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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Queloide

benignaderme(quelóide, cicatriz queloidiana, keloid)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ImagensConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchadosAulasVeja também

Imagens

Conceito

O queloide é uma proliferação fibroproliferativa benigna da derme reticular que se instala depois de uma lesão que atinge essa camada e não se encerra: o tecido cicatricial continua crescendo, ultrapassa as bordas da ferida original e invade a pele sã ao redor.

Três características definem a entidade: invasão da pele sã além dos limites da ferida, ausência de regressão espontânea e recidiva após excisão isolada.

Queloide não é sinônimo de cicatriz hipertrófica. A cicatriz hipertrófica permanece contida nos limites da ferida, cresce por 3 a 6 meses e tende a regredir sozinha; o queloide sai desses limites, cresce de forma continuada e persiste indefinidamente sem tratamento. Tratar um queloide como se fosse cicatriz hipertrófica, isto é, esperar que regrida ou excisá-lo sem adjuvante, é o erro de conduta mais comum.

A célula da proliferação é o fibroblasto, que permanece ativado e deposita colágeno de forma contínua e desorganizada, produzindo os feixes espessos e hialinizados do colágeno queloidiano.

Não é um tumor: as referências o caracterizam como doença inflamatória crônica e fibroproliferativa da derme reticular, ainda que reconheçam propriedades quase neoplásicas, como centro inativo, margem progressiva e infiltrativa e forte determinação genética.

Só surge em ferida que atinge a derme reticular; lesão superficial não produz queloide.

É benigno e não sofre transformação maligna, mas dói, coça, restringe movimento e desfigura, com prejuízo documentado da qualidade de vida.

As referências consideram que o queloide clássico e a cicatriz hipertrófica clássica são polos do mesmo distúrbio fibroproliferativo, separados pela intensidade e pela duração da inflamação da derme reticular, e que existem cicatrizes intermediárias com características das duas.

Epidemiologia

O queloide é muito mais frequente em pele negra e em fototipos altos de Fitzpatrick, com incidência estimada em 4% a 16% nesses grupos.

Séries internacionais, que reproduzem as categorias autodeclaradas dos estudos, descrevem queloide em 5% a 10% dos africanos, 0,1% a 1% dos asiáticos e menos de 0,1% dos europeus e norte-americanos; a lesão não ocorre em albinos.

O risco de cicatriz patológica em fototipos altos é cerca de 15 vezes maior do que em pele clara.

Em casuística brasileira, o fototipo III de Fitzpatrick foi o mais frequente entre os portadores de cicatrizes fibroproliferativas, e outra série encontrou predomínio a partir dos 25 anos, com a maioria das lesões de origem traumática.

A faixa etária de maior risco é a de adultos jovens, com pico entre 10 e 30 anos; a incidência de queloides sem trauma evidente sobe abruptamente por volta dos 10 anos, acompanhando a elevação dos esteroides sexuais na puberdade.

Estudo transversal com 1.659 pacientes japoneses sugere predomínio no sexo feminino, possivelmente ligado ao estrogênio, embora outras casuísticas descrevam distribuição semelhante entre os sexos.

A história familiar é frequente, com agregação familiar descrita em populações japonesas, afro-americanas e chinesas e padrão de herança autossômica dominante de penetrância incompleta em algumas famílias.

A prevalência exata do queloide na população geral é desconhecida.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Pele negra e fototipos altos de Fitzpatrick
  • História familiar de queloide
  • Idade entre 10 e 30 anos
  • Puberdade e gestação (elevação de estrogênio e androgênios; o queloide piora na gravidez e melhora após o parto)
  • Estados hipercitocinêmicos
  • Ferida que atinge a derme reticular (lesão superficial não produz queloide)
  • Fechamento de ferida sob tensão e sutura apenas dérmica, que não alivia a tensão da derme reticular
  • Ferida infectada ou de cicatrização demorada
  • Cirurgia eletiva em paciente com queloide prévio
  • Atividade física extenuante e trabalho manual pesado, que estiram a ferida em cicatrização
  • Massagem sobre a lesão, que estira o tecido e reacende a inflamação
  • Banhos muito quentes e alimentos quentes e condimentados, relatados como agravantes de prurido e dor

Sítios de alta tensão mecânica

  • Lóbulo da orelha e cartilagem auricular (piercing, brinco, peso do adorno, atrito com o travesseiro)
  • Região pré-esternal e parede torácica anterior
  • Ombro, deltoide e região escapular
  • Região púbica e suprapúbica e abdome inferior
  • Mandíbula e cicatrizes que cruzam a linha da mandíbula
  • Pescoço anterior e áreas sobre grandes articulações

