Foliculite queloidiana da nuca
Conceito
Foliculite crônica do couro cabeludo occipital e da nuca que evolui com pápulas e pústulas foliculares, fibrose e placas de aspecto queloidiano, resultando em alopecia cicatricial.
É classificada entre as alopecias cicatriciais primárias de padrão inflamatório misto, ao lado da foliculite decalvante e da celulite dissecante.
Apesar do nome, não é acne nem queloide verdadeiro: as lesões iniciais mostram colágeno de aspecto cicatricial e o colágeno queloidiano só aparece na doença grave.
O curso natural começa com pápulas inflamadas e eritema marcado, progride para pápulas fibróticas que coalescem em placas e nódulos e termina em cicatriz e alopecia cicatricial sem inflamação ativa.
A doença é limitada, mas debilitante, com prurido, dor, sangramento e grande impacto na autoestima e na qualidade de vida.
Epidemiologia
A incidência relatada varia de 0,45% a 9%, e a prevalência estimada em populações de pele negra vai de 0,5% a 13,6%.
É mais frequente nos fototipos V e VI de Fitzpatrick e em pessoas de ascendência africana, mas ocorre também em pessoas de pele clara.
Nas casuísticas disponíveis, as categorias autodeclaradas mais representadas são, em ordem decrescente de frequência, negros, hispânicos/latinos, asiáticos e brancos; uma coorte retrospectiva mostrou proporção significativa de pacientes hispânicos e há séries com homens asiáticos.
Acomete homens cerca de 20 vezes mais que mulheres, o que sugere participação androgênica.
O início ocorre tipicamente após a adolescência e antes dos 55 anos de idade.
Deve ser considerada em qualquer paciente com foliculite cicatricial da nuca, independentemente do fototipo.
Fatores de risco e doenças associadas
- Sexo masculino no período pós-puberal
- Fototipos V e VI de Fitzpatrick e ascendência africana
- Cabelo encaracolado ou crespo
- Corte de cabelo rente, raspagem da cabeça e cortes frequentes
- Sangramento da pele durante o corte de cabelo
- Pelos encravados
- Atrito e oclusão crônicos da nuca por colarinho, capacete e equipamento esportivo
- Acne mecânica prévia da região nucal, descrita como precursora em jogadores adolescentes de futebol americano
- Uso crônico de imunossupressores após transplante (ciclosporina, tacrolimo, sirolimo)
- Obesidade, com dobras cutâneas cervicais e occipitais que geram trauma local
- História familiar da doença (relatos de foliculite queloidiana familiar)
- Hidradenite supurativa
- Foliculite decalvante
- Foliculite crônica do couro cabeludo, associada às formas graves
- Queratose folicular espinulosa decalvante (KFSD), que cursa com queratose pilar difusa do couro cabeludo e das sobrancelhas
- Foliculite em tufos
- Cutis verticis gyrata (espessamento do couro cabeludo com dobras excessivas)
- Síndrome metabólica, com associação descrita para os quatro componentes (diabetes melito, hipertensão arterial, obesidade e dislipidemia)
- Acantose nigricans, marcador cutâneo de obesidade e de síndrome metabólica
- Hipotireoidismo de início recente
Patogênese
A patogênese exata não está definida e é considerada multifatorial, com trauma cutâneo e reação imune aberrante como as duas teorias predominantes.
Irritação, oclusão, atrito e as práticas de corte de cabelo, sobretudo o corte rente com lâmina e a raspagem da cabeça, funcionam como gatilho, e a doença costuma surgir após um corte muito curto que deixa pelos encravados.
O trauma leva a pústulas inflamatórias que evoluem para pápulas fibróticas no local da lesão, com deposição de colágeno mediada pela inflamação.
Na teoria imunológica, antígenos intrafoliculares atraem células inflamatórias para o folículo, danificam a glândula sebácea e a parede folicular, causam ruptura do folículo com liberação de mais antígenos, perpetuando a inflamação, a destruição epitelial e a fibrose.
A curvatura característica do cabelo afro-texturizado é apontada como fator desencadeante, mas não há evidência clínica ou histopatológica que sustente essa hipótese.
