A micose fungoide é um linfoma não Hodgkin de células T maduras com apresentação primária na pele, derivado de linfócitos T de memória com tropismo cutâneo (fenótipo CD3+, CD4+, CD45RO+, CD8-).
É uma neoplasia maligna e o linfoma cutâneo de células T mais comum: responde por cerca de 60% dos linfomas cutâneos de células T e por quase 50% de todos os linfomas cutâneos primários.
A história natural é indolente: a doença costuma permanecer confinada à pele por anos, evoluindo de máculas para placas e, em uma minoria, para tumores, com acometimento secundário de linfonodos, sangue e vísceras.
O problema central da doença é o atraso diagnóstico: as lesões iniciais são inespecíficas e imitam eczema e psoríase, a histopatologia da fase de mácula é frequentemente ambígua e o diagnóstico costuma levar anos e várias biópsias.
A síndrome de Sézary é a variante leucêmica e agressiva, definida pela tríade eritrodermia, linfadenopatia e células neoplásicas circulantes (células de Sézary), e é entidade distinta da micose fungoide.
O tratamento é indicado, mas é paliativo na quase totalidade dos casos, com prioridade para o controle da doença, o alívio do prurido e a manutenção da qualidade de vida. Nos estágios iniciais a expectativa de vida é próxima à da população geral, e terapias agressivas devem ser postergadas.
As exceções curativas são raras: radioterapia localizada na doença unilesional e transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas em pacientes selecionados com doença avançada.
Os linfomas cutâneos primários representam 19% dos linfomas extranodais, com incidência anual de 1 caso por 100.000 habitantes nos países ocidentais; no Ocidente, 75% a 80% deles são linfomas cutâneos de células T.
A micose fungoide tem incidência mundial aproximada de 5 a 6 casos por milhão de habitantes por ano.
Acomete sobretudo adultos e idosos, com início típico na sexta ou sétima década, e é duas vezes mais frequente em homens do que em mulheres.
Pode ocorrer em pacientes jovens, incluindo crianças, situação em que a variante hipopigmentada é a apresentação mais comum.
A idade avançada associa-se a estágio mais avançado ao diagnóstico, maior risco de progressão e pior sobrevida específica e global.
A variante foliculotrópica corresponde a cerca de 5% a 10% dos casos; a reticulose pagetoide e a cútis laxa granulomatosa correspondem, cada uma, a menos de 1%; a síndrome de Sézary corresponde a cerca de 2% dos linfomas cutâneos de células T.
Cerca de 20% a 25% dos pacientes progridem para estágios avançados.
No Brasil, o HTLV-1 é endêmico, o que torna obrigatória a triagem sorológica em todo paciente com suspeita ou confirmação de linfoma cutâneo de células T, para diferenciar micose fungoide e síndrome de Sézary da leucemia/linfoma de células T do adulto.
Fatores de risco e doenças associadas
A doença resulta da proliferação monoclonal de linfócitos T auxiliares maduros (CD4+/CD45RO+) com tropismo cutâneo, que se acumulam na epiderme (epidermotropismo) e na derme papilar.
As células neoplásicas expressam o receptor de quimiocina CCR4, que medeia o direcionamento dos linfócitos para a pele e explica o padrão de doença cutânea persistente.
Há perda variável de marcadores pan-T de superfície (CD7, CD5, CD2, CD26), fenômeno que sustenta o diagnóstico imunofenotípico.
As células tumorais da micose fungoide e da síndrome de Sézary carregam com frequência assinatura mutacional de radiação ultravioleta, com alta carga mutacional, o que sugere participação da exposição ultravioleta na transformação de linfócitos T de memória residentes na pele.
A colonização cutânea e nasal por Staphylococcus aureus é mais prevalente nesses pacientes, e toxinas estafilocócicas foram implicadas como estímulo à proliferação das células neoplásicas e a surtos da doença.
A transformação em grandes células representa a evolução do clone maligno original, e não o surgimento de um segundo linfoma.
Classificação
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O prognóstico depende essencialmente do estágio, e a diferença entre os extremos é enorme.
Sobrevida específica em 5 anos por estágio: IA 98%, IB 89%, IIA 89%, IIB 56%, IIIA 54%, IIIB 48%, IVA1 41%, IVA2 23% e IVB 18%.
Pacientes com doença em estágio IA têm baixo risco de progressão e expectativa de vida semelhante à da população geral; nos estágios iniciais como um todo, as terapias dirigidas à pele controlam a doença e a maioria dos pacientes tem expectativa de vida normal, ainda que possam sofrer morbidade e piora da qualidade de vida.
Nos estágios iniciais, os pacientes que se apresentam com placas (T1b e T2b) têm risco maior de progressão do que os que têm apenas máculas (T1a e T2a), e é a esses últimos que se oferece a conduta expectante.
Cerca de 20% a 25% dos pacientes progridem para estágios avançados, com desenvolvimento de tumores, disseminação extracutânea e prognóstico ruim.
A doença é geralmente considerada incurável, com sobrevida média de 5 a 10 anos nas formas indolentes, embora alguns pacientes sobrevivam mais de 20 anos.
Sobrevida específica em 5 anos por variante: micose fungoide clássica 88%, foliculotrópica 75%, reticulose pagetoide 100%, cútis laxa granulomatosa 100% e síndrome de Sézary 36%.
A síndrome de Sézary tem comportamento agressivo e prognóstico ruim.
São marcadores independentes de pior prognóstico o estágio tumoral, a eritrodermia, o envolvimento sanguíneo (B2 equivale, em peso prognóstico, ao envolvimento nodal N3), o envolvimento visceral, a idade avançada, o foliculotropismo e a transformação em grandes células (com a negatividade para CD30 associada a pior evolução).
As respostas ao tratamento nos estágios avançados são em geral curtas, e a maioria dos pacientes recebe múltiplas terapias sequenciais; apenas um subgrupo altamente selecionado alcança remissão longa com o transplante alogênico.
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