Grupo de dermatoses e sinais cutâneos que traduzem, na superfície, um processo interno em curso: metabólico, endócrino, renal, hepático ou neoplásico.
A pele funciona como janela para o meio interno, e em muitas dessas doenças a lesão cutânea é o primeiro ou o único sinal disponível antes do diagnóstico sistêmico.
O valor prático da página está menos na descrição da lesão e mais na pergunta que cada lesão obriga a fazer: que doença investigar, com que exame e em que prazo.
As manifestações são divididas em específicas, quando a histopatologia confirma a doença de base investigada, e inespecíficas, quando a lesão não carrega a assinatura histológica da doença sistêmica; a divisão não se aplica a todas as entidades, mas orienta o peso diagnóstico de cada achado.
Nas neoplasias, o conceito operante é o de dermatose paraneoplásica: dermatose adquirida, rara na população geral, que acompanha um tumor sem conter células neoplásicas na lesão, e cujo curso segue o curso do tumor.
A exceção histológica clássica é a síndrome de Sweet associada a neoplasia hematológica, em que células mieloides podem ser detectadas na biópsia cutânea.
A pele é ainda o local ideal para biópsia diagnóstica pelo acesso fácil, o que reforça o papel do dermatologista na triagem de doença interna.
Cerca de um terço de todos os pacientes com diabetes apresenta manifestação cutânea ao longo da doença; com 537 milhões de adultos com diabetes no mundo, estima-se 179 milhões de pessoas com alterações cutâneas relacionadas.
Acantose nigricante foi detectada em 19,4% de 1.730 indivíduos de 7 a 65 anos atendidos na atenção primária, e os portadores de acantose tiveram o dobro de chance de ter diabetes tipo 2 (35,4% contra 17,6%).
Necrobiose lipoídica ocorre em apenas 0,3% a 1,2% dos diabéticos, mas 30% dos portadores de necrobiose têm diabetes; precede o diabetes em cerca de 14% dos casos, é simultânea em até 24% e surge após o diagnóstico em 62%.
Bullosis diabeticorum afeta cerca de 0,5% dos diabéticos, com predomínio no sexo masculino (2:1) e doença de longa duração.
Escleredema diabeticorum tem prevalência de 2,5% a 14% entre diabéticos, sobretudo com doença longa, obesidade, mau controle metabólico e uso de insulina.
Dermopatia diabética chega a acometer até metade dos pacientes, com pico em homens acima de 50 anos e mau controle glicêmico; até três quartos dos idosos diabéticos a apresentam.
Complicações cutâneas dos dispositivos (monitorização contínua de glicose e bomba de infusão) ocorrem em 34% a 90% dos usuários; úlcera de pé diabético ocorrerá em até 34% dos pacientes, e cerca de 20% dessas úlceras levarão a amputação.
Prurido acomete até 50% dos diabéticos; rubeosis faciei chega a 60%.
Na doença renal crônica, 50% a 100% dos pacientes em fase terminal têm pelo menos uma alteração cutânea; prurido acomete 20% a 90% (cerca de 90% dos hemodialisados), xerose 50% a 80%, unhas alteradas em 40%, dermatose perfurante adquirida 4,5% a 11%, porfiria cutânea tardia e pseudoporfiria 1% a 18% cada, calcifilaxia 1% a 4%, calcinose cutânea 1% e criofrost urêmico 1% a 3%.
Hemodialisados têm risco 1,58 vez maior de câncer de pele não melanoma.
Na doença hepática, prurido está presente em 70% dos portadores de colangite biliar primária; eritema palmar tem prevalência de 23% na doença hepática e atinge dois terços dos cirróticos; telangiectasias em aranha ocorrem em 33% dos hepatopatas e em 10% a 15% de indivíduos saudáveis; unhas de Terry em 40%; baqueteamento em 15%.
