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Púrpura pigmentar (capilarite)

Padrão inflamatório(Dermatoses purpúricas pigmentadas, Capilarite, Doença de Schamberg, Púrpura pigmentar crônica, DPP, Púrpura anular telangiectásica de Majocchi, Líquen aureus, Dermatite purpúrica liquenoide pigmentada de Gougerot-Blum, Púrpura eczematoide de Doucas-Kapetanakis)

Conceito

As dermatoses purpúricas pigmentadas compõem um grupo de doenças cutâneas crônicas e benignas caracterizadas por hemorragia petequial secundária a capilarite, isto é, inflamação dos capilares da derme papilar superficial.

O extravasamento de hemácias produz a púrpura, e os macrófagos carregados de hemossiderina conferem tom dourado a acastanhado às lesões antigas.

Apresentam-se tipicamente como máculas puntiformes cor de "pimenta caiena" (petéquias) sobre fundo de máculas hiperpigmentadas pardo-amareladas, não palpáveis, de distribuição bilateral e predomínio nos membros inferiores.

As diferentes variantes representam formas clínicas de uma mesma entidade, com histopatologia praticamente sobreponível.

Não há achados sistêmicos, mas a natureza purpúrica das lesões frequentemente motiva investigação para excluir trombocitopenia ou vasculite.

O curso é crônico, com surtos e remissões, e a maioria dos casos é idiopática.

Epidemiologia

Afetam indivíduos de todas as idades, sendo mais frequentes em adultos, mas há numerosos relatos em crianças.

A doença de Schamberg é a variante mais comum, com predomínio em homens de meia-idade a idosos.

A púrpura anular telangiectásica de Majocchi acomete sobretudo adolescentes e adultas jovens do sexo feminino.

A dermatite liquenoide de Gougerot-Blum incide preferencialmente em homens de meia-idade a idosos.

O líquen aureus predomina em homens jovens.

A púrpura eczematoide de Doucas-Kapetanakis ocorre principalmente em homens adultos.

A forma linear é mais observada em crianças e adolescentes.

A variante granulomatosa é rara e parece mais frequente em asiáticos.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Hipertensão venosa e insuficiência venosa crônica
  • Fragilidade capilar, especialmente em membros inferiores
  • Exercício físico e atividade muscular intensa
  • Ortostatismo prolongado e roupas apertadas
  • Consumo crônico de álcool, sobretudo com dano hepático
  • Infecções locais e focos infecciosos, incluindo odontogênicos
  • Dislipidemia e hiperlipidemia (variante granulomatosa)
  • Escleroterapia (púrpura de Majocchi)
  • Suplementos, bebidas energéticas, vacina COVID-19 e infecção por hepatite B
  • Insuficiência venosa crônica e hipertensão venosa
  • Diabetes mellitus
  • Artrite reumatoide
  • Lúpus eritematoso sistêmico
  • Disfunção tireoidiana
  • Dislipidemia e hiperlipidemia
  • Doença hepática e consumo de álcool
  • Neoplasias hematológicas e sólidas
  • Micose fungoide

Medicamentos associados

  • Paracetamol
  • AINEs e aspirina
  • Antibióticos
  • Antidiabéticos orais
  • Amlodipino
  • Hidralazina
  • Dipiridamol
  • Estatinas
  • Interferon-alfa
  • Raloxifeno
  • Dupilumabe
  • Inibidores de TNF-alfa

Patogênese

A etiologia é desconhecida.

Há inflamação e hemorragia dos vasos superficiais da derme papilar, sobretudo capilares, sem associação com distúrbios da coagulação.

Estudos imunopatológicos apontam um evento imunológico celular localizado, com hipersensibilidade mediada por células.

Observa-se aumento da expressão de moléculas de adesão celular, com LFA-1 nas células inflamatórias e ICAM-1 e ELAM-1 nas células endoteliais, levando à adesão de linfócitos T ativados às células endoteliais, fibroblastos e queratinócitos.

O infiltrado perivascular é composto predominantemente por linfócitos T CD4+ e células dendríticas CD1a+.

