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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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© 2026 Dr. Caio Formiga, DermatologistaCRM/TO 3606 · RQE 2226 · Membro da SBDPrivacidade
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Prurido crônico

Padrão inflamatório(prurido crônico, coceira crônica, prurido cum materia, prurido sine materia, prurido de origem desconhecida, CPUO)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchados

Conceito

Prurido é definido como a sensação desagradável que provoca o desejo ou o reflexo de coçar.

É o sintoma mais frequentemente relatado por pacientes que procuram o dermatologista.

Considera-se prurido crônico aquele com duração superior a 6 semanas.

Pode ser localizado ou generalizado.

Embora seja um sintoma comum a inúmeras condições cutâneas, alérgicas, infecciosas, neurológicas, psicológicas e sistêmicas, o prurido crônico pode adquirir estatuto de doença própria, com comportamento inflamatório neuroimune e alterações funcionais e estruturais na pele e no sistema nervoso.

O International Forum for the Study of Itch (IFSI) classifica o prurido crônico em três grupos clínicos: prurido em pele lesional (com dermatose primária), prurido em pele não lesional (sem lesões iniciais, antigamente chamado prurido sine materia) e prurido com lesões de coçadura graves (como prurigo crônico e líquen simples), que impede o enquadramento nos dois primeiros grupos.

Quando, após investigação, a causa permanece indeterminada, denomina-se prurido crônico de origem desconhecida (CPUO), diagnóstico de exclusão.

Epidemiologia

A prevalência estimada do prurido crônico varia de 8% a 25%.

Em crianças de 6 a 10 anos estima-se prevalência de 15%.

Em idosos (≥65 anos) estima-se prevalência de 25%.

É o sintoma mais frequentemente reportado por pacientes dermatológicos.

O prurido crônico impacta de forma significativa o bem-estar psicossocial, incluindo distúrbios do sono, vergonha e transtorno dismórfico corporal por lesões visíveis causadas pela coçadura.

Pacientes com prurido intenso têm pior qualidade de vida e sofrem mais com humor deprimido e ansiedade.

Ideação suicida foi relatada em 18,5% dos pacientes com prurido crônico.

Fatores de risco e doenças associadas

  • idade avançada
  • sexo masculino (maior risco de malignidade subjacente)
  • doença hepática
  • tabagismo
  • xerose cutânea
  • diátese atópica
  • doença renal crônica e hemodiálise
  • colestase
  • polifarmácia (sobretudo em idosos)
  • doença renal crônica e uremia (40%-90% dos pacientes em hemodiálise)
  • colestase e distúrbios hepatobiliares (colangite biliar primária, colangite esclerosante primária, hepatite autoimune, hepatites virais, cirrose)
  • colestase intra-hepática da gravidez
  • linfoma de Hodgkin e não Hodgkin
  • policitemia vera (prurido aquagênico, mutação JAK2)
  • leucemias mieloide e linfocítica
  • mieloma múltiplo e gamopatia monoclonal
  • síndrome mielodisplásica
  • síndrome hipereosinofílica
  • ferropenia e sobrecarga de ferro/hemocromatose
  • hipertireoidismo e hipotireoidismo
  • diabetes mellitus
  • HIV
  • toxocaríase, estrongiloidíase, oncocercose e escabiose
  • penfigoide bolhoso (inclusive atípico) no idoso
  • dermatose eosinofílica de malignidade hematológica
  • neoplasias sólidas hepatobiliares e paraneoplásicas

Patogênese

O prurido resulta de interação complexa entre mediadores inflamatórios, células imunes, células cutâneas e redes neuronais, envolvendo os sistemas nervoso periférico e central.

O processo inicia na epiderme e junção dermoepidérmica, onde um pruritógeno (produto de células imunes, compostos exógenos ou queratinócitos) ativa receptores pruriceptivos em fibras C amielínicas.

As fibras nervosas classificam-se em histaminérgicas e não histaminérgicas conforme a expressão de receptores; as fibras histaminérgicas medeiam a transição do prurido agudo para o prurido histaminérgico, enquanto o prurido crônico associa-se predominantemente às fibras não histaminérgicas.

Fibras C amielínicas e fibras Aδ mielinizadas (prurido mecânico) na pele superficial produzem a sensação de prurido; os corpos celulares residem no gânglio da raiz dorsal (DRG), com dendritos que fazem sinapse no corno dorsal da medula.

