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Hipomelanose macular progressiva

Padrão inflamatório(hipomelanose macular confluente e progressiva do tronco, hipomelanose macular progressiva do tronco, hipomelanose nummular e confluente do tronco, HMP, progressive macular hypomelanosis)

Conceito

Dermatose adquirida da pigmentação caracterizada por máculas hipocrômicas numulares, mal delimitadas, não descamativas e assintomáticas, que tendem a confluir e acometem preferencialmente o tronco, sobretudo o dorso e o abdome, em adolescentes e adultos jovens.

As lesões surgem sem história prévia de trauma, infecção ou inflamação naquele local, o que a separa das hipocromias secundárias.

A confluência das máculas ocorre tipicamente na linha média e em torno dela, tanto na face anterior quanto na posterior do tronco.

A face é poupada na maioria dos casos, achado clínico considerado característico da doença.

Não é uma doença grave, mas é inestética, tem curso crônico e indolente e gera impacto estético e psicossocial em adolescentes e adultos jovens.

A hipótese etiológica mais aceita atualmente é a colonização da unidade pilossebácea das áreas afetadas por Cutibacterium acnes (antigo Propionibacterium acnes), embora o nexo causal ainda não esteja provado.

Epidemiologia

Acomete predominantemente adolescentes e adultos jovens; em série de 108 pacientes de um centro terciário de Singapura a idade média foi de 24,4 anos (mediana 22,5 anos) e a duração média da doença ao diagnóstico foi de 31,3 meses (mediana 24 meses).

Descrita em todo o mundo e em diferentes fototipos de Fitzpatrick, mas a maioria das séries aponta predomínio no sexo feminino; no ensaio brasileiro de Salvador, 20 dos 23 pacientes (87%) eram mulheres.

A série de Singapura foi uma exceção quanto ao sexo, com 78 homens (72%) e 30 mulheres (28%), e concentrou fototipos III (80%), IV (8%) e V (3%).

É referida como mais frequente em pessoas negras e em indivíduos originários de países tropicais, categorias reproduzidas dos estudos e em geral autodeclaradas.

A incidência real nas diferentes populações é desconhecida e a doença é provavelmente subnotificada, porque muitos casos são confundidos com outras hipocromias e porque parte dos pacientes, sobretudo homens, não procura atendimento.

A observação da doença em gêmeos e o aparente predomínio feminino sugerem uma etiologia multifatorial, com contribuição de fatores genéticos, hormonais e ambientais.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Adolescência e início da idade adulta
  • Sexo feminino
  • Residência em país de clima tropical
  • Gestação (relato de aceleração da hipopigmentação após a gravidez)
  • Ocorrência em gêmeos, sugerindo componente genético em uma etiologia multifatorial

Patogênese

A hipótese dominante atribui a doença à colonização e ao acúmulo de Cutibacterium acnes (antigo Propionibacterium acnes), bacilo gram-positivo anaeróbio da microbiota cutânea, dentro dos folículos pilossebáceos das áreas lesionais.

Postula-se que a bactéria produza um fator despigmentante ou uma substância que interfira na melanogênese, reduzindo a produção de melanina sem destruir o melanócito; esse fator ainda não foi isolado nem caracterizado, permanecendo hipotético.

A evidência que sustenta o papel bacteriano vem de três frentes: cultura de biópsias de pele lesional positiva para Cutibacterium acnes com ausência do agente em biópsias de pele adjacente não lesional do mesmo paciente (nos estudos de Westerhof e de Cavalcanti reunidos, 40 de 43 biópsias lesionais positivas contra 5 de 43 não lesionais, p<0,0001); PCR quantitativa em tempo real baseada no gene 16S rRNA mostrando maior número de cópias do genoma bacteriano na pele lesional; e coloração de Gram das lesões revelando bacilos gram-positivos em alta densidade, ausentes na pele normal pigmentada do mesmo tronco.

A quarta frente é terapêutica e indireta: a resposta a antimicrobianos ativos contra a bactéria (peróxido de benzoíla, clindamicina, tetraciclinas orais) apoia a hipótese, mas é evidência circunstancial e não prova causalidade.

Estudos de tipagem molecular (AFLP, filotipagem por PCR multiplex, sequenciamento de locus único de alta resolução e MLST) associaram especificamente as cepas do filotipo III, hoje denominado Cutibacterium acnes subsp. elongatum, às lesões de hipomelanose macular progressiva, ao passo que a acne vulgar se associa sobretudo a cepas do tipo IA1 (Cutibacterium acnes subsp. acnes).

Essa associação com o tipo III explica, ao menos em parte, dois pontos que sempre foram objeções à hipótese bacteriana: por que a face é poupada, já que cepas do tipo III costumam estar ausentes ou em baixíssima abundância na face, e por que não há associação entre a doença e a acne vulgar.

Em estudo metagenômico com oito pacientes, o tratamento com limeciclina oral e peróxido de benzoíla 5% reduziu a proporção de cepas do tipo III em paralelo à redução ou ao desaparecimento das lesões, e os pacientes cuja população de tipo III foi praticamente eliminada ficaram praticamente sem lesões.

