Miliária
Conceito
Miliária é a erupção causada pela obstrução do ducto sudoríparo écrino, com retenção do suor e extravasamento para a epiderme ou para a derme.
O nível em que o ducto está obstruído define a forma clínica e é o eixo de leitura da doença: quanto mais superficial a obstrução, mais discreta a lesão e menor a inflamação; quanto mais profunda, mais inflamatória e mais grave a repercussão funcional.
São três formas principais: miliária cristalina (obstrução no estrato córneo), miliária rubra (obstrução intraepidérmica, nas camadas subcórneas) e miliária profunda (obstrução na junção dermoepidérmica, na derme papilar), às quais se soma a miliária pustulosa, designação usada quando a miliária rubra apresenta pústulas.
É condição comum e habitualmente autolimitada, mais frequente em climas quentes e úmidos e em recém-nascidos.
Epidemiologia
A miliária ocorre em todas as faixas etárias e em ambos os sexos, sem predileção por grupos populacionais.
Recém-nascidos e lactentes têm risco maior porque o ducto écrino ainda é imaturo.
A miliária cristalina incide sobretudo em neonatos, com pico em crianças com duas semanas de vida ou menos, e é descrita em cerca de 4,5% a 9% dos recém-nascidos; também ocorre em adultos recém-transferidos para clima mais quente.
A miliária rubra é a forma mais comum; aparece tipicamente em neonatos entre a primeira e a terceira semanas de vida e chega a acometer até 30% dos adultos que vivem em condições de calor e umidade.
A miliária profunda é a forma mais rara, vista em quem já teve episódios repetidos de miliária rubra e em pessoas expostas a clima quente novo, como militares destacados para regiões tropicais.
Em adultos e em crianças maiores, a doença predomina em climas quentes e no verão.
Na literatura brasileira sobre pustuloses benignas do recém-nascido, a miliária é listada entre as causas não infecciosas de pústulas neonatais e é descrita como condição comum, mais observada nos meses de verão, em períodos febris e em recém-nascidos com excesso de roupa.
Em estudo analítico de erupções pustulosas do recém-nascido, Staphylococcus aureus foi isolado em 29,4% dos casos de miliária pustulosa.
Fatores de risco e doenças associadas
- Calor e umidade ambientais; climas tropicais e meses de verão
- Mudança recente para clima mais quente
- Sudorese excessiva; atividade física intensa
- Febre e doenças febris
- Oclusão da pele: curativos, esparadrapo, adesivos transdérmicos
- Roupas justas, pouco permeáveis ou resistentes a chamas; excesso de roupa no recém-nascido
- Imobilização e repouso prolongado no leito (inclusive em terapia intensiva e no pós-operatório)
- Imaturidade do ducto écrino no recém-nascido e no lactente
- Episódios prévios e repetidos de miliária rubra (predispõem à miliária profunda)
- Uso de cremes e pomadas espessas, gordurosas ou oclusivas sobre a pele
- Fármacos que induzem sudorese: betanecol, clonidina, neostigmina
- Isotretinoína (casos relatados de miliária cristalina)
- Pseudo-hipoaldosteronismo tipo I (resistência mineralocorticoide com perda de sódio pelas glândulas écrinas), associado à miliária rubra pustulosa
- Síndrome de Morvan (doença autossômica recessiva rara que cursa com hiper-hidrose)
- Hiper-hidrose
- Dermatite de contato irritativa, que pode cursar com miliária concomitante
- Obstrução do ducto sudoríparo pela miliária como causa de hipo-hidrose e anidrose adquiridas
Patogênese
O evento inicial é a obstrução do ducto sudoríparo écrino, que impede a saída do suor e o faz refluir para a epiderme ou para a derme.
A obstrução decorre de debris cutâneos e de bactérias, em especial Staphylococcus epidermidis, que produz substância polissacarídica extracelular (glicocálix) e forma biofilme capaz de tamponar o óstio ductal.
A sudorese excessiva macera o estrato córneo e favorece a oclusão do ducto.
O suor retido provoca hiper-hidratação e edema celular, que estreitam ainda mais o ducto e perpetuam a obstrução; nos casos mais intensos, o ducto ou a glândula se rompem.
O nível da obstrução determina a forma: no estrato córneo produz a miliária cristalina, que é intracórnea/subcórnea e praticamente não gera resposta inflamatória; na epiderme, em camadas subcórneas mais profundas, produz a miliária rubra, em que o extravasamento do suor no tecido vivo desencadeia inflamação; na junção dermoepidérmica e derme papilar produz a miliária profunda.