Os queratinócitos estão na linha de frente e secretam pruritógenos, expressando PAR-2, TLR3, receptores de histamina H1-H4, endotelina A e B, serotonina, OSMRβ, TSLPR, NPY, TRPV3 e TRPV4; liberam TSLP, periostina, ET-1, IL-33 e BNP.

A disrupção da barreira epidérmica aumenta o gradiente inflamatório e a perda transepidérmica de água, com produção de citocinas pró-inflamatórias (IL-6), quimiocinas e fator de crescimento neural (NGF).

As células de Merkel deflagram o ciclo prurido-coçadura após estímulo do receptor Piezo-2 e expressam TRPM8; os mastócitos, na derme papilar próximos a fibras nervosas, ativam vias histaminérgicas e não histaminérgicas.

A via histaminérgica transmite prurido agudo e crônico, é mediada por histamina liberada por mastócitos, basófilos e queratinócitos, que se liga a receptores H1 e H4 ativando TRPV1.

A via não histaminérgica é deflagrada por nervos que expressam receptores ativados por pruritógenos diferentes da histamina, liberados por mastócitos, granulócitos, macrófagos, linfócitos, ILC2, queratinócitos e neurônios.

Há três classes principais de receptores do prurido: receptores acoplados à proteína G (incluindo MRGPRX1 e MRGPRX4 em humanos), receptores toll-like e receptores de citocinas (IL-31, TSLP, IL-4, IL-13, IL-33, oncostatina-M).

Os canais TRP, especialmente TRPV1 (vanilóide-1) e TRPA1 (anquirina-1), ativam os canais de sódio Nav1.7 e Nav1.8, propagando o potencial de ação do sinal de prurido.

Mediadores relevantes incluem histamina, serotonina, proteases (PAR-2 e PAR-4, cruciais no prurido histamina-independente), substância P, CGRP, bradicinina, NGF/neurotrofinas, BNP, IL-31, TSLP, GRP, somatostatina, opioides, canabinoides e eicosanoides (LTB4).

A IL-31 regula positivamente a síntese de BNP nos neurônios do DRG; o BNP é mediador central do prurido e sensibiliza o TRPV3.

Na medula, os neurônios sensoriais ativados liberam peptídeo liberador de gastrina (GRP), que se liga a interneurônios GRPR-positivos no corno dorsal.

O sinal ascende pelo trato espinotalâmico até o tálamo e o núcleo parabraquial, sendo processado no córtex somatossensorial primário e secundário, ínsula e córtex cingulado anterior.

No sistema opioide, o receptor μ (MOR) é pruritogênico e o receptor κ (KOR), ativado pela dinorfina, é antipruritogênico; há homeostase entre MOR e KOR, e a perda de interneurônios inibitórios dinorfinérgicos implica-se na sinalização central do prurido e na alocnese.

A cronificação decorre de comunicação desregulada entre terminações nervosas sensoriais, células imunes, queratinócitos, células residentes da pele e SNC, com sensibilização periférica e perda da inibição descendente.

Clínica

  • prurido com duração superior a 6 semanas
  • prurido localizado ou generalizado
  • pele de aspecto normal no prurido em pele não lesional (sine materia)
  • dermatose primária identificável no prurido em pele lesional
  • lesões secundárias de coçadura: escoriações, liquenificação, hiperpigmentação
  • prurigo nodular: pápulas e nódulos firmes, cupuliformes, hiperpigmentados, com escama/crosta/erosão central, simétricos em extensoras, poupando dorso médio (sinal da borboleta)
  • líquen simples crônico: placas bem definidas liquenificadas, hiperpigmentadas, com eritema variável
  • prurido aquagênico: prurido intenso após contato com água em qualquer temperatura, em minutos, sem alterações visíveis da pele
  • prurido palmoplantar inicial na colestase, tornando-se generalizado
  • prurido pior à noite e nos 2 dias pós-hemodiálise na uremia
  • prurido com sintomas B (perda ponderal, sudorese noturna, febre) sugere neoplasia/linfoma
  • alodínia, alocnese, atmocnese e disestesia
  • intensidade avaliada por escala visual analógica (VAS) e escala numérica (NRS)

