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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Milium

benignaderme(mília, milium, cisto de queratina)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaDermatoscopiaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchados

Conceito

O milium é um microcisto de queratina, isto é, um cisto de inclusão diminuto, em geral com até 3 mm, superficial e benigno.

Histologicamente é um cisto infundibular em miniatura, com parede escamosa estratificada de poucas camadas, camada granulosa e conteúdo de queratina.

A mília primária surge espontaneamente e origina-se do colar sebáceo dos pelos velos; a mília secundária surge depois de bolha, trauma ou cicatrização e deriva sobretudo dos ductos écrinos.

A mília secundária tem valor semiológico: quando aparece onde antes houve bolha, aponta para clivagem subepidérmica e obriga a pensar em porfiria cutânea tardia e em epidermólise bolhosa.

Mília numerosa, persistente ou associada a hipotricose, atrofodermia ou carcinomas basocelulares indica genodermatose.

Epidemiologia

A mília congênita ocorre em 40% a 50% dos recém-nascidos, sem diferença entre sexos; algumas séries registram frequências menores, a partir de 16%.

É menos comum e de início mais tardio em prematuros.

As pérolas de Epstein, cistos de inclusão orais, ocorrem em 50% a 85% dos neonatos.

A mília en plaque é rara, com menos de 30 casos publicados; predomina em adultos de meia-idade, com predomínio feminino.

A mília eruptiva múltipla é rara e foi descrita dos 15 aos 71 anos.

A síndrome orofaciodigital tipo 1 tem incidência de 1 em 50.000 a 1 em 250.000 nascidos vivos.

Fatores de risco e doenças associadas

Trauma

  • Abrasões superficiais, causa comum em crianças
  • Queimaduras de segundo grau
  • Dermoabrasão, peeling químico, laser ablativo e enxerto de pele
  • Radioterapia

Medicamentos associados a mília secundária

  • Benoxaprofeno
  • Corticosteroides tópicos
  • 5-fluorouracil
  • Ciclosporina
  • Penicilamina

Genodermatoses com mília

  • Síndrome de Bazex-Dupré-Christol: dominante ligada ao X, com hipotricose congênita (85%), atrofodermia folicular (85%), carcinomas basocelulares e mília (75%); a mília surge na infância precoce, pode ser o sinal de apresentação e costuma melhorar na puberdade; hipoidrose em cerca de metade dos pacientes
  • Síndrome de Rombo: atrofodermia vermiculada fotodistribuída e eritema cianótico dos 7 aos 10 anos, seguidos de mília e telangiectasias; carcinomas basocelulares na quarta década; herança autossômica dominante
  • Síndrome de Brooke-Spiegler: tricoepiteliomas, cilindromas e espiradenomas por mutação de CYLD; um pequeno subgrupo (síndrome de Rasmussen) desenvolve mília
  • Síndrome orofaciodigital tipo 1: dominante ligada ao X e letal em homens; mília extensa na face, no couro cabeludo e no dorso das mãos durante a lactância, que resolve em alguns anos deixando cicatrizes puntiformes; língua multilobulada com hamartomas, fenda labial mediana, fendas palatinas, anomalias digitais, alopecia em placas e doença renal policística no adulto
  • Atriquia com lesões papulosas: autossômica recessiva, por mutação do gene Hairless; mília disseminada, sobretudo infraorbital e no couro cabeludo, cotovelos e joelhos, entre os 2 e os 5 anos
  • Raquitismo hereditário dependente de vitamina D tipo 2A: mutação do receptor de vitamina D; mília em metade dos pacientes, entre os 2 anos e a adolescência, com alopecia, hipocalcemia, hiperparatireoidismo e osteomalácia
  • Paquioníquia congênita tipo 2 (Jackson-Lawler): mutações de KRT6B e KRT17; mília, cistos epidérmicos, esteatocistoma multiplex e cistos de pelos velos, surgindo após a puberdade, com dentes natais e pili torti
  • Síndrome do nevo basocelular (Gorlin), por mutação de PTCH1: mília em cerca de 30% dos pacientes, periorbital e na fronte, ao lado de carcinomas basocelulares, ceratocistos odontogênicos e depressões palmoplantares
  • Síndrome do hamartoma folicular basaloide generalizado: mília, lesões foliculares numerosas, hipotricose do couro cabeludo, depressões palmares e hipoidrose
  • Síndrome de Nicolau-Balus: siringomas eruptivos, mília e atrofodermia vermiculada
  • Mília familiar com ausência de dermatóglifos: mília congênita facial transitória, contraturas em flexão dos dedos, hipoidrose palmoplantar e calos fissurados
  • Hipotricose com cabelos claros e mília facial: herança autossômica dominante, mília presente ao nascimento e persistente até a vida adulta
  • Síndrome de Naegeli-Franceschetti-Jadassohn, por mutação de KRT14: mília na adolescência, acentuada nas flexuras e no tronco, com hiperpigmentação reticular e alterações dentárias
  • Síndrome KID (ceratose, ictiose e surdez): mília congênita facial e agrupada nas orelhas, que regride em 3 meses
  • Síndrome de Loeys-Dietz

