Hiperidrose e bromidrose
Conceito
Hiperidrose é a sudorese excessiva, crônica, além do necessário para a termorregulação corporal.
A sudorese é um reflexo controlado pelo sistema nervoso simpático, cujas fibras são anatomicamente simpáticas, mas funcionalmente colinérgicas, tendo a acetilcolina como neurotransmissor na junção neuroglandular.
A hiperidrose primária localizada, ou focal, é a forma mais comum e acomete sobretudo as regiões palmoplantar, axilar e craniofacial.
A hiperidrose secundária decorre de uma condição subjacente e pode ser localizada ou generalizada.
A bromidrose é o odor corporal desagradável produzido pela degradação bacteriana da secreção apócrina, com liberação de amônia e ácidos graxos de cadeia curta.
Epidemiologia
A prevalência da hiperidrose primária varia de 1% a 3% da população, e a forma palmar acomete até 3%.
A doença ocorre em todas as estações, inclusive no inverno, e piora em situações de estresse, ansiedade, medo e nervosismo.
Afeta homens e mulheres, com falsa impressão de predomínio feminino pela maior procura por tratamento entre as mulheres.
O reconhecimento clínico costuma ocorrer até a terceira década, geralmente antes dos 25 anos, sendo mais precoce nas formas palmar e axilar, que se manifestam na infância e na adolescência.
Há maior prevalência descrita em populações asiáticas, sobretudo japonesas.
Cerca de 60% a 80% dos casos têm história familiar, com padrão de herança possivelmente autossômico dominante.
A melhora após a quarta década de vida é comum, e a persistência após a quinta década é rara.
Fatores de risco e doenças associadas
- História familiar de hiperidrose primária
- Início na infância ou na adolescência
- Maturação hormonal e sexual da puberdade
- Situações de estresse, ansiedade, medo e nervosismo
- Ascendência asiática, sobretudo japonesa
- Obesidade
- Menopausa
- Polimorfismo do gene ABCC11 (bromidrose)
- Associação entre hiperidrose palmar e plantar, presente em 57% dos casos
- Bromidrose associada à hiperidrose axilar
- Impacto na qualidade de vida, avaliado por HDSS, DLQI e questionários de Keller e de Campos
Patogênese
O corpo humano possui cerca de 4 milhões de glândulas sudoríparas, das quais 75% são écrinas.
As glândulas écrinas são anexos epidérmicos inervados por fibras colinérgicas do sistema nervoso simpático, distribuídas por toda a superfície corporal, com predomínio nas regiões palmar, plantar, axilar e craniofacial, e produzem suor inodoro e incolor para a termorregulação.
O suor écrino é hipotônico e composto principalmente de cloreto de sódio, água, ureia e metabólitos nitrogenados.
As glândulas apócrinas restringem-se às regiões axilar e urogenital, têm regulação hormonal e não participam da hiperidrose localizada; glândulas apoécrinas também são descritas nas axilas.
Diversos estímulos, como atividade física, calor, ansiedade e estresse, ativam a área pré-óptica do hipotálamo que, por estimulação simpática, libera acetilcolina na junção neuroglandular.
Na hiperidrose primária há um desequilíbrio focal com amplificação dos estímulos eferentes, evidenciado por alta resposta simpática cutânea nos estudos eletrofisiológicos, sem aumento do número de glândulas nem alteração histopatológica.
Há predisposição genética de herança autossômica dominante, com o locus 14q11.2-q13 associado à hiperidrose palmar.
A hiperidrose secundária pode ser classificada pela origem do impulso neural em cortical ou emocional, hipotalâmica ou termorreguladora, medular ou gustatória, espinhal e por reflexo axonal.
A hiperidrose gustatória fisiológica decorre de estímulos de receptores do paladar por alimentos apimentados, álcool e frutas cítricas, e a patológica corresponde à síndrome auriculotemporal, ou de Frey.
