Herpes simples
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Conceito
O herpes simples é uma infecção viral recorrente causada pelos herpesvírus humanos HSV-1 (HHV-1) e HSV-2 (HHV-2).
Caracteriza-se por erupções vesiculosas agrupadas sobre base eritematosa, com predileção orolabial (classicamente HSV-1) e genital (classicamente HSV-2).
Pertence à família Herpesviridae, sendo vírus de DNA de fita dupla, com capsídeo icosaédrico e envelope glicoproteico, que se replica no núcleo da célula hospedeira.
O curso biológico compreende três fases: infecção, latência nos gânglios sensitivos (raiz dorsal) e reativação com recorrência.
A primoinfecção corresponde ao primeiro contato com o vírus e frequentemente é assintomática; a recorrência resulta da reativação do vírus latente e também pode ser assintomática.
Ambos os tipos podem acometer qualquer sítio, e a aquisição genital por HSV-1 vem aumentando.
O HSV-1 é a causa mais comum de eritema multiforme minor (eritema multiforme associado ao herpes).
Epidemiologia
Em 2016, estimava-se que 491,5 milhões de pessoas de 15 a 49 anos viviam com infecção por HSV-2, o equivalente a 13,2% dessa faixa da população mundial.
Mais mulheres (313,5 milhões) do que homens (178,0 milhões) estavam infectadas por HSV-2.
Em 2016, cerca de 3.752 milhões de pessoas de 0 a 49 anos tinham infecção por HSV-1 em qualquer sítio, com prevalência global de 66,6%.
Estimava-se entre 122 e 192 milhões de pessoas com infecção genital por HSV-1.
O herpes genital associa-se a idade de 15 a 30 anos, maior número de parceiros sexuais, menor renda e escolaridade, infecção por HIV e homossexualidade.
A infecção genital por HSV-2 aumenta o risco de aquisição do HIV, e vice-versa.
A taxa mediana de recorrência do herpes genital após um primeiro episódio sintomático é de 0,34 recorrência por mês (cerca de quatro por ano) para HSV-2, aproximadamente quatro vezes maior que a do HSV-1.
As taxas de recorrência tendem a diminuir ao longo do tempo, embora esse padrão seja variável.
O panarício herpético apresenta picos bimodais, em menores de 10 anos e entre 20 e 40 anos.
A encefalite herpética é a encefalite viral fatal mais comum nos Estados Unidos.
Fatores de risco e doenças associadas
- Idade de 15 a 30 anos
- Múltiplos parceiros sexuais
- Menor renda e escolaridade
- Homossexualidade (herpes genital)
- Dermatite atópica, sobretudo grave e de início antes dos 5 anos (eczema herpético)
- Mutações no gene da filagrina (eczema herpético)
- Níveis elevados de IgE, eosinofilia e alergias alimentares/ambientais (eczema herpético)
- Imunossupressão
- Contato atlético de pele (herpes gladiatorum)
- Contato digital-genital (panarício herpético)
- Uso de inibidores tópicos da calcineurina
- Mutações em TLR-3 ou UNC-93B (encefalite herpética)
- Uso de natalizumabe (encefalite herpética)
- Dermatite atópica (eczema herpético)
- Infecção por HIV
- Aumento do risco de aquisição de HIV
- Eritema multiforme minor
- Mutações da filagrina
- Mutações em TLR-3 e UNC-93B (encefalite herpética)
Patogênese
O HSV-1 é transmitido por saliva e secreções, e o HSV-2 por contato sexual.
Após a replicação viral na pele e mucosas, ocorre fluxo axonal retrógrado até os gânglios da raiz dorsal, onde o vírus estabelece latência e posterior reativação.
A infecção pode ocorrer sem lesões clínicas, e o vírus pode ser eliminado mesmo na ausência de lesões, mantendo a transmissibilidade.
O vírus evade o sistema imune do hospedeiro, reduzindo a expressão de CD1a pelas células apresentadoras de antígeno, aumentando a apoptose das células de Langerhans, reduzindo a sinalização por TLR e interferindo no MHC de classe I e II.
Os linfócitos T CD8+ e os TLRs controlam a infecção.
Após a primoinfecção, o vírus torna-se latente nos gânglios sensitivos locais e reativa periodicamente, causando lesões sintomáticas ou eliminação viral assintomática, porém infectante.
São gatilhos de reativação: estresse, radiação ultravioleta (UVB mais que UVA), febre, trauma (por exemplo, peeling químico ou laser fracionado) e imunossupressão.
No eczema herpético, há associação com mutações da filagrina, desvio imunológico para padrão Th2 e uso de inibidores tópicos da calcineurina.
