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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Pioderma gangrenoso

Padrão inflamatório(Pyoderma gangrenosum, PG)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchados

Conceito

Pioderma gangrenoso é uma dermatose neutrofílica não infecciosa, ulcerativa e de curso crônico, decorrente de uma resposta imune anormal.

É considerado protótipo das dermatoses neutrofílicas e inclui-se no espectro das doenças autoinflamatórias.

Caracteriza-se por úlceras cutâneas dolorosas, de bordas violáceas irregulares e solapadas, com predileção pelos membros inferiores.

É um diagnóstico de exclusão, pois não há exame laboratorial nem achado histológico patognomônico.

Associa-se com frequência a doenças sistêmicas, sobretudo doença inflamatória intestinal, artropatias e neoplasias hematológicas.

Epidemiologia

A incidência é estimada em cerca de 3 a 10 casos por milhão de pessoas por ano, ou 0,3 a 1 por 100.000.

Acomete sobretudo adultos entre 20 e 60 anos, com discreta predominância no sexo feminino.

Cerca de metade dos casos tem doença sistêmica inflamatória associada; a mais comum é a doença inflamatória intestinal, presente em até 30%.

O risco de morte é cerca de três vezes maior do que na população geral.

É raro na infância, quando predomina na cabeça e na região anogenital, em geral associado a doença inflamatória intestinal ou leucemia.

Os números podem estar subestimados pela ausência de exame diagnóstico padrão-ouro.

Há neoplasia subjacente em até 7% dos casos, sobretudo na variante bolhosa.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Trauma cutâneo e patergia
  • Procedimentos e cirurgias: mamoplastia redutora, laparotomia, abdominoplastia e enxertos cutâneos
  • Doença inflamatória intestinal, associação mais comum, em até 30%, com retocolite ulcerativa mais que doença de Crohn
  • Artropatias inflamatórias: artrite reumatoide e artrite soronegativa
  • Neoplasias hematológicas: síndrome mielodisplásica, leucemia mieloide aguda, leucemia mieloide crônica, leucemia de células pilosas e policitemia vera
  • Gamopatia monoclonal IgA
  • Hidradenite supurativa
  • Síndrome PAPA (artrite piogênica, pioderma gangrenoso e acne), por mutação em CD2BP1/PSTPIP1
  • Síndromes PASH e PAPASH
  • Síndrome do anticorpo antifosfolípide, lúpus eritematoso sistêmico e arterite de Takayasu
  • Tumores sólidos, como próstata e adenocarcinoma de cólon

Patogênese

É provavelmente um distúrbio imunológico, com disfunção neutrofílica e ativação exagerada da imunidade inata por meio dos inflamassomos.

A ativação da caspase 1 cliva a pró-IL-1beta em IL-1beta ativa, que recruta e ativa neutrófilos e desencadeia outras citocinas pró-inflamatórias.

A IL-17 tem papel central no recrutamento neutrofílico e age em sinergia com o fator de necrose tumoral alfa.

A IL-1beta, a IL-17 e o TNF-alfa aumentam as metaloproteinases de matriz, superexpressas no infiltrado, causando injúria e destruição tecidual.

A patergia, presente em cerca de 30% dos casos, é uma reação exacerbada e inespecífica dos neutrófilos, em que traumas mínimos como incisões e punções iniciam ou agravam a doença, com recidiva em cerca de 15% após procedimentos cirúrgicos.

Alguns casos têm base genética, com mutação na proteína 1 ligadora de CD2 (CD2BP1/PSTPIP1), que interage com a pirina, como na síndrome PAPA.

Há desregulação de IL-8, IL-23, Fas e FasL, com queda da razão entre células T reguladoras e células Th17.

