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Foliculite bacteriana

Padrão inflamatório(Foliculite, Foliculite estafilocócica, Impetigo de Bockhart, Sicose da barba, Foliculite superficial, Foliculite profunda, Foliculite da banheira quente, Foliculite por Pseudomonas, Foliculite gram-negativa, Foliculite por Malassezia, Foliculite pitirospórica)

Imagens

Conceito

Foliculite é a inflamação do folículo piloso, na maioria das vezes por infecção, que se traduz clinicamente por pústula ou pápula eritematosa centrada no óstio folicular em pele com pelos.

A forma superficial acomete apenas o infundíbulo e corresponde ao impetigo de Bockhart, com papulopústulas pequenas sobre fundo eritematoso.

A forma profunda compromete todo o folículo e é exemplificada pela sicose da barba, com papulopústulas grandes, por vezes confluindo em placas eritematosas salpicadas de pústulas.

O agente infeccioso mais comum é o Staphylococcus aureus, tanto sensível quanto resistente à meticilina.

Outros agentes bacterianos incluem Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella, Enterobacter, Proteus, Escherichia coli, Klebsiella oxytoca, Acinetobacter baumannii e micobactérias não tuberculosas.

Fungos (Malassezia), vírus (herpes simples, molusco contagioso) e ácaros (Demodex folliculorum) produzem quadros clinicamente semelhantes, e há foliculites não infecciosas, inflamatórias ou por fármacos.

Trata-se de condição comum, benigna e habitualmente autolimitada, mas que pode progredir para furúnculo, carbúnculo, abscesso e celulite, sobretudo no imunossuprimido.

Epidemiologia

A incidência exata da foliculite não é conhecida.

O sexo, isoladamente, não se correlaciona com maior incidência da doença, mas correlaciona-se com o tipo de foliculite.

A foliculite gram-negativa é mais comum em homens adultos com acne em uso prolongado de antibiótico.

Estima-se que 67% das banheiras quentes e 63% das piscinas estejam contaminadas por Pseudomonas aeruginosa em qualquer momento, o que explica os surtos que acometem vários usuários de uma mesma instalação pública.

Em surtos de foliculite por Pseudomonas há predomínio de mulheres, atribuído a diferenças intrínsecas da flora cutânea e ao uso de produtos tópicos como loções e desodorantes.

A foliculite por Malassezia predomina em adolescentes e adultos jovens, período de maior atividade sebácea, e a frequência e a densidade de colonização por Malassezia acompanham a idade e a produção de sebo.

Em série retrospectiva de 48 pacientes com foliculite por Malassezia confirmada por citologia, a média de idade foi 22,2 anos, a razão entre homens e mulheres foi de 11 para 1, a duração média da doença foi 10,9 meses, 83% trabalhavam em ambiente quente e 71% referiam a sudorese como fator agravante.

Em estudo transversal com 185 pacientes com infecção pelo HIV, 25 (13,5%) tinham infecção por Malassezia e 4 destes (16%) tinham foliculite por Malassezia, a maioria dos casos em pacientes com aids.

Em estudo transversal comparativo com 96 indivíduos, Malassezia furfur foi isolada em 16,7% dos soropositivos para HIV contra 1,3% dos soronegativos.

A foliculite pustulosa eosinofílica de Ofuji, forma clássica de foliculite eosinofílica, acomete tipicamente pacientes por volta dos 30 anos, é mais frequente em homens que em mulheres e é mais comum em japoneses.

A foliculite eosinofílica associada à imunossupressão ocorre predominantemente na infecção avançada pelo HIV, com contagens baixas de CD4.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Colonização nasal por Staphylococcus aureus
  • Barbear frequente e depilação
  • Oclusão da pele por roupa, traje de banho ou equipamento
  • Sudorese excessiva e clima quente e úmido
  • Uso de banheira quente, piscina ou hidromassagem com cloração inadequada
  • Tempo prolongado de imersão em água contaminada
  • Diabetes melito
  • Obesidade
  • Uso prolongado de antibiótico oral, especialmente tetraciclinas para acne
  • Uso de corticosteroide tópico
  • Corticoterapia sistêmica
  • Imunossupressão (infecção pelo HIV com CD4 abaixo de 250, transplante de órgão, neoplasia hematológica, imunossupressores)
  • Trauma cutâneo, queimadura térmica e queimadura solar com descamação
  • Contato próximo com portador de furunculose ou de Staphylococcus aureus resistente à meticilina de origem comunitária
  • Fármacos: lítio e ciclosporina
  • Aumento do prurido e ato de coçar
  • Infecção pelo HIV e aids
  • Transplante de órgão sólido, incluindo transplante cardíaco
  • Neoplasias hematológicas e leucemia
  • Uso de imunossupressores e de corticosteroides sistêmicos
  • Diabetes melito
  • Síndrome inflamatória de reconstituição imune, na qual a foliculite eosinofílica é um dos eventos cutâneos inflamatórios característicos
  • Acne vulgar em tratamento antibiótico prolongado (foliculite gram-negativa e foliculite por Malassezia)

Patogênese

A infecção do folículo piloso é o mecanismo da maioria dos casos, com invasão do epitélio folicular e formação de pústula, sem toxicidade sistêmica.

