide (endógeno ou exógeno) prejudica a função do fibroblasto e reduz a síntese de colágeno.
Na estria, observam-se o dobro de receptores de estrogênio e níveis aumentados de receptores de androgênio e de glicocorticoide em relação à pele sadia.
Níveis séricos mais baixos de relaxina foram descritos em mulheres com estrias.
Há predisposição genética: expressão reduzida dos genes de colágeno e de fibronectina, deficiência de fibrilina e redução das microfibrilas de fibrilina na pele com estrias; a gravidade e o padrão de desenvolvimento das lesões variam entre pacientes, o que aponta para predisposição genética variável.
A associação entre estria gravídica e ganho de peso materno ou aumento da circunferência abdominal e do quadril não é consistente entre os estudos, o que mostra que o estiramento isolado não explica toda a doença.
Clínica
- Lesão linear atrófica, disposta perpendicularmente às linhas de tensão da pele e paralela às linhas de clivagem
- Estria rubra (imatura): banda plana rósea a avermelhada, que se torna elevada, mais longa, mais larga e vermelho-violácea; pode haver edema e placas lineares eritematosas
- Estria rubra pode ser pruriginosa, com ardor ou desconforto; fora isso, as estrias são assintomáticas
- Estria alba (madura): lesão hipocrômica, branca, atrófica, enrugada, com pele fina, semelhante a cicatriz
- Estria nigra: lesão de coloração enegrecida, observada em fototipos altos
- Estria caerulea: lesão de coloração azul-escura
- Estria atrófica: predomínio de afinamento da pele, sugestiva de excesso de corticosteroide
- Dermatoscopia: melanização aumentada na estria rubra e reduzida na estria alba
- Topografia geral: abdome, nádegas, coxas, mamas, dorso, região lombar, braços, axilas e virilhas
- Topografia na gestação: abdome, mamas, quadris e coxas
- Topografia na adolescência: coxas, nádegas e mamas nas meninas; dorso nos meninos
- Estrias amplas, difusas ou sem causa aparente devem levantar suspeita de doença endócrina subjacente
- Na síndrome de Cushing, estrias violáceas acompanham pele fina e atrófica, equimoses fáceis, má cicatrização, giba dorsal, face em lua cheia, acne por corticoide, hipertricose e rarefação de cabelos
- Na síndrome de Marfan, estrias no tórax superior, braços, coxas e abdome, com hábito marfanoide e escassez de tecido adiposo subcutâneo
Classificação
- Estria rubra (imatura) - fase inicial, eritematosa a violácea, com inflamação ativa
- Estria alba (madura) - fase tardia, hipocrômica, atrófica e enrugada
- Estria nigra - lesão enegrecida, em fototipos altos
- Estria caerulea - lesão azul-escura
- Estria atrófica (striae atrophicans) - predomínio de afinamento cutâneo, ligada a corticosteroide endógeno ou exógeno
- Estria gravídica (striae gravidarum) - estria surgida na gestação
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Complicações e cuidados
- Sofrimento psicológico e emocional, com baixa autoestima, insatisfação com a imagem corporal e ansiedade social
- Comprometimento da qualidade de vida, com prejuízo emocional maior nas gestantes com estrias graves
- Hiperpigmentação pós-inflamatória após luz e laser, sobretudo em fototipos altos
- Hipopigmentação persistente após tratamento com luz e laser
- Eritema e edema transitórios após luz e laser
- Eritema, descamação, prurido e ardor com tretinoína tópica
- Dermatite irritativa e irritação com o uso de ácidos tópicos
- Dor e recuperação prolongada com lasers ablativos
- Atrofia dérmica, irritação, cicatriz e infecção por tratamentos agressivos ou inadequados, incluindo abuso de corticoide tópico e produtos cosméticos não regulados
- Despigmentação indesejável da pele sã perilesional com laser de excímero
Prognóstico
O prognóstico é favorável do ponto de vista médico: a estria é benigna, assintomática na maioria dos casos e não traz risco à saúde.
Com o tempo, a estria rubra evolui para estria alba e torna-se menos perceptível, mas raramente desaparece por completo.
A aparência pode melhorar espontaneamente ou com tratamento cosmético, porém a resolução definitiva e duradoura é incomum.
A estria alba, por ser cicatriz madura com atrofia estabelecida, responde pior a qualquer modalidade terapêutica.
Os resultados obtidos com repigmentação por excímero e por ultravioleta não são permanentes e exigem tratamento de manutenção.
O sofrimento psicossocial pode persistir mesmo com melhora do aspecto, sobretudo quando as lesões são extensas ou em áreas visíveis, de modo que o prognóstico depende tanto do impacto emocional quanto da lesão em si.
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Referências
- Striae Distensae. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island: StatPearls Publishing; 2025.
- Striae gravidarum: risk factors, prevention, and management. International Journal of Women's Dermatology. 2017.
- Tratamento a laser para estrias de distensão: revisão bibliográfica. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. 2018.
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