Classificação

  • Grupos clínicos IFSI (segundo presença/ausência de lesões primárias)
  • IFSI I: prurido crônico em pele primariamente lesional (alterada), CPL, na presença de dermatose (prurido cum materia)
  • IFSI II: prurido crônico em pele primariamente não lesional (inalterada), CPNL, sem lesões iniciais (prurido sine materia)
  • IFSI III: prurido crônico com lesões de coçadura graves, predomínio de lesões secundárias (prurigo crônico, líquen simples), impedindo o enquadramento nos grupos I ou II
  • Categorias etiológicas IFSI
  • Categoria I: origem dermatológica (dermatoses inflamatórias, infecciosas, autoimunes, genodermatoses, dermatoses da gravidez, neoplasias)
  • Categoria II: origem sistêmica (distúrbios endócrino-metabólicos, doenças infecciosas, distúrbios hematológicos e linfoproliferativos, neoplasias viscerais, gravidez, prurido induzido por fármacos)
  • Categoria III: origem neurogênica ou neuropática, neurogênica sem dano neuronal (ex.: prurido hepático por aumento de μ-opioides) e neuropática com dano neuronal (esclerose múltipla, neoplasias, abscessos, infartos cerebrais/espinhais, prurido braquiorradial, notalgia parestésica, meralgia parestésica, neuralgia pós-herpética, vulvodinia, neuropatia de pequenas fibras)
  • Categoria IV: prurido somatoforme (doenças psiquiátricas/psicossomáticas, depressão, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, esquizofrenia, alucinose tátil)
  • Categoria V: mista (prurido resultante de mais de uma condição de categorias distintas)
  • Categoria VI: prurido crônico de origem indeterminada/desconhecida (CPUO)

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Complicações e cuidados

  • distúrbios do sono
  • escoriações e infecção cutânea secundária
  • prurigo nodular
  • líquen simples crônico
  • liquenificação e hiperpigmentação
  • depressão e ansiedade
  • ideação suicida
  • transtorno dismórfico corporal
  • comprometimento da qualidade de vida

Prognóstico

O prognóstico depende da etiologia e da possibilidade de tratá-la; em casos raros, tratar ou curar a doença de base resolve o prurido crônico.

O prurido pode persistir independentemente da causa e adquirir estatuto de doença própria, com cronificação por comportamento inflamatório neuroimune.

Há exceções, como o prurido do linfoma de Hodgkin em quimioterapia precoce, que pode não resolver completamente.

O CPUO é diagnóstico de exclusão e exige reavaliação periódica.

O prurido crônico grave reduz a qualidade de vida e associa-se a distúrbios do sono, depressão, ansiedade e ideação suicida.

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Referências

  1. Chronic pruritus: a narrative review. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2025.
  2. EADV Task Force Pruritus White Paper on chronic pruritus and chronic prurigo: Current challenges and future solutions. Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology. 2024.

Achados (clique para explorar)

prurido crônicopruridococeiraprurido sine materiaprurido cum materiaprurido em pele lesionalprurido em pele não lesionalIFSICPUOvia histaminérgicavia não histaminérgicafibras Cfibras AδhistaminaH1H4IL-31PAR-2TSLPIL-33BNPGRPGRPRsubstância PCGRPNGFTRPV1TRPA1Nav1.7Nav1.8MRGPRMORKORdinorfinaopioidesgânglio da raiz dorsalprurido urêmicoDRChemodiálisecolestaseprurido colestáticocolangite biliar primáriaferropeniapolicitemia veraJAK2prurido aquagênicolinfoma de Hodgkinmielomagamopatia monoclonalprurido paraneoplásicoHIVtoxocaríaseescabioseprurido do idosopenfigoide bolhosodermatose eosinofílica de malignidade hematológicaprurido neuropáticoprurido braquiorradialnotalgia parestésicameralgia parestésicaneuropatia de pequenas fibrasprurido somatoformeprurido induzido por fármacosescoriaçãoprurigo nodularlíquen simples crônicoliquenificaçãoemolientescorticosteroide tópicoinibidor de calcineurinacapsaicinaanti-histamínicogabapentinapregabalinamirtazapinadoxepinasertralinaparoxetinanaltrexonadifelikefalinacolestiraminarifampicinatalidomidafototerapiaNB-UVBdupilumabenemolizumabevixarelimabeinibidor de JAKVASNRSalocnesealodínia
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