Eventos cutâneos que precedem a lesão

  • Acne e foliculite
  • Piercing, brinco e outros adornos perfurantes
  • Queimadura, sobretudo a que leva 21 dias ou mais para epitelizar
  • Varicela, herpes-zóster e outras infecções cutâneas
  • Trauma, picada de inseto, vacinação e tatuagem
  • Doença de Castleman, distúrbio linfoproliferativo raro com superprodução de interleucina 6, que agrava queloides existentes
  • Síndrome de Rubinstein-Taybi, em que 24% dos pacientes desenvolvem queloides de crescimento espontâneo
  • Exostoses hereditárias múltiplas, com cicatrização queloidiana após excisão de osteocondroma
  • Hipertensão arterial, associada de forma significativa ao tamanho e ao número dos queloides
  • Acne queloidiana da nuca
  • Estado de grande queimado, em que a tempestade de citocinas eleva o risco de cicatriz patológica por pelo menos um ano

Patogênese

O evento central é a inflamação prolongada e localizada da derme reticular, que mantém ativa a fase proliferativa da cicatrização em vez de deixá-la evoluir para a remodelação.

Na cicatrização normal, os fatores fibrinogênicos, sobretudo o TGF-beta, retornam ao nível basal à medida que a ferida amadurece. No queloide, a via do TGF-beta permanece persistentemente ativada e o fibroblasto continua proliferando e produzindo matriz extracelular.

O tecido acumula células inflamatórias, fibroblastos, neovasos e depósitos de colágeno, com elevação de interleucina 1 alfa, interleucina 1 beta, interleucina 6 e fator de necrose tumoral alfa; mastócitos também participam.

Os genes pró-inflamatórios da pele desses pacientes parecem hipersensíveis ao trauma: ativam-se com mais facilidade e permanecem ativos por mais tempo, e é essa persistência que produz o crescimento invasivo sobre a pele sã.

A força mecânica local é o fator isolado mais importante: a tensão sobre a ferida prolonga e agrava a inflamação, e o queloide cresce na direção da tensão aplicada à pele, o que explica as formas em asa de borboleta no ombro, em pinça de caranguejo na parede torácica anterior e em halteres no braço.

A consequência topográfica é direta: o queloide é raro no couro cabeludo, na região pré-tibial e na pálpebra superior, exatamente onde a pele quase não se estira.

Reinjúria e infecção repetidas mantêm a inflamação acesa, o que explica o queloide do lóbulo da orelha, em que a colocação e a retirada sucessivas de brincos e a infecção do trajeto do piercing reacendem o processo.

A hipóxia tecidual e a infecção aumentam a deposição de matriz extracelular e favorecem a formação dos feixes espessos de colágeno de aspecto hialino.

O atraso típico de cerca de 3 meses entre a ferida e o aparecimento do queloide tem explicação: a epiderme fecha e os pontos saem em 7 a 14 dias, mas a derme reticular continua imatura e inflamada e só recupera cerca de 90% da resistência após 3 meses; é quando a inflamação profunda finalmente se torna visível através da epiderme.

Fatores sistêmicos amplificam a inflamação dérmica: estrogênio e androgênios (por vasodilatação), gravidez, hipertensão arterial (associada de forma significativa ao tamanho e ao número dos queloides) e estados hipercitocinêmicos.

A genética entra por polimorfismos de nucleotídeo único: um estudo de associação genômica identificou quatro loci de suscetibilidade em japoneses, e o rs8032158, no íntron 5 do gene NEDD4 no cromossomo 15, associa-se à gravidade da lesão.

Clínica

  • Nódulo ou placa firme e elevada, de superfície lisa e brilhante, eritematosa nos fototipos baixos e hipercrômica ou violácea nos fototipos altos
  • Ultrapassa as bordas da ferida original e invade a pele sã adjacente: é este o achado que define a lesão
  • Início retardado, tipicamente cerca de 3 meses após a lesão, com crescimento continuado e sem regressão espontânea
  • Pode surgir após trauma mínimo ou sem trauma aparente
  • Prurido e dor são frequentes e costumam ser mais intensos do que na cicatriz hipertrófica
  • Eritema vivo somado a prurido ou dor indica lesão ativa e em crescimento, que é a que melhor responde ao tratamento
  • Lesões extensas, confluentes ou múltiplas, por vezes com trajetos fistulosos superinfectados, nas formas graves de tórax e dorso
  • Ausência de ulceração, de friabilidade e de crescimento nodular irregular: a presença desses sinais afasta o diagnóstico e obriga a biópsia

