Impetigo
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Conceito
Impetigo é uma infecção bacteriana superficial e altamente contagiosa das camadas superficiais da epiderme.
É causado principalmente por bactérias Gram-positivas: Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes.
É a infecção bacteriana cutânea mais comum na infância.
Apresenta-se em duas variantes clínicas: não bolhoso e bolhoso.
A forma não bolhosa responde por cerca de 70% dos casos e a bolhosa por cerca de 30%.
A lesão típica do impetigo não bolhoso é a erosão recoberta por crosta cor de mel (melicérica) sobre base eritematosa.
O diagnóstico é essencialmente clínico.
Epidemiologia
Impetigo representa aproximadamente 10% das queixas cutâneas na população pediátrica.
É mais prevalente entre 2 e 5 anos, mas pode ocorrer em qualquer idade.
Considerando todas as faixas etárias, a incidência é semelhante entre os sexos; em adultos, os homens são mais acometidos.
O pico de incidência ocorre no verão e no outono.
O impetigo bolhoso é mais comum em lactentes; crianças com menos de 2 anos representam cerca de 90% dos casos bolhosos.
É mais comum em populações que vivem em aglomeração, como creches e prisões.
A prevalência global mediana em crianças é de cerca de 12,3%.
Estima-se que mais de 162 milhões de crianças estejam afetadas a qualquer momento em países de baixa e média-baixa renda.
A maior carga concentra-se em contextos tropicais e de poucos recursos.
A maior prevalência foi relatada na Oceania, com mediana de 40,2%.
Em crianças indígenas de comunidades remotas da Austrália a prevalência mediana chega a 44,5%.
Predomina em ambientes rurais e em climas tropicais.
Em culturas, S. pyogenes foi identificado em mediana de 74% e S. aureus em 64% das amostras.
Fatores de risco e doenças associadas
- Idade entre 2 e 5 anos
- Clima quente e úmido
- Aglomeração e superlotação (creches, prisões)
- Má higiene
- Baixo nível socioeconômico
- Dermatite atópica
- Escabiose
- Trauma cutâneo, cortes e abrasões
- Picadas de inseto
- Varicela
- Herpes
- Pediculose
- Queimaduras
- Coçadura e escoriação
- Desnutrição
- Imunossupressão
- Diabetes mellitus
- Colonização nasal por S. aureus
- Staphylococcus aureus (agente principal, cerca de 80% do não bolhoso e quase exclusivo do bolhoso)
- Streptococcus pyogenes / estreptococo beta-hemolítico do grupo A
- MRSA de aquisição comunitária (crescente)
- Portador nasal de S. aureus
- Glomerulonefrite pós-estreptocócica (sorotipos nefritogênicos de S. pyogenes: 1, 4, 12, 25 e 49)
- Infecção pelo HIV (impetigo bolhoso em adulto previamente hígido)
Patogênese
S. aureus coloniza as narinas anteriores de cerca de 20% a 35% da população; outros reservatórios são períneo, axila, faringe e dobras.
S. pyogenes é encontrado na orofaringe de cerca de 10% da população geral e em apenas 1% da pele normal.
Tanto o estreptococo do grupo A quanto o S. aureus necessitam de fibronectina para colonizar.
Qualquer ruptura da barreira cutânea expõe os receptores de fibronectina e permite a invasão bacteriana.
Trauma, cortes, picadas de inseto, cirurgia, dermatite atópica, queimaduras e varicela são mecanismos comuns de quebra da barreira.
O impetigo primário decorre de invasão bacteriana direta de pele previamente normal.
O impetigo secundário (impetiginização) ocorre sobre lesão cutânea preexistente, como eczema ou escabiose.
Uma vez instalada a lesão, a autoinoculação para outros sítios é muito comum, com formação de lesões-satélite.
No impetigo bolhoso, S. aureus do grupo fágico II (tipos 55 e 71) produz as toxinas esfoliativas A e B (ETA e ETB).
As esfoliatinas clivam a desmogleína 1, provocando acantólise subcórnea/intragranular.