Na foliculite estafilocócica, a colonização nasal por Staphylococcus aureus é o principal fator predisponente e a fonte de autoinoculação.

A foliculite por Pseudomonas aeruginosa decorre de infecção do epitélio folicular em pele continuamente úmida e ocluída: a imersão prolongada aumenta a absorção de água pelo estrato córneo e sua permeabilidade, facilitando a invasão bacteriana; a oclusão pelo traje de banho concentra o inóculo.

Alterações da flora cutânea normal favorecem a colonização por Pseudomonas: no diabetes, o estresse oxidativo da hiperglicemia reduz as bactérias cutâneas protetoras, e a colonização por bactérias patogênicas aumenta proporcionalmente à elevação glicêmica; na leucemia e na imunossupressão medicamentosa há colonização rápida por gram-negativos por redução dos gram-positivos que normalmente os excluem; fenômeno semelhante ocorre no uso crônico de antibióticos, em especial tetraciclinas.

Queimaduras térmicas e solares rompem o estrato córneo e comprometem a defesa cutânea contra a infecção bacteriana.

Na foliculite gram-negativa, o uso prolongado de antibióticos para acne (sobretudo tetraciclinas) leva à colonização das narinas anteriores por Proteus, Enterobacter, Escherichia coli ou Klebsiella, com disseminação secundária à pele adjacente.

A foliculite por Malassezia resulta do supercrescimento de leveduras lipodependentes do gênero Malassezia dentro do folículo, principalmente Malassezia globosa, M. restricta, M. furfur e M. sympodialis.

Malassezia induz nos queratinócitos, via receptor Toll-like 2, a produção de citocinas inflamatórias (interleucina 1-alfa, interleucina 6, interleucina 8, interleucina 12 e fator de necrose tumoral alfa) e das anti-inflamatórias interleucina 4 e interleucina 10, além de ativar o complemento pelas vias clássica e alternativa.

Umidade, oclusão, antibióticos e imunossupressão facilitam esse supercrescimento.

Estudo transversal com cultura e reação em cadeia da polimerase comparando lesões de 32 pacientes com foliculite por Malassezia, pele não lesional destes e pele de 40 controles saudáveis encontrou as mesmas espécies predominantes e nenhuma diferença no número de espécies ou na carga total, o que indica que a doença decorre do supercrescimento ou da desregulação das espécies residentes, e não de cepa exógena ou nova.

A foliculite eosinofílica caracteriza-se por infiltrado inflamatório rico em eosinófilos dentro e ao redor do folículo, de causa não esclarecida, provavelmente por desregulação imune, podendo haver infecção subjacente associada.

Nem toda foliculite é infecciosa: pode resultar de inflamação secundária a pelo encravado ou ser induzida por fármacos como lítio e ciclosporina.

Clínica

  • Pústula folicular, em geral com 5 mm ou menos, sobre base eritematosa, com pelo central e sem toxicidade sistêmica
  • Lesões múltiplas, agrupadas e pruriginosas, que podem drenar espontaneamente e involuir sem cicatriz
  • Acometimento de áreas com pelos terminais: couro cabeludo, barba, tronco, nádegas e coxas
  • Foliculite estafilocócica com predileção pela face, tipicamente a área da barba
  • Forma superficial (impetigo de Bockhart): pequenas papulopústulas sobre fundo eritematoso
  • Forma profunda (sicose da barba): papulopústulas grandes e eritematosas, com ou sem placas salpicadas de pústulas menores

Foliculite por Pseudomonas

  • Pápulas e papulopústulas perifoliculares edematosas, rosadas a vermelhas, de 2 a 10 mm, pruriginosas
  • Início 12 a 48 horas após o banho de imersão, com predomínio nas áreas ocluídas pelo traje de banho, tronco, flancos, axilas, nádegas e orelhas
  • Dermatoscopia da foliculite por Pseudomonas: pústula com punctum central sobre base eritematosa

Foliculite gram-negativa

  • Numerosas pústulas pruriginosas sobre base eritematosa, efêmeras, mas com surgimento contínuo de lesões novas
  • Região central da face, com lesões que se irradiam do nariz e da boca para a região perinasal e a barba, ou em torno da boca e da linha mandibular, com pústulas dolorosas