Doenças que cursam com mília secundária

  • Epidermólise bolhosa, sobretudo a distrófica, a epidermólise bolhosa adquirida e a forma Dowling-Meara da epidermólise bolhosa simples; as demais formas têm pouca ou nenhuma mília
  • Dermólise bolhosa transitória do recém-nascido, por mutações de COL7A1: bolhas acrais nos primeiros dias de vida, seguidas de mília
  • Síndrome de Kindler, por mutação da kindlina-1: bolhas acrais traumáticas na infância, com mília proeminente na cicatrização, poiquilodermia esclerótica e fotossensibilidade
  • Porfiria cutânea tardia: mília em áreas fotoexpostas que sofreram bolha, geralmente a partir da quarta década, com fragilidade cutânea, cicatrizes, hiperpigmentação e hipertricose
  • Outras porfirias com mília: porfiria eritropoiética congênita (doença de Günther), porfiria variegata, coproporfiria hereditária e porfiria hepatoeritropoiética; a mília não ocorre na porfiria aguda intermitente nem na protoporfiria eritropoiética
  • Penfigoide bolhoso, dermatite herpetiforme e lúpus eritematoso bolhoso
  • Herpes-zóster, síndrome de Stevens-Johnson, síndrome da pele escaldada estafilocócica e erisipela bolhosa
  • Dermatite de contato, líquen plano, líquen escleroso e síndrome de Sweet
  • Sífilis congênita precoce, hanseníase e leishmaniose
  • Reações fototóxicas e amiloidose bolhosa
  • Doenças associadas à mília en plaque: pseudoxantoma elástico, lúpus eritematoso discoide, líquen plano, trauma e transplante renal

Patogênese

A mília primária origina-se do colar sebáceo dos pelos velos, isto é, do infundíbulo inferior; há conexões em forma de filamento entre o microcisto e a bainha radicular externa do pelo velo, perto da inserção do ducto sebáceo.

A mília secundária deriva mais dos ductos écrinos do que da epiderme, dos folículos ou dos ductos sebáceos: em série de 69 espécimes de doenças bolhosas, 75% dos microcistos conectavam-se a um ducto écrino, em proporção de um ducto para cada milium, e apenas um espécime conectava-se a folículo piloso.

A mília secundária completa (fechada) é inteiramente de origem écrina; a incompleta (aberta) combina tecido écrino com a epiderme adjacente.

A mília pós-dermoabrasão parece originar-se de lóbulos sebáceos amputados, que se desdiferenciam e depois se rediferenciam em glândula sebácea ou em milium.

Não é verdade que o milium seja um folículo obstruído transformado em cisto de retenção.

No trauma, discute-se se a mília nasce por implantação epidérmica ou por estímulo à proliferação de células pilossebáceas indiferenciadas.

As citoqueratinas do milium são praticamente as mesmas do cisto epidermoide e da epiderme normal: CK14 na camada basal, CK1, CK10 e CK16 nas camadas suprabasais, CK5 em toda a parede e CK4 variável no conteúdo; a positividade para CK16, marcador de hiperproliferação, é a única diferença em relação à epiderme sobrejacente.

