Infestação de vertebrados vivos, humanos ou animais, por larvas de moscas (dípteros) que se alimentam de tecido vivo ou morto, de fluidos corporais ou de alimento ingerido do hospedeiro.
O termo deriva do grego "myia" (mosca).
As moscas produtoras pertencem principalmente à superfamília Oestroidea (famílias Oestridae, Calliphoridae e Sarcophagidae), havendo agentes ocasionais de outras famílias.
A classificação anatômica agrupa as formas em cutânea (furunculoide e migratória), de feridas e cavitária, esta última nomeada conforme o órgão ou cavidade acometida.
A classificação ecológica considera o grau de parasitismo: obrigatório (específico), facultativo (semiespecífico) e acidental (pseudomiíase).
A miíase cutânea, junto com a miíase de feridas, é a forma clínica mais frequente.
Tem distribuição mundial, com maior número de espécies e abundância nas regiões tropicais e subtropicais de baixo nível socioeconômico.
É a quarta dermatose mais comum associada a viagens e está entre as cinco condições dermatológicas mais frequentes no viajante, representando 7,3% a 11% dos casos.
Dermatobia hominis é o agente mais identificado em viajantes que retornam da América tropical.
Dermatobia hominis ocorre entre as latitudes 25°N e 32°S, do México até a América do Sul.
Cordylobia anthropophaga é endêmica na África subsaariana.
Cochliomyia hominivorax está distribuída na América do Sul e Central; no Brasil encontra-se amplamente distribuída, com registro em 208 municípios de todos os principais biomas.
As crianças são particularmente suscetíveis à miíase furunculoide por Cordylobia e Cuterebra, em parte pela pele mais fina e pela imunidade adquirida nos adultos de áreas endêmicas.
Higiene precária e baixo nível socioeconômico são os fatores de risco mais importantes.
Na miíase de feridas, Cochliomyia hominivorax foi o agente mais comum, em 62,1% de uma série de 66 casos no Brasil.
A infestação por Cordylobia ocorre sobretudo na estação chuvosa, quando os hospedeiros silvestres se aproximam das habitações humanas.
Fatores de risco e doenças associadas
Na forma furunculoide a larva penetra a pele íntegra e desenvolve parte do ciclo em cavidade dérmica, mantendo um orifício central para respirar pelo espiráculo posterior.
Dermatobia hominis usa foresia: a fêmea fixa os ovos no abdome de um mosquito hematófago intermediário (por exemplo Psorophora), que ao picar deposita os ovos; o calor do hospedeiro induz a eclosão.
Após a eclosão, a larva de primeiro estágio penetra a pele de forma quase indolor e evolui do segundo ao terceiro estágio em 5 a 10 semanas, quando abandona o hospedeiro para pupar no solo.
Cada pápula furunculoide de D. hominis abriga um único parasita.
Cordylobia anthropophaga deposita ovos em solo sombreado contaminado por urina ou fezes, ou em roupas úmidas estendidas; as larvas penetram a pele em cerca de 60 segundos após o contato, o que explica as lesões em áreas cobertas.
Cuterebra e Wohlfahrtia depositam ovos ou larvas diretamente ou no ambiente; Wohlfahrtia é larvípara e suas larvas costumam penetrar apenas a pele fina dos muito jovens.
Na forma migratória, larvas de Gasterophilus (mosca do cavalo) e Hypoderma (mosca do boi) infestam o homem como hospedeiro acidental, não completam o ciclo e migram por túneis na pele.
Gasterophilus escava as camadas inferiores da epiderme, enquanto Hypoderma penetra profundamente no subcutâneo e pode migrar por tecido conjuntivo, musculatura e sistema nervoso.
Na miíase de feridas, as larvas infestam feridas abertas; os agentes obrigatórios (Cochliomyia hominivorax, Chrysomya bezziana, Wohlfahrtia magnifica) penetram e destroem o tecido subjacente, enquanto as larvas facultativas preferem tecido morto.
Feridas com secreção alcalina (pH 7,1 a 7,5) e presença de necrose são especialmente atrativas; a fêmea deposita 100 a 500 ovos por vez sobre a ferida ou próximo a ela.
A larva de Cochliomyia hominivorax não penetra pele íntegra, mas, uma vez na ferida, invade profundamente o tecido subcutâneo, a cartilagem e o osso, podendo alcançar a cavidade craniana quando próxima ao nariz.
Classificação
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A miíase furunculoide quase sempre cura completamente, sem deixar vestígios, após a remoção da larva.
Ocasionalmente restam hiperpigmentação e cicatriz, mais comuns em crianças desnutridas.
A miíase migratória por Hypoderma costuma ser autolimitada, mas pode ter curso arrastado com migração a distância.
A miíase de feridas por agentes obrigatórios pode ser grave, com destruição tecidual extensa e risco de óbito.
A taxa de letalidade nas formas nasal e auricular com invasão do sistema nervoso central pode chegar a 8%.
O prognóstico piora com o atraso diagnóstico, sobretudo em pacientes com perda de sensibilidade, baixa acuidade visual ou debilidade.
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