Micoses subcutâneas e sistêmicas (profundas)
Conceito
As micoses subcutâneas e sistêmicas (profundas) formam um grupo de infecções fúngicas que ultrapassam a camada córnea e acometem derme, tecido subcutâneo e/ou órgãos internos, com repercussão cutânea.
As formas subcutâneas (de implantação) resultam da inoculação traumática do fungo na pele e incluem esporotricose, cromoblastomicose, micetoma eumicótico e lobomicose.
As formas sistêmicas (micoses endêmicas por fungos dimórficos) resultam habitualmente da inalação de propágulos com infecção pulmonar primária e disseminação hematogênica secundária à pele, e incluem paracoccidioidomicose, histoplasmose, blastomicose e coccidioidomicose.
A criptococose é uma micose sistêmica de comportamento oportunista, sobretudo em imunossuprimidos.
A esporotricose e a paracoccidioidomicose são as micoses profundas de maior relevância no Brasil.
Muitos agentes são fungos dimórficos, que crescem como filamentos (bolor) no ambiente a 25 °C e como leveduras nos tecidos a 35–37 °C.
O diagnóstico apoia-se na identificação do agente por exame direto, cultura e histopatologia, complementados por sorologia e biologia molecular.
O tratamento é conduzido por agente com antifúngicos sistêmicos, muitas vezes por períodos prolongados.
Epidemiologia
Esporotricose: distribuição mundial, com o agente saprófita do solo, vegetais e matéria orgânica em decomposição; o complexo Sporothrix schenckii inclui S. brasiliensis, S. schenckii sensu stricto, S. globosa e S. luriei.
No Brasil predomina a epidemia zoonótica por S. brasiliensis transmitida por gatos, com o Rio de Janeiro considerado hiperendêmico; de 1997 a 2011 foram registrados 4.188 casos humanos e, até 2015, 4.703 gatos diagnosticados em centro de referência.
Casos zoonóticos também ocorrem no Rio Grande do Sul e em São Paulo, afetando com frequência crianças e idosos; a forma clássica é ocupacional (jardineiros, agricultores, veterinários) por inoculação traumática.
Cromoblastomicose: predomina em climas tropicais e subtropicais como doença ocupacional de trabalhadores rurais descalços; Fonsecaea pedrosoi prevalece em áreas úmidas e Cladophialophora carrionii em áreas semiáridas; acomete sobretudo homens adultos imunocompetentes.
Micetoma: ocorre nos trópicos do sul (América Latina, Índia e África), associado a pobreza e ao andar descalço, em homens jovens.
Paracoccidioidomicose: é a principal micose sistêmica endêmica da América Latina, mais prevalente na América do Sul (Brasil, Colômbia, Venezuela, Argentina e Equador); associa-se a atividades rurais e agrícolas, especialmente lavouras de café e fumo, e o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus) é reservatório natural.
A forma crônica (adulto) corresponde a 74–96% dos casos, em homens de 30 a 60 anos (razão homem:mulher de até 22:1), enquanto a forma aguda/subaguda (juvenil) representa 5–25%, acometendo crianças, adolescentes e adultos jovens sem predomínio de sexo.
Tabagismo e alcoolismo são fatores de risco relevantes na paracoccidioidomicose, cuja mortalidade média no Brasil foi de 1,45 óbito por milhão de habitantes, maior entre homens de 30 a 59 anos.
Histoplasmose: endêmica nos vales dos rios Ohio e Mississippi (Histoplasma capsulatum var. capsulatum); a variedade africana é H. capsulatum var. duboisii; adquirida por inalação, sobretudo de fezes de aves e morcegos.
Blastomicose: ocorre no leste dos Estados Unidos (sudeste), Grandes Lagos e vales dos rios Ohio e Mississippi (Blastomyces dermatitidis).
Coccidioidomicose: endêmica nos desertos do sudoeste dos Estados Unidos (Vale de San Joaquin/Central da Califórnia), México e América Central e do Sul (Coccidioides immitis e C. posadasii).
Criptococose: C. neoformans é cosmopolita e encontrado em fezes de aves, sobretudo pombos, enquanto C. gattii é tropical/subtropical e associado a cascas e frutos de árvores; acomete principalmente imunossuprimidos, em especial pacientes com HIV/AIDS.
Lobomicose: ocorre em áreas rurais dos rios da América do Sul, infecta golfinhos de água doce e predomina em homens.
