Nevo acrômico
Conceito
O nevo acrômico é uma hipomelanose cutânea congênita, incomum, caracterizada por mácula hipocrômica bem delimitada, de bordas irregulares e serrilhadas, presente ao nascimento ou de início precoce e sem progressão ao longo da vida.
Apesar do nome consagrado, a lesão é hipocrômica e não acrômica: a pele mantém pigmento residual, com tonalidade esbranquiçada opaca (off-white), e não o branco-leite da despigmentação completa.
O defeito é da produção e do transporte de melanina, e não da presença do melanócito, motivo pelo qual se trata de uma doença hipomelanótica e não hipomelanocítica.
Foi descrita por Lesser em 1884 e, em 1967, Coupe propôs os quatro critérios clínicos que até hoje sustentam o diagnóstico.
É classificada entre os mosaicismos pigmentares, ao lado da hipomelanose de Ito.
A lesão acompanha o crescimento da criança, aumentando em tamanho absoluto na mesma proporção do corpo, mas mantendo estáveis a forma, a textura, a sensibilidade e a área relativa acometida.
Epidemiologia
A prevalência estimada varia de 0,4% a 3%, e essa amplitude reflete subdetecção: em indivíduos de fototipos claros, o baixo contraste entre a lesão e a pele não bronzeada faz com que muitas máculas passem despercebidas.
Homens e mulheres são igualmente afetados; em série de 102 pacientes, 46,1% eram do sexo masculino e 53,9% do sexo feminino.
Em levantamento de 60 pacientes, a lesão estava presente antes dos 3 anos de idade em 68,3% dos casos, embora em 23% tenha surgido mais tarde na infância.
Em outra casuística, 30% dos casos eram congênitos e 92% se manifestaram antes dos 3 anos de idade.
Na série de 102 casos, 37,3% das lesões foram notadas ao nascimento, 23,5% antes de 1 ano, 20,6% entre 1 e 3 anos e 18,6% depois dos 3 anos.
Cerca de metade dos pacientes apresenta lesão única; em torno de um quarto pode ter mais de dez lesões.
Entre 113 crianças com discromias atendidas em ambulatório de dermatologia do sul da Índia, a frequência de distúrbios hipopigmentares foi de 3,28 por 1.000 crianças, e o nevo acrômico respondeu por 10,2% dos casos, atrás de pitiríase alba (24,7%), vitiligo (20,4%) e hanseníase (11,5%).
Fatores de risco e doenças associadas
- Coexistência com hipomelanose de Ito no mesmo paciente, descrita como twin spotting pigmentar alélico
- Coexistência com vitiligo, relatada em casos isolados
- Ausência de doenças sistêmicas ligadas ao nevo acrômico além de coincidência
Patogênese
O mecanismo central é a transferência defeituosa de melanossomos do melanócito para o queratinócito, somada a anormalidades morfológicas e funcionais dos próprios melanossomos.
Há grande redução do número de melanossomos, que exibem morfologia variável; os poucos que chegam ao queratinócito são imaturos e se dispõem em agregados ao redor do núcleo, enquanto na pele normal a distribuição é predominantemente supranuclear.
O número de melanócitos, avaliado pela expressão da proteína S-100, é habitualmente normal, o que caracteriza a lesão como hipomelanótica e não hipomelanocítica; em algumas séries os melanócitos aparecem apenas discretamente reduzidos.
A reação DOPA à microscopia eletrônica mostra atividade de tirosinase diminuída nos melanócitos epidérmicos.
Quando a maturação dos melanossomos em solução de DOPA é comparada com a da pele normal, parte dos melanossomos do nevo acrômico permanece bloqueada nos estágios I ou II, ao passo que na pele normal a quase totalidade progride até o estágio IV.
A lesão é entendida como expressão de mosaicismo pigmentar, ou seja, um clone de células cutâneas geneticamente distinto surgido no desenvolvimento embrionário; em pacientes com hipopigmentação disposta ao longo das linhas de Blaschko, metade apresentava anormalidade cromossômica em mosaico.
As linhas de Blaschko são o desenho na pele das rotas de migração e proliferação dos clones celulares embrionários; não correspondem a nervos, vasos ou linfáticos e formam faixas em V no dorso, espirais e traçados em S nas porções laterais do tronco e linhas longitudinais nos membros.
