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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Metástases cutâneas

malignaderme(Metástase cutânea, Carcinoma erisipeloide, Carcinoma inflamatório, Carcinoma en cuirasse, Carcinoma telangiectásico, Alopecia neoplásica, Nódulo da irmã Maria José, Sister Mary Joseph nodule, Cutaneous metastases)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaDermatoscopiaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchados

Conceito

Metástase cutânea é a implantação, na pele, de células de uma neoplasia maligna originada em outro órgão.

Estima-se que 0,7% a 9% das metástases de tumores sólidos ocorram na pele.

Na maioria das vezes o paciente já tem o diagnóstico da neoplasia maligna quando a metástase cutânea é detectada; em até um terço dos casos, porém, a metástase cutânea é identificada antes do tumor primário.

A metástase cutânea também pode ser o primeiro sinal de recidiva de câncer já tratado, e em 79% dos casos há metástases viscerais concomitantes.

A apresentação clínica é diversa e pode simular dermatoses inflamatórias, tumores benignos e tumores cutâneos malignos.

A proliferação é maligna e não é curável pela lesão cutânea: a metástase cutânea indica doença avançada e associa-se a mau prognóstico.

Diante de nódulo firme de crescimento rápido, em paciente com ou sem câncer conhecido, biopsiar e usar a imuno-histoquímica para localizar o tumor primário.

Epidemiologia

A metástase cutânea de tumores sólidos é evento incomum na prática clínica.

Há divergência na literatura sobre quais tumores mais metastatizam para a pele: estudos recentes apontam o melanoma como o mais frequente, enquanto em estudos clássicos ele aparece apenas em quarto lugar.

Metanálise que excluiu os casos de melanoma identificou como primários mais frequentes a mama (24%), seguida de rim (4%), ovário (3,8%), bexiga (3,6%), pulmão (3,4%), colorretal (3,4%) e próstata (0,7%).

Entre as neoplasias comuns, o carcinoma de mama é o que mais frequentemente metastatiza para a pele; o carcinoma de próstata, apesar de muito frequente, raramente cursa com metástase cutânea.

Tumores primários por sexo:

Em estudo brasileiro com 209 casos, nas mulheres as metástases cutâneas originaram-se de câncer de mama (63,19%), de intestino grosso (10,41%) e de pulmão (4,16%).

Nos homens, a ordem de frequência foi câncer de pulmão (33,84%), de estômago (12,3%) e de laringe (7,69%).

Na população pediátrica, os primários mais frequentes são rabdomiossarcoma e neuroblastoma.

Topografia da metástase:

O tórax anterior é o sítio mais comum, seguido do abdome, da cabeça e pescoço (incluindo o couro cabeludo) e dos membros.

No couro cabeludo predominam metástases de mama, pulmão e rim.

Na face e no pescoço predominam metástases de carcinoma epidermoide de cabeça e pescoço, de rim e de pulmão.

No tórax anterior predominam metástases de mama, pulmão e melanoma.

No abdome predominam metástases de cólon, estômago, pulmão e ovário.

Na região umbilical predominam metástases de estômago, pâncreas, cólon, ovário, rim e mama.

Na pelve predominam metástases de cólon e de bexiga.

O sítio da metástase orienta a busca do primário: o câncer de mama metastatiza sobretudo para o tórax anterior e os tumores do trato gastrointestinal, para o abdome.

Frequência de metástase cutânea por tumor primário:

No melanoma, o acometimento cutâneo secundário ocorre em 10% a 17% dos pacientes e em até 50% dos que têm doença disseminada; na maioria dos casos a pele é o primeiro sítio de acometimento metastático e em cerca de 30% surge após metástase linfonodal.

No câncer de pulmão, 1% a 12% dos pacientes desenvolvem metástase cutânea.

No câncer colorretal, cerca de 4% dos pacientes evoluem com metástase cutânea, em média 25 meses após o diagnóstico, com idade média de 55 anos ao diagnóstico da metástase.

No carcinoma de células renais, a pele é sítio de metástase em menos de 2% dos casos metastáticos, e em até 20% a lesão cutânea aparece antes da identificação do tumor renal.

Nos tumores ginecológicos, excluída a mama, as metástases cutâneas respondem por até 8,5% dos implantes secundários nas mulheres, na maioria de origem ovariana.

