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Pioderma gangrenoso

Padrão inflamatório(Pyoderma gangrenosum, PG)

Conceito

Pioderma gangrenoso é uma dermatose neutrofílica não infecciosa, ulcerativa e de curso crônico, decorrente de uma resposta imune anormal.

É considerado protótipo das dermatoses neutrofílicas e inclui-se no espectro das doenças autoinflamatórias.

Caracteriza-se por úlceras cutâneas dolorosas, de bordas violáceas irregulares e solapadas, com predileção pelos membros inferiores.

É um diagnóstico de exclusão, pois não há exame laboratorial nem achado histológico patognomônico.

Associa-se com frequência a doenças sistêmicas, sobretudo doença inflamatória intestinal, artropatias e neoplasias hematológicas.

Epidemiologia

A incidência é estimada em cerca de 3 a 10 casos por milhão de pessoas por ano, ou 0,3 a 1 por 100.000.

Acomete sobretudo adultos entre 20 e 60 anos, com discreta predominância no sexo feminino.

Cerca de metade dos casos apresenta uma doença sistêmica inflamatória associada, sendo a doença inflamatória intestinal a mais comum, presente em até 30%.

O risco de morte é cerca de três vezes maior do que na população geral.

É raro na infância, quando predomina na cabeça e na região anogenital, em geral associado a doença inflamatória intestinal ou leucemia.

Os números podem ser subestimados pela ausência de um exame diagnóstico padrão-ouro.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Doença inflamatória intestinal
  • Artropatias inflamatórias, como artrite reumatoide e artrite soronegativa
  • Neoplasias hematológicas e gamopatia monoclonal IgA
  • Trauma cutâneo e patergia
  • Procedimentos e cirurgias, como mamoplastia redutora, laparotomia, abdominoplastia e enxertos cutâneos
  • Mutação em CD2BP1/PSTPIP1 (síndrome PAPA)
  • Doença inflamatória intestinal, com retocolite ulcerativa mais que doença de Crohn, associação mais comum, em até 30%
  • Artrite reumatoide e artrite soronegativa
  • Neoplasias hematológicas, como síndrome mielodisplásica, leucemia mieloide aguda, leucemia mieloide crônica, leucemia de células pilosas e policitemia vera
  • Gamopatia monoclonal IgA
  • Hidradenite supurativa
  • Síndrome PAPA (artrite piogênica, pioderma gangrenoso e acne)
  • Síndromes PASH e PAPASH
  • Síndrome do anticorpo antifosfolípide, lúpus eritematoso sistêmico e arterite de Takayasu
  • Tumores sólidos, como próstata e adenocarcinoma de cólon

Patogênese

É provavelmente um distúrbio imunológico, com disfunção neutrofílica e ativação exagerada da imunidade inata por meio dos inflamassomos.

A ativação da caspase 1 cliva a pró-IL-1beta em IL-1beta ativa, que recruta e ativa neutrófilos e desencadeia outras citocinas pró-inflamatórias.

A IL-17 é crucial no recrutamento neutrofílico e age em sinergia com o fator de necrose tumoral alfa.

A IL-1beta, a IL-17 e o TNF-alfa aumentam as metaloproteinases de matriz, superexpressas no infiltrado, causando injúria e destruição tecidual.

A patergia, presente em cerca de 30% dos casos, é uma reação exacerbada e inespecífica dos neutrófilos, em que traumas mínimos como incisões e punções iniciam ou agravam a doença, com recidiva em cerca de 15% após procedimentos cirúrgicos.

Alguns casos têm base genética, com mutação na proteína 1 ligadora de CD2 (CD2BP1/PSTPIP1), que interage com a pirina, como na síndrome PAPA.

Clínica

  • Quatro subtipos clínicos principais: clássico (ulcerativo), bolhoso (atípico), pustuloso e vegetante (granulomatoso superficial); há ainda as formas periostomal e infantil
  • PG clássico ou ulcerativo: inicia como pápulo-pústula ou bolha inflamatória eritêmato-violácea que evolui para úlcera dolorosa que cresce em tamanho e profundidade
  • A úlcera tem borda bem delimitada, elevada, irregular, solapada e de cor violácea, com base purulenta e hemorrágica e exsudato de mau odor por colonização ou superinfecção
  • Um halo infiltrativo, eritematoso e edematoso estende-se por até 2 cm além da borda da úlcera
  • Lesões-satélite surgem na periferia da úlcera, rompem-se e fundem-se à úlcera central; a progressão é rápida e serpiginosa
  • A lesão é geralmente solitária, mas pode ser múltipla, de poucos milímetros a 30 cm ou mais, tipicamente muito dolorosa
  • Localiza-se mais na face extensora das pernas, na região pré-tibial, mas qualquer sítio pode ser acometido, podendo expor tendões, fáscia e músculos
  • Cicatriza com cicatriz cribriforme atrófica
  • PG bolhoso (atípico): mais superficial e menos destrutivo, com distribuição mais disseminada (face e dorso das mãos), sobrepondo-se à síndrome de Sweet bolhosa, e forte associação a malignidade hematológica
  • PG pustuloso: múltiplas pústulas pequenas que não progridem para úlceras, associado a doença inflamatória intestinal na maioria dos casos
  • PG vegetante ou granulomatoso superficial: forma menos agressiva, com úlceras cribriformes superficiais e indolores e crescimentos verrucosos no tronco, geralmente pós-trauma, sem doença sistêmica associada
  • PG periostomal: lesões dolorosas e solapadas ao redor de ostomias, associado a doença inflamatória intestinal, que piora após desbridamento cirúrgico
  • Pioestomatite vegetante: pioderma vegetante crônico da mucosa oral, quase sempre associado a doença inflamatória intestinal

Classificação

  • Clássico (ulcerativo): forma mais comum, associada a DII, artrite reumatoide e gamopatia IgA, cicatriza com cicatriz cribriforme
  • Bolhoso (atípico): mais superficial, fortemente associado a doenças mieloproliferativas e malignidade hematológica
  • Pustuloso: pústulas que não ulceram, associado a DII
  • Vegetante ou granulomatoso superficial: forma mais branda, úlceras superficiais verrucosas, sem doença sistêmica associada
  • Periostomal: lesões ao redor de estomas, associadas a DII

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Complicações e cuidados

  • Cicatriz cribriforme atrófica
  • Superinfecção bacteriana da úlcera
  • Úlceras profundas com exposição de tendões, fáscia e músculos
  • Piora e recidiva por patergia após cirurgia ou desbridamento
  • PG periostomal em pacientes com ostomia
  • Envolvimento neutrofílico extracutâneo, como nódulos pulmonares estéreis
  • Dor intensa e comprometimento da qualidade de vida

Prognóstico

O curso é variável conforme o subtipo.

As formas vegetante e granulomatosa superficial são as mais brandas e respondem a tratamento conservador.

A cicatrização deixa cicatriz cribriforme atrófica.

As recidivas são comuns e a patergia limita procedimentos.

O prognóstico é influenciado pela doença sistêmica associada, e o risco de morte é maior do que na população geral.

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Referências

  1. Diagnostic Criteria of Ulcerative Pyoderma Gangrenosum: A Delphi Consensus of International Experts. JAMA Dermatology. 2018.
  2. The PARACELSUS score: a novel diagnostic tool for pyoderma gangrenosum. British Journal of Dermatology. 2019.
  3. Infliximab for the treatment of pyoderma gangrenosum: a randomised, double blind, placebo controlled trial. Gut. 2006.
  4. Pyoderma gangrenosum: a review with special emphasis on Latin America literature. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2019.

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