Formas ditadas pela direção da tensão cutânea

  • Asa de borboleta no ombro
  • Pinça de caranguejo na parede torácica anterior, com crescimento horizontal que acompanha a contração do peitoral maior
  • Halteres no braço

Morfologia com valor terapêutico

  • Lesão séssil, de base larga, que responde melhor ao corticoide intralesional
  • Lesão pediculada, de base estreita, candidata à excisão com adjuvante

Topografia

  • Sítios preferenciais: lóbulo e pavilhão auricular, região pré-esternal, ombro e região escapular, pescoço, mandíbula, região suprapúbica e face
  • Sítios raros: couro cabeludo, região pré-tibial e pálpebra superior, onde a pele quase não se estira

Classificação

  • Queloide único e pequeno: predomina o fator tensão local
  • Queloide múltiplo e grande: pesam os fatores genéticos e sistêmicos, sobretudo quando as lesões estão em regiões diferentes do corpo
  • Queloide séssil (base larga) e queloide pediculado (base estreita)
  • Queloide ativo (eritematoso, pruriginoso ou doloroso, em crescimento) e queloide inativo, plano e assintomático
  • Classificação por sítio (lóbulo da orelha, cartilagem auricular, parede torácica anterior, ombro e escápula, braço, região suprapúbica, mandíbula), com técnica cirúrgica e dose de radioterapia próprias para cada um
  • Lesão intermediária: cicatriz que reúne ao mesmo tempo características clínicas e histológicas de queloide e de cicatriz hipertrófica

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Complicações e cuidados

  • Prurido e dor persistentes
  • Contratura e limitação de movimento quando a lesão cruza articulação
  • Desfiguração, estigmatização e prejuízo documentado da qualidade de vida
  • Recidiva após excisão isolada (45% a 100%), com lesão maior do que a original
  • Recidiva mesmo após terapia combinada, exigindo seguimento prolongado
  • Superinfecção das lesões extensas com trajetos fistulosos
  • Queloide na área doadora do retalho e cicatriz patológica ao redor da área enxertada
  • Necrose da ponta do retalho quando se inclui tecido cicatricial
  • Atrofia dérmica, telangiectasia, hipopigmentação e acne esteroide pelo corticoide intralesional
  • Supressão adrenocortical, disfunção menstrual, catarata e glaucoma pelo corticoide intralesional
  • Ulceração, hiperpigmentação e dor em queimação pela 5-fluoruracila
  • Bolhas e ulceração pela bleomicina
  • Bolha, ferida exsudativa, cicatrização lenta e despigmentação pela criocirurgia
  • Púrpura, bolha, crosta e discromia pelo laser
  • Discromia, xerose e telangiectasia pela radioterapia
  • Foliculite sob oclusão com silicone

Prognóstico

O queloide é benigno e não sofre transformação maligna, mas não regride espontaneamente e persiste indefinidamente sem tratamento, tendendo a agravar-se com o tempo, porque a inflamação piora ao longo dos anos.

A recidiva é a marca da doença: 45% a 100% após excisão isolada, até 50% em 5 anos após corticoide intralesional, cerca de 22% após cirurgia com radioterapia em metanálise de 72 estudos e menos de 10% nos centros com técnica cirúrgica e braquiterapia otimizadas.

As melhores séries, com excisão, sutura de redução de tensão, zetaplastia e radioterapia ajustada por sítio, relatam recidiva de 4,7% a 10,6%, e as recidivas pequenas costumam ser controladas com emplastro e injeção de corticoide.

Não existe padrão-ouro nem tratamento universalmente aceito, e as terapias combinadas superam as isoladas.

O seguimento deve durar mais de 18 a 24 meses e só se encerra quando a lesão está plana, macia e assintomática.

O impacto funcional, estético e psicológico é o que define a gravidade, e não o risco oncológico, que não existe.

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Referências

  1. The Most Current Algorithms for the Treatment and Prevention of Hypertrophic Scars and Keloids: A 2020 Update of the Algorithms Published 10 Years Ago. Plastic and Reconstructive Surgery. 2022.
  2. Keloid and Hypertrophic Scars Are the Result of Chronic Inflammation in the Reticular Dermis. International Journal of Molecular Sciences. 2017.
  3. Keloid treatments: an evidence-based systematic review of recent advances. Systematic Reviews. 2023.
  4. S2k guidelines for the therapy of pathological scars (hypertrophic scars and keloids), update 2020. Journal der Deutschen Dermatologischen Gesellschaft. 2021.
  5. Tratamento para queloides: revisão de literatura. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. 2019.
  6. Tratamento de queloides e cicatrizes hipertróficas: uma revisão descritiva. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. 2023.

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