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Leishmaniose tegumentar

Padrão inflamatório(Leishmaniose cutânea, Leishmaniose mucocutânea, Leishmaniose tegumentar americana, Cutaneous leishmaniasis)

Conceito

Leishmaniose tegumentar é uma infecção crônica, não contagiosa, causada por protozoários intracelulares obrigatórios do gênero Leishmania, que acometem a pele e as mucosas.

É primariamente uma zoonose de animais silvestres, na qual o ser humano é envolvido secundariamente.

O parasito existe em duas formas, a promastigota, flagelada, presente no vetor, e a amastigota, intracelular, presente no hospedeiro.

É transmitida pela picada de flebotomíneos, do gênero Phlebotomus no Velho Mundo e Lutzomyia no Novo Mundo, tendo como reservatórios animais silvestres como roedores, marsupiais, edentados e canídeos.

No Brasil, os principais agentes são Leishmania braziliensis, Leishmania guyanensis e Leishmania amazonensis.

O espectro clínico depende da espécie e da resposta imune do hospedeiro, indo da forma cutânea localizada às formas disseminada, difusa e mucosa.

Epidemiologia

No Brasil há registro em todas as regiões, com média em torno de 25 mil casos novos por ano, e a doença é de notificação compulsória.

No Novo Mundo, os vetores são flebotomíneos do gênero Lutzomyia, o mosquito-palha, e no Velho Mundo, do gênero Phlebotomus.

O período de incubação é em média de 2 a 3 meses, variando de 2 semanas a 2 anos.

São descritos três padrões de transmissão: o silvestre, o ocupacional e de lazer, ligado a desmatamento e atividades na mata, e o rural e periurbano, com adaptação do vetor ao peridomicílio.

No mundo, a forma cutânea é a mais frequente, com 600 mil a 1 milhão de casos novos por ano, e cerca de 90% concentram-se em poucos países, entre eles Brasil, Peru, Afeganistão, Irã, Síria e Arábia Saudita.

As espécies do Velho Mundo tendem a causar úlceras autolimitadas, enquanto as do Novo Mundo, sobretudo do subgênero Viannia, podem causar doença destrutiva e mucosa.

Fatores de risco

  • Exposição à picada de flebotomíneos em áreas endêmicas, em atividades silvestres, ocupacionais ou no peridomicílio
  • Imunossupressão, sobretudo pelo HIV, que predispõe à forma difusa, a apresentações atípicas, à recidiva e à disseminação
  • Espécies do subgênero Viannia, sobretudo L. braziliensis, e infecção adquirida na região amazônica, que aumentam o risco de acometimento mucoso
  • Lesões cutâneas múltiplas ou extensas, com mais de um ano de evolução e localizadas acima da cintura, e sexo masculino, que se associam a maior risco de leishmaniose mucosa

Doenças associadas

  • Leishmaniose dérmica pós-calazar, que surge até 20 anos após recuperação presumida de leishmaniose visceral não tratada
  • Coinfecção com HIV, que aumenta o risco de recidiva, falha terapêutica e disseminação, devendo o HIV ser investigado em todos os casos
  • O flebotomíneo Lutzomyia é também vetor da bartonelose, causando verruga peruana, doença de Carrión e febre de Oroya

Patogênese

No intestino do flebotomíneo, os parasitos proliferam como promastigotas flageladas e migram para a probóscide do inseto; na picada, são inoculados na pele, fagocitados pelos macrófagos e convertidos em amastigotas, que se multiplicam.

As manifestações cutâneas surgem em semanas, enquanto a forma mucosa pode se manifestar meses a anos depois.

A doença é espectral e depende da imunidade celular: na forma cutânea há resposta Th1 preservada, com interferon-gama e teste de Montenegro positivo, favorecendo a cura; na forma difusa há anergia celular, teste de Montenegro negativo e resposta Th2, com parasitismo intenso e má resposta ao tratamento; na forma mucosa a resposta celular é exacerbada, com teste de Montenegro fortemente positivo, poucos parasitos e destruição tecidual.

A cura não é estéril, pois parasitos viáveis persistem nas cicatrizes, o que explica recidivas tardias e a reativação em imunossuprimidos.

A agressividade da forma mucosa tem sido associada ao Leishmania RNA virus, presente em espécies do Novo Mundo e reconhecido pelo receptor Toll-like 3, que dispara uma resposta hiperinflamatória.

