Hiper/hipopigmentação pós-inflamatória
Imagens
Conceito
Alteração adquirida da pigmentação cutânea que surge após inflamação ou lesão da pele, no mesmo local e distribuição do processo inicial.
A hiperpigmentação pós-inflamatória é uma hipermelanose adquirida por produção excessiva ou dispersão irregular de melanina na epiderme e/ou derme.
A hipopigmentação pós-inflamatória resulta de perda ou redução da melanina após o dano inflamatório.
Acomete todos os fototipos, com predileção e maior gravidade e persistência nos fototipos altos (Fitzpatrick III a VI), sobretudo na pele negra.
O curso é frequentemente crônico após instalada, com resolução lenta e por vezes de difícil clareamento.
Tem impacto psicossocial significativo e piora da qualidade de vida.
Epidemiologia
As discromias, incluindo a hiperpigmentação pós-inflamatória, estão entre os principais motivos de consulta dermatológica em grupos étnicos de pele mais escura.
Estudos comparativos apontam os distúrbios pigmentares (exceto vitiligo) como a 3ª dermatose mais comum em afro-americanos (9%) versus a 7ª em pessoas brancas (1,7%); revisão posterior os coloca como a 2ª causa em afro-americanos.
A prevalência de hiperpigmentação pós-inflamatória na população negra é estimada entre cerca de 0,4% e 10%.
A intensidade correlaciona-se mais ao grau de pigmentação do que à etnia isoladamente (por exemplo, mais prevalente em malaios e indianos do que em chineses).
Há predomínio feminino (cerca de 78% em revisão sistemática) e concentração na face.
Em revisão sistemática com 1.356 pacientes de fototipos altos: idade média de 29 anos; 70% negros, 27% asiáticos e 3% latinos (autodeclaração); predomínio dos fototipos IV (40%) e V (34%).
Após acne, a hiperpigmentação pós-inflamatória ocorreu em 65,3% dos afro-americanos, 52,7% dos hispânicos e 47,4% dos asiáticos.
Na pseudofoliculite da barba (prevalência de 45 a 83%), até cerca de 90% dos pacientes relatam hiperpigmentação.
A duração média da hiperpigmentação pós-inflamatória antes do tratamento foi de cerca de 21 meses.
Fatores de risco
- Fototipos altos (Fitzpatrick III a VI)
- Acne vulgar (principal gatilho inflamatório)
- Pseudofoliculite da barba
- Dermatite atópica e eczema
- Psoríase e outras doenças papuloescamosas
- Líquen plano e dermatoses de interface
- Infecções (dermatofitoses, exantemas virais, impetigo)
- Reações alérgicas (picadas de inseto, dermatite de contato)
- Erupção fixa por drogas e outras reações medicamentosas
- Trauma, queimaduras e irritação cutânea
- Procedimentos cosméticos (laser, depilação, peelings, eletrocoagulação)
- Radiação ultravioleta e ausência de fotoproteção
Doenças associadas
- Acne vulgar
- Dermatite atópica
- Psoríase
- Líquen plano
- Erupção fixa por drogas
- Pitiríase liquenoide (evolui com hipopigmentação)
- Pele negra e fototipos altos
Patogênese
Na forma epidérmica há aumento da produção e da transferência de melanina aos queratinócitos vizinhos, com melanócitos estimulados por mediadores inflamatórios.
Os mediadores implicados incluem prostaglandinas E2 e D2, leucotrienos C4 e D4, tromboxano-2, interleucina-1, interleucina-6, TNF-alfa, fator de crescimento epidérmico, quimiocinas e espécies reativas de oxigênio (como o óxido nítrico).
Na forma dérmica, o dano inflamatório aos queratinócitos basais libera grande quantidade de melanina (incontinência pigmentar), fagocitada por macrófagos (melanófagos) na derme superior, o que confere tom cinza-azulado.
A profundidade do pigmento determina a coloração e o prognóstico.
O quadro piora com radiação ultravioleta e com inflamação persistente ou recorrente.
A pele negra tem melanócitos maiores, mais melanossomos, maior atividade da tirosinase e maior teor de eumelanina, além de maior estresse oxidativo e marcadores inflamatórios elevados (interleucina-6, proteína C-reativa), o que explica a maior predisposição.
A hipopigmentação pós-inflamatória decorre de redução ou perda da melanina e da função melanocítica após o dano inflamatório, por mecanismo distinto.
Clínica
- Máculas ou manchas na mesma distribuição do processo inflamatório inicial
- Hiperpigmentação epidérmica de coloração castanho-clara a castanho-escura
- Hiperpigmentação dérmica de coloração cinza-azulada e mais persistente
- Intensificação do pigmento em fototipos mais altos
- Piora com exposição solar e com inflamação recorrente
- Localização mais frequente na face; também axilas e extremidades
- Padrão localizado, difuso ou simétrico
- Hipopigmentação com máculas hipocrômicas a acrômicas mal delimitadas na área da dermatose prévia
- Pitiríase alba com máculas hipocrômicas em face e pescoço, mais visíveis após o sol, comuns em crianças atópicas
- Ausência de escama, atrofia ou alteração de superfície na maioria dos casos
Classificação
- Hiperpigmentação pós-inflamatória
- Hipopigmentação pós-inflamatória
- Forma epidérmica (castanha; melhor prognóstico)
- Forma dérmica (cinza-azulada; melanófagos; persistente)
- Forma mista (epidérmica e dérmica)
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Complicações e cuidados
- Persistência e cronicidade do pigmento, sobretudo na forma dérmica
- Ocronose exógena pelo uso prolongado de hidroquinona
- Leucodermia e halo hipopigmentado por hidroquinona
- Dermatite de contato (ácido kójico, hidroquinona)
- Dermatite retinoide com agravamento da hiperpigmentação
- Piora da hiperpigmentação por irritação de peelings, laser ou luz
- Hipo ou hiperpigmentação, cicatrizes hipertróficas e queloides pós-procedimento
- Impacto psicossocial e redução da qualidade de vida
Prognóstico
A forma epidérmica tende a melhorar em meses a anos, especialmente com tratamento e fotoproteção.
A forma dérmica pode ser permanente ou resolver-se muito lentamente.
O curso é frequentemente crônico e a resposta ao tratamento costuma ser apenas parcial, sem modalidade tópica que ofereça resolução completa consistente.
Sem tratamento, parte dos pacientes apresenta melhora parcial espontânea, mas raramente clareamento completo.
A hipopigmentação pós-inflamatória costuma ser reversível com o tempo após o controle da dermatose de base, ainda que possa persistir.
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Referências
- Treatment of Post-Inflammatory Hyperpigmentation in Skin of Colour: A Systematic Review. Journal of Cutaneous Medicine and Surgery. 2024.
- Postinflammatory Hyperpigmentation: A Review of the Epidemiology, Clinical Features, and Treatment Options in Skin of Color. The Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology. 2010.
- Postinflammatory Hyperpigmentation. Journal of Cutaneous Medicine and Surgery. 2009.
- A focused review on the pathophysiology of post-inflammatory hyperpigmentation. Pigment Cell & Melanoma Research. 2022.
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