Persistem inconsistências: há casos descritos em que a bactéria parece ausente da pele lesional à luz de Wood, à coloração histológica e até à cultura, e há relatos raros de acometimento facial.

Uma explicação para a ausência aparente da bactéria é que as cepas dos tipos II e III produzem níveis muito baixos de porfirinas e não fluorescem in vitro, de modo que lesões colonizadas predominantemente por tipo III podem não exibir fluorescência folicular detectável; a luz de Wood negativa indica apenas que a densidade bacteriana está abaixo do limite de detecção (cerca de 10³ organismos), e não que a bactéria esteja ausente.

Um infiltrado linfocítico perifolicular discreto foi observado em parte das lesões, o que já sugeriu que a hipopigmentação fosse secundária a um processo inflamatório, mas não há sinais clínicos de inflamação na doença e o achado não está presente em todas as amostras.

Uma hipótese antiga, formulada por Guillet e colaboradores em 1988 a partir da coexistência de melanossomos isolados e agregados na mesma pele, atribuía a doença à ancestralidade miscigenada dos pacientes; essa leitura foi superada pelas evidências microbiológicas posteriores.

Falta ainda demonstrar, em modelos de cultura celular, se o Cutibacterium acnes tipo III é capaz de interferir na melanogênese por um fator despigmentante ou por estímulo de uma resposta do hospedeiro; é possível que a bactéria seja apenas um dos fatores envolvidos, ou que desencadeie uma resposta biológica que mantém a hipopigmentação mesmo após deixar de ser detectável na lesão.

Clínica

  • Máculas hipocrômicas numulares, de bordas mal definidas, sem descamação e sem eritema
  • Confluência das máculas na linha média e ao redor dela, formando máculas maiores
  • Distribuição simétrica na face anterior e na face posterior do tronco
  • Dorso acometido na quase totalidade dos casos; abdome acometido em cerca de 70% dos pacientes no ensaio brasileiro
  • Tronco acometido em 100% dos pacientes e nádegas em 43,5% na série de Singapura
  • Acometimento menos frequente de membros superiores (7,4%), pescoço (2,8%) e membros inferiores (2,8%); mamas e nádegas também descritas
  • Face caracteristicamente poupada; o acometimento facial é raro e foi descrito sobretudo em pacientes mais velhos (40 a 65 anos)
  • Lesões assintomáticas na grande maioria (92% na série de Singapura); prurido leve em cerca de 8%
  • Ausência de história de trauma, infecção ou dermatose inflamatória prévia no local das lesões
  • Ausência de descamação, mesmo ao estiramento ou à raspagem da lesão
  • Luz de Wood em sala escura: fluorescência puntiforme, folicular, vermelho-alaranjada dentro das máculas hipocrômicas, ausente na pele perilesional normal
  • A fluorescência decorre de porfirinas produzidas pelo Cutibacterium acnes no folículo, sobretudo coproporfirina III, e não da superfície da lesão
  • Fluorescência folicular ausente não afasta o diagnóstico, porque cepas do tipo III produzem pouca porfirina e a luz de Wood só detecta densidades bacterianas acima de cerca de 10³ organismos
  • Exame micológico direto (raspado) negativo, sem hifas ou esporos
  • Curso crônico e indolente, com lesões que podem permanecer estáveis, progredir lentamente por anos ou, em minoria, regredir espontaneamente

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Complicações e cuidados

  • Impacto estético e psicossocial em adolescentes e adultos jovens
  • Recidiva após a suspensão do tratamento, sobretudo depois da fototerapia
  • Persistência das lesões por anos, com pouca ou nenhuma tendência à resolução espontânea na maioria
  • Irritação cutânea induzida pelo peróxido de benzoíla: prurido, ardência, eritema, descamação, queimação e xerose
  • Diagnóstico equivocado e tratamento antifúngico prolongado e inútil
  • Angústia do paciente com a hipótese de hanseníase

Prognóstico

Doença benigna, de curso crônico e indolente, sem risco sistêmico.

A resolução espontânea existe, mas é minoritária: cerca de 23% dos pacientes não tratados melhoram sozinhos, em torno de um ano, e a maioria mantém as lesões além de dois anos, algumas persistindo por mais de cinco anos.

Não há cura definitiva estabelecida e a recidiva é frequente após a interrupção do tratamento, principalmente da fototerapia, podendo ocorrer até três anos depois.

Não há características clínicas ou demográficas que permitam prever remissão espontânea nem recidiva.

A antiga noção de que a doença desapareceria espontaneamente entre três e cinco anos, ou que se apagaria após a quinta década de vida, não foi confirmada pelos dados de seguimento.

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Referências

  1. Eficácia da combinação tópica de peróxido de benzoíla 5% e clindamicina 1% para o tratamento da hipomelanose macular progressiva: um estudo randomizado, duplo-cego, placebo-controlado. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2011.
  2. Efficacy and relapse rates of different treatment modalities for progressive macular hypomelanosis. Indian Journal of Dermatology, Venereology and Leprology. 2016.
  3. McDowell A, McLaughlin J, Layton AM. Is Cutibacterium (previously Propionibacterium) acnes a potential pathogenic factor in the aetiology of the skin disease progressive macular hypomelanosis? Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology. 2021.

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