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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Leishmaniose tegumentar

Padrão inflamatório(Leishmaniose cutânea, Leishmaniose mucocutânea, Leishmaniose tegumentar americana, Cutaneous leishmaniasis)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchados

Conceito

Leishmaniose tegumentar é uma infecção crônica, não contagiosa, causada por protozoários intracelulares obrigatórios do gênero Leishmania, que acometem a pele e as mucosas.

É primariamente uma zoonose de animais silvestres, na qual o ser humano é envolvido secundariamente.

O parasito existe em duas formas, a promastigota, flagelada, presente no vetor, e a amastigota, intracelular, presente no hospedeiro.

É transmitida pela picada de flebotomíneos, do gênero Phlebotomus no Velho Mundo e Lutzomyia no Novo Mundo, tendo como reservatórios animais silvestres como roedores, marsupiais, edentados e canídeos.

No Brasil, os principais agentes são Leishmania braziliensis, Leishmania guyanensis e Leishmania amazonensis.

O espectro clínico depende da espécie e da resposta imune do hospedeiro, indo da forma cutânea localizada às formas disseminada, difusa e mucosa.

Epidemiologia

No Brasil há registro em todas as regiões, com média em torno de 25 mil casos novos por ano, e a doença é de notificação compulsória.

No Novo Mundo, os vetores são flebotomíneos do gênero Lutzomyia, o mosquito-palha, e no Velho Mundo, do gênero Phlebotomus.

O período de incubação é em média de 2 a 3 meses, variando de 2 semanas a 2 anos.

São descritos três padrões de transmissão: o silvestre, o ocupacional e de lazer, ligado a desmatamento e atividades na mata, e o rural e periurbano, com adaptação do vetor ao peridomicílio.

No mundo, a forma cutânea é a mais frequente, com 600 mil a 1 milhão de casos novos por ano, e cerca de 90% concentram-se em poucos países, entre eles Brasil, Peru, Afeganistão, Irã, Síria e Arábia Saudita.

As espécies do Velho Mundo tendem a causar úlceras autolimitadas, enquanto as do Novo Mundo, sobretudo do subgênero Viannia, podem causar doença destrutiva e mucosa.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Exposição à picada de flebotomíneos em áreas endêmicas, em atividades silvestres, ocupacionais ou no peridomicílio
  • Espécies do subgênero Viannia, sobretudo L. braziliensis, e infecção adquirida na região amazônica, que aumentam o risco de acometimento mucoso
  • Lesões cutâneas múltiplas ou extensas, com mais de um ano de evolução e localizadas acima da cintura, e sexo masculino, que se associam a maior risco de leishmaniose mucosa
  • Coinfecção com HIV e outras imunossupressões, que predispõem à forma difusa, a apresentações atípicas, à recidiva, à falha terapêutica e à disseminação; o HIV deve ser investigado em todos os casos
  • Leishmaniose dérmica pós-calazar, que surge até 20 anos após recuperação presumida de leishmaniose visceral não tratada
  • O flebotomíneo Lutzomyia é também vetor da bartonelose, causando verruga peruana, doença de Carrión e febre de Oroya

Patogênese

No intestino do flebotomíneo, os parasitos proliferam como promastigotas flageladas e migram para a probóscide do inseto; na picada, são inoculados na pele, fagocitados pelos macrófagos e convertidos em amastigotas, que se multiplicam.

As manifestações cutâneas surgem em semanas, enquanto a forma mucosa pode se manifestar meses a anos depois.

A doença é espectral e depende da imunidade celular: na forma cutânea há resposta Th1 preservada, com interferon-gama e teste de Montenegro positivo, favorecendo a cura; na forma difusa há anergia celular, teste de Montenegro negativo e resposta Th2, com parasitismo intenso e má resposta ao tratamento; na forma mucosa a resposta celular é exacerbada, com teste de Montenegro fortemente positivo, poucos parasitos e destruição tecidual.

A cura não é estéril, pois parasitos viáveis persistem nas cicatrizes, o que explica recidivas tardias e a reativação em imunossuprimidos.

A agressividade da forma mucosa foi associada ao Leishmania RNA virus, presente em espécies do Novo Mundo e reconhecido pelo receptor Toll-like 3, que desencadeia uma resposta hiperinflamatória.

