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Lúpus eritematoso

Padrão inflamatórioEpiderme, junção dermoepidérmica, derme e anexos(lúpus cutâneo, lúpus eritematoso cutâneo, lúpus discoide, LED, lúpus cutâneo subagudo, lúpus cutâneo agudo, lúpus tumidus, lúpus eritematoso sistêmico, LES)

Conceito

O lúpus eritematoso é uma doença autoimune de expressão ampla, que vai da doença cutânea isolada ao lúpus eritematoso sistêmico, podendo haver associação entre ambos.

As lesões cutâneas específicas dividem-se em lúpus cutâneo agudo, subagudo e crônico; algumas classificações acrescentam o intermitente (tumidus) e o lúpus bolhoso. As formas não são mutuamente exclusivas e podem coexistir no mesmo paciente.

Qualquer forma cutânea pode ocorrer isolada ou no contexto do lúpus sistêmico, com força de associação variável conforme o subtipo. Toda lesão cutânea específica obriga avaliar a possibilidade de lúpus sistêmico.

Há ainda lesões inespecíficas (alopecia difusa não cicatricial, úlceras mucosas, vasculite, livedo, Raynaud, alterações periungueais, sinais de síndrome antifosfolípide) que refletem atividade ou vasculopatia sistêmica.

Epidemiologia

O lúpus sistêmico predomina no sexo feminino e acomete a pele em grande parte dos casos, podendo a pele ser a manifestação inicial. O lúpus cutâneo isolado é mais frequente que o sistêmico, e o lúpus cutâneo crônico (sobretudo o discoide) é a forma cutânea mais comum.

O risco de progressão ou associação com lúpus sistêmico varia com o subtipo: o lúpus cutâneo agudo é o mais fortemente associado; no subagudo, parte relevante preenche critérios (doença sistêmica em geral mais leve); no discoide o risco é menor, maior nas formas disseminadas, na infância, com FAN alto e fototipos mais altos. O lúpus bolhoso ocorre no contexto de lúpus sistêmico, por vezes com atividade intensa.

Fatores de risco

  • Radiação ultravioleta (UVB e UVA); latência de semanas entre exposição e surto dificulta a percepção do paciente
  • Tabagismo (principalmente lúpus discoide): maior gravidade, mais dano e pior resposta aos antimaláricos
  • Medicamentos, sobretudo no lúpus cutâneo subagudo (ex.: hidroclorotiazida, terbinafina, anti-TNF, IBP, bloqueadores de canal de cálcio, IECA, estatinas)
  • Trauma cutâneo (fenômeno de Koebner)
  • Predisposição genética e deficiências de complemento (C1q, C2, C4)

Doenças associadas

  • Toda lesão cutânea específica de lúpus deve ser avaliada para lúpus sistêmico (anamnese, exame físico e laboratório dirigido); manejo conjunto com a reumatologia quando há doença sistêmica
  • Risco de LES por subtipo: agudo (forte), subagudo (parcela preenche critérios), discoide (menor, maior se disseminado ou infantil)
  • Triagem inicial: hemograma, VHS, PCR, FAN por HEp-2, função hepática e renal, urina tipo 1 e proteinúria
  • Conforme suspeita: anti-DNA nativo e anti-Sm (específicos de LES), anti-Ro/SSA e anti-La/SSB (subagudo, fotossensibilidade e lúpus neonatal), anti-RNP, C3, C4, CH50, antifosfolípides; G6PD antes de dapsona ou antimalárico
  • Critérios EULAR/ACR 2019: entrada com FAN igual ou maior que 1:80; classifica com 10 pontos ou mais (mucocutâneo: agudo 6, discoide ou subagudo 4, úlceras orais 2, alopecia não cicatricial 2)
  • Anti-Ro52 materno associa-se a bloqueio cardíaco congênito; gestante com anti-Ro/SSA ou anti-La/SSB exige rastreio fetal
  • Sobreposição com síndrome de Sjögren (anti-Ro/SSA); síndrome antifosfolípide e risco trombótico
  • Lesões crônicas (discoide, hipertrófico, mucoso, ulcerado) têm risco de carcinoma espinocelular

Patogênese

Multifatorial: predisposição genética, fatores ambientais, ativação imune inata e adaptativa, autoanticorpos e dano tecidual. A radiação UV induz apoptose de queratinócitos, expõe autoantígenos nucleares (Ro, La, DNA), ativa citocinas e a assinatura de interferon tipo I.

A depuração deficiente de células apoptóticas (agravada por deficiências de complemento) favorece perda de tolerância. Participam células dendríticas plasmocitoides, linfócitos T e neutrófilos. O anti-Ro/SSA é muito frequente no subagudo. O tabagismo agrava e piora a resposta terapêutica. Mutações em TREX1 associam-se a formas familiares de lúpus pérnio.

