Necrobiose lipoídica
Conceito
Dermatose granulomatosa crônica idiopática caracterizada por degeneração do colágeno com resposta inflamatória granulomatosa em paliçada.
Manifesta-se por placas atróficas amarelo-acastanhadas, brilhantes e escleróticas, com telangiectasias e borda eritêmato-violácea ativa, tipicamente pré-tibiais.
Classicamente associada ao diabetes mellitus, sobretudo do tipo 1, embora ocorra também em pacientes sem diabetes.
Foi denominada necrobiose lipoídica diabeticorum, termo abandonado por a doença não ser exclusiva de diabéticos.
Cursa com risco de ulceração e, em lesões crônicas de longa data, de carcinoma espinocelular.
Epidemiologia
Doença rara.
Predomínio no sexo feminino, em razão aproximada de 3:1.
A idade média de início situa-se na terceira década em diabéticos tipo 1 e na quarta a quinta década em diabéticos tipo 2 ou não diabéticos.
Apenas 0,3% a 1,2% dos diabéticos desenvolvem necrobiose lipoídica.
Mais da metade dos pacientes com necrobiose lipoídica tem diabetes, com frequência variável entre as casuísticas (11% a 87%).
A necrobiose lipoídica precede o diabetes em até 14% dos casos, surge simultaneamente em cerca de 24% e após o diagnóstico de diabetes em cerca de 62%.
Ulceração ocorre em cerca de um terço dos pacientes, sendo mais frequente em homens e diabéticos.
Diabéticos com necrobiose lipoídica têm maior risco de neuropatia periférica, retinopatia e limitação da mobilidade articular.
Pode associar-se ao tabagismo.
Fatores de risco e doenças associadas
- diabetes mellitus, sobretudo tipo 1 com altas necessidades de insulina
- obesidade
- tabagismo
- sexo feminino
- trauma cutâneo local (fenômeno de Koebner)
- diabetes mellitus tipo 1 e tipo 2
- síndrome metabólica
- hiperlipidemia
- hipertensão arterial
- doença arterial coronariana
- doença tireoidiana autoimune
- doença celíaca
- artrite reumatoide
- doença de Crohn e retocolite ulcerativa
- sarcoidose
- esclerose múltipla
- neuropatia, retinopatia e nefropatia diabéticas
Patogênese
A etiologia é desconhecida e multifatorial.
A teoria mais aceita é a de doença vascular imunomediada, com deposição de imunocomplexos e alterações microangiopáticas, levando a isquemia dérmica subaguda, degeneração do colágeno e resposta granulomatosa secundária.
A imunofluorescência direta demonstra deposição de fibrina, IgM, IgA e C3 nas paredes vasculares e na junção dermoepidérmica.
Há espessamento das paredes vasculares, fibrose e proliferação endotelial com oclusão na derme profunda, sobretudo em diabéticos (microangiopatia).
Postula-se colágeno anormal: em diabéticos, o aumento da lisil-oxidase aumenta as ligações cruzadas do colágeno e espessa a membrana basal; a microscopia eletrônica mostra perda das estriações e variação do diâmetro das fibrilas, e os fibroblastos sintetizam menos colágeno.
Observa-se aumento do transportador de glicose GLUT-1 em fibroblastos, associado a menor síntese de colágeno e a adesão de glicoproteínas com oclusão vascular.
A migração neutrofílica defeituosa leva a ativação macrofágica e formação de granulomas.
O TNF-alfa tem papel central na formação do granuloma e está elevado no soro e na pele, o que fundamenta o uso de inibidores do TNF-alfa.
A resistência à insulina promove síntese de TNF-alfa e inflamação crônica.
Clínica
- placas atróficas amarelo-acastanhadas com centro brilhante e ceroso
- telangiectasias sobre o centro atrófico
- borda eritêmato-violácea sobreelevada e ativa
- lesões iniciais como pápulas ou nódulos firmes eritêmato-acastanhados de 1 a 3 mm que coalescem
- placas geralmente múltiplas e bilaterais
- localização pré-tibial, com lesões nos membros inferiores em cerca de 85% dos casos
- superfície esclerótica e atrófica de aspecto brilhante
- ulceração em cerca de um terço das lesões, frequentemente após trauma menor
- redução da sensibilidade à dor e ao tato fino, hipoidrose e alopecia localizada dentro da placa
- dor, prurido ou parestesia
- sinal da biópsia quadrada
- fenômeno de Koebner em cicatrizes e locais de trauma
- localizações atípicas em membros superiores, face, couro cabeludo, tronco e pênis
- dermatoscopia com vasos em vírgula nas lesões iniciais e vasos arboriformes em ramo de árvore nas lesões antigas, sobre fundo amarelado sem estrutura e estrias brancas
Classificação
- forma clássica pré-tibial
- necrobiose lipoídica diabeticorum (associada ao diabetes)
- necrobiose lipoídica não diabética
- necrobiose lipoídica perfurante
- necrobiose lipoídica periorbital e facial
- necrobiose lipoídica genital (pênis e escroto)
- necrobiose lipoídica ulcerada
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Complicações e cuidados
- ulceração
- infecção secundária
- sepse
- cicatrização atrófica
- carcinoma espinocelular em lesões crônicas e ulceradas
- dor crônica e morbidade da ferida
Prognóstico
Curso crônico com evolução variável e remissão espontânea rara, em torno de 17% em 8 a 12 anos.
O prognóstico estético é insatisfatório, e o tratamento tende a estabilizar mais do que resolver as lesões.
As úlceras causam morbidade significativa, podem infectar e cicatrizam com atrofia.
O carcinoma espinocelular pode surgir após décadas de lesão crônica, exigindo vigilância continuada.
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Referências
- Necrobiosis Lipoidica. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island: StatPearls Publishing; 2024.
- Treatment options for necrobiosis lipoidica: a systematic review. International Journal of Dermatology. 2023.
- A Breakthrough in the Treatment of Necrobiosis Lipoidica? Update on Treatment, Etiopathogenesis, Diagnosis, and Clinical Presentation. International Journal of Molecular Sciences. 2024.
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