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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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© 2026 Dr. Caio Formiga, DermatologistaCRM/TO 3606 · RQE 2226 · Membro da SBDPrivacidade
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Hemangioma infantil

benignaderme(Hemangioma da infância, Infantile hemangioma)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaDermatoscopiaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchados

Conceito

Tumor vascular benigno da infância, formado por uma proliferação capilar verdadeira do endotélio, e não por uma malformação de vasos já constituídos.

É o tumor benigno mais comum da infância.

A história natural é a chave diagnóstica: a lesão costuma estar ausente ou pouco evidente ao nascimento, surge nas primeiras semanas de vida, cresce rapidamente nos primeiros meses, estabiliza e involui lentamente ao longo de anos.

As malformações vasculares, ao contrário, estão presentes ao nascer, crescem proporcionalmente à criança e não involuem.

A imuno-histoquímica confirma a distinção: o hemangioma infantil é GLUT-1 positivo, enquanto as malformações vasculares, o hemangioma congênito de involução rápida (RICH), o hemangioma congênito não involutivo (NICH) e o hemangioendotelioma kaposiforme são GLUT-1 negativos.

A maioria não precisa de tratamento. Um subgrupo de lesões de risco exige avaliação e tratamento precoces, dentro da janela da fase proliferativa, que se fecha nos primeiros meses de vida.

Epidemiologia

Ocorre em 4% a 5% dos lactentes.

É mais frequente no sexo feminino, em gemelares, em prematuros e em recém-nascidos de baixo peso: até 30% dos nascidos com menos de 1 kg são acometidos.

Também é descrito como mais frequente em recém-nascidos brancos (categoria conforme reproduzida nos estudos, de base autodeclarada).

Alterações placentárias associam-se a maior incidência.

Em serviços de referência, 55% a 69% dos hemangiomas não tratados deixam alterações cutâneas permanentes.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Prematuridade
  • Baixo peso ao nascer (até 30% dos nascidos com menos de 1 kg)
  • Sexo feminino
  • Gestação gemelar
  • Alterações placentárias
  • Biópsia de vilo corial

Síndrome PHACE

  • Predomínio no sexo feminino, na proporção de 9 para 1
  • Hemangioma segmentar grande de cabeça e pescoço (em geral maior que 5 cm); o risco de PHACE em lactente com hemangioma segmentar grande de cabeça ou pescoço é de cerca de 30%
  • Anomalias cerebrovasculares, o achado extracutâneo mais comum, presentes em mais de 90% dos pacientes
  • Anomalias cardíacas em 67% e anomalias estruturais do encéfalo em 52%
  • Malformações da fossa posterior (por exemplo Dandy-Walker e hipoplasia cerebelar)
  • Anomalias arteriais (carótidas internas e artérias cerebrais)
  • Coarctação de aorta, comunicação interventricular e interatrial, persistência do canal arterial
  • Anomalias oculares (microftalmia, atrofia óptica, catarata, estrabismo, exoftalmia)
  • Fenda esternal ou rafe supraumbilical (defeitos ventrais da linha média, que originam a variante do acrônimo PHACES)
  • Risco aumentado de acidente vascular cerebral

Síndrome LUMBAR

  • Equivalente da PHACE na metade inferior do corpo
  • Hemangioma quase sempre segmentar, de região lombossacra ou perineal, com extensão frequente a um membro inferior
  • Lesões com frequência pouco proliferativas, com predomínio de máculas telangiectásicas sobre o componente superficial volumoso; a ulceração pode ser a pista precoce
  • Mielopatia, sobretudo disrafismo espinhal, é a anomalia extracutânea mais comum
  • Anomalias e ulcerações urogenitais
  • Deformidades ósseas
  • Malformação anorretal
  • Anomalias renais e arteriais
  • Raramente, hipodesenvolvimento ou hipercrescimento do membro acometido

Hemangiomas múltiplos (cinco ou mais)

  • Hemangiomas hepáticos, nos padrões multifocal e difuso
  • Hemangiomas em trato gastrintestinal, encéfalo e outros órgãos, raros e associados sobretudo a hemangiomas segmentares grandes; não se rastreiam na ausência de sinais ou sintomas

Patogênese

O hemangioma infantil é uma neoplasia verdadeira: há proliferação de células endoteliais, com fase de crescimento pós-natal rápida seguida de involução espontânea, ao contrário da malformação vascular, em que o número de vasos é normal e não há proliferação endotelial.

A expressão de GLUT-1 pelas células endoteliais é característica da lesão e serve de marcador diagnóstico.

A patogênese não está totalmente definida. Uma das hipóteses é a migração de células progenitoras endoteliais circulantes para locais em que as condições (hipóxia, distúrbios de campo do desenvolvimento) favorecem o crescimento.