Clínica

  • A lesão cutânea evolui de mácula para pápula e depois para úlcera, após período de incubação médio de 2 a 3 meses
  • Úlcera leishmaniótica típica: geralmente indolor, arredondada ou ovalada, em área exposta, com base eritematosa e infiltrada de consistência firme, bordas bem delimitadas e elevadas em moldura e fundo granuloso avermelhado
  • Pode ser única ou múltipla, com até cerca de 20 lesões num mesmo segmento, e cursar com adenopatia satélite e linfangite nodular de aspecto esporotricoide
  • Além da úlcera, ocorrem lesões nodulares, papulotuberosas, vegetantes e verrucosas
  • A infecção bacteriana secundária torna a lesão dolorosa, com exsudato seropurulento e crostas, de aspecto ectimoide
  • A cicatrização, espontânea ou após tratamento, deixa cicatriz atrófica, deprimida e lisa, com hipo ou hiperpigmentação
  • Forma cutânea localizada: úlcera única ou em pequeno número, com teste de Montenegro positivo e boa resposta ao tratamento
  • Forma cutânea disseminada: dezenas a centenas de lesões papulares e acneiformes em vários segmentos, por disseminação hemática e linfática, por vezes com febre, mialgia e emagrecimento, e acometimento mucoso associado em até 30% dos casos
  • Forma cutânea difusa: início insidioso com lesão única que evolui para placas e múltiplas nodulações não ulceradas, com predileção por face, orelhas, cotovelos e joelhos e fácies leonina que lembra a hanseníase virchowiana, com teste de Montenegro negativo e má resposta ao tratamento
  • Leishmaniose recidiva cútis: pápulas que reativam na periferia de uma cicatriz antiga
  • Forma mucosa: início insidioso e indolor, geralmente no septo nasal anterior, com obstrução nasal, epistaxe, eliminação de crostas, disfagia, odinofagia e rouquidão
  • No exame da forma mucosa há eritema, infiltração, crostas, pontos sangrantes e ulceração de fundo granuloso, que evolui para perfuração do septo, destruição do palato e mutilações
  • A forma mucosa subdivide-se em tardia, sem lesão cutânea prévia, concomitante, contígua e primária, e a maioria surge nos primeiros dez anos após a lesão cutânea
  • Variantes do Novo Mundo: úlcera do chiclero, na orelha, por L. mexicana; uta, nos Andes, por L. peruviana; e pian-bois, com disseminação linfática, por L. guyanensis

Classificação

  • A classificação do Ministério da Saúde reconhece duas formas principais, a cutânea e a mucosa, além da infecção inaparente, que é o teste de Montenegro positivo sem lesão e não indica tratamento
  • Forma cutânea localizada: acometimento restrito à pele, com úlcera única ou múltipla, por L. braziliensis, L. guyanensis ou, no Velho Mundo, L. major e L. tropica
  • Forma cutânea disseminada: múltiplas lesões em vários segmentos por disseminação, por L. braziliensis e L. amazonensis
  • Forma cutânea difusa: rara e grave, por L. amazonensis nas Américas e L. aethiopica na África, com anergia celular
  • Leishmaniose recidiva cútis: reativação na periferia de cicatriz de lesão prévia
  • Forma mucosa: subdividida em tardia, sem lesão cutânea prévia, concomitante, contígua e primária, quase sempre no Novo Mundo, sobretudo por L. braziliensis
  • Leishmaniose dérmica pós-calazar: forma cutânea que surge após leishmaniose visceral, com máculas hipopigmentadas, pápulas e nódulos

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Complicações e cuidados

  • Na forma mucosa, destruição nasofaríngea progressiva com perfuração do septo, do palato e mutilações, quadro conhecido como face de tapir ou espúndia
  • Infecção secundária na forma mucosa, com broncopneumonia, que é a principal causa de óbito, e risco de obstrução laríngea exigindo traqueostomia de urgência
  • Trombose do seio cavernoso a partir de lesão central da face
  • Infecção bacteriana secundária das úlceras cutâneas, com aspecto ectimoide, além de miíase e lesões conjuntivais
  • Recidiva, mais frequente nas formas mucosa e difusa
  • Disseminação e apresentações atípicas em imunossuprimidos, inclusive como síndrome inflamatória de reconstituição imune após início da terapia antirretroviral

Prognóstico

A leishmaniose cutânea é benigna e, sobretudo no Velho Mundo, tende à cura espontânea em meses, embora deixe cicatriz desfigurante e estigma.

A forma mucosa tem pior prognóstico, com resposta terapêutica difícil, recidiva em torno de 7,5% e letalidade em torno de 1%.

A forma cutânea difusa é rara e grave, com resposta ruim e recidivas quase inevitáveis.

A espécie infectante determina o prognóstico e a resposta ao tratamento, e sua identificação ajuda a prevenir a falha terapêutica e a progressão para a forma mucosa.

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Referências

  1. Ministério da Saúde. 2017.
  2. Ministério da Saúde. 2020.
  3. Pan American Health Organization. 2022.
  4. Diagnosis and treatment of leishmaniasis: clinical practice guidelines by the IDSA and ASTMH. American Journal of Tropical Medicine and Hygiene. 2017.
  5. Cutaneous leishmaniasis: a 2022 updated narrative review into diagnosis and management developments. American Journal of Clinical Dermatology. 2022.
  6. Cutaneous and mucocutaneous leishmaniasis: clinical perspectives. Journal of the American Academy of Dermatology. 2015.

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