Exantemas virais
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Conceito
Os exantemas virais são erupções cutâneas agudas, geralmente febris e autolimitadas, deflagradas por infecção viral sistêmica.
Manifestam-se como erupções maculares, maculopapulares, papulares, urticariformes ou vesiculares difusas, com frequência acompanhadas de pródromo de febre e mal-estar.
Alguns vírus produzem quadros mucocutâneos característicos que permitem diagnóstico clínico imediato; a maioria, porém, gera exantemas inespecíficos que se confundem entre si e com dermatoses não virais.
Classicamente descreveram-se seis "doenças exantemáticas" numeradas: primeira doença (sarampo), segunda doença (escarlatina, de origem bacteriana), terceira doença (rubéola), quarta doença (doença de Filatov-Dukes, hoje obsoleta), quinta doença (eritema infeccioso) e sexta doença (exantema súbito/roséola).
Além dos exantemas clássicos, há formas "atípicas" com morfologia e agentes distintos, e entidades parainfecciosas como a síndrome de Gianotti-Crosti e o exantema laterotorácico unilateral.
O reconhecimento precoce é importante para orientar investigação, tratamento, medidas de saúde pública e avaliação de riscos em gestantes e imunocomprometidos.
Epidemiologia
Os exantemas virais estão entre as causas mais frequentes de consulta pediátrica ambulatorial, em pronto-socorro e em internação.
Sarampo (morbilivírus/paramixovírus): surtos ocorrem em áreas com baixas coberturas vacinais; transmissão por gotículas respiratórias, alta contagiosidade.
Rubéola (togavírus): transmissão por gotículas respiratórias; a principal preocupação é evitar a infecção na gestação (associação com a síndrome da rubéola congênita, componente TORCH).
Eritema infeccioso (parvovírus B19): mais comum na infância; a síndrome papulopurpúrica em luvas e meias predomina em adultos jovens, sobretudo na primavera.
Exantema súbito/roséola (HHV-6B, menos HHV-7): um dos exantemas virais mais comuns da infância; 95% dos casos entre 6 meses e 3 anos; a soroprevalência de HHV-6 excede 90% na maioria das populações, com quase todas as crianças infectadas até os 3 anos; transmissão por secreções orais.
Doença mão-pé-boca (coxsackievírus A16, A6 e A10; enterovírus 71): predomínio no verão/outono, mais comum em crianças até 5-10 anos; surtos por Coxsackie A6 desde 2008 na Ásia, América e Europa.
Mononucleose/EBV (HHV-4): pico em adultos jovens; transmissão por saliva.
Arboviroses (dengue, zika, chikungunya): transmitidas por mosquitos Aedes; relevância crescente com surtos de larga escala; diagnóstico diferencial obrigatório diante de história de viagem a áreas endêmicas.
A queda das coberturas vacinais em alguns países e a maior circulação populacional exigem alta capacidade diagnóstica para formas clássicas e atípicas.
Fatores de risco e doenças associadas
- Baixas coberturas vacinais na comunidade (sarampo, rubéola)
- Ausência de imunização ou de imunidade prévia
- Idade pediátrica (maioria dos exantemas clássicos)
- Frequência a creches/escolas e aglomerações
- Gestação (risco de rubéola congênita e de repercussão fetal do parvovírus B19)
- Imunossupressão (doença grave e reativação por HHV-6/HHV-7, EBV, CMV)
- Hemoglobinopatias, como anemia falciforme (crise aplásica pelo parvovírus B19)
- Dermatite atópica (eczema coxsackium por Coxsackie A6)
- Viagem ou residência em áreas endêmicas de arboviroses
- Uso de ampicilina/amoxicilina durante infecção por EBV (exantema de "hipersensibilidade")
- Parvovírus B19 e crise aplásica em anemia falciforme e outras hemoglobinopatias
- Parvovírus B19 e hidropsia fetal
- HHV-6 e convulsão febril
- HHV-6/HHV-7 (com EBV e CMV) e DRESS
- HHV-6/HHV-7 e pitiríase rósea
- EBV e leucoplasia pilosa oral, hidroa vaciniforme, síndrome de Gianotti-Crosti, linfoma de Burkitt, linfoma NK/T, doença linfoproliferativa pós-transplante e carcinoma nasofaríngeo
- EBV e exantema de "hipersensibilidade" após ampicilina/amoxicilina
- Coxsackie A6 e eczema coxsackium na dermatite atópica
- Gianotti-Crosti e hepatite B (causa nº 1 mundial), EBV, CMV e vacinação
- Rubéola e síndrome da rubéola congênita (componente TORCH)
- Zika e microcefalia congênita
Patogênese
Sarampo: causado pelo vírus do sarampo (RNA, família Paramyxoviridae, gênero Morbillivirus); a infecção inicia na nasofaringe ou conjuntiva, dissemina-se para linfonodos e sangue (viremia); incubação de 1 a 2 semanas.