Clínica

  • A lesão cutânea evolui de mácula para pápula e depois para úlcera, após período de incubação médio de 2 a 3 meses
  • Úlcera leishmaniótica típica: geralmente indolor, arredondada ou ovalada, em área exposta, com base eritematosa e infiltrada de consistência firme, bordas bem delimitadas e elevadas em moldura e fundo granuloso avermelhado
  • Pode ser única ou múltipla, com até cerca de 20 lesões num mesmo segmento, e cursar com adenopatia satélite e linfangite nodular de aspecto esporotricoide
  • Além da úlcera, ocorrem lesões nodulares, papulotuberosas, vegetantes e verrucosas
  • A infecção bacteriana secundária torna a lesão dolorosa, com exsudato seropurulento e crostas, de aspecto ectimoide
  • A cicatrização, espontânea ou após tratamento, deixa cicatriz atrófica, deprimida e lisa, com hipo ou hiperpigmentação
  • Forma cutânea localizada: úlcera única ou em pequeno número, com teste de Montenegro positivo e boa resposta ao tratamento
  • Forma cutânea disseminada: dezenas a centenas de lesões papulares e acneiformes em vários segmentos, por disseminação hemática e linfática, por vezes com febre, mialgia e emagrecimento, e acometimento mucoso associado em até 30% dos casos
  • Forma cutânea difusa: início insidioso com lesão única que evolui para placas e múltiplas nodulações não ulceradas, com predileção por face, orelhas, cotovelos e joelhos e fácies leonina que lembra a hanseníase virchowiana, com teste de Montenegro negativo e má resposta ao tratamento
  • Leishmaniose recidiva cútis: pápulas que reativam na periferia de uma cicatriz antiga
  • Forma mucosa: início insidioso e indolor, geralmente no septo nasal anterior, com obstrução nasal, epistaxe, eliminação de crostas, disfagia, odinofagia e rouquidão
  • No exame da forma mucosa há eritema, infiltração, crostas, pontos sangrantes e ulceração de fundo granuloso, que evolui para perfuração do septo, destruição do palato e mutilações
  • A forma mucosa subdivide-se em tardia, sem lesão cutânea prévia, concomitante, contígua e primária, e a maioria surge nos primeiros dez anos após a lesão cutânea
  • Variantes do Novo Mundo: úlcera do chiclero, na orelha, por L. mexicana; uta, nos Andes, por L. peruviana; e pian-bois, com disseminação linfática, por L. guyanensis

Classificação

  • A classificação do Ministério da Saúde reconhece duas formas principais, a cutânea e a mucosa, além da infecção inaparente, que é o teste de Montenegro positivo sem lesão e não indica tratamento
  • Forma cutânea localizada: acometimento restrito à pele, com úlcera única ou múltipla, por L. braziliensis, L. guyanensis ou, no Velho Mundo, L. major e L. tropica
  • Forma cutânea disseminada: múltiplas lesões em vários segmentos por disseminação, por L. braziliensis e L. amazonensis
  • Forma cutânea difusa: rara e grave, por L. amazonensis nas Américas e L. aethiopica na África, com anergia celular
  • Leishmaniose recidiva cútis: reativação na periferia de cicatriz de lesão prévia
  • Forma mucosa: subdividida em tardia, sem lesão cutânea prévia, concomitante, contígua e primária, quase sempre no Novo Mundo, sobretudo por L. braziliensis
  • Leishmaniose dérmica pós-calazar: forma cutânea que surge após leishmaniose visceral, com máculas hipopigmentadas, pápulas e nódulos

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Complicações e cuidados

  • Na forma mucosa, destruição nasofaríngea progressiva com perfuração do septo, do palato e mutilações, quadro conhecido como face de tapir ou espúndia
  • Infecção secundária na forma mucosa, com broncopneumonia, que é a principal causa de óbito, e risco de obstrução laríngea exigindo traqueostomia de urgência
  • Trombose do seio cavernoso a partir de lesão central da face
  • Infecção bacteriana secundária das úlceras cutâneas, com aspecto ectimoide, além de miíase e lesões conjuntivais
  • Recidiva, mais frequente nas formas mucosa e difusa
  • Disseminação e apresentações atípicas em imunossuprimidos, inclusive como síndrome inflamatória de reconstituição imune após início da terapia antirretroviral

Prognóstico

A leishmaniose cutânea é benigna e, sobretudo no Velho Mundo, tende à cura espontânea em meses, embora deixe cicatriz desfigurante e estigma.

A forma mucosa tem pior prognóstico, com resposta terapêutica difícil, recidiva em torno de 7,5% e letalidade em torno de 1%.

A forma cutânea difusa é rara e grave, com resposta ruim e recidivas quase inevitáveis.

A espécie infectante determina o prognóstico e a resposta ao tratamento, e sua identificação ajuda a prevenir a falha terapêutica e a progressão para a forma mucosa.

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Referências

  1. Manual de vigilância da leishmaniose tegumentar. Ministério da Saúde. 2017.
  2. Nota Informativa nº 13/2020: uso da miltefosina para o tratamento da leishmaniose tegumentar no SUS. Ministério da Saúde. 2020.
  3. Guideline for the treatment of leishmaniasis in the Americas. Pan American Health Organization. 2022.
  4. Diagnosis and treatment of leishmaniasis: clinical practice guidelines by the IDSA and ASTMH. American Journal of Tropical Medicine and Hygiene. 2017.
  5. Cutaneous leishmaniasis: a 2022 updated narrative review into diagnosis and management developments. American Journal of Clinical Dermatology. 2022.
  6. Cutaneous and mucocutaneous leishmaniasis: clinical perspectives. Journal of the American Academy of Dermatology. 2015.

Achados (clique para explorar)

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