Molusco contagioso
Conceito
Molusco contagioso é uma infecção viral cutânea benigna e autolimitada.
É causada pelo vírus do molusco contagioso (MCV), um poxvírus de DNA de cadeia dupla do gênero Molluscipoxvirus, da família Poxviridae.
O homem é o único hospedeiro.
Há quatro genótipos, de MCV-1 a MCV-4, sendo o MCV-1 o mais comum.
Manifesta-se por pápulas umbilicadas, rosadas ou da cor da pele, de superfície lisa e cerosa.
Acomete sobretudo crianças, adultos sexualmente ativos e imunossuprimidos.
Epidemiologia
É uma das cinco dermatoses mais prevalentes no mundo e a terceira infecção viral cutânea mais comum na infância.
Representa cerca de 1% dos diagnósticos dermatológicos e vem aumentando em todas as faixas etárias.
A prevalência pontual em crianças de 0 a 16 anos é estimada em 5,1% a 11,5%, e nos Estados Unidos gira em torno de 5% na população pediátrica geral.
O pico ocorre entre 1 e 5 anos, é raro antes de 1 ano de idade e não há diferença entre os sexos.
É mais frequente em climas quentes e úmidos.
Em adolescentes e adultos, pode ser sexualmente transmitido.
Em pacientes com HIV, a prevalência chega a cerca de 20%.
O MCV-1 responde por 75% a 96% dos casos, e o MCV-2 predomina em imunossuprimidos e na transmissão sexual em adultos.
Fatores de risco e doenças associadas
- Idade entre 1 e 5 anos
- Dermatite atópica e disfunção da barreira cutânea
- Xerose e pele com solução de continuidade
- Imunossupressão por HIV, transplante, quimioterapia ou imunobiológicos
- Imunodeficiências primárias, como a síndrome de DOCK8
- Contato pele a pele, incluindo esportes de contato
- Atividade sexual em adolescentes e adultos
- Frequência a creches, escolas e piscinas
- Compartilhamento de toalhas, esponjas e utensílios de banho
- Clima quente e úmido
- Dermatite atópica, considerada fator de risco recíproco
- Infecção pelo HIV e outras imunossupressões
- Mutação da filagrina, que aumenta o risco nos atópicos
- Síndrome de DOCK8 e outras imunodeficiências primárias
- Reações eczematosas e id perilesionais
Patogênese
O MCV infecta os ceratinócitos epidérmicos e replica-se no citoplasma das células.
O período de incubação varia de 2 a 8 semanas.
A transmissão ocorre por contato direto com pele infectada, por via sexual ou não sexual, e por autoinoculação.
Também há transmissão por fômites, como toalhas e esponjas de banho, com possível associação ao uso de piscinas.
A replicação viral causa hiperplasia epidérmica focal.
O vírus escapa da resposta imune por meio de genes que inibem a ativação do fator nuclear kB, o que explica a escassez de inflamação nas lesões típicas.
A infecção pode inibir linfócitos T antígeno-específicos, afetar o reconhecimento por células natural killer e favorecer a evasão dos linfócitos T citotóxicos CD8+.
No recém-nascido, a transmissão pode ser vertical, pelo contato com o vírus no canal de parto.
Clínica
- Pápulas firmes e arredondadas, de 2 a 5 mm, rosadas ou da cor da pele, com superfície brilhante e cerosa e umbilicação central
- Lesões únicas, múltiplas ou agrupadas, por vezes com halo eritematoso ou pediculadas
- Material central caseoso, expressível a partir da umbilicação
- Prurido lesional ou perilesional pode estar presente
- Na criança acomete tronco, extremidades, dobras, face e genitais, poupando palmas e plantas
- No adulto predomina em baixo abdome, coxas, região genital e perianal, sobretudo na transmissão sexual
- Lesões genitais na criança geralmente por autoinoculação, não patognomônicas de abuso sexual
- Molusco gigante, maior que 1 cm, e lesões atípicas ou disseminadas nos imunossuprimidos
- Dermatite do molusco, ou eczema molluscorum, com placas eczematosas ao redor das lesões, em 9% a 47% dos casos
- Sinal BOTE, com eritema e edema da lesão que anunciam a regressão por resposta imune, e não por infecção bacteriana
- Localizações atípicas em mucosa oral, palmas, plantas, aréola, mamilo, conjuntiva, lábios e pálpebras
- Lesões congênitas no couro cabeludo, em arranjo circular, por transmissão vertical
Classificação
- MCV-1, genótipo mais comum, de 75% a 96% dos casos, predominante na infância
- MCV-2, mais frequente em imunossuprimidos e na transmissão sexual em adultos
- MCV-3 e MCV-4, raros
- Não há relação entre o tipo viral e a morfologia ou a distribuição das lesões
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Complicações e cuidados
- Dermatite do molusco, ou eczema molluscorum, perilesional
- Superinfecção bacteriana secundária
- Conjuntivite e ceratite puntacta superficial nas lesões perioculares
- Autoinoculação e disseminação da infecção
- Cicatrizes, inclusive varioliformes, após tratamento destrutivo ou escoriação
- Discromia pós-inflamatória ou pós-tratamento, com hipo ou hiperpigmentação
- Molusco gigante e doença refratária nos imunossuprimidos
- Impacto psicossocial e estigma social
Prognóstico
O prognóstico é excelente, com resolução espontânea e sem sequelas na maioria dos casos.
A resolução costuma ocorrer em 6 a 13 meses, podendo levar anos.
Cerca de 30% dos casos persistem além de 18 meses.
A recorrência após o clareamento pode chegar a 35%.
Cicatrizes e discromias podem surgir após tratamento destrutivo ou escoriação.
Nos imunossuprimidos, a doença tende a ser persistente e refratária.
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Referências
- Molluscum contagiosum: an update and review of new perspectives in etiology, diagnosis, and treatment. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2019.
- New developing treatments for molluscum contagiosum. Dermatol Ther (Heidelb). 2022.
- Padrões dermatoscópicos do molusco contagioso: estudo de 211 lesões confirmadas por exame histopatológico. An Bras Dermatol. 2011.
- Estudo da correlação entre molusco contagioso e dermatite atópica em crianças. An Bras Dermatol. 2011.
- Molluscum contagiosum: epidemiology, considerations, treatment options, and therapeutic gaps. J Clin Aesthet Dermatol. 2023.
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