As células endoteliais da lesão são clonais e apresentam proliferação e migração aumentadas, o que aponta para ativação intrínseca anômala do endotélio com expansão clonal local, e não para resposta secundária a fatores externos.

O perfil de marcadores das células endoteliais lesionais (GLUT-1, merosina, FcRII, antígeno Lewis Y, deiodinase tipo 3 da iodotironina, indoleamina 2,3-dioxigenase, IGF2) assemelha-se ao dos microvasos da placenta humana, o que sustenta a hipótese de origem em células embolizadas de origem placentária.

Outra hipótese propõe origem em células-tronco ou progenitoras indiferenciadas: as células-tronco derivadas do hemangioma expressam CD90 e, implantadas isoladamente em camundongos, formam vasos com fenótipo de hemangioma infantil e alta expressão de GLUT-1, além de se diferenciarem em adipócitos, o que explica o tecido fibroadiposo da fase involutiva.

Nas células endoteliais do hemangioma, a via VEGF está constitutivamente ativada: há sub-regulação do VEGFR1, sobra de VEGF para se ligar ao VEGFR2 e ativação de ERK e Akt independentemente de VEGF exógeno.

Foram descritas substituições germinativas em TEM8 (p.A326T) e VEGFR2 (troca de cisteína por arginina na posição 482), que aumentam a interação entre VEGFR2, TEM8 e integrina beta-1 e inativam a via integrina/NFATc2/VEGFR1; funcionam como variantes de risco e exigem um segundo evento somático para a expansão clonal.

A classificação ISSVA 2018 não define gene causal para o hemangioma infantil.

Quando há hemangiomas hepáticos, o tecido lesional pode produzir a enzima deiodinase tipo 3, capaz de inativar hormônio tireoidiano e levar a hipotireoidismo consumptivo.

Clínica

  • Em geral não é evidente ao nascer e aparece nos primeiros meses de vida, com início clínico antes das 4 semanas na maioria dos casos.
  • Achados premonitórios na pele do lactente: área de palidez localizada ou eritema macular telangiectásico.
  • Crescimento rápido e não linear, com aceleração entre a quinta e a sétima semana de vida; o crescimento mais rápido das lesões superficiais ocorre entre 1 e 3 meses de idade.
  • A lesão atinge 80% do tamanho final aos 3 meses e, na grande maioria dos casos, completa o crescimento aos 5 meses.
  • Os hemangiomas profundos ou com componente profundo aparecem mais tarde (1 a 2 meses de vida ou depois) e seguem trajetória de crescimento distinta.
  • Segue-se involução lenta ao longo de anos.
  • Pode surgir em qualquer sítio.

Profundidade da lesão

  • Superficial: vermelho-vivo, sem componente subcutâneo evidente (antiga designação de hemangioma em morango)
  • Profundo: azulado, situado abaixo da superfície cutânea (antiga designação de hemangioma cavernoso)
  • Combinado (misto): componentes superficial e profundo

Padrão anatômico

  • Localizado: lesão focal bem definida, que parece surgir de um ponto central
  • Segmentar: acomete um território anatômico, costuma ser em placa e medir mais de 5 cm
  • Indeterminado: nem claramente localizado nem claramente segmentar (parcialmente segmentar)
  • Multifocal: múltiplos hemangiomas discretos em sítios distintos
  • Hemangioma infantil com crescimento mínimo ou interrompido (IH-MAG):
  • Placa de telangiectasias finas ou grosseiramente reticuladas, em geral numa zona de vasoconstrição
  • Pode ser confundido com mancha vinho do Porto ou outra malformação vascular
  • Falta a fase proliferativa robusta, mas pode ulcerar e, se for segmentar, associar-se a anomalias estruturais
  • Hemangiomas congênitos (GLUT-1 negativos, não são hemangioma infantil):
  • RICH (rapidly involuting congenital hemangioma): totalmente desenvolvido ao nascer, sem proliferação pós-natal, involui em cerca de 1 ano
  • NICH (noninvoluting congenital hemangioma): totalmente desenvolvido ao nascer, cresce proporcionalmente ao paciente e não involui
  • Hemangiomas de alto risco, com risco de complicação ameaçadora à vida:
  • Hemangioma em distribuição em barba (bochecha pré-auricular, mandíbula, lábio inferior, mento, pescoço anterior): risco de hemangioma obstrutivo de via aérea
  • Cinco ou mais hemangiomas cutâneos: risco de hemangioma hepático, insuficiência cardíaca e hipotireoidismo
  • Hemangiomas de alto risco, com risco de comprometimento funcional:
  • Hemangioma periocular maior que 1 cm: astigmatismo, anisometropia, proptose, ambliopia
  • Hemangioma de lábio ou de cavidade oral: dificuldade alimentar