No carcinoma epidermoide de cabeça e pescoço, a metástase cutânea a distância ocorreu em 0,763% de uma coorte de 2.491 pacientes e em 2,4% de uma série de 798 pacientes.

No carcinoma de tireoide, a incidência estimada é de menos de 1 caso por 1.000, sem diferença entre os sexos, com idade média de 50 anos.

No neuroblastoma, terceira neoplasia maligna mais comum da infância, as metástases cutâneas são o sinal de apresentação em 30% dos pacientes com doença metastática.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Neoplasia maligna interna em atividade
  • Doença metastática já estabelecida
  • Manipulação cirúrgica do tumor, com implantação iatrogênica de células neoplásicas (incisão de colectomia, cistectomia)
  • Carcinoma de mama (principal origem na mulher)
  • Carcinoma de pulmão (principal origem no homem)
  • Melanoma, carcinoma colorretal, carcinoma gástrico e carcinoma de laringe
  • Neoplasias abdominopélvicas (estômago, pâncreas, cólon, ovário, colo uterino, vesícula biliar, intestino delgado) no nódulo da irmã Maria José
  • Carcinoma de células renais (lesões vascularizadas de cabeça e pescoço)
  • Carcinoma urotelial de bexiga
  • Carcinoma epidermoide de cabeça e pescoço, sobretudo de cavidade oral
  • Carcinoma de tireoide, papilífero e folicular
  • Rabdomiossarcoma e neuroblastoma na infância

Patogênese

A metástase é o desenvolvimento de tumor a distância do sítio primário e ocorre predominantemente por invasão vascular, linfática ou hematogênica; há ainda disseminação por contiguidade e implantação iatrogênica.

A fisiopatologia divide-se em seis etapas: invasão local, intravasação, sobrevivência na circulação, aprisionamento em órgão distante, extravasamento e formação de micrometástase com colonização metastática.

Na invasão local, as células malignas entram no tecido mole adjacente ao tumor após ruptura da membrana basal pela ação de metaloproteinases de matriz.

A intravasação é facilitada pela neoangiogênese: os vasos neoformados têm pouca cobertura de pericitos e endotélio com pouca adesão celular; evidências recentes indicam que o fenômeno ocorre predominantemente durante o sono.

Na circulação, as células malignas escapam do trauma hemodinâmico e da ação do sistema imune formando microtrombos plaquetários ao seu redor.

O aprisionamento em órgão distante depende de forte interação entre o tumor primário e o tecido mole do sítio-alvo, o que explica os sítios preferenciais de cada tumor; embora a pele seja órgão muito vascularizado, poucos tumores têm predileção evidente por ela, possivelmente por boa proteção imunológica ou baixa interação com o tecido mole cutâneo.

O extravasamento ocorre por ruptura mecânica do vaso ou por hiperpermeabilidade vascular induzida por proteínas como epirregulina (EREG), cicloxigenase 2 (COX-2) e metaloproteinases 1 e 2 (MMP-1 e MMP-2), com ação específica sobre a vascularização de cada órgão-alvo.

Na colonização, a célula tumoral precisa de capacidade de autorrenovação e proliferação e libera substâncias que tornam o tecido mole adjacente receptivo; micrometástases podem permanecer latentes por meses ou anos até que alterações genéticas ou epigenéticas favoreçam a formação de metástases macroscópicas.

A topografia das apresentações clássicas reflete a relação de vizinhança: o carcinoma de mama produz lesões da parede torácica, os tumores abdominopélvicos produzem o nódulo umbilical e o carcinoma de células renais produz lesões vascularizadas de cabeça e pescoço.

No carcinoma de células renais, as veias renais têm anastomoses com os plexos vertebrais, conectados à vasculatura cefálica, o que permite a disseminação hematogênica para cabeça e pescoço.

O carcinoma de células renais, o carcinoma folicular de tireoide e o carcinoma hepatocelular disseminam-se preferencialmente por via hematogênica.

No carcinoma de mama, o carcinoma telangiectásico dissemina-se predominantemente por vasos sanguíneos, enquanto no carcinoma erisipeloide a disseminação é linfática.

No carcinoma en cuirasse e no carcinoma erisipeloide, a infiltração das células neoplásicas nos vasos linfáticos da derme produz alterações cutâneas de tipo linfedematoso, com eritema e endurecimento.

Na alopecia neoplásica, as células neoplásicas destroem os folículos pilosos e induzem fibroplasia, o que torna a alopecia cicatricial e irreversível.