Foliculite por Malassezia

  • Pápulas e pústulas foliculares monomorfas de 1 a 2 mm, eritematosas ou da cor da pele, levemente pruriginosas
  • Distribuição em áreas seborreicas, com face (57%), dorso (53%), face extensora dos braços (38,8%), tórax (36,7%) e pescoço (18,3%); acometimento de múltiplas regiões em 71,4%
  • Ausência de comedões, nódulos e cistos na foliculite por Malassezia
  • Prurido leve a moderado em 65% a 71% dos pacientes com foliculite por Malassezia; escoriações e hiperpigmentação são comuns
  • Dermatoscopia da foliculite por Malassezia: escama (73,3%), hipopigmentação da haste pilosa afetada (60%), aspecto semelhante a ceratose pilar (53,3%), eritema perifolicular, vasos tortuosos e pelos quebrados
  • Foliculite herpética (sicose herpética): vesículas e pústulas foliculares agrupadas na área da barba, em geral por herpes simples tipo 1, em imunodeprimidos
  • Foliculite viral com papulovesículas ou placas, e não pústulas, com lesões dispostas em grupos ou aglomerados
  • Foliculite eosinofílica: pápulas foliculares eritematosas e urticadas, intensamente pruriginosas, em tronco superior, face, pescoço e couro cabeludo, com pústulas raras
  • Doença de Ofuji: surtos explosivos e recorrentes de pápulas e pústulas foliculares agrupadas, com placas eritematosas cobertas por pústulas coalescentes, clareamento central e extensão centrífuga formando lesões figuradas ou serpiginosas em face, dorso e face extensora dos braços, com eosinofilia periférica
  • Foliculite pustulosa eosinofílica neonatal: pústulas e vesículas perifoliculares pruriginosas sobre base eritematosa, sobretudo no couro cabeludo, com crostas secundárias
  • Infundibulofoliculite disseminada e recorrente: centenas de pápulas foliculares monótonas de 1 a 2 mm, cor da pele e pruriginosas, semelhantes a arrepio, no tronco mais que no pescoço e nos membros superiores, com duração de meses a anos

Classificação

  • Foliculite superficial (impetigo de Bockhart)
  • Foliculite profunda (sicose da barba)
  • Foliculite bacteriana por Staphylococcus aureus (sensível ou resistente à meticilina)
  • Foliculite por Pseudomonas aeruginosa (foliculite da banheira quente)
  • Foliculite gram-negativa (Klebsiella, Enterobacter, Proteus, Escherichia coli), pós-antibioticoterapia prolongada para acne
  • Foliculite fúngica por Malassezia (antiga foliculite pitirospórica)
  • Foliculite viral (herpes simples, molusco contagioso)
  • Foliculite por Demodex folliculorum
  • Foliculite eosinofílica: doença de Ofuji, associada à imunossupressão/HIV e pustulosa eosinofílica neonatal
  • Foliculite não infecciosa por pelo encravado, depilação ou oclusão
  • Foliculite induzida por fármacos (lítio, ciclosporina, corticosteroides)

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Complicações e cuidados

  • Progressão para furúnculo, carbúnculo e abscesso
  • Celulite
  • Bacteriemia e infecções mais graves de pele e partes moles em imunossuprimidos
  • Hiperpigmentação pós-inflamatória e escoriações
  • Recorrência, comum na foliculite por Malassezia (cerca de 25% dos respondedores, geralmente em até 4 meses)
  • Atraso diagnóstico, com média de 61 meses de doença antes do diagnóstico em imunocompetentes com foliculite por Malassezia
  • Uso inapropriado e prolongado de antibiótico sistêmico, que agrava a foliculite por Malassezia
  • Efeitos adversos dos medicamentos, incluindo alergias e interações medicamentosas

Prognóstico

O prognóstico é muito bom: a doença é benigna e, na maioria dos casos, autolimitada, com recuperação completa.

Na foliculite estafilocócica superficial, as lesões drenam ou involuem sem cicatriz em poucos dias.

A foliculite por Pseudomonas aeruginosa regride espontaneamente em até 2 semanas no imunocompetente.

A foliculite gram-negativa tem lesões efêmeras, mas novas lesões continuam a surgir enquanto persistir o fator predisponente.

A foliculite por Malassezia segue curso crônico e recidivante, responde rapidamente ao antifúngico (melhora clínica significativa em 2 a 4 semanas) e recorre com frequência, o que justifica terapia de manutenção e educação sobre sudorese, oclusão e uso inadequado de antibióticos.

A doença de Ofuji resolve espontaneamente e recidiva em surtos a cada 3 a 4 semanas.

A foliculite pustulosa eosinofílica neonatal tem curso cíclico e autolimitado, de alguns meses a anos.

Com higiene adequada e controle das condições predisponentes, as taxas de recorrência permanecem baixas.

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Referências

  1. Folliculitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island: StatPearls Publishing; 2023.
  2. Hot Tub-Associated Pseudomonas Folliculitis: A Case Report and Review of Host Risk Factors. Cureus. 2020.
  3. Malassezia Folliculitis: An Underdiagnosed Mimicker of Acneiform Eruptions. Journal of Fungi. 2025.
  4. Microbiology and management of soft tissue and muscle infections. International Journal of Surgery. 2008.

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