Mixedema pré-tibial afeta 3% a 5% dos pacientes com doença de Graves e costuma surgir após o tratamento cirúrgico.
Entre as dermatoses paraneoplásicas, pênfigo paraneoplásico associa-se a neoplasia hematológica em 84% dos casos (linfoma não Hodgkin 38,6%, leucemia linfocítica crônica 18,4%, doença de Castleman 18,4%, timoma 5,5%) e acomete adultos de 45 a 70 anos, sem predomínio de sexo.
Neoplasia é encontrada em 14,8% dos pacientes com dermatomiosite, com risco relativo de carcinoma entre 3% e 8% e pico no primeiro ano (sobretudo nos três primeiros meses) após o diagnóstico.
Síndrome de Sweet paraneoplásica corresponde a 21% de todos os casos de Sweet, e 85% deles têm doença hematológica, principalmente leucemia mieloide aguda.
Pioderma gangrenoso tem neoplasia subjacente em até 7% dos casos.
Acroceratose de Bazex predomina em homens, com média de 40 anos, e as lesões cutâneas antecedem o diagnóstico do tumor em 2 a 6 meses.
Eritema gyratum repens ocorre em torno dos 60 anos, com predomínio masculino (2:1).
Hipertricose lanuginosa adquirida predomina em mulheres (3:1), entre 40 e 70 anos.
Fatores de risco e doenças associadas
Na hiperglicemia crônica há dano celular direto a queratinócitos e fibroblastos e dano indireto pelos produtos finais de glicação avançada, que geram radicais livres e estresse oxidativo.
A ligação desses produtos ao seu receptor ativa o NF-kB e a produção de citocinas pró-inflamatórias, amplificando a inflamação e o dano epitelial; a via do sorbitol é hiperativada e a via do óxido nítrico é inibida, comprometendo a vasodilatação e o aporte vascular cutâneo.
Na acantose nigricante, concentrações altas de insulina ativam receptores de IGF-1 em queratinócitos e fibroblastos, induzindo proliferação epidérmica; é, portanto, marcador clínico de resistência insulínica.
Na forma maligna, fatores liberados pelo tumor cumprem esse papel: TGF-alfa liga-se ao receptor do fator de crescimento epidérmico e ativa as vias MAPK e ERK, com participação também de IGF-1, FGF e hormônio estimulador de melanócitos; os mesmos fatores (EGF-alfa, TGF-alfa, IGF-1) explicam o sinal de Leser-Trélat e as palmas em tripa.
No escleredema, propõe-se glicação das fibras colágenas com degradação alterada e estímulo de fibroblastos pela hiperglicemia, resultando em depósito de colágeno e mucopolissacarídeos na derme.
No eritema necrolítico migratório, a redução de zinco e de aminoácidos pelo metabolismo tumoral eleva a produção de ácido araquidônico e a deficiência de niacina compromete o crescimento epidérmico.
No pênfigo paraneoplásico coexistem autoimunidade humoral e celular: autoanticorpos contra a família das plaquinas (envoplaquina 210 kDa, periplaquina 190 kDa, desmoplaquinas 250 e 210 kDa, plectina 500 kDa, antígeno 230 kDa do penfigoide bolhoso), contra desmogleínas 1 e 3, desmocolinas 1 e 3, plaquefilina 3 e contra o inibidor de protease alfa-2-macroglobulina-like-1; linfócitos T CD8 citotóxicos e células natural killer CD56 e CD68 na junção dermoepidérmica explicam as lesões liquenoides.
O predomínio da citotoxicidade humoral produz lesões pemfigoides; o predomínio da celular produz lesões liquenoides.
Na dermatomiosite, o alvo primário é o endotélio dos capilares endomisiais, atacado pelo complexo de ataque à membrana (C3b, C3bNEO, C4b e C5b-9); autoanticorpos anti-TIF1-gama e anti-NXP-2 marcam o subgrupo com maior risco de neoplasia.
