Reação inflamatória granulomatosa da pele desencadeada por material que o organismo reconhece como estranho e não consegue degradar.
O achado essencial é a presença de material exógeno identificável ou de material endógeno alterado a ponto de passar a se comportar como corpo estranho.
Os agentes exógenos são materiais não orgânicos ou orgânicos de alto peso molecular depositados na derme e no subcutâneo, resistentes à degradação pelas células inflamatórias.
As substâncias podem penetrar a pele por via voluntária (tinta de tatuagem, preenchedores cosméticos, mesoterapia, microagulhamento, piercing) ou involuntária (inclusão acidental de material externo após trauma cutâneo).
Os agentes endógenos correspondem a queratina de cisto roto, hastes pilosas, depósitos de cálcio, urato, oxalato e gordura, que passam a ser reconhecidos como substância estranha.
A palavra granuloma combina o latim granulum (pequeno grão) e o grego onkoma (tumor, nódulo), e descreve a tentativa do organismo de isolar-se do material intruso.
A incidência de granuloma de corpo estranho após preenchedores injetáveis varia de 1 em 100 a 1 em 5000 pacientes (1,0% a 0,02%), conforme a estrutura de superfície e a química do produto.
As taxas calculadas por produto foram de cerca de 0,3% para gel de colágeno, 0,4% para gel de ácido hialurônico, 0,15% a 2,5% para microesferas de polimetilmetacrilato (2,5% no produto de primeira geração com excesso de nanopartículas e menos de 0,2% após a mudança do processo de peneiramento), 0,13% a 1,0% para poli-L-láctico (maior com diluição em 3 mL e menor com diluição em 5 mL), 0,16% para hidroxiapatita de cálcio, 0,6% a 2,1% para partículas de poli-hidroxietilmetacrilato e 0,02% a 0,82% para óleo de silicone.
Os nódulos de início tardio após preenchedor têm incidência relatada de 0,1% a 1,0%.
Uma série brasileira de 1200 granulomas por injetáveis reuniu 452 casos por hidroxietilmetacrilato, 263 por outros injetáveis, 171 por ácido hialurônico, 158 por colágeno, 106 por polimetilmetacrilato e 50 por poliacrilamida.
Na revisão sistemática de granulomas tardios após preenchimento labial, 66 casos foram analisados: 67 dos 68 pacientes descritos eram do sexo feminino, a média de idade foi de 50 anos (variação de 23 a 77 anos) e o produto mais relatado foi o silicone (21/66; 31,8%), seguido do ácido hialurônico (14/66; 21,2%).
As reações a preenchedor concentram-se no lábio superior, no lábio inferior e no sulco nasogeniano.
As reações tardias a tatuagem são mais frequentes com tinta vermelha (sulfeto de mercúrio, o cinábrio).
As complicações de tatuagem tornaram-se mais raras com a melhora da higiene do procedimento e o abandono de substâncias irritantes fortes como os sais de mercúrio.
A ocronose exógena por hidroquinona, mercúrio, quinina, fenol ou ácido pícrico afeta sobretudo pessoas com fototipos altos de Fitzpatrick (IV, V e VI).
Fatores de risco e doenças associadas
A reação de corpo estranho é um processo dinâmico: a resposta inicial ao material é um infiltrado neutrofílico, que fracassa em eliminá-lo e é substituído por