Clínica

  • Pápulas diminutas, em geral com até 3 mm, brancas, lisas, firmes e assintomáticas
  • Face é a topografia típica
  • Número variável, de poucas a várias dezenas de lesões

Mília congênita

  • Presente ao nascimento ou nas primeiras semanas de vida
  • Face, sobretudo o nariz, couro cabeludo, tronco superior e membros superiores
  • Regride espontaneamente em semanas a poucos meses
  • Cistos de inclusão orais são a contraparte na mucosa: pérolas de Epstein na rafe mediana do palato, nódulos de Bohn no rebordo alveolar e na junção do palato duro com o mole, e cistos gengivais derivados da lâmina dentária

Mília primária benigna de crianças e adultos

  • Bochechas e pálpebras, além de fronte e genitália
  • Mais persistente que a forma congênita
  • Locais incomuns descritos: sulco nasal, vulva e aréola
  • Pseudoacne do sulco nasal: pápulas acneiformes persistentes dentro das mílias do sulco nasal em pré-adolescentes, sem acne em outras áreas

Mília en plaque

  • Placa eritematosa, de vários centímetros, salpicada de numerosas mílias
  • Cabeça e pescoço, sobretudo a região retroauricular; também periorbital, dorso nasal e tronco
  • Pode ser indurada, uni ou bilateral, e é assintomática

Mília eruptiva múltipla

  • Dezenas a centenas de mílias que surgem em semanas a meses, sem anomalias associadas
  • Cabeça, tronco superior e porção proximal dos membros superiores
  • Formas espontânea, familiar (autossômica dominante) e associada a genodermatose
  • Há variante familiar restrita às pálpebras

Mília nodular agrupada

  • Nódulo único formado por aglomerado de microcistos

Mília secundária

  • Surge em áreas que sofreram bolha, erosão, trauma ou cicatrização
  • Acompanha as dermatoses bolhosas subepidérmicas e as cicatrizes atróficas dessas doenças
  • Nas áreas fotoexpostas, sobretudo no dorso das mãos e nos antebraços, acompanha fragilidade cutânea, vesículas, bolhas, erosões, cicatrizes, hiperpigmentação e hipertricose
  • Pode regredir sozinha, mas tende a persistir
  • Mília numerosa e persistente levanta a suspeita de síndrome orofaciodigital tipo 1 e de outras genodermatoses

Classificação

Classificação de Berk e Bayliss

  • Mília primária:
  • Congênita
  • Mília primária benigna de crianças e adultos
  • Mília en plaque
  • Mília nodular agrupada
  • Mília eruptiva múltipla
  • Mília generalizada com nevo despigmentado
  • Mília associada a genodermatoses
  • Mília secundária:
  • Associada a doença, sobretudo às dermatoses bolhosas subepidérmicas
  • Associada a medicamento
  • Associada a trauma
  • A mília das epidermólises bolhosas e das porfirias é mais bem classificada como secundária, ainda que ocorra em genodermatoses

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Manejo Assinante

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Complicações e cuidados

  • Ruptura do microcisto, com reação granulomatosa de corpo estranho e inflamação supurativa
  • Cicatrizes puntiformes onde as mílias regridem, descritas na síndrome orofaciodigital tipo 1 e na atriquia com lesões papulosas

Prognóstico

A mília congênita e os cistos de inclusão orais do recém-nascido resolvem espontaneamente em semanas a poucos meses.

A mília primária benigna de crianças e adultos é mais persistente.

A mília secundária pode regredir, mas tende a persistir.

A mília en plaque pode regredir espontaneamente.

Nas genodermatoses, a mília pode regredir deixando cicatrizes puntiformes.

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Referências

  1. Milia: a review and classification. Journal of the American Academy of Dermatology. 2008.
  2. Dermoscopy of cutaneous neoplasms in skin of color: a systematic review by the International Dermoscopy Society Imaging in Skin of Color Task Force. Dermatology Practical & Conceptual. 2023.

Achados (clique para explorar)

miliumpápulacistofacelesão cor da pelelesão assintomáticainvolução espontânea
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