Na miliária rubra e na miliária profunda, o ducto obstruído deixa de conduzir suor e a área afetada torna-se anidrótica, o que compromete a termorregulação quando a extensão é grande.
Clínica
Miliária cristalina
- Vesículas superficiais de 1 a 2 mm, claras, de conteúdo límpido, com teto muito fino que lembra gotas de orvalho depositadas sobre a pele
- Vesículas frágeis, que se rompem ao mínimo toque ou fricção
- Ausência de eritema de base e de sinais inflamatórios; lesões assintomáticas e sem prurido (podem, em relatos de adultos imobilizados, ser discretamente pruriginosas)
- Predomínio em fronte, pescoço, tronco superior e braços; no recém-nascido, face, pescoço e tronco
- Surge poucos dias após a exposição ao fator desencadeante e regride em cerca de 24 horas, quando a camada córnea superficial se destaca
Miliária rubra ("brotoeja")
- Pápulas eritematosas de 1 a 3 mm e vesicopápulas, maiores e mais inflamatórias que as da forma cristalina
- Prurido e ardor/sensação de picada, que pioram durante a sudorese
- Envolvimento folicular mínimo; as lesões não são centradas em pelos
- Topografia em áreas ocluídas e de atrito; no recém-nascido, pescoço, axilas e região inguinal; em adultos, tronco e extremidades nas áreas em que a roupa atrita, poupando habitualmente a face
- No recém-nascido, lesões costumam começar após a segunda semana de vida; em ambientes muito quentes podem surgir também em couro cabeludo, face e pescoço
- Miliária pustulosa: miliária rubra em que surgem pústulas sobre as pápulas eritematosas, concentradas em uma ou duas áreas; pode traduzir infecção bacteriana sobreposta
Miliária profunda
- Pápulas de 1 a 3 mm, firmes, cor da pele ou esbranquiçadas, sem eritema
- Lesões não centradas em folículos; assintomáticas ou, ocasionalmente, muito pruriginosas
- Acomete tronco e extremidades proximais em adultos, podendo envolver braços e pernas
- As lesões surgem minutos a horas após o início da sudorese e desaparecem cerca de uma hora depois de cessada a transpiração
- Anidrose nas áreas acometidas na miliária rubra e na miliária profunda
- Hipertermia associada à erupção deve levantar a suspeita de termorregulação ineficaz por acometimento extenso
Classificação
- Miliária cristalina (sudâmina): obstrução no estrato córneo
- Miliária rubra: obstrução intraepidérmica, em camadas subcórneas
- Miliária pustulosa: miliária rubra com pústulas
- Miliária profunda: obstrução na junção dermoepidérmica/derme papilar
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Complicações e cuidados
- Infecção bacteriana secundária, sobretudo superinfecção estafilocócica, na miliária rubra e na miliária pustulosa
- Periporite estafilogênica: complicação da miliária em lactentes e crianças em que a superinfecção estafilocócica se associa a impetigo e a múltiplos abscessos
- Anidrose das áreas acometidas por obstrução das glândulas sudoríparas
- Termorregulação ineficaz com hipertermia e exaustão pelo calor nos casos extensos
- Lesão permanente das glândulas sudoríparas nos casos crônicos, com anidrose definitiva e maior risco de doenças relacionadas ao calor
- Limitação para o trabalho e para a prática de exercício e esportes quando a anidrose é extensa
- Recorrências, especialmente em quem permanece em clima quente
Prognóstico
O prognóstico é excelente: a maioria dos casos resolve espontaneamente assim que os fatores desencadeantes são removidos e o paciente é levado para ambiente mais fresco e menos úmido.
A miliária cristalina desaparece em cerca de 24 horas, quando a camada córnea superficial se descama; no adulto imobilizado, a simples mobilização pode resolver o quadro em poucos dias.
A miliária rubra e a miliária pustulosa do recém-nascido são autolimitadas e cedem com a redução da temperatura ambiente.
A miliária profunda tem prognóstico variável: melhora com o tratamento, mas há tendência a episódios recorrentes, sobretudo em climas quentes.
Casos crônicos podem provocar dano permanente das glândulas sudoríparas, com anidrose e risco aumentado de doenças relacionadas ao calor.
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Referências
- Miliaria. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024.
- Benign skin disease with pustules in the newborn. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2016.
- Line-field confocal optical coherence tomography of miliaria crystallina: an in vivo, three-dimensional imaging. JAAD Case Reports. 2024.
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