Rubéola: causada pelo vírus da rubéola (RNA, família Togaviridae); infecção inicia na nasofaringe, dissemina-se para linfonodos e origina viremia; incubação de 14 a 21 dias.
Eritema infeccioso: causado pelo parvovírus B19 (DNA de fita simples); o vírus tem tropismo por precursores eritroides; o exantema surge 1 a 1,5 semana após o pródromo, coincidindo com o desenvolvimento de IgG (mecanismo imunomediado).
Exantema súbito: causado pelo herpesvírus humano 6 (HHV-6B; menos o HHV-7), família Herpesviridae, subfamília Betaherpesvirinae; replica-se em leucócitos e glândulas salivares, com incubação de cerca de 9 a 10 dias; permanece latente em linfócitos T CD4+ por toda a vida, com possibilidade de reativação; pode integrar-se ao cromossomo do hospedeiro (HHV-6 cromossomicamente integrado).
Doença mão-pé-boca: causada por enterovírus (Coxsackie A16, A6, A10; enterovírus 71); transmissão fecal-oral e respiratória, com infecção do trato faríngeo ou gastrointestinal, envolvimento linfoide, viremia e acometimento de órgãos-alvo, incluindo a pele; incubação de 3 a 6 dias.
Mononucleose/EBV: transmissão por saliva/sangue; infecta o epitélio da mucosa e linfócitos B via receptor CR2/CD21, onde o vírus permanece latente e evade a imunidade (produção de EBNA-1 e proteína latente de membrana-2); incubação de 1 a 2 meses; a imunidade celular é mais importante que a humoral.
Síndrome de Gianotti-Crosti: padrão de reação parainfecciosa a diversos gatilhos virais (hepatite B é a causa nº 1 no mundo; também EBV, CMV, Coxsackie, parvovírus B19, HHV-6) ou pós-vacinal.
Arboviroses: dengue (Flaviviridae), zika (Flaviviridae) e chikungunya (Togaviridae) são transmitidas por picada de mosquito Aedes infectado, podendo haver transmissão vertical ou por transfusão.
Clínica
Sarampo
- Pródromo com febre e os "3 Cs" (tosse, coriza, conjuntivite)
- Manchas de Koplik (enantema): pápulas branco-acinzentadas na mucosa jugal, que precedem e desaparecem antes do exantema
- Exantema morbiliforme (maculopapular) confluente iniciando na linha de implantação frontal do cabelo e região retroauricular
- Disseminação craniocaudal (cefalocaudal) do exantema
Rubéola
- Pródromo com febre, cefaleia e sintomas de infecção de vias aéreas superiores
- Exantema maculopapular discreto, iniciando em cabeça/pescoço com progressão craniocaudal, curso mais curto e brando que o sarampo
- Manchas de Forchheimer (petéquias palatinas)
- Linfadenopatia generalizada e dolorosa, com envolvimento suboccipital, retroauricular e cervical
- Artrite/artralgia (cerca de 50% das mulheres)
Eritema infeccioso
- Pródromo de febre, mialgia e cefaleia durante a viremia
- Primeiro estágio de "face esbofeteada" (eritema malar)
- Segundo estágio com exantema macular reticulado/rendilhado predominante nas superfícies extensoras dos membros
- Artralgia/artrite, sobretudo em adultos
Exantema súbito/roséola
- Febre alta abrupta (frequentemente acima de 40°C) por 3 a 5 dias
- Exantema maculopapular sutil, generalizado, de predomínio no tronco, surgindo com a defervescência ("febre alta que cede em 3 dias e depois surge o rash")
- Manchas de Nagayama (máculas/pápulas eritematosas no palato mole e úvula)
- Causa comum de convulsão febril
Mão-pé-boca
- Pródromo de febre e mal-estar, seguido de erupção cutânea 3 a 6 dias após a exposição
- Máculas eritematosas e vesículas/bolhas ovaladas, profundas, de centro acinzentado, em palmas, plantas, nádegas e cavidade oral
- Lesões erosivas orais (herpangina) em palato, úvula, língua e mucosa jugal
- Onicomadese e linhas de Beau 1 a 2 meses após a infecção (parada da matriz ungueal)
- Mão-pé-boca atípica (Coxsackie A6): erupção vesicobolhosa mais extensa e grave, eczema coxsackium em atópicos, lesões de padrão Gianotti-Crosti e púrpura
- Síndrome papulopurpúrica em luvas e meias (parvovírus B19): edema e eritema simétricos de palmas/plantas com petéquias e púrpura de demarcação nítida em punhos e tornozelos
- Gianotti-Crosti: erupção papular monomórfica, simétrica, cor da pele a eritematosa, em face (bochechas), extremidades e nádegas, poupando tórax, dorso e abdome
