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Larva migrans cutânea

Padrão inflamatório(bicho geográfico, bicho-geográfico, erupção serpiginosa, dermatite serpiginosa, creeping eruption, larva migrans cutânea relacionada a ancilostomídeos)

Conceito

Larva migrans cutânea (bicho geográfico) é uma dermatose parasitária causada pela migração de larvas de ancilostomídeos de cães e gatos na epiderme humana.

É a dermatose parasitária tropical mais comum.

Os agentes são larvas filarioides de terceiro estágio de Ancylostoma braziliense (o mais comum), Ancylostoma caninum e Uncinaria stenocephala.

Ancilostomídeos humanos (Ancylostoma duodenale e Necator americanus) raramente produzem quadro semelhante.

O ser humano é hospedeiro acidental e representa um impasse parasitológico: as larvas não conseguem atravessar a membrana basal para alcançar os vasos linfáticos e sanguíneos, permanecem confinadas à epiderme, não completam o ciclo e morrem no local.

Por isso a doença é autolimitada e não causa doença sistêmica.

O termo larva migrans cutânea designa a síndrome, enquanto erupção serpiginosa designa o sinal clínico, que também pode ser produzido por outros parasitas.

Epidemiologia

É a dermatose parasitária tropical mais comum.

É endêmica em comunidades de baixa renda do mundo em desenvolvimento, sobretudo Brasil, Índia e Índias Ocidentais.

Também ocorre no Caribe, no Sudeste Asiático, na África e no sudeste dos Estados Unidos.

Em países de alta renda surge de forma esporádica ou em pequenas epidemias e é frequente em turistas que visitaram os trópicos.

A incidência é maior na estação chuvosa, pois ovos e larvas sobrevivem mais em solo úmido.

Em favelas urbanas e comunidades rurais do Brasil, até 4% da população geral e até 15% das crianças menores de 4 anos podem estar infestados.

Entre viajantes doentes que retornam dos trópicos, a larva migrans cutânea ocorre em 2 a 3%, com maior frequência nos que voltam do Caribe, seguidos do Sudeste Asiático e da América Central.

Em unidade de doenças tropicais em Toronto, correspondeu a 10,4% dos diagnósticos parasitários, dos quais 92% eram turistas.

Destinos de praia como Jamaica, Barbados, Brasil, Tailândia e México são fontes frequentes em turistas.

A distribuição topográfica varia com a idade: crianças têm mais lesões em nádegas, genitais e mãos, e adultos quase exclusivamente em pernas e pés.

Os turistas afetados tendem a ser mais jovens.

Fatores de risco e doenças associadas

  • caminhar descalço em solo ou areia contaminados
  • contato de pele desprotegida com solo contaminado por fezes de cães e gatos
  • sentar ou deitar diretamente na areia da praia
  • viagem a áreas tropicais e subtropicais endêmicas
  • exposição durante a estação chuvosa
  • baixo nível socioeconômico
  • presença de cães e gatos errantes ou não vermifugados
  • praias, parques e áreas de recreação contaminados por fezes de animais
  • crianças que engatinham ou brincam na areia
  • fômites contaminados como roupas, toalhas e outros objetos (raro)

Patogênese

Os ancilostomídeos adultos vivem no intestino de cães e gatos, e os ovos são eliminados nas fezes.

Os ovos eclodem na camada superficial do solo em cerca de 1 dia e desenvolvem-se em larvas infectantes de terceiro estágio em aproximadamente 1 semana.

Protegidas da luz solar e do ressecamento, em ambiente quente e úmido, as larvas sobrevivem e permanecem infectantes por vários meses.

As larvas respondem à vibração do solo, ao aumento da temperatura e ao dióxido de carbono com movimentos semelhantes aos de uma serpente, que ajudam a localizar o hospedeiro.

Após localizar o hospedeiro, a larva rasteja na superfície da pele em busca de sítio de penetração e penetra na camada córnea da epiderme.

As larvas excretam uma protease e uma hialuronidase, que permitem a passagem pela pele.

No hospedeiro animal as larvas penetram nos sistemas linfático e venoso e causam ancilostomíase intestinal; no ser humano não conseguem ir além da epiderme e não completam o ciclo.

Dependendo da espécie, as larvas migram de alguns milímetros até poucos centímetros por dia.

O prurido começa logo após o início da penetração, com A. braziliense já na primeira hora, enquanto o trajeto costuma tornar-se visível 1 a 5 dias depois.

Com Uncinaria stenocephala, pápulas surgem em 4 a 6 dias e o trajeto em cerca de 2 semanas.

As larvas migram na epiderme por 2 a 8 semanas até vários meses, raramente por anos.

Clínica

  • pápula eritematosa no local de penetração da larva
  • trajeto linear ou serpiginoso, discretamente elevado e eritematoso
  • migração do trajeto em padrão irregular, avançando de milímetros a poucos centímetros por dia
  • prurido intenso, frequentemente impedindo o sono
  • dor pode estar presente
  • localização mais comum nos pés
  • também em nádegas, coxas, braços, cotovelos, pernas, joelhos e dorso
  • pode acometer qualquer área, incluindo face, couro cabeludo, genitais e mucosa oral
  • em geral um único trajeto, mas múltiplos trajetos podem ocorrer em sítios diferentes
  • lesões vesiculobolhosas em 9 a 15% dos casos, às vezes com bolhas de vários centímetros
  • foliculite por ancilóstomo, com inflamação papulopustulosa dos folículos
  • eritema multiforme esporádico em indivíduos previamente sensibilizados
  • crianças de área endêmica com lesões em nádegas, genitais e mãos
  • adultos e turistas com lesões predominantes em pernas e pés

Classificação

  • forma clássica com erupção serpiginosa
  • forma vesiculobolhosa
  • foliculite por ancilóstomo (larva migrans folicular)

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Complicações e cuidados

  • superinfecção bacteriana secundária por Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes
  • impetiginização secundária em até 8% dos casos e em 8 a 24% em comunidades pobres do Brasil
  • glomerulonefrite pós-estreptocócica após infecção prolongada por estreptococo do grupo A
  • eritema multiforme (raro)
  • síndrome de Loeffler com eosinofilia pulmonar por invasão visceral rara das larvas
  • enterite eosinofílica por Ancylostoma caninum, com dor abdominal, náusea e diarreia, podendo simular apendicite ou obstrução intestinal
  • invasão de músculo esquelético em infestação maciça (rara)

Prognóstico

A doença é autolimitada e a resolução sem tratamento é a regra, não a exceção.

A migração pode persistir por meses e raramente por anos, período em que o prurido intenso pode interferir no sono.

O tratamento tópico ou sistêmico alcança taxas de cura próximas de 100%.

A recorrência pode ocorrer, mas é bem prevenida e responsiva à terapia sistêmica.

A qualidade de vida normaliza rapidamente após a ivermectina, com cerca de 73% dos pacientes retornando ao normal em 4 semanas.

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Referências

  1. Epidemiological and clinical characteristics of hookworm-related cutaneous larva migrans. Lancet Infectious Diseases. 2008.
  2. Cutaneous Larva Migrans. StatPearls. 2023.
  3. Entodermoscopy: a useful tool for the diagnosis of cutaneous larva migrans. Dermatology Practical and Conceptual. 2021.
  4. Life quality impairment caused by hookworm-related cutaneous larva migrans in resource-poor communities in Manaus, Brazil. PLoS Neglected Tropical Diseases. 2011.

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