Fatores de risco e doenças associadas
- Inoculação traumática por espinhos, farpas de madeira ou musgo esfagno
- Mordeduras e arranhaduras de gato (esporotricose zoonótica no Brasil)
- Trabalho rural, jardinagem e agricultura
- Andar descalço em regiões tropicais (micetoma e cromoblastomicose)
- Exposição a lavouras de café e fumo (paracoccidioidomicose)
- Contato com fezes de aves e morcegos (histoplasmose e criptococose)
- Tabagismo e alcoolismo (paracoccidioidomicose)
- Imunossupressão, sobretudo HIV/AIDS (formas disseminadas e criptococose)
- Sexo masculino e idade adulta (paracoccidioidomicose, micetoma e lobomicose)
- Mutações em CARD9 (cromoblastomicose grave)
- DPOC e tabagismo (esporotricose pulmonar)
- Uso crônico de corticosteroides, transplante, neoplasias hematológicas e anti-TNF
- HIV/AIDS (formas disseminadas de esporotricose, criptococose e histoplasmose)
- Epidemia zoonótica felina por Sporothrix brasiliensis no Brasil
- Tatu-galinha como reservatório de Paracoccidioides
- DPOC e tabagismo (esporotricose e paracoccidioidomicose pulmonares)
- Síndrome oculoglandular de Parinaud (esporotricose ocular)
- Fenômeno de Splendore-Hoeppli (esporotricose)
- Eritema nodoso e outras reações imunorreativas (esporotricose)
Patogênese
As micoses subcutâneas resultam de inoculação traumática por espinhos, farpas de madeira e musgo esfagno, ou, na esporotricose zoonótica, por arranhaduras e mordeduras de gato.
Os fungos dimórficos convertem-se de filamentos saprofíticos ambientais (25 °C) em leveduras parasitárias teciduais (35–37 °C).
Na esporotricose, a inoculação parte do solo, plantas e musgo; a via zoonótica gato-humano associa-se a S. brasiliensis, mais virulenta; termotolerância e melanina são fatores de virulência; a inalação de esporos pode originar a forma pulmonar.
Na cromoblastomicose, a inoculação por espinhos ou farpas leva à formação de células muriformes (escleróticas), a forma parasitária altamente resistente à resposta imune, com intensa deposição de melanina; há resposta Th2 não protetora, e mutações em CARD9 predispõem a formas graves.
No micetoma, a inoculação traumática resulta em grãos, que são agregados do fungo ou da bactéria.
Na paracoccidioidomicose, a inalação de propágulos do solo gera foco pulmonar primário com disseminação hematogênica; raramente há inoculação cutânea direta; a glicoproteína gp43 é o antígeno imunodominante e a resposta Th1/IFN-gama é protetora.
Nas micoses sistêmicas dimórficas (histoplasmose, blastomicose, coccidioidomicose) e na criptococose, a inalação causa infecção pulmonar primária e disseminação hematogênica para pele, sistema nervoso central, ossos e vísceras, sendo o acometimento cutâneo mais comum em imunossuprimidos.
Na criptococose, a cápsula polissacarídica de glicuronoxilomanana é fator de virulência.
Clínica
- Esporotricose linfocutânea: cancro de inoculação (pápula ou pústula eritematosa) seguido de nódulos ascendentes em rosário na cadeia linfática (padrão esporotricoide)
- Esporotricose cutânea fixa: lesão única no local de inoculação, sem progressão linfática, ulcerada ou verrucosa, com possíveis lesões satélites
- Esporotricose por inoculações múltiplas: lesões polimórficas em sítios não contíguos, associada a casos zoonóticos felinos
- Esporotricose mucosa: conjuntivite granulomatosa, síndrome oculoglandular de Parinaud, comprometimento nasal
- Esporotricose osteoarticular: artrite, tenossinovite e osteomielite, geralmente por contiguidade da lesão cutânea
- Esporotricose sistêmica/disseminada: lesões cutâneas disseminadas em tronco e face, comprometimento pulmonar e neurológico, associada a HIV/AIDS
- Formas imunorreativas da esporotricose: eritema nodoso, eritema multiforme e síndrome de Sweet
- Cromoblastomicose: placas verrucosas de crescimento lento em membros inferiores, com pontos negros na superfície
- Formas clínicas da cromoblastomicose (classificação de Carrión): nodular, tumoral (couve-flor), verrucosa, cicatricial e em placa
- Cromoblastomicose com prurido predominante e lesões satélites por autoinoculação, sem invasão de músculo ou osso
- Micetoma: tríade de tumefação, fístulas e eliminação de grãos, em pés e pernas
- Grãos negros apenas no eumicetoma; grãos vermelhos apenas no actinomicetoma (Actinomadura pelletieri)
- Micetoma de longa evolução com comprometimento ósseo e visceral
- Paracoccidioidomicose crônica (adulto): estomatite moriforme de Aguiar-Pupo com pontos hemorrágicos, lesões orais ulcerovegetantes e comprometimento pulmonar em cerca de 90%