- Exantema laterotorácico unilateral: máculas e pápulas eritematosas unilaterais de predomínio flexural, iniciando na axila e tronco lateral ("sinal da Estátua da Liberdade")
- Mononucleose/EBV: faringite, febre e linfadenopatia cervical em adultos jovens, com esplenomegalia e possível exantema polimorfo inespecífico (10%); exantema morbiliforme após ampicilina/amoxicilina
- Dengue: rubor facial transitório seguido de exantema macular ou maculopapular de tronco e extremidades com "ilhas de pele poupada", eventuais petéquias
- Zika: exantema maculopapular ou escarlatiniforme com injeção conjuntival e linfadenite cervical
- Chikungunya: febre e exantema morbiliforme ou eritema generalizado com ilhas de pele normal; artralgias intensas e hiperpigmentação pós-inflamatória em até 50% das crianças
Classificação
- Sarampo (primeira doença: vírus do sarampo, Morbillivirus)
- Escarlatina (segunda doença: estreptococo do grupo A; bacteriana, listada como diferencial clássico)
- Rubéola (terceira doença: vírus da rubéola, Togaviridae)
- Doença de Filatov-Dukes (quarta doença: entidade histórica, hoje obsoleta)
- Eritema infeccioso (quinta doença: parvovírus B19)
- Exantema súbito/roséola infantil (sexta doença: HHV-6B, menos HHV-7)
- Doença mão-pé-boca (Coxsackie A16/A6/A10, enterovírus 71)
- Mononucleose infecciosa e exantema por EBV (HHV-4)
- Síndrome de Gianotti-Crosti (acrodermatite papular da infância)
- Síndrome papulopurpúrica em luvas e meias (parvovírus B19)
- Exantema laterotorácico unilateral (exantema periflexural assimétrico da infância)
- Exantemas por arbovírus (dengue, zika, chikungunya)
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Complicações e cuidados
- Sarampo: infecção de vias aéreas superiores ou inferiores, otite média, sintomas gastrointestinais, encefalite, miocardite e panencefalite esclerosante subaguda (anos após a infecção)
- Rubéola: artrite e artralgia; rubéola congênita (surdez, catarata, coriorretinite, persistência do canal arterial, microcefalia, calcificações intracranianas, "blueberry muffin baby")
- Eritema infeccioso: crise aplásica e pancitopenia em hemoglobinopatias; perda fetal, anemia fetal, insuficiência cardíaca de alto débito e hidropsia fetal (maior risco antes de 20 semanas)
- Exantema súbito: convulsões febris (10% a 15%); em imunocomprometidos, encefalite límbica pós-transplante por HHV-6B, falência de múltiplos órgãos e dano neurológico
- Mão-pé-boca: onicomadese e linhas de Beau; miocardite (mais associada ao adulto)
- Mononucleose/EBV: rotura esplênica, obstrução de vias aéreas superiores, meningite asséptica, meningoencefalopatia, miocardite, pericardite e insuficiência renal
- Dengue: dengue hemorrágica e síndrome do choque da dengue (fase crítica com extravasamento capilar, derrame pleural, ascite, choque)
- Zika: aborto espontâneo e malformações congênitas (microcefalia, defeitos oftalmológicos e neurológicos) na infecção materna
- Chikungunya: artralgias persistentes por meses a anos; hiperpigmentação pós-inflamatória
Prognóstico
A maioria dos exantemas virais é autolimitada e de bom prognóstico na criança saudável, com recuperação completa e sem sequelas.
O sarampo pode ser grave, com complicações respiratórias, encefalite e panencefalite esclerosante subaguda tardia.
A rubéola tem curso brando, mas a infecção na gestação pode causar rubéola congênita, com manifestações vitalícias.
O eritema infeccioso resolve-se sem sequelas na maioria, mas há risco de crise aplásica em hemoglobinopatias e de perda/hidropsia fetal em gestantes.
O exantema súbito é excelente em imunocompetentes; convulsões febris habitualmente não recorrem, porém em imunocomprometidos a reativação de HHV-6/HHV-7 pode causar encefalite límbica e falência de múltiplos órgãos.
A mão-pé-boca é benigna e autolimitada, resolvendo-se em cerca de uma semana.
As arboviroses são em geral autolimitadas, mas a dengue pode evoluir para formas hemorrágicas e de choque, e a chikungunya deixa artralgias prolongadas e hiperpigmentação.
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Referências
Achados (clique para explorar)
Dermatologia como ela acontece na prática: do diagnóstico ao tratamento.
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