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Micobacteriose atípica

Padrão inflamatório(Micobacteriose não tuberculosa, Micobactéria atípica, Nontuberculous mycobacteria, NTM)

Conceito

Micobacteriose atípica, ou não tuberculosa, é a infecção causada por micobactérias que não pertencem ao complexo Mycobacterium tuberculosis nem causam hanseníase.

São bacilos álcool-ácido resistentes, aeróbios e ricos em lipídios, de distribuição ambiental ubíqua, sobretudo na água e no solo.

Mais de 170 espécies são descritas, a maioria sem interesse clínico, com comportamento variável entre patógenos, oportunistas e não patogênicos.

A pele e os tecidos moles são acometidos sobretudo por inoculação direta, após trauma ou procedimentos.

Epidemiologia

A incidência das micobacterioses não tuberculosas vem aumentando, mesmo onde a tuberculose diminui, pela maior detecção e pelo uso crescente de imunossupressores.

No Brasil, as principais fontes são ambientais e hospitalares, com destaque para os surtos de micobactérias de crescimento rápido, como o complexo M. abscessus, após cirurgias e procedimentos estéticos.

A doença cutânea costuma exigir fatores de risco adicionais, e a forma disseminada acomete imunossuprimidos graves.

A úlcera de Buruli, causada pelo M. ulcerans, é uma doença tropical negligenciada que atinge sobretudo crianças em áreas rurais e úmidas.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Trauma ou contato com água e solo contaminados
  • Procedimentos cirúrgicos e estéticos, como implantes, lipoaspiração, mesoterapia, tatuagens, acupuntura e pedicures
  • Imunossupressão, incluindo HIV, transplantes e uso de inibidores do TNF-alfa
  • Deficiências genéticas do eixo do interferon-gama e da IL-12
  • Exposição a ambientes aquáticos, como aquários e piscinas, para o M. marinum
  • Residência em áreas rurais úmidas de regiões endêmicas, para a úlcera de Buruli
  • Imunossupressão pelo HIV, por transplantes e por inibidores do TNF-alfa
  • Procedimentos cirúrgicos e estéticos, como fonte de infecção
  • Exposição a ambientes aquáticos, para o M. marinum
  • Fibrose cística, associada à doença pulmonar pelo complexo M. abscessus

Patogênese

As micobactérias não tuberculosas são ambientais e infectam a pele por inoculação direta em soluções de continuidade, por extensão de um foco profundo ou por disseminação hematogênica.

A resposta imune depende do eixo do interferon-gama e da IL-12 e da via do TNF-alfa, e a doença é favorecida nas deficiências desse eixo, no HIV e no uso de inibidores do TNF-alfa.

Uma resposta celular Th1 eficaz gera infecção localizada e granulomatosa, enquanto a falha da imunidade celular leva a formas disseminadas ricas em bacilos.

No M. ulcerans, a toxina micolactona causa destruição tecidual, imunossupressão local e hipoestesia, o que explica a úlcera indolor.

Clínica

  • M. marinum: granuloma de aquário ou de piscina, com pápula ou nódulo que ulcera e dissemina em padrão esporotricoide, adquirido em ambientes aquáticos, com predileção pelas extremidades
  • M. ulcerans: úlcera de Buruli, que começa como nódulo ou placa endurecida indolor e evolui para úlcera de bordas solapadas, sobretudo nos membros inferiores, podendo atingir o osso
  • Complexo M. avium: acometimento cutâneo raro, com placas, pústulas, paniculite e linfadenite, e doença disseminada com sintomas sistêmicos nos imunossuprimidos
  • M. kansasii: nódulos, pústulas, lesões verrucosas, úlceras e abscessos, por vezes com linfangite nodular esporotricoide, geralmente em imunossuprimidos
  • M. haemophilum: pápulas, placas e nódulos que evoluem para abscessos ou úlceras nas extremidades, sobre articulações, e linfadenite cervical nas crianças
  • M. scrofulaceum: linfadenite cervical, sobretudo em crianças
  • Micobactérias de crescimento rápido, como M. fortuitum, M. chelonae e o complexo M. abscessus: nódulos subcutâneos dolorosos, abscessos, celulite e fístulas de drenagem após trauma, cirurgia ou procedimentos estéticos, com lesão única mais típica do M. fortuitum e lesões múltiplas do M. chelonae e do M. abscessus

Classificação

  • Classificação de Runyon, pela velocidade de crescimento e pela produção de pigmento
  • Crescimento lento fotocromógeno, que pigmenta à luz, como M. kansasii, M. marinum e M. simiae
  • Crescimento lento escotocromógeno, que pigmenta no escuro, como M. scrofulaceum e M. gordonae
  • Crescimento lento acromógeno, sem pigmento, como o complexo M. avium, o M. ulcerans e o M. haemophilum
  • Crescimento rápido, com colônias em menos de 7 dias, como M. fortuitum, M. chelonae e o complexo M. abscessus
  • O M. ulcerans, produtor da micolactona, e o M. marinum estão entre as de crescimento lento, e a classificação fenotípica não guarda relação direta com o comportamento clínico

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Complicações e cuidados

  • Osteomielite e artrite séptica por extensão profunda
  • Sequelas e perda de função na úlcera de Buruli não tratada, com contraturas e deformidades
  • Doença disseminada e mau prognóstico nos imunossuprimidos, sobretudo pelo complexo M. avium
  • Infecções graves pós-cirúrgicas, como as do M. chimaera após cirurgia cardíaca
  • Resistência antimicrobiana, sobretudo do complexo M. abscessus, que dificulta o tratamento

Prognóstico

O prognóstico depende da espécie e da imunidade do hospedeiro, sendo bom na doença localizada tratada adequadamente.

As micobactérias de crescimento rápido, sobretudo o complexo M. abscessus, têm tratamento difícil e prolongado.

A úlcera de Buruli tem baixa mortalidade, mas pode deixar sequelas incapacitantes quando não tratada precocemente.

A doença disseminada nos imunossuprimidos tem prognóstico reservado.

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Referências

  1. Micobacterioses cutâneas não-tuberculose. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2021.
  2. Cutaneous mycobacterial infections. Clinical Microbiology Reviews. 2019.
  3. Treatment of non-tuberculosis mycobacteria skin infections. Frontiers in Pharmacology. 2023.

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