Pediculose
Conceito
Infestação da pele e dos pelos por piolhos, insetos hematófagos ápteros da ordem Anoplura, obrigatoriamente parasitas do ser humano.
Três formas clínicas são reconhecidas, definidas pela espécie e pelo local parasitado: pediculose da cabeça (Pediculus humanus capitis), pediculose do corpo (Pediculus humanus corporis) e pediculose pubiana ou ftiríase (Phthirus pubis, popularmente "chato").
O termo ftiríase deriva do gênero Phthirus e designa a infestação pelo piolho pubiano em qualquer topografia pilosa, incluindo cílios (ftiríase palpebral).
Os piolhos alimentam-se exclusivamente de sangue humano: o piolho da cabeça precisa de duas a seis refeições por dia e o piolho do corpo, ao menos uma por dia.
A infestação por piolho da cabeça tem morbidade limitada, não é indicador de má higiene e não transmite doença; a repercussão principal é a ansiedade dos cuidadores e o estigma social, com afastamento escolar e isolamento da criança.
A pediculose do corpo tem significado distinto: é o piolho que vive na roupa, associa-se a impossibilidade de trocar e lavar as roupas e é vetor de doenças sistêmicas graves.
A pediculose pubiana é transmitida sobretudo por contato sexual e comporta-se como marcador de exposição sexual.
Epidemiologia
A pediculose da cabeça é a infestação humana mais comum por insetos e afeta mais de 100 milhões de pessoas por ano no mundo.
Uma análise de 55 estudos mostrou prevalência mundial variando conforme a localização geográfica de zero a 64,1%; um inquérito nos Estados Unidos encontrou 1,6% das crianças com piolhos vivos e 3,6% com lêndeas.
Uma metanálise estimou a prevalência global da infestação por piolho da cabeça em cerca de 19%; taxas nacionais publicadas incluem 2,1% na União Europeia, 5,3% na Grécia, 16,3% na Polônia, 14,3% na Síria, 7,4% a 10,5% no Irã e 65,7% na Etiópia.
Nos países de renda alta, a faixa etária mais acometida é a de crianças de 3 a 11 anos, com predomínio de escolares, adolescentes e meninas.
A prevalência não se distribui segundo classe socioeconômica: a pediculose capitis ocorre em todos os estratos.
Não há evidência de que comprimento do cabelo, escovação frequente ou lavagem frequente modifiquem o risco; a infestação ocorre em todos os tipos de cabelo.
Sites leigos sugerem que a etnia influenciaria a taxa de infestação, mas não há achado consistente na literatura médica que sustente isso.
Nos Estados Unidos, o custo anual do tratamento da pediculose da cabeça foi estimado em 500 milhões de dólares.
A pediculose do corpo concentra-se em populações em situação de rua e em aglomerações (abrigos, prisões, campos de refugiados, tropas em campanha), onde não é possível trocar nem lavar as roupas com regularidade.
O tifo epidêmico associa-se historicamente a condições de vida em aglomeração; a febre das trincheiras foi descrita pela primeira vez entre as tropas da Primeira Guerra Mundial e hoje reaparece como "febre das trincheiras urbana" ligada à situação de rua e à baixa higiene.
