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Fasciíte necrosante

Padrão inflamatório(Infecção necrosante de partes moles, Gangrena estreptocócica hemolítica, Úlcera de Meleney, Gangrena dérmica aguda, Gangrena hospitalar, Fasciíte supurativa, Celulite necrosante sinergística, Gangrena de Fournier, Bactérias comedoras de carne)

Conceito

Fasciíte necrosante é infecção bacteriana necrosante, destrutiva e rapidamente progressiva do tecido subcutâneo e da fáscia superficial, que constitui emergência médico-cirúrgica com altos índices de morbimortalidade.

Integra o espectro das infecções necrosantes de partes moles, termo cada vez mais empregado, que engloba a celulite necrosante (derme e subcutâneo), a fasciíte necrosante propriamente dita (fáscia) e a mionecrose/piomiosite (músculo).

A infecção dissemina-se rapidamente ao longo dos planos fasciais, tipicamente poupando a camada muscular até fases tardias.

A gangrena de Fournier é a forma de fasciíte necrosante que acomete genitália, períneo e parede abdominal inferior.

A gangrena de Meleney designa a fasciíte necrosante polimicrobiana que surge como complicação pós-operatória.

Foi historicamente descrita como gangrena estreptocócica hemolítica, úlcera de Meleney, gangrena dérmica aguda, gangrena hospitalar, fasciíte supurativa e celulite necrosante sinergística.

Epidemiologia

A incidência de fasciíte necrosante por Streptococcus do grupo A é de cerca de 0,4 por 100.000 habitantes nos Estados Unidos, e a incidência global das infecções necrosantes de partes moles varia de 0,3 a 15 por 100.000.

O CDC estima que ocorram entre 500 e 1.500 casos por ano nos Estados Unidos.

A mortalidade permanece alta, em torno de 25% a 35%, com relatos históricos de até 30% a 40%.

O sítio primário mais comum são os membros inferiores (cerca de 50% dos casos), seguidos por membros superiores (29%), tronco (9%), região perineal (8%) e face (1%).

Pode acometer pacientes de qualquer idade, com aumento significativo da incidência acima dos 65 anos, mas há relatos crescentes em adultos jovens previamente saudáveis.

O acometimento de crianças é raro e cursa de forma fulminante; cerca de metade dos casos pediátricos ocorre em pacientes com varicela.

Não há predileção por sexo.

O diabetes é a comorbidade mais frequente, presente em até 44,5% dos pacientes, geralmente associado a infecção polimicrobiana e piores desfechos.

Após a pandemia de COVID-19 houve aumento da incidência, principalmente por Streptococcus pyogenes altamente invasivo.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Diabetes mellitus (comorbidade mais comum, até 44,5% dos casos)
  • Doença arterial periférica/doença vascular oclusiva
  • Insuficiência renal crônica
  • Doença hepática crônica
  • Imunossupressão (corticosteroides sistêmicos, transplante de órgão sólido, infecção pelo HIV, quimioterapia)
  • Neoplasias malignas
  • Abuso de álcool
  • Uso de drogas intravenosas
  • Obesidade (IMC > 30 kg/m²)
  • Idade avançada (acima de 65 anos)
  • Desnutrição
  • Cirurgia recente (abdominal ou perineal)
  • Trauma penetrante ou fechado, mesmo mínimo
  • Lesões cutâneas prévias (varicela, úlceras isquêmicas e de decúbito, psoríase, mordeduras, picadas de inseto)
  • Queimaduras
  • Doenças autoimunes
  • Uso de anti-inflamatórios não esteroidais (associação sugerida)
  • Uso de inibidores de SGLT-2 (risco de gangrena de Fournier)
  • Contato com água do mar ou ingestão de frutos do mar crus (Vibrio vulnificus)
  • Contato com água doce ou terapia com sanguessugas (Aeromonas hydrophila)
  • Síndrome do choque tóxico estreptocócico
  • Gangrena de Fournier
  • Gangrena gasosa/mionecrose clostridial
  • Varicela (fator predisponente em crianças)
  • Diabetes mellitus
  • Doença arterial periférica
  • Imunossupressão

Patogênese

A inoculação ocorre habitualmente por trauma, ferimento penetrante ou cirurgia, incluindo lesões mínimas; células musculares lesadas apresentam maior aderência bacteriana.

As bactérias disseminam-se no tecido liberando toxinas; no caso de Streptococcus pyogenes e Staphylococcus aureus, tratam-se de exotoxinas.

As toxinas induzem alteração inflamatória da parede da microvasculatura que facilita a trombose microvascular, com isquemia e necrose coagulativa do subcutâneo e da fáscia.

A trombose dos vasos nutrientes causa necrose das fibras nervosas, o que explica a anestesia cutânea tardia.

As exotoxinas pirogênicas estreptocócicas (SPE A, SPE B e SPE C) e a proteína M atuam como superantígenos, ligando-se às células apresentadoras de antígeno e à região Vbeta do receptor de células T, com ativação inespecífica de mais de 10% dos linfócitos CD4+.

Isso desencadeia tempestade de citocinas, com liberação de TNF-alfa, interleucina 1, interleucina 6, TNF-beta, interleucina 2 e interferon-gama, mecanismo da síndrome do choque tóxico, observada em até metade das fasciítes por Streptococcus do grupo A.