Citocinas leucocitárias como o TNF-alfa induzem a expressão dessas moléculas de adesão e podem reduzir a atividade fibrinolítica, favorecendo o depósito intraperivascular de fibrina.

A fragilidade e a dilatação capilar, com o extravasamento de hemácias, desencadeiam a resposta imune.

Postula-se que fármacos ou substâncias atuem como haptenos, gerando antígenos que lesam o endotélio capilar.

Uma teoria emergente sugere alteração de linfócitos T epiteliotrópicos, com epidermotropismo ou padrão monoclonal do infiltrado em alguns casos.

Clínica

  • Máculas puntiformes cor de "pimenta caiena" (petéquias) que não desaparecem à digitopressão/diascopia
  • Fundo de máculas pardo-amareladas a acastanhadas por depósito de hemossiderina
  • Predomínio bilateral em membros inferiores (pernas, tornozelos, canela)
  • Extensão possível a coxas, nádegas, tronco e membros superiores
  • Geralmente assintomáticas, com prurido leve em alguns casos
  • Schamberg: máculas alaranjado-avermelhadas coalescentes com petéquias puntiformes e curso crônico-persistente
  • Majocchi: máculas anulares azuladas a avermelhadas com pontos telangiectásicos, extensão centrífuga e resolução central com leve atrofia
  • Gougerot-Blum: pápulas liquenoides purpúricas cor de ferrugem que confluem em placas, podendo envolver a mucosa oral, pruriginosas
  • Líquen aureus: lesão purpúrica solitária ou localizada com pápula liquenoide, cor dourada a ferrugem ou púrpura-acastanhada, frequentemente sobre veia perfurante
  • Doucas-Kapetanakis: petéquias, pápulas e máculas escamosas e eczematosas, muito pruriginosas, com disseminação craniana a partir dos membros inferiores
  • Forma linear/unilateral: lesões semelhantes a Schamberg ou líquen aureus dispostas de modo unilateral e linear
  • Granulomatosa: máculas acastanhadas com pápulas hemorrágicas nas pernas
  • Púrpura pruriginosa de Loewenthal: início abrupto com prurido intenso (variante sintomática de Schamberg)

Classificação

  • Doença de Schamberg (dermatose pigmentar purpúrica progressiva), a mais comum
  • Púrpura anular telangiectásica de Majocchi
  • Dermatite purpúrica liquenoide pigmentada de Gougerot-Blum
  • Líquen aureus (líquen purpúrico)
  • Púrpura eczematoide de Doucas-Kapetanakis
  • Púrpura pigmentar linear (unilateral, capilaropatia quadrântica)
  • Púrpura pigmentar granulomatosa
  • Púrpura pruriginosa de Loewenthal (variante sintomática)
  • Formas raras: familiar e forma linear unilateral de Hersch e Schwayder

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Complicações e cuidados

  • Hiperpigmentação hemossiderótica residual persistente
  • Impacto estético e psicológico pela cronicidade
  • Recidivas frequentes após suspensão do tratamento
  • Progressão para micose fungoide (rara, em formas atípicas e persistentes)
  • Atrofia cutânea por uso prolongado de corticoide tópico

Prognóstico

O curso é crônico e benigno, com surtos e remissões ao longo de meses a anos.

A maioria dos casos é idiopática.

As lesões são persistentes e frequentemente resistentes ao tratamento, com recidivas comuns após a suspensão.

Remissões espontâneas são frequentes, sobretudo em crianças.

A hiperpigmentação hemossiderótica pode persistir mesmo após a resolução da atividade.

A transformação em micose fungoide é rara, mas justifica vigilância nas formas atípicas ou persistentes.

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Referências

  1. Pigmented Purpuric Dermatoses: A Complete Narrative Review. Journal of Clinical Medicine. 2021.
  2. Therapeutic Approach in Pigmented Purpuric Dermatoses: A Scoping Review. International Journal of Molecular Sciences. 2024.
  3. Dermatosis purpúricas pigmentadas. Revisión de la literatura científica. Actas Dermo-Sifiliográficas. 2020.
  4. Púrpura anular telangiectásica de Majocchi. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2020.

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