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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Pênfigo foliáceo

Padrão inflamatório(fogo selvagem, pênfigo foliáceo endêmico, pênfigo foliáceo clássico (de Cazenave), pênfigo brasileiro, pênfigo eritematoso, síndrome de Senear-Usher)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaMedicamentosPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchadosVeja também

Conceito

Pênfigo foliáceo é uma dermatose bolhosa autoimune intraepidérmica causada por autoanticorpos IgG dirigidos contra a desmogleína 1.

A ligação do autoanticorpo à desmogleína 1 nas camadas superficiais da epiderme provoca perda de adesão entre os queratinócitos (acantólise) e formação de vesículas e bolhas subcórneas.

As lesões surgem em áreas seborreicas e podem disseminar-se, mas não comprometem as mucosas.

É a segunda forma mais comum de pênfigo e geralmente mais branda que o pênfigo vulgar.

Compreende variantes: pênfigo foliáceo clássico (de Cazenave), pênfigo foliáceo endêmico (fogo selvagem), pênfigo eritematoso (síndrome de Senear-Usher) e pênfigo herpetiforme.

O fogo selvagem é a forma endêmica brasileira, com características clínicas, histopatológicas e imunológicas idênticas às do pênfigo foliáceo clássico, diferenciando-se por aspectos epidemiológicos.

Epidemiologia

O pênfigo é raro no mundo, com incidência global estimada de 0,76 a 5 novos casos por milhão de habitantes por ano.

O pênfigo foliáceo é menos frequente que o pênfigo vulgar (incidência de 0,1 a 0,5 por 100.000), exceto em áreas da América do Sul, do Norte da África e da Turquia.

Em áreas rurais do Brasil, a razão entre fogo selvagem e pênfigo vulgar pode chegar a 17:1; na Tunísia é de 4:1 e na Finlândia, de 2:1.

Na reserva indígena Terena da Aldeia Limão Verde (Mato Grosso do Sul), a prevalência de fogo selvagem chega a 3,4%.

Estimavam-se mais de 15.000 pacientes com fogo selvagem no Brasil já em 1989, sobretudo na região Centro-Oeste e nas colônias do noroeste.

O pênfigo foliáceo clássico acomete predominantemente adultos de meia-idade e idosos.

O fogo selvagem afeta ambos os sexos, sem distinção étnica, principalmente pré-adolescentes e adultos jovens expostos a áreas rurais, com ocorrência de casos familiares.

À medida que as áreas endêmicas são urbanizadas, a incidência do fogo selvagem diminui gradualmente.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Residência ou exposição em áreas rurais endêmicas do Centro-Oeste do Brasil, próximas a rios ricos em simulídeos
  • Picadas de insetos hematófagos (simulídeo Simulium nigrimanum, flebotomíneo Lutzomyia longipalpis, triatomíneos, percevejos)
  • Moradias de adobe com telhado de sapé em áreas endêmicas
  • História familiar de fogo selvagem (até 20% dos parentes; até 60% na Aldeia Limão Verde)
  • Alelos HLA-DRB1*0404, *1402 e *1406
  • Outras doenças autoimunes, à semelhança do pênfigo vulgar
  • Pênfigo eritematoso: sobreposição com lúpus eritematoso, com anticorpo antinuclear positivo em cerca de 30%
  • Gamopatia e deficiência de IgA (relevante antes do uso de imunoglobulina intravenosa)

Medicamentos associados

  • Fármacos tiólicos (D-penicilamina, captopril)
  • Outros fármacos (penicilinas, cefalosporinas, enalapril e outros inibidores da enzima conversora de angiotensina, rifampicina, anti-inflamatórios não esteroides, tiopronina, piritinol)

Patogênese

No epitélio normal, os queratinócitos são unidos por desmossomos, cujas caderinas desmossômicas (desmogleínas e desmocolinas) são proteínas transmembrana cálcio-dependentes que se ancoram, via placoglobina e placofilina, às placas de desmoplaquina e aos filamentos intermediários de queratina.

A desmogleína 1 é uma glicoproteína transmembrana de 160 kDa da família das caderinas, com cinco ectodomínios (EC1 a EC5), expressa em todos os níveis da epiderme, com predomínio nas camadas superiores.

Pela teoria da compensação das desmogleínas, como a desmogleína 3 compensa a perda da desmogleína 1 na mucosa e nas camadas basais, o alvo isolado da desmogleína 1 gera bolhas apenas na epiderme superficial, poupando as mucosas.

Os autoanticorpos patogênicos pertencem à subclasse IgG4 (também há IgG1) e reconhecem os ectodomínios amino-terminais EC1/EC2, onde estão os epítopos patogênicos.

Em indivíduos de áreas endêmicas, os autoanticorpos IgG1 pré-clínicos reconhecem o ectodomínio não patogênico EC5; em predispostos, ocorre expansão intramolecular de epítopos para EC1/EC2 com IgG4 patogênico e surgimento da doença.

A ligação IgG-desmogleína 1 desencadeia acantólise por mecanismos extracelulares (impedimento estérico) e intracelulares dependentes de sinalização, com fosforilação da p38 MAPK, retração dos filamentos de queratina e actina e desorganização dos desmossomos.

No fogo selvagem, a etiologia é multifatorial, com fatores genéticos, imunológicos e ambientais.

Os alelos HLA-DRB1*0404, *1402 e *1406, que compartilham a sequência LLEQRRAA na região hipervariável, conferem suscetibilidade (risco relativo em torno de 14).

Fatores ambientais incluem picadas de insetos hematófagos, destacando-se o simulídeo (mosquito-pólvora) Simulium nigrimanum, predominante nas áreas endêmicas.