Fatores de risco e doenças associadas
- Idade escolar (3 a 11 anos) e convívio em creche, escola e atividades com contato cabeça a cabeça
- Contato direto cabeça a cabeça com pessoa infestada
- Contato domiciliar com pessoa infestada, sobretudo compartilhamento de cama
- Compartilhamento de itens de uso pessoal (pentes, escovas, chapéus, travesseiros), risco menor que o do contato direto
- Permanência em ambientes coletivos: abrigos, casas de acolhimento, instituições de longa permanência, centros de imigração
- Situação de rua e impossibilidade de trocar e lavar roupas regularmente (pediculose do corpo)
- Aglomeração e baixa higiene (pediculose do corpo)
- Contato sexual e múltiplas parcerias (pediculose pubiana)
- Tratamento prévio malsucedido ou uso repetido e inadequado de pediculicidas de venda livre, com pressão seletiva para resistência
- Tifo epidêmico (Rickettsia prowazekii): transmitido pelo piolho do corpo; ligado a aglomeração; doença de Brill-Zinsser é a recidiva da infecção latente décadas depois
- Febre das trincheiras (Bartonella quintana), também chamada febre dos cinco dias ou febre quintã, transmitida pelo piolho do corpo; descrita nas tropas da Primeira Guerra Mundial e hoje ligada à situação de rua ("febre das trincheiras urbana")
- Angiomatose bacilar e bacteremia por Bartonella quintana em imunocomprometidos
- Febre recorrente transmitida por piolho (Borrelia recurrentis); vetor: piolho do corpo; 3 a 4 recidivas de febre paroxística com sintomas gripais inespecíficos e erupção macular ou petequial, mais grave que a forma transmitida por carrapatos
- Outras infecções sexualmente transmissíveis: a pediculose pubiana é transmitida sobretudo por contato sexual; o PCDT-IST/MS 2022 recomenda que toda pessoa com diagnóstico de IST seja testada para HIV, sífilis, clamídia, gonococo e hepatites B e C
- Abuso sexual em crianças: pelo PCDT-IST/MS 2022, o diagnóstico de uma IST em criança pode ser o primeiro sinal de abuso sexual e deve ser investigado, com notificação em até 24 horas e comunicação ao conselho tutelar
- Infestação concomitante dos contatos domiciliares e das parcerias sexuais
Patogênese
O piolho adulto da cabeça mede 2 a 3 mm (tamanho de uma semente de gergelim), tem seis patas e coloração castanho-clara a branco-acinzentada.
A fêmea vive 3 a 4 semanas e, uma vez madura, põe até 10 ovos por dia, colados à base da haste do pelo, a menos de 2 mm do couro cabeludo, por uma substância cimentante produzida pelo próprio piolho.
Os ovos viáveis são camuflados por pigmento que reproduz a cor do cabelo do hospedeiro; as cascas vazias, brancas, são mais visíveis contra cabelos escuros.
Os ovos são incubados pelo calor do corpo e eclodem em geral em 8 a 9 dias, com variação de 7 a 12 dias conforme o clima ambiente; a ninfa passa por três estádios (instares) ao longo de 9 a 12 dias até chegar a adulto.
A fêmea pode acasalar e começar a pôr ovos viáveis cerca de 1,5 dia após tornar-se adulta; sem tratamento o ciclo se repete a cada 3 semanas aproximadamente, o que define o ciclo de vida de 21 dias.
O piolho da cabeça sobrevive em geral menos de um dia longe do couro cabeludo, e seus ovos não eclodem em temperaturas inferiores às da vizinhança do couro cabeludo; a sobrevivência do piolho fora do hospedeiro além de 48 horas é extremamente improvável.
O piolho se alimenta injetando pequenas quantidades de saliva com propriedades vasodilatadoras e anticoagulantes, o que permite sugar sangue a cada poucas horas.
O prurido resulta de sensibilização a componentes da saliva: na primeira infestação ele pode demorar 4 a 6 semanas para surgir, tempo necessário para a sensibilização; em pessoas já sensibilizadas e com reinfestação a reação é mais rápida.
Os piolhos não saltam nem pulam: só rastejam. A transmissão ocorre na maioria dos casos por contato direto do cabelo com o cabelo de pessoa infestada, sendo o contato cabeça a cabeça a situação mais comum.
A transmissão indireta por fômites (pentes, escovas, chapéus, capacetes esportivos) é muito menos provável: os piolhos encontrados em pentes costumam estar feridos ou mortos, e um piolho dificilmente abandona uma cabeça saudável, exceto em infestação maciça; em um estudo, piolhos vivos foram encontrados em apenas 4% das fronhas usadas por pessoas infestadas.
Os piolhos são específicos do ser humano e não passam de pessoa para animais de estimação nem destes para pessoas.
O piolho do corpo é maior, mas de forma semelhante à do piolho da cabeça; não é encontrado sobre a pele, e sim nas dobras e costuras das roupas, onde vive e deposita seus ovos, indo à pele apenas para se alimentar.
O piolho pubiano tem corpo curto e largo e quatro apêndices frontais em forma de garra de caranguejo, o que explica o nome popular "chato" e permite identificá-lo.
As máculas cerúleas são máculas cinza-azuladas em coxas e tronco decorrentes da degradação da hemoglobina do hospedeiro nos pontos de picada, com conversão de bilirrubina em biliverdina.