Há elementos metabólicos na cadeia causal: a resistência à insulina foi implicada na patogênese; na hipertensão, o aumento do sistema renina-angiotensina eleva a angiotensina II, que aumenta a expressão de TGF-beta1 e promove fibrogênese; na obesidade, o aumento do índice de massa corporal cria dobras cervicais e occipitais que geram trauma mecânico local.
A hiperatividade dos fibroblastos dérmicos, possivelmente por regulação positiva da via do TGF-beta, é o mecanismo proposto para a associação com a cutis verticis gyrata.
Imunossupressão medicamentosa também foi implicada, com casos descritos durante uso crônico de ciclosporina após transplante cardíaco e de tacrolimo e sirolimo em transplantados renais.
Casos familiares foram descritos, sugerindo um componente hereditário em parte dos pacientes.
A infecção bacteriana secundária amplifica a inflamação e contribui para a progressão.
Clínica
- Pápulas foliculares firmes, cupuliformes e pruriginosas na nuca e no couro cabeludo occipital
- Pústulas inflamatórias com eritema marcado nas fases iniciais, muitas vezes surgindo após corte de cabelo rente
- Pápulas crostosas e pústulas salpicando as placas
- Pápulas fibróticas que se tornam queloidianas e coalescem em placas e nódulos grandes
- Distribuição em faixa junto à linha posterior de implantação capilar
- Alopecia cicatricial nas áreas acometidas
- Prurido, dor e sangramento como sintomas mais relatados
- Pústulas, abscessos e trajetos sinuosos quando há infecção bacteriana secundária
- Pelos encravados e tufos de pelos emergindo de um mesmo óstio
- Fase tardia com cicatriz e alopecia cicatricial sem inflamação ativa
- Ausência de queloides em outras áreas do corpo e de história familiar de queloide na maioria dos pacientes
Classificação
- Doença inicial: pápulas e pústulas inflamatórias com eritema, ainda sem fibrose consolidada
- Doença tardia/fibrótica: pápulas fibróticas, placas e nódulos queloidianos com alopecia cicatricial
- Estágio tumoral: massas queloidianas extensas e volumosas
- Doença cicatricial inativa: cicatriz e alopecia sem inflamação
- Para fins cirúrgicos, distinguem-se lesões pequenas (menores que 3 cm, sobretudo na porção alta da nuca) das lesões extensas e refratárias
Histopatologia Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Diagnósticos diferenciais Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Manejo Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Procedimentos relacionados Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Complicações e cuidados
- Alopecia cicatricial permanente
- Infecção bacteriana secundária com pústulas, abscessos e trajetos sinuosos
- Prurido, dor e sangramento crônicos
- Impacto psicossocial importante, com 60% dos pacientes relatando pensar nas lesões o tempo todo
- Cicatriz hipertrófica pós-operatória
- Recidiva de pápulas na periferia ou na área operada
- Sangramento, deiscência e infecção pós-operatórios
- Tempo de cicatrização prolongado após excisão ou laser de CO2
- Cicatriz e discromia após vaporização com laser de CO2 em pele negra
- Alopecia induzida por radioterapia e risco aumentado de neoplasia na área irradiada
Prognóstico
A doença é crônica e recidivante, e o tratamento clínico costuma exigir meses para resultados incompletos, com recaída frequente após a suspensão.
A alopecia cicatricial instalada é irreversível.
A excisão cirúrgica remove os folículos e torna a recidiva na área operada pouco provável, mas 17 de 41 pacientes operados em séries revisadas apresentaram recidiva leve, e a cicatriz é a principal preocupação.
A resposta ao tratamento correlaciona-se com a gravidade inicial, medida pela palpabilidade das lesões.
Casos refratários a múltiplas terapias podem obter resolução completa com radioterapia, sem recidiva em seguimentos de até 20 meses.
O impacto na autoestima e na qualidade de vida é grande e justifica tratamento ativo mesmo nas formas limitadas.
Pérola clínica Assinante
Conteúdo para assinantes. Assinar →
Referências
Achados (clique para explorar)
Dermatologia como ela acontece na prática: do diagnóstico ao tratamento.
Aprenda comigo →Atendimento dermatológico em Palmas, TO: caioformiga.com.
Consulte comigo →