Hemangiomas de alto risco, com risco de ulceração

  • Hemangioma de qualquer tamanho em lábios, columela, hélice superior da orelha, sulco interglúteo, períneo, pele perianal e demais áreas intertriginosas (pescoço, axilas, região inguinal)
  • Hemangioma segmentar
  • Hemangiomas de alto risco, com risco de anomalia estrutural associada:
  • Hemangioma segmentar de face ou couro cabeludo: síndrome PHACE
  • Hemangioma segmentar de região lombossacra ou perineal: síndrome LUMBAR
  • Hemangiomas de alto risco, com risco de desfiguração permanente:
  • Hemangioma segmentar, sobretudo de face e couro cabeludo
  • Hemangioma facial de ponta nasal ou lábio, de qualquer tamanho
  • Hemangioma de qualquer localização facial com 2 cm ou mais (1 cm ou mais se a criança tem até 3 meses)
  • Hemangioma de couro cabeludo maior que 2 cm: alopecia permanente e sangramento profuso se ulcerar
  • Hemangioma de pescoço, tronco ou extremidade maior que 2 cm, sobretudo na fase de crescimento ou quando há transição abrupta da pele normal para a pele afetada (efeito de degrau)
  • Hemangioma superficial espesso (2 mm ou mais de espessura)
  • Hemangioma de mama em lactente do sexo feminino: assimetria mamária e alteração do contorno do mamilo

Classificação

Por profundidade

  • Superficial
  • Profundo
  • Combinado (misto)

Por padrão anatômico

  • Localizado
  • Segmentar
  • Indeterminado (parcialmente segmentar)
  • Multifocal

Variante de crescimento

  • Hemangioma infantil com crescimento mínimo ou interrompido (IH-MAG)
  • Hemangiomas congênitos (entidades distintas, GLUT-1 negativas):
  • Hemangioma congênito de involução rápida (RICH)
  • Hemangioma congênito não involutivo (NICH)

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Complicações e cuidados

  • Ulceração (incidência de 5% a 21% em populações de referência), mais frequente antes dos 4 meses, na fase proliferativa
  • Dor, sangramento, infecção secundária e cicatriz decorrentes da ulceração
  • Sangramento profuso, raro, sobretudo no couro cabeludo e na ulceração profunda
  • Alterações cutâneas permanentes e desfiguração (indicação mais comum de tratamento)
  • Astigmatismo, anisometropia, proptose e ambliopia no hemangioma periocular
  • Dificuldade alimentar no hemangioma de lábio, cavidade oral ou via aérea
  • Hemangioma obstrutivo de via aérea, tipicamente subglótico, com estridor bifásico e tosse ladrante, frequentemente confundido com crupe ou doença reativa das vias aéreas
  • Insuficiência cardíaca de alto débito por shunt macrovascular nos hemangiomas hepáticos multifocais
  • Hemangioma hepático difuso: hepatomegalia grave antes dos 4 meses, síndrome compartimental abdominal, insuficiência renal por compressão da veia renal, comprometimento do retorno venoso pela veia cava inferior
  • Hipotireoidismo consumptivo pela produção de deiodinase tipo 3 pelos hemangiomas hepáticos
  • Alopecia permanente no hemangioma de couro cabeludo
  • Assimetria mamária e alteração do contorno do mamilo no hemangioma de mama

Prognóstico

A involução espontânea é a regra, mas com frequência é incompleta: em serviços de referência, 55% a 69% dos hemangiomas não tratados deixam alterações cutâneas permanentes, sobretudo quando o componente superficial é espesso e há transição abrupta da pele afetada para a pele normal (efeito de degrau).

O ensinamento clássico de que 50% involuem até os 5 anos, 70% até os 7 anos e 90% até os 9 anos mostrou-se incorreto: a maioria dos hemangiomas não melhora significativamente depois dos 3 a 4 anos de idade.

O RICH involui completamente em cerca de um ano, e o NICH não involui.

O fenômeno de Kasabach-Merritt, que ocorre com angioma tufoso e hemangioendotelioma kaposiforme, tem mortalidade de 10% a 30% por insuficiência cardíaca de alto débito e hemorragia interna.

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Referências

  1. Clinical Practice Guideline for the Management of Infantile Hemangiomas. Pediatrics. 2019.
  2. ISSVA Classification of Vascular Anomalies and Molecular Biology. International Journal of Molecular Sciences. 2022.
  3. Exploring Pediatric Dermatology in Skin of Color: Focus on Dermoscopy. Life. 2024.
  4. Dermoscopic Features Summarization and Comparison of Four Types of Cutaneous Vascular Anomalies. Frontiers in Medicine. 2021.
  5. Dermoscopic Analysis of Vascular Malformations and Tumors Based Upon Dominant Vascular Dermoscopic Features: A Retrospective Analysis From a Tertiary Care Center of East India. Cureus. 2022.

Achados (clique para explorar)

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