Clínica
- Prurido no couro cabeludo, retroauricular e na nuca; pode faltar na primeira infestação por até 4 a 6 semanas
- Piolhos vivos no couro cabeludo, em geral menos de 10 exemplares por cabeça infestada
- Lêndeas firmemente aderidas à haste do pelo, sobretudo nas regiões occipital e retroauricular e na linha posterior de implantação; a menos de 1 cm do couro cabeludo indicam maior chance de viabilidade
- Lêndeas viáveis pigmentadas na cor do cabelo; cascas vazias esbranquiçadas, mais visíveis
- Escoriações por coçadura no couro cabeludo, nuca e pescoço
- Crostas e impetiginização secundária das escoriações
- Linfadenopatia occipital e cervical posterior
- Irritabilidade e perda de sono na criança
- Prurido do tronco, cintura e áreas cobertas pela roupa, com escoriações lineares nas áreas de contato com as costuras (pediculose do corpo)
- Ausência do parasita na pele na pediculose do corpo; os piolhos e ovos estão nas costuras da roupa
- Hiperpigmentação e liquenificação do tronco na infestação crônica do corpo
- Prurido pubiano e perianal, com piolhos e lêndeas aderidos aos pelos terminais (pediculose pubiana)
- Máculas cerúleas: máculas cinza-azuladas assintomáticas em coxas, flancos e tronco na pediculose pubiana
- Acometimento de outros pelos terminais na ftiríase: axilas, tronco, barba, cílios e supercílios
- Ftiríase palpebral: piolhos e lêndeas nos cílios, com blefarite, prurido e crostas na margem palpebral
Classificação
- Pediculose da cabeça (Pediculus humanus capitis): couro cabeludo
- Pediculose do corpo (Pediculus humanus corporis): piolho que vive nas roupas, vetor de doenças sistêmicas
- Pediculose pubiana ou ftiríase (Phthirus pubis): pelos pubianos e demais pelos terminais, incluindo cílios
Diagnósticos diferenciais Assinante
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Manejo Assinante
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Complicações e cuidados
- Escoriações por coçadura
- Impetiginização e infecção bacteriana secundária do couro cabeludo e da nuca
- Linfadenopatia occipital e cervical posterior
- Sofrimento psicológico, estigma social, isolamento e afastamento escolar indevido
- Falha terapêutica por resistência aos piretroides
- Dermatite irritativa de contato ao pediculicida, com prurido e ardor persistentes
- Intoxicação por organofosforado com depressão respiratória se a malationa for ingerida
- Queimadura pela inflamabilidade da loção de malationa (78% de álcool isopropílico)
- Neurotoxicidade, convulsões, anemia aplásica e leucemia associadas ao lindano
- Toxicidade pelo álcool benzílico em lactentes abaixo de 6 meses expostos ao espinosade
- Blefarite e conjuntivite na ftiríase palpebral
- Anemia e infestação maciça em pessoas em situação de rua com pediculose do corpo
Prognóstico
A infestação por piolho da cabeça é benigna, de morbidade limitada e sem eventos adversos médicos associados; não é vetor de doença.
Com tratamento adequado e retratamento no dia correto pelo ciclo do ovo, a erradicação é a regra.
As taxas de cura variam com o agente e com a resistência local: permetrina e piretrinas caíram de quase 100% na década de 1980 para até 25% em algumas comunidades; espinosade alcança 84% a 87%; ivermectina tópica 0,5%, 71% a 76% em aplicação única; abametapir, 81%; dimeticona em gel, 96% no dia 14; e ivermectina oral, 95,2% no dia 15 na infestação de difícil tratamento.
A persistência após tratamento correto deve ser atribuída a erro diagnóstico, falta de adesão, tratamento insuficiente, reinfestação ou resistência (nessa ordem de investigação) e não automaticamente à resistência.
A pediculose do corpo resolve-se com a troca e a higienização das roupas e com a melhora das condições de vida; o prognóstico é determinado pelas doenças transmitidas pelo vetor, que podem ser graves e exigem antibiótico.
A pediculose pubiana tem cura com o tratamento tópico, mas o PCDT-IST/MS 2022 adverte que, quando o agravo não é tratado na(s) parceria(s), ele se perpetua na comunidade e expõe o indivíduo à reinfecção.
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Referências
- Head Lice. Pediatrics. 2022.
- Frequency of pyrethroid resistance in human head louse treatment: systematic review and meta-analysis. Parasite. 2021.
- Oral ivermectin versus malathion lotion for difficult-to-treat head lice. New England Journal of Medicine. 2010.
- Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 211 p. Disponível em:.
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