A ETA é codificada no cromossomo; a ETB é codificada em plasmídeo.
Quando a esfoliatina se dissemina, em contexto de insuficiência renal ou imunodeficiência, surge a síndrome da pele escaldada estafilocócica.
Clínica
- Impetigo não bolhoso inicia como vesícula ou pústula
- Vesículas coalescem e rompem-se rapidamente
- Exsudato purulento seca formando crosta cor de mel (melicérica)
- Crosta espessa amarelo-acastanhada sobre base eritematosa
- Crosta reaparece rapidamente quando removida
- Predomínio na face (perioral e perinasal) e extremidades
- Lesões-satélite por autoinoculação
- Lesão pode tornar-se circinada por clareamento central, simulando micose
- Linfadenopatia regional leve é achado comum no não bolhoso
- Sintomas sistêmicos como febre tipicamente ausentes no não bolhoso
- Impetigo bolhoso inicia com pequenas vesículas que se tornam bolhas flácidas
- Bolhas contêm líquido claro a amarelado que pode tornar-se purulento ou escuro
- Eritema e edema perilesionais tipicamente ausentes no bolhoso
- Bolhas rompem deixando erosão com colarete de escama
- Impetigo bolhoso não forma crosta cor de mel
- Predomínio do bolhoso em regiões intertriginosas e tronco
- Impetigo bolhoso pode acometer a mucosa bucal
- Menos lesões no bolhoso que na forma não bolhosa
- Ausência de linfadenopatia regional no bolhoso
- Febre mais comum no bolhoso que no não bolhoso
- Sinal de Nikolsky ausente no impetigo bolhoso
Ectima
- Úlceras profundas em saca-bocado com margens violáceas
- Crostas cor de mel ou marrom-enegrecidas, podendo ser purulentas
- Ectima frequentemente cura com cicatriz
Classificação
- Impetigo não bolhoso (contagioso, de Tilbury-Fox), cerca de 70% dos casos
- Impetigo bolhoso, cerca de 30% dos casos
- Ectima (forma ulcerada e profunda)
- Impetigo primário (pele previamente normal)
- Impetigo secundário / impetiginização (sobre lesão preexistente)
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Manejo Assinante
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Procedimentos relacionados Assinante
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Complicações e cuidados
- Ectima
- Glomerulonefrite pós-estreptocócica aguda (cerca de 5% dos casos)
- Síndrome da pele escaldada estafilocócica (SSSS)
- Celulite
- Linfangite
- Bacteremia e sepse
- Osteomielite
- Artrite séptica
- Escarlatina
- Insuficiência renal com hematúria e proteinúria transitórias
- Meningite em neonatos
- Alterações de pigmentação pós-inflamatória
- Cicatrizes (raras no impetigo, frequentes no ectima)
Prognóstico
Sem tratamento, a infecção cura em 14 a 21 dias, e cerca de 20% dos casos resolvem espontaneamente.
Com tratamento, a cura ocorre em torno de 10 dias.
A cicatrização é rara, mas alguns pacientes podem desenvolver alterações de pigmentação.
Os antibióticos reduzem a duração, a disseminação e o risco de complicações renais, articulares, ósseas e pulmonares.
A glomerulonefrite pós-estreptocócica ocorre 1 a 2 semanas após a infecção cutânea, podendo chegar a 2 a 3 semanas.
A disfunção renal surge 7 a 14 dias após a infecção, com hematúria e proteinúria transitórias por semanas a meses.
Crianças com impetigo grave devem ser acompanhadas pelo risco de glomerulonefrite.
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Referências
- Impetigo. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023 [atualizado em 31 jul 2023]. Disponível em:.
- The global epidemiology of impetigo: a systematic review of the population prevalence of impetigo and pyoderma. PLoS One. 2015.
- Interventions for impetigo. Cochrane Database Syst Rev. 2012.
- From the Cochrane Library: interventions for impetigo. JMIR Dermatol. 2021.
- Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2014.
- Piodermites. An Bras Dermatol. 2012.
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