No câncer colorretal, o acometimento cutâneo ocorre por contiguidade, por via linfática ou hematogênica e por disseminação ao longo de remanescentes embrionários, como o úraco.

No carcinoma urotelial de bexiga, o acometimento cutâneo ocorre na maioria das vezes por invasão tumoral direta, podendo também ser vascular ou por implantação iatrogênica após procedimentos como a cistectomia.

No neuroblastoma, o clareamento periférico após a fricção da lesão decorre da liberação local de catecolaminas.

Clínica

Apresentação mais comum

  • Pápulas e nódulos dérmicos ou subcutâneos, normocrômicos, eritematosos ou violáceos, em geral indolores
  • Nódulos firmes, de crescimento rápido, isolados ou múltiplos, aderidos a planos profundos, que podem ulcerar
  • Couro cabeludo, tórax anterior e abdome são as topografias mais frequentes

Carcinoma telangiectásico

  • Pápulas violáceas sobre superfície telangiectásica, próximas à cicatriz prévia de mastectomia
  • Menos comumente, lesões papulovesiculosas semelhantes a linfangioma circunscrito
  • Associa-se sobretudo ao adenocarcinoma de mama

Carcinoma erisipeloide (carcinoma inflamatório)

  • Placa eritematosa, quente, de bordas bem delimitadas, acometendo a mama e a pele adjacente
  • Simula erisipela, mas não cursa com febre nem responde a antibiótico
  • Decorre da infiltração do carcinoma nos vasos linfáticos dérmicos

Carcinoma en cuirasse

  • Pele infiltrada e endurecida, de aspecto esclerodermiforme, envolvendo a parede torácica como uma couraça
  • Pode acometer também axila e membros superiores
  • Associa-se mais comumente ao carcinoma de mama

Alopecia neoplásica

  • Nódulos ou placas endurecidas no couro cabeludo, que resultam em alopecia
  • A alopecia é cicatricial e irreversível quando as células neoplásicas destroem os folículos pilosos

Nódulo da irmã Maria José (Sister Mary Joseph)

  • Nódulo firme no umbigo, de 0,5 a 2 cm, secundário a tumor metastático
  • Pode apresentar secreção purulenta, serosa ou sanguinolenta
  • Não é patognomônico de tumor colorretal: descrito também em câncer de estômago, ovário, pâncreas, colo uterino, vesícula biliar, intestino delgado e mama

Metástases zosteriformes

  • Pápulas, nódulos e lesões vesicobolhosas distribuídas ao longo de um dermátomo
  • Descritas em melanoma, carcinoma de mama e carcinoma de pulmão
  • Metástases em cicatriz cirúrgica e por implantação iatrogênica:
  • No câncer colorretal, a maioria das metástases cutâneas de uma série surgiu nos sítios da incisão cirúrgica da colectomia
  • No carcinoma urotelial, há implantação após procedimentos como a cistectomia

Metástases subungueais

  • Nódulos subungueais eritematoso-violáceos, ou edema, eritema e dor nas falanges distais simulando quadro infeccioso
  • Primários mais frequentes: pulmão (41%), geniturinário (17%) e mama (9%)

Metástases de melanoma

  • Pápulas ou nódulos dérmicos ou subcutâneos, pretos ou acastanhados, que podem ulcerar
  • Podem ser amelanóticos e atingir grandes dimensões, com morbidade significativa
  • Metástases em trânsito localizam-se em geral entre o tumor primário e o linfonodo regional, podendo surgir do lado oposto por alteração do fluxo linfático
  • Mais frequentes no dorso nos homens e nos membros inferiores nas mulheres
  • Também descritas como placas eritematosas (tipo erisipela), lesões esclerosantes (en cuirasse), purpúricas e telangiectásicas

Metástases de carcinoma de pulmão

  • Nódulos subcutâneos normocrômicos ou discretamente eritematosos, endurecidos e aderidos a planos profundos
  • Em geral solitários no início, com surgimento posterior de lesões múltiplas
  • Descritas lesões simulando ceratoacantoma, nódulo eritematoso na ponta do nariz (nariz de palhaço), padrão zosteriforme e quadro simulando erisipela