- Paracoccidioidomicose com lesões cutâneas de bordas infiltradas e pontos hemorrágicos, associadas a linfadenopatia
- Paracoccidioidomicose aguda/subaguda (juvenil): linfadenomegalia com supuração e fistulização, hepatoesplenomegalia, febre, emagrecimento e eosinofilia periférica
- Histoplasmose: pápulas moluscoides umbilicadas, nódulos, úlceras (especialmente orais) e paniculite, com manifestação pulmonar mais comum
- Blastomicose: placas verrucosas, papulopústulas e úlceras cutâneas ou orais, com manifestação pulmonar mais comum
- Coccidioidomicose: face como sítio mais acometido, com nódulos e pápulas verrucosos, pústulas, abscessos e úlceras, e manifestação pulmonar mais comum
- Criptococose: pápulas e nódulos moluscoides umbilicados e ulcerados em cabeça e pescoço, com meningoencefalite grave e alta mortalidade nas lesões cutâneas secundárias
- Lobomicose: nódulos queloidianos verrucosos e fibróticos que podem ulcerar, com a hélice da orelha como sítio mais frequente
Classificação
- Subcutâneas (de implantação): esporotricose, cromoblastomicose, micetoma eumicótico, lobomicose
- Sistêmicas endêmicas (fungos dimórficos): paracoccidioidomicose, histoplasmose, blastomicose, coccidioidomicose
- Sistêmicas oportunistas: criptococose
- Esporotricose: cutânea (linfocutânea, cutânea fixa, inoculações múltiplas), mucosa, osteoarticular, sistêmica, imunorreativa e mista
- Cromoblastomicose (classificação de Carrión): nodular, tumoral, verrucosa, cicatricial e em placa
- Micetoma: eumicetoma (fúngico) e actinomicetoma (bacteriano)
- Paracoccidioidomicose: forma aguda/subaguda (juvenil), forma crônica (adulto) e forma residual/sequelas
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Complicações e cuidados
- Disseminação sistêmica e óbito em imunossuprimidos
- Meningoencefalite (criptococose, esporotricose e paracoccidioidomicose sistêmicas)
- Sequelas fibróticas e linfedema/elefantíase (cromoblastomicose)
- Ectrópio, xeroftalmia e ceratite em lesões faciais (cromoblastomicose)
- Infecção bacteriana secundária
- Transformação em carcinoma espinocelular em lesões crônicas (cromoblastomicose)
- Destruição óssea e articular (micetoma e esporotricose osteoarticular)
- Sequelas cicatriciais mucosas e disfonia (paracoccidioidomicose)
- Insuficiência adrenal e síndrome de Addison (paracoccidioidomicose)
- Dacriocistite e lesões oculares (esporotricose)
Prognóstico
As formas cutâneas e linfocutâneas da esporotricose não são fatais e respondem bem ao tratamento, embora não regridam sem antifúngico.
As formas sistêmicas e disseminadas, sobretudo em pacientes com HIV/AIDS, têm pior prognóstico e podem evoluir para óbito.
A cromoblastomicose é de curso crônico e recalcitrante, com cura difícil nas formas graves e risco de sequelas incapacitantes.
A paracoccidioidomicose responde a antifúngicos, mas a forma crônica pode deixar sequelas fibróticas pulmonares e mucosas, com mortalidade maior em homens de 30 a 59 anos.
As micoses sistêmicas dimórficas costumam ter bom prognóstico nas formas limitadas e pior nas disseminadas e meníngeas.
O tratamento é frequentemente prolongado, exigindo monitoramento clínico, sorológico e por imagem.
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Referências
- Esporotricose humana: recomendações da Sociedade Brasileira de Dermatologia para o manejo clínico, diagnóstico e terapêutico. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2022.
- Sporotrichosis: an update on epidemiology, etiopathogenesis, laboratory and clinical therapeutics. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2017.
- Sporothrix schenckii and Sporotrichosis. Clinical Microbiology Reviews. 2011.
- Clinical Practice Guidelines for the Management of Sporotrichosis: 2007 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases. 2007.
- Zoonotic Epidemic of Sporotrichosis: Cat to Human Transmission. PLoS Pathogens. 2017.
- Chromoblastomycosis. Clinical Microbiology Reviews. 2017.
- Chromoblastomycosis: an overview of clinical manifestations, diagnosis and treatment. Medical Mycology. 2009.
- Brazilian guidelines for the clinical management of paracoccidioidomycosis. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. 2017.
- Paracoccidioidomycosis: Current Status and Future Trends. Clinical Microbiology Reviews. 2022.
- New Trends in Paracoccidioidomycosis Epidemiology. Journal of Fungi. 2017.
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