Clínica

  • Lúpus cutâneo agudo: eritema malar (asa de borboleta), simétrico, poupando sulcos nasolabiais; transitório e fotoexacerbado; forma disseminada maculopapular fotodistribuída; poupa articulações dos dedos (diferente da dermatomiosite); acompanha atividade sistêmica; costuma não cicatrizar
  • Lúpus cutâneo subagudo: muito fotossensível; placas anulares policíclicas ou papuloescamosas psoriasiformes em áreas fotoexpostas (pescoço, V do decote, dorso, membros superiores), poupando a face central; resolve sem cicatriz (pode deixar hipocromia)
  • Lúpus discoide: placas eritematosas infiltradas com escama aderente, tampão folicular (sinal da língua de gato), atrofia, cicatriz e discromia (hipocromia central, hipercromia periférica); alopecia cicatricial no couro cabeludo; formas localizada, disseminada e infantil
  • Variantes crônicas: mucoso, hipertrófico/verrucoso, profundo (paniculite lúpica: nódulos/placas subcutâneos dolorosos com lipoatrofia), pérnio, comedônico, sobreposição com líquen plano, linear blaschkoide
  • Lúpus tumidus (intermitente): placas eritematoedematosas infiltradas, lisas, sem alteração epidérmica, fotossensíveis, resolvem sem cicatriz
  • Lúpus bolhoso: vesículas e bolhas tensas disseminadas (anti-colágeno VII), associado ao LES; resposta rápida à dapsona
  • Lúpus neonatal: por anti-Ro/SSA e anti-La/SSB maternos; lesões tipo subagudo com acometimento facial; risco de bloqueio cardíaco congênito

Classificação

  • Lesões específicas: agudo, subagudo, crônico, intermitente e bolhoso
  • Crônico inclui: discoide (localizado, disseminado, infantil), discoide mucoso, hipertrófico/verrucoso, profundo (paniculite lúpica), pérnio, comedônico, sobreposição discoide-líquen plano e linear blaschkoide
  • Intermitente: lúpus tumidus
  • Subagudo: formas anular policíclica e papuloescamosa; inclui a induzida por drogas e a síndrome de Rowell (lesões alvoides)
  • Lúpus neonatal: forma relacionada ao subagudo, por autoanticorpos maternos
  • Lesões inespecíficas (refletem doença sistêmica): Raynaud, livedo, vasculite, úlceras mucosas, alopecia difusa não cicatricial, entre outras

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Complicações e cuidados

  • Cicatriz, atrofia, discromia permanente e alopecia cicatricial (típicas do lúpus discoide)
  • Risco de carcinoma espinocelular em lesões crônicas, hipertróficas, mucosas ou ulceradas: vigiar
  • Lipoatrofia e depressões cicatriciais na paniculite lúpica
  • Lúpus neonatal: bloqueio cardíaco congênito irreversível (rastrear gestante com anti-Ro/SSA ou anti-La/SSB)
  • Toxicidade dos fármacos: retinopatia por antimalárico (rastreio oftalmológico), hemólise por dapsona (G6PD), neuropatia e trombose por talidomida
  • No lúpus sistêmico: maior risco cardiovascular e infeccioso; imunização, nefroproteção e controle de risco cardiovascular

Prognóstico

O prognóstico varia com o subtipo. No lúpus discoide a maioria não evolui para lúpus sistêmico, e a progressão, quando ocorre, costuma ser nos primeiros anos, sendo maior nas formas disseminadas e infantis; pode deixar cicatriz, atrofia, discromia e alopecia cicatricial.

O subagudo tem curso crônico e recorrente, em geral sem cicatriz (pode deixar hipopigmentação). O tumidus resolve sem cicatriz. A paniculite lúpica pode deixar depressões por lipoatrofia. O lúpus neonatal cutâneo resolve em cerca de 6 a 12 meses (com a depuração dos anticorpos maternos), mas o bloqueio cardíaco completo é irreversível.

No lúpus sistêmico, o prognóstico depende da atividade e do acometimento renal, neurológico, cardiovascular e hematológico, das infecções e das tromboses; a mortalidade precoce liga-se à atividade e à infecção, e a tardia a eventos cardiovasculares. A meta é a remissão ou, quando não possível, baixa atividade com mínima exposição a corticosteroide.

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Referências

  1. British Association of Dermatologists guidelines for the management of people with cutaneous lupus erythematosus 2021. British Journal of Dermatology. 2021.
  2. Guideline for the diagnosis, treatment and long-term management of cutaneous lupus erythematosus. Journal of Autoimmunity. 2021.
  3. Cutaneous lupus erythematosus: a review of etiopathogenic, clinical, diagnostic and therapeutic aspects. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2023.
  4. EULAR recommendations for the management of systemic lupus erythematosus: 2023 update. Annals of the Rheumatic Diseases. 2024.
  5. 2019 EULAR/ACR classification criteria for systemic lupus erythematosus. Annals of the Rheumatic Diseases. 2019.

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