Metástases do trato gastrointestinal

  • Nódulos firmes, róseos ou avermelhados, que podem ulcerar
  • Abdome é o sítio mais acometido, seguido das regiões pré-sacral e perineal (esta mais ligada ao câncer de reto)
  • Outras apresentações: lesões tipo cisto epidérmico, tipo neurofibroma, eritema anular, condilomas, elefantíase nostra verrucosa e áreas de alopecia
  • No câncer gástrico, o carcinoma de células em anel de sinete é o que mais frequentemente metastatiza para a pele, com nódulos, lesões tipo erisipela ou tipo cisto epidérmico no abdome

Metástases de carcinoma de células renais

  • Nódulos de crescimento rápido, normocrômicos ou avermelhados, muito vascularizados
  • Predomínio em cabeça e pescoço

Metástases de carcinoma urotelial de bexiga

  • Nódulos únicos ou múltiplos, placas infiltradas ou aspecto esclerosante
  • Localizam-se sobretudo em abdome inferior, pelve e escroto
  • Descrito caso com livedo racemoso por oclusão vascular

Metástases de carcinoma epidermoide de cabeça e pescoço

  • Primário mais frequente na cavidade oral, sobretudo assoalho da boca
  • Acometem pescoço (63%), couro cabeludo (15%) e tórax anterior (10%), com lesões múltiplas na maioria dos casos

Metástases de carcinoma de tireoide

  • Nódulos eritematosos, pruriginosos ou ulcerados, com predomínio no couro cabeludo
  • Também descritas em tronco anterior e posterior, face e pescoço

Metástases de neuroblastoma

  • Múltiplos nódulos azulados em tronco e extremidades
  • Clareamento periférico após fricção da lesão, por liberação de catecolaminas
  • Olhos de guaxinim (escurecimento ou púrpura periorbitária) por metástases orbitárias

Classificação

Metástases cutâneas de melanoma

  • Microssatélite: metástase microscópica, cutânea ou subcutânea, desconectada do tumor primário e não perceptível ao exame clínico
  • Satélite: metástase visível até 2 cm do sítio do tumor primário
  • Em trânsito: metástase cutânea ou subcutânea a mais de 2 cm da lesão primária, dentro da drenagem linfática regional
  • A distância: metástase por disseminação hematogênica, fora do foco de drenagem linfática do tumor primário
  • Metástases satélites e em trânsito correspondem a disseminação intralinfática, configuram doença locorregional e têm implicações terapêuticas e prognósticas semelhantes
  • A recidiva local por ressecção incompleta do tumor primário deve ser distinguida da metástase

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Complicações e cuidados

  • Ulceração, sangramento e infecção secundária das lesões
  • Dor e comprometimento funcional
  • Alopecia cicatricial irreversível na alopecia neoplásica
  • Linfedema e endurecimento extenso da parede torácica (carcinoma en cuirasse)
  • Oclusão vascular com livedo racemoso (carcinoma urotelial)
  • Doença disseminada com acometimento visceral

Prognóstico

A metástase cutânea associa-se a mau prognóstico, pois indica doença avançada; em 79% dos casos há metástases viscerais concomitantes.

Entre todas as metástases cutâneas, os pacientes com câncer de pulmão têm o pior prognóstico.

No câncer de mama com metástase cutânea, a sobrevida média é de 57 meses, caindo para 25 meses quando há metástase visceral concomitante.

No carcinoma de células renais, a expectativa de sobrevida após a metástase cutânea é de cerca de 6 meses.

No carcinoma urotelial de bexiga, a sobrevida média é inferior a 12 meses.

Nas metástases de adenocarcinoma colorretal e gástrico, o prognóstico é muito ruim, com sobrevida média de poucos meses.

No carcinoma epidermoide de cabeça e pescoço, a sobrevida média após o surgimento da metástase cutânea é de 3 meses.

No carcinoma de tireoide, a sobrevida média após o diagnóstico da metástase cutânea é de 19 meses.

No melanoma, metástases satélites e em trânsito configuram doença locorregional, enquanto a metástase a distância piora consideravelmente o prognóstico.

No neuroblastoma, lactentes com menos de 1 ano de idade têm prognóstico favorável, enquanto crianças maiores têm prognóstico ruim; a amplificação de n-Myc associa-se a pior prognóstico.

O curso é determinado pelo tumor primário e pela extensão da doença sistêmica.

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Referências

  1. Cutaneous metastases from solid neoplasms: literature review. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2023.
  2. Dermoscopy of skin metastases in advanced cancer, systemic (visceral, hematologic) and cutaneous. Frontiers in Medicine. 2024.

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