Clínica

  • Quatro subtipos clínicos principais: clássico (ulcerativo), bolhoso (atípico), pustuloso e vegetante (granulomatoso superficial); há ainda as formas periostomal e infantil

Pioderma gangrenoso clássico (ulcerativo)

  • Inicia como pápulo-pústula ou bolha inflamatória eritêmato-violácea que evolui para úlcera dolorosa, que cresce em tamanho e profundidade
  • Borda bem delimitada, elevada, irregular, solapada e de cor violácea, com base purulenta e hemorrágica e exsudato de mau odor por colonização ou superinfecção
  • Halo infiltrativo, eritematoso e edematoso, que se estende por até 2 cm além da borda da úlcera
  • Lesões-satélite surgem na periferia da úlcera, rompem-se e fundem-se à úlcera central, com progressão rápida e serpiginosa
  • Lesão em geral solitária, mas pode ser múltipla, de poucos milímetros a 30 cm ou mais, tipicamente muito dolorosa
  • Predomina na face extensora das pernas, na região pré-tibial, mas qualquer sítio pode ser acometido, com possível exposição de tendões, fáscia e músculos
  • Cicatriza com cicatriz cribriforme atrófica

Pioderma gangrenoso bolhoso (atípico)

  • Mais superficial e menos destrutivo, com distribuição mais disseminada, na face e no dorso das mãos
  • Sobrepõe-se à síndrome de Sweet bolhosa e tem forte associação a malignidade hematológica

Pioderma gangrenoso pustuloso

  • Múltiplas pústulas pequenas que não progridem para úlceras
  • Associado a doença inflamatória intestinal na maioria dos casos

Pioderma gangrenoso vegetante (granulomatoso superficial)

  • Forma menos agressiva, com úlceras cribriformes superficiais e indolores e crescimentos verrucosos no tronco
  • Em geral pós-trauma, sem doença sistêmica associada

Pioderma gangrenoso periostomal

  • Lesões dolorosas e solapadas ao redor de ostomias, associadas a doença inflamatória intestinal
  • Piora após desbridamento cirúrgico
  • Pioestomatite vegetante: pioderma vegetante crônico da mucosa oral, quase sempre associado a doença inflamatória intestinal

Classificação

  • Clássico (ulcerativo): forma mais comum, associada a doença inflamatória intestinal, artrite reumatoide e gamopatia IgA, cicatriza com cicatriz cribriforme
  • Bolhoso (atípico): mais superficial, com forte associação a doenças mieloproliferativas e a malignidade hematológica
  • Pustuloso: pústulas que não ulceram, associado a doença inflamatória intestinal
  • Vegetante ou granulomatoso superficial: forma mais branda, com úlceras superficiais verrucosas, sem doença sistêmica associada
  • Periostomal: lesões ao redor de estomas, associadas a doença inflamatória intestinal

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Complicações e cuidados

  • Cicatriz cribriforme atrófica
  • Superinfecção bacteriana da úlcera
  • Úlceras profundas com exposição de tendões, fáscia e músculos
  • Piora e recidiva por patergia após cirurgia ou desbridamento
  • Pioderma gangrenoso periostomal em pacientes com ostomia
  • Envolvimento neutrofílico extracutâneo, como nódulos pulmonares estéreis
  • Dor intensa e comprometimento da qualidade de vida

Prognóstico

O curso é variável conforme o subtipo.

As formas vegetante e granulomatosa superficial são as mais brandas e respondem a tratamento conservador.

A cicatrização deixa cicatriz cribriforme atrófica.

As recidivas são comuns e a patergia limita procedimentos.

O prognóstico é influenciado pela doença sistêmica associada, e o risco de morte é maior do que na população geral.

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Referências

  1. Diagnostic Criteria of Ulcerative Pyoderma Gangrenosum: A Delphi Consensus of International Experts. JAMA Dermatology. 2018.
  2. The PARACELSUS score: a novel diagnostic tool for pyoderma gangrenosum. British Journal of Dermatology. 2019.
  3. Infliximab for the treatment of pyoderma gangrenosum: a randomised, double blind, placebo controlled trial. Gut. 2006.
  4. Pyoderma gangrenosum: a review with special emphasis on Latin America literature. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2019.

Achados (clique para explorar)

úlceradoreritema violáceopústulabolhafenômeno de patergiasatelitosemembros inferioreslesão de crescimento rápido
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