Nas dermatoses neutrofílicas paraneoplásicas há desregulação de citocinas: G-CSF, GM-CSF, IL-1, IL-3, IL-6 e IL-8 na síndrome de Sweet; IL-1beta, IL-8, IL-17, IL-23, Fas e FasL no pioderma gangrenoso, com queda da razão entre células T reguladoras e Th17.
Na doença renal crônica, a elevação da ureia leva a seu depósito na derme e à excreção pelo suor, com prurido; o alto turnover ósseo e a hiperfosfatemia precipitam sais de cálcio e fósforo na derme, irritando terminações nervosas.
A calcifilaxia é vasculopatia trombótica por deposição de cálcio na média das arteríolas somada a hiperplasia da íntima, favorecida por produto cálcio-fósforo elevado, hiperparatireoidismo secundário e trombofilia.
Na fibrose sistêmica nefrogênica, o gadolínio é fagocitado por macrófagos teciduais e eleva TGF-beta e IL-6, recrutando fibrócitos e desencadeando fibrose.
Na porfiria cutânea tardia, a atividade hepática da uroporfirinogênio-descarboxilase cai a cerca de 20% do normal, com acúmulo de uroporfirinogênios que se auto-oxidam no plasma e, ativados pela luz nos microcapilares cutâneos, causam dano oxidativo, fragilidade e bolhas; na doença renal crônica soma-se a excreção insuficiente de uroporfirinas, que não são adequadamente dialisadas.
Na doença hepática, os sinais vasculares decorrem de vasodilatação generalizada, circulação hiperdinâmica e metabolismo estrogênico alterado, com estradiol ativando a óxido nítrico sintase, além de VEGF e substância P.
No prurido colestático, o acúmulo de sais biliares desgranula mastócitos e a lesão hepatocitária libera substâncias pruritogênicas; a autotaxina, enzima que sintetiza ácido lisofosfatídico, correlaciona-se com a intensidade do prurido.
Classificação
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A maioria das manifestações cutâneas de doença sistêmica melhora quando a doença de base é controlada, e várias delas regridem completamente com o tratamento do fator causal.
No diabetes, granuloma anular e bullosis diabeticorum resolvem espontaneamente; a necrobiose lipoídica tem curso crônico com remissão espontânea ocasional, e a ulceração é a principal fonte de morbidade; o escleredema resolve espontaneamente em cerca de 18 meses em metade dos casos, com prognóstico geralmente bom.
A úlcera do pé diabético é a complicação de maior peso: até 34% dos pacientes desenvolvem úlcera e cerca de um quinto delas evolui para amputação.
Nas dermatoses paraneoplásicas, o prognóstico é o do tumor; as lesões cutâneas frequentemente regridem após ressecção ou tratamento oncológico e podem reaparecer na recidiva, funcionando como alerta precoce de recorrência.
O pênfigo paraneoplásico tem mortalidade de cerca de 90%, com óbito por sepse, sangramento gastrointestinal e bronquiolite obliterante; os casos ligados a tumores benignos como doença de Castleman localizada e timoma benigno costumam melhorar ou remitir completamente após a ressecção do tumor.
Na dermatomiosite, o risco de neoplasia é maior no primeiro ano após o diagnóstico, cai progressivamente ao longo de cinco anos e permanece discretamente elevado em relação à população geral.
Na doença renal crônica, o prurido é marcador de mau prognóstico; a fibrose sistêmica nefrogênica não tem tratamento curativo, evolui com incapacidade grave e apresenta forma fulminante em 5% dos casos, com melhora significativa e às vezes resolução completa após transplante renal.
Na doença hepática, as manifestações cutâneas são majoritariamente assintomáticas e regridem com a melhora da função hepática ou após o transplante; o reconhecimento precoce da cirrose compensada é decisivo, pois a taxa anual de transição para a forma descompensada é de 4% a 10%, com aumento marcado da mortalidade.
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