A estreptolisina O e outros produtos bacterianos participam da injúria tecidual e da necrose.

A decomposição bacteriana produz gás sulfídrico e outros gases fétidos.

Os antibióticos penetram mal o tecido necrótico e trombosado, que se torna fonte perpétua de infecção, o que fundamenta a necessidade de controle cirúrgico da fonte.

Clínica

  • Dor intensa e desproporcional aos achados cutâneos visíveis (sinal precoce mais importante)
  • Eritema mal delimitado com edema tenso e endurecido ("placa lenhosa")
  • Edema que se estende além da área de eritema
  • Progressão rápida em horas a poucos dias
  • Mudança de coloração de eritematoso para arroxeado/acinzentado
  • Bolhas de conteúdo amarelado ou hemorrágico
  • Necrose cutânea e formação de crostas necróticas
  • Crepitação por gás tecidual
  • Exsudato fétido e purulento, tipo "água de lavar louça"
  • Anestesia cutânea tardia por destruição das fibras nervosas
  • Ausência de linfangite
  • Aparência de peau d'orange (característica em neonatos)
  • Toxemia sistêmica: febre, taquicardia, taquipneia, hipotensão e choque séptico
  • Alteração do estado mental
  • Resposta pobre à antibioticoterapia isolada
  • Frequência dos achados: tumefação 81%, dor 79%, eritema 71%, calor 44%, bolhas 26%, necrose cutânea 24%, crepitação 20%, febre 40%, hipotensão 21%
  • Sítios mais comuns: membros inferiores (~50%), membros superiores (29%), tronco (9%), períneo (8%), face (1%)

Classificação

  • Tipo I (polimicrobiana, 70-80% dos casos): flora mista de aeróbios e anaeróbios (Streptococcus, Staphylococcus aureus, Enterobacteriaceae, Escherichia coli, Bacteroides, Peptostreptococcus, Clostridium); associada a cirurgia abdominal ou perineal, diabetes e doença vascular periférica; frequentemente com gás tecidual
  • Tipo II (monomicrobiana, 20-30% dos casos): Streptococcus pyogenes (grupo A) isolado ou associado a Staphylococcus aureus, incluindo MRSA; tipicamente após trauma ou ferimento penetrante, em membros; acomete adultos jovens saudáveis
  • Tipo III: Gram-negativos, frequentemente marinhos, Vibrio vulnificus (água do mar/frutos do mar), Aeromonas hydrophila (água doce/sanguessugas) ou Clostridium (gangrena gasosa/mionecrose clostridial)
  • Tipo IV: fúngica, Candida em imunocomprometidos e zigomicetos (Apophysomyces) em imunocompetentes após trauma
  • Gangrena de Fournier: fasciíte necrosante de genitália, períneo e parede abdominal inferior, geralmente polimicrobiana
  • Gangrena de Meleney: fasciíte necrosante polimicrobiana como complicação pós-operatória
  • Classificação por profundidade: celulite necrosante (derme e subcutâneo), fasciíte necrosante (fáscia), mionecrose/piomiosite (músculo)

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Complicações e cuidados

  • Síndrome do choque tóxico estreptocócico ou estafilocócico (até 50% das fasciítes por Streptococcus do grupo A)
  • Sepse e choque séptico
  • Coagulação intravascular disseminada
  • Falência de múltiplos órgãos
  • Insuficiência renal aguda
  • Síndrome da angústia respiratória aguda
  • Trombocitopenia, hipocalcemia e hipoalbuminemia
  • Mionecrose ou miosite secundária
  • Bacteremia
  • Amputação de membro
  • Sequelas funcionais e necessidade de reabilitação prolongada
  • Óbito (mortalidade de 25% a 40%)

Prognóstico

A mortalidade global situa-se entre 25% e 40% (historicamente cerca de 30%), podendo chegar a 100% nos casos não operados ou com miosite.

O prognóstico depende da idade, das comorbidades e da gravidade da síndrome séptica.

A idade é o preditor mais forte de mortalidade: cerca de 0% abaixo dos 35 anos contra até 65% acima dos 70 anos.

Outros fatores associados a maior mortalidade incluem atraso no primeiro desbridamento, maior extensão da infecção, choque e hipotensão, necessidade de vasopressor, lactato e creatinina elevados, sexo feminino, bacteremia, síndrome do choque tóxico, gás tecidual e FGSI maior que 9 na gangrena de Fournier.

O diagnóstico e a cirurgia realizados nos primeiros quatro dias reduzem a mortalidade para cerca de 12%, e o desbridamento em até 6 horas reduz a mortalidade (19% versus 32%).

Os sobreviventes frequentemente apresentam sequelas funcionais e necessitam de reabilitação prolongada.

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Referências

  1. Fasciíte necrosante: revisão com enfoque nos aspectos dermatológicos. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2004.
  2. Evaluation and Management of Necrotizing Soft Tissue Infections. Infectious Disease Clinics of North America. 2017.
  3. WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways for patients with skin and soft tissue infections. World Journal of Emergency Surgery. 2022.
  4. Consensus on the diagnosis and treatment of adult necrotizing fasciitis (2025 edition). Burns & Trauma. 2025.

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