Clínica
- Vesículas agrupadas ou em cacho sobre base eritematosa
- Evolução para pústulas, erosões com bordas escalonadas por coalescência e úlceras, com formação de crosta e cicatrização em até 6 semanas
- Primoinfecção com pródromo 3 a 7 dias após o contágio (linfadenopatia dolorosa, mal-estar, anorexia e febre)
- Dor, sensibilidade, queimação ou formigamento locais imediatamente antes da erupção
- Recorrência geralmente mais branda, com pródromo de cerca de 24 horas de formigamento, prurido ou queimação
- Herpes labial acometendo boca (mucosa jugal e gengivas, com predileção pela porção anterior) e lábios, com recorrências na borda do vermelhão
- Gengivoestomatite herpética como primoinfecção orolabial grave em crianças
- Faringite ou quadro tipo mononucleose na primoinfecção orolabial de adultos
- Herpes genital primário com erosões dolorosas em genitália externa, vagina, colo uterino, nádegas e períneo, com linfadenopatia e disúria
- Primoinfecção genital mais grave em mulheres, com maior envolvimento extragenital, retenção urinária e meningite asséptica em cerca de 10%
- Herpes genital recorrente com poucas vesículas, duração inferior a 10 dias e redução da frequência ao longo do tempo
- Eczema herpético (erupção variceliforme de Kaposi): infecção disseminada por HSV em áreas de dermatite atópica, com vesículas em saca-bocado, sintomas sistêmicos e linfadenopatia, podendo ser grave ou fatal
- Superinfecção por Streptococcus ou Staphylococcus no eczema herpético
- Panarício herpético: infecção dos dedos com vesiculação, dor e edema, com recorrências (HSV-1 em crianças, HSV-2 em adultos)
- Herpes gladiatorum: infecção por HSV-1 por contato atlético, classicamente em face lateral do pescoço, lado da face e antebraço
- Foliculite herpética (sicose herpética): vesículas e pústulas foliculares na área da barba (HSV-1), tipicamente em imunocomprometidos
- Herpes grave ou crônico com úlceras grandes e persistentes em mucosa oral e tratos respiratório e gastrointestinal em imunocomprometidos
- Herpes ocular: ceratoconjuntivite com linfadenopatia e úlcera dendrítica ramificada da córnea, podendo levar à cegueira
- Herpes neonatal com início entre 5 e 14 dias, com vesículas, pústulas, crostas e erosões (predileção por couro cabeludo e tronco) e possível acometimento de mucosas
- Herpes neonatal nas formas pele-olhos-boca (SEM), disseminada e do sistema nervoso central, com 40% de sequelas neurológicas e sinais de sepse, irritabilidade e letargia
- Encefalite herpética com febre, alteração do estado mental e comportamento estranho, sendo o lobo temporal o sítio mais acometido
- Herpes simples hipertrófico com nódulos tumorais exofíticos e dolorosos, com ou sem ulceração, predominantemente anogenitais, em imunocomprometidos
Classificação
- HSV-1 (HHV-1): predomínio orolabial
- HSV-2 (HHV-2): predomínio genital
- Primoinfecção (primeiro episódio)
- Infecção recorrente (reativação)
- Herpes labial
- Gengivoestomatite herpética
- Herpes genital
- Herpes neonatal (formas SEM, disseminada e do sistema nervoso central)
- Eczema herpético (erupção variceliforme de Kaposi)
- Panarício herpético
- Herpes gladiatorum
- Foliculite herpética (sicose herpética)
- Ceratoconjuntivite e herpes ocular
- Encefalite herpética
- Herpes simples hipertrófico
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Manejo Assinante
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Procedimentos relacionados Assinante
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Complicações e cuidados
- Meningite asséptica (cerca de 10% na primoinfecção genital feminina)
- Retenção urinária
- Encefalite herpética
- Ceratoconjuntivite e cegueira (herpes ocular)
- Eczema herpético disseminado e potencialmente fatal
- Superinfecção bacteriana por Streptococcus ou Staphylococcus
- Herpes neonatal com sequelas neurológicas (40% na forma do SNC)
- Eritema multiforme associado ao herpes
- Herpes crônico e ulcerado em imunossuprimidos
- Resistência antiviral em imunocomprometidos
Prognóstico
As infecções são recorrentes, mas as recorrências tendem a diminuir em frequência ao longo do tempo, sobretudo no herpes genital.
Os antivirais controlam os sintomas e reduzem a eliminação viral, porém não erradicam o vírus latente nem impedem recorrências após a suspensão.
As recorrências do herpes genital são menos frequentes e a eliminação viral diminui mais rapidamente na infecção por HSV-1 do que por HSV-2.
O herpes labial e o herpes genital recorrente costumam ter curso benigno e autolimitado.
O herpes neonatal e a encefalite herpética têm prognóstico grave, com elevada mortalidade e sequelas neurológicas sem tratamento.
O eczema herpético pode ser fatal se não tratado prontamente.
Nos imunocomprometidos, a doença pode ser crônica, extensa e resistente aos antivirais.
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Referências
- Diagnosis and Management of Genital Herpes: Key Questions and Review of the Evidence for the 2021 Centers for Disease Control and Prevention Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines. Clinical Infectious Diseases. 2022.
- Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recommendations and Reports. 2021.
- Patel R, Moran B, Clarke E, Geretti AM, Lautenschlager S, Green J, et al. 2024.
- UK national guideline for the management of anogenital herpes, 2024. International Journal of STD and AIDS. 2025.
- Herpes simplex virus: global infection prevalence and incidence estimates, 2016. Bulletin of the World Health Organization. 2020.
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