Autoanticorpos de pacientes com fogo selvagem reconhecem a proteína salivar LJM11 do flebotomíneo Lutzomyia longipalpis, e anticorpos monoclonais anti-desmogleína 1 fazem reação cruzada com LJM11 por mimetismo molecular conformacional; camundongos imunizados com LJM11 produzem anti-desmogleína 1.

Respostas IgE anti-LJM11 e anti-desmogleína 1 estão elevadas em pacientes e podem preceder o início clínico do fogo selvagem em indivíduos suscetíveis.

Fármacos tiólicos podem precipitar a doença, com produção de resposta Th2 e elevação de IL-6, TNF-alfa e IL-22.

Clínica

  • Vesícula ou bolha superficial e flácida, de conteúdo claro ou amarelado, semelhante a impetigo, que se rompe facilmente
  • Erosões e áreas erosivo-crostosas com escamas em flocos de milho (aspecto folhoso)
  • Distribuição em áreas seborreicas: couro cabeludo, face e região central superior do tronco, com tendência a espalhar-se distalmente
  • Lesões faciais que podem assumir formato de asa de borboleta
  • Placas crostosas ou ceratóticas de superfície acastanhada
  • Sinal de Nikolsky positivo (destacamento da pele em área aparentemente normal próxima às lesões)
  • Sinal de Asboe-Hansen positivo (Nikolsky marginal, com expansão da bolha à compressão)
  • Ausência de bolhas ou erosões em mucosas, mesmo na doença disseminada
  • Forma disseminada bolhoso-exfoliativa, que pode evoluir para eritrodermia esfoliativa
  • Variante herpetiforme, com placas urticariformes e vesículas pruriginosas em arranjo herpetiforme
  • Início habitualmente gradual, ao longo de semanas a meses; raramente agudo ou fulminante

Classificação

  • Pênfigo foliáceo clássico (de Cazenave)
  • Pênfigo foliáceo endêmico (fogo selvagem): variante brasileira, de epidemiologia distinta
  • Pênfigo eritematoso (síndrome de Senear-Usher): sobreposição de pênfigo e lúpus, na região malar, com anticorpo antinuclear positivo em cerca de 30%
  • Pênfigo herpetiforme: placas urticariformes e vesículas herpetiformes pruriginosas, com mínima acantólise
  • Pênfigo foliáceo induzido por fármacos
  • Pênfigo foliáceo neonatal: transitório, por passagem transplacentária de autoanticorpos

Formas de gravidade

  • Leve ou localizada: menos de 1% da superfície corporal
  • Moderada: 1% a 10% da superfície corporal
  • Grave: mais de 10% da superfície corporal

Formas disseminadas do fogo selvagem

  • Vesicobolhosa ou bolhoso-exfoliativa
  • Eritrodérmica
  • Ceratótica
  • Herpetiforme

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Complicações e cuidados

  • Alteração da barreira cutânea, com perda proteica e hidroeletrolítica, desequilíbrio de eletrólitos e catabolismo acelerado
  • Infecções cutâneas e sistêmicas, com risco maior nas formas extensas
  • Infecções oportunistas relacionadas à imunossupressão, por vezes fatais
  • Evolução para eritrodermia esfoliativa
  • Efeitos adversos da corticoterapia (diabetes, hipertensão, osteoporose, necrose óssea avascular, glaucoma, catarata, miopatia, distúrbios mentais)
  • Efeitos adversos dos imunossupressores e da dapsona (mielossupressão, hepatite, anemia)
  • Estrongiloidíase disseminada, que justifica a profilaxia

Prognóstico

Até a década de 1950, o prognóstico era ruim, com mortalidade significativa por caquexia e infecção sistêmica.

Com a introdução da corticoterapia sistêmica, a mortalidade caiu para cerca de 30%, e com a associação de imunossupressores adjuvantes e o manejo dos efeitos adversos, reduziu-se a aproximadamente 6%.

O pênfigo foliáceo, por não comprometer as mucosas, tem melhor prognóstico que o pênfigo vulgar.

A evolução é habitualmente crônica, sendo necessário aumentar as doses da medicação nas recidivas.

Cerca de metade dos pacientes atinge remissão, mas permanece sob risco de recorrência mesmo após anos sem tratamento; os demais mantêm a doença controlada com doses baixas de medicação.

Formas localizadas podem permanecer estáveis por meses a anos e apresentar resolução espontânea em parte dos pacientes.

Gestantes com fogo selvagem geram crianças normais, exceto nas formas disseminadas com altos títulos de autoanticorpos.

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Referências

  1. Fogo selvagem: endemic pemphigus foliaceus. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2018.
  2. Consensus on the treatment of autoimmune bullous dermatoses: pemphigus vulgaris and pemphigus foliaceus - Brazilian Society of Dermatology. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2019.
  3. Updated S2K guidelines on the management of pemphigus vulgaris and foliaceus initiated by the European Academy of Dermatology and Venereology (EADV). Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology. 2020.
  4. Brazilian pemphigus foliaceus anti-desmoglein 1 autoantibodies cross-react with sand fly salivary LJM11 antigen. Journal of Immunology. 2012.
  5. IgE anti-LJM11 sand fly salivary antigen may herald the onset of Fogo Selvagem in endemic Brazilian regions. Journal of Investigative Dermatology. 2015.

Achados (clique para explorar)

bolhaerosãocrostaescamasinal de Nikolskyregião seborreicacouro cabeludofacetronco

Veja também

Infecções superficiais e infestações da epidermeDermatites psoriasiformes e espongióticasDermatites vesicobolhosas
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