No vitiligo o melanócito é reduzido ou perdido; no nevo acrômico ele permanece no lugar, apenas incapaz de pigmentar adequadamente o epitélio.
Clínica
- Mácula hipocrômica, assintomática, de coloração esbranquiçada opaca, sem o branco-leite do vitiligo
- Bordas irregulares e serrilhadas, com projeções que lembram respingos de tinta
- Lesão solitária, redonda ou oval, circunscrita, na apresentação mais comum
- Na forma segmentar, mácula maior, com demarcação nítida na linha média e bordas laterais menos definidas
- A lesão habitualmente não ultrapassa a linha média
- Ausência de borda hiperpigmentada ao redor da mácula
- Textura da pele preservada, sem escamas e sem atrofia
- Sensibilidade preservada na área acometida
- Pelos dentro da mácula com cor normal
- Sem hiperpigmentação periférica ou perifolicular
- Presente ao nascimento ou de início precoce, com estabilidade de forma e distribuição ao longo da vida
- Aumento do tamanho apenas em proporção ao crescimento da criança
- Sítios mais frequentes: pescoço (19,2%), dorso (15,4%), face (12,2%), braço (10,2%), coxa (9,0%), tórax (8,3%) e abdome (7,7%)
- Predomínio de face e tronco nas casuísticas de forma isolada
- Mediana de superfície corporal acometida de 0,6%
- Sem tendência de lateralidade: cerca de 45% à direita, 44% à esquerda e 11% bilaterais
Classificação
- Tipo isolado (localizado): mácula solitária, redonda ou oval, de bordas serrilhadas; forma mais comum, correspondendo a cerca de 49% a 60% dos casos
- Tipo segmentar: mácula maior, de distribuição em segmento corporal, podendo acompanhar as linhas de Blaschko; cerca de 40% a 47% dos casos
- Tipo sistematizado (generalizado): múltiplos redemoinhos ou estrias ao longo das linhas de Blaschko; raro (cerca de 4%) e considerado por muitos autores como melhor enquadrado no diagnóstico de hipomelanose de Ito
- Distúrbio de pigmentação segmentar: variante com padrão em tabuleiro de xadrez, que pode ser hipopigmentado ou hiperpigmentado
- Critérios clínicos de Coupe (do dermatologista que os propôs em 1967 ao descrever o nevo acrômico sistematizado unilateral): leucodermia presente ao nascimento ou de início precoce; ausência de alteração na distribuição da leucodermia ao longo da vida; ausência de alteração de textura ou de sensibilidade na área afetada; ausência de borda hiperpigmentada
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Complicações e cuidados
- Recorrência da hipopigmentação após enxertia ou fototerapia, comumente 3 a 6 meses após o procedimento
- Discrepância de cor entre a área tratada e a pele adjacente
- Ausência de repigmentação nas áreas entre os enxertos
- Repercussão estética e psicossocial da mácula visível, sobretudo em face e pescoço
Prognóstico
O nevo acrômico é benigno e o curso é estável ao longo da vida, sem progressão e sem repercussão sistêmica.
Em estudo de seguimento de longo prazo com 102 pacientes (duração mediana de acompanhamento de 4,2 anos a partir do início e idade média de 8,25 anos na última avaliação), 95,1% não apresentaram qualquer mudança da lesão.
As mudanças observadas foram excepcionais: expansão em 1,96%, retração em 1,96% e desaparecimento completo em 0,98% dos pacientes.
Essa possibilidade de expansão ou regressão, ainda que rara, sugere que o nevo acrômico não é um nevo simples e inerte, mas uma anomalia nevoide passível de modificação.
Não há evidência de associação entre o nevo acrômico e o desenvolvimento de câncer de pele.
Mesmo após clareamento completo com tratamento, a recidiva da hipopigmentação não é incomum.
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Referências
- Nevus depigmentosus: review of a mark of distinction. International Journal of Dermatology. 2019.
- Natural history of nevus depigmentosus: a long-term follow-up study of 102 cases. Annals of Dermatology. 2023.
- Modalities of treatment for nevus depigmentosus: review of the literature. Journal of Dermatological Treatment. 2023.
- Dermoscopy is a new diagnostic tool in diagnosis of common hypopigmented macular disease: a descriptive study. Dermatology Reports. 2019.
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