Na bromidrose apócrina, a degradação bacteriana do suor apócrino gera amônia e ácidos graxos de cadeia curta, exagerando o odor axilar típico, e um polimorfismo do gene ABCC11 está associado à condição.
A bromidrose écrina tem três tipos: queratogênica, por degradação do estrato córneo macerado pelo suor; metabólica, por distúrbios hereditários, como o odor de camundongo na fenilcetonúria e o odor adocicado na doença da urina em xarope de bordo; e exógena, por compostos como alho, aspargo, curry, dimetilsulfóxido e penicilinas.
Clínica
- Superfícies cutâneas brilhantes e úmidas ou manchas de suor excessivas nas roupas
- Hiperidrose primária localizada nas regiões palmoplantar, axilar, craniofacial e inguinal, sendo a palmoplantar a mais frequente
- Mãos frias e úmidas, com cor que varia do pálido ao ruborizado, e episódios de sudorese de início abrupto, relacionados ou não a estresse emocional
- Suor mais intenso nas palmas e nos dedos e menos intenso no dorso das mãos, podendo haver edema dos dedos com gotejamento espontâneo
- Sudorese bilateral e simétrica, sem outras condições associadas
- Associação frequente entre hiperidrose plantar e palmar, presente em 57% dos casos
- Critérios diagnósticos: sudorese visível, excessiva e localizada, por pelo menos seis meses, sem causa aparente, com pelo menos duas das seguintes características: bilateral e simétrica; pelo menos um episódio por semana; prejuízo das atividades diárias; início antes dos 25 anos; história familiar; ausência de sudorese durante o sono
- Sinais de alarme sugestivos de hiperidrose secundária: início tardio, sudorese noturna, generalizada, assimétrica ou unilateral
- Hiperidrose secundária pode ser localizada ou generalizada
- Impacto significativo na qualidade de vida, avaliado por escalas como a HDSS
Classificação
- Hiperidrose primária, focal ou essencial: palmar, plantar, axilar, craniofacial e inguinal
- Hiperidrose secundária: localizada ou generalizada
- Hiperidrose secundária pela origem do impulso neural: cortical (emocional), hipotalâmica (termorreguladora), medular (gustatória), espinhal e por reflexo axonal (inflamatória local)
- Escala de gravidade específica HDSS, na qual a melhora de um ponto corresponde a redução de 50% da sudorese e de dois pontos, de 80%
- Bromidrose apócrina
- Bromidrose écrina: queratogênica, metabólica e exógena
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Procedimentos relacionados Assinante
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Complicações e cuidados
- Impacto psicossocial, com prejuízo laboral, escolar e social e sofrimento emocional
- Hiperidrose compensatória após simpatectomia, em 10% a 40% dos casos, grave em cerca de 5%
- Síndrome de Horner, pneumotórax, lesão vascular e dor torácica na simpatectomia percutânea
- Lesão do plexo braquial e neuropatia mediana e ulnar na terapia por microondas
- Redução da força muscular hipotenar após toxina botulínica palmar
- Dermatite e irritação cutânea pelo cloreto de alumínio
- Cicatrizes, hematoma, abscesso, necrose de retalho e deiscência na cirurgia da bromidrose
- Recidiva do mau odor após tratamento cirúrgico
Prognóstico
A hiperidrose é crônica e benigna e não compromete a saúde física, mas tem grande impacto na qualidade de vida.
A hiperidrose primária tende a melhorar após a quarta década de vida, sendo rara a persistência após a quinta década.
O tratamento é escalonado e a recidiva é possível, exigindo escolha compartilhada com o paciente.
Na bromidrose, a cirurgia oferece o melhor prognóstico a longo prazo, com as menores taxas de recidiva, porém com o maior risco de complicações.
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Referências
Achados (clique para explorar)
Dermatologia como ela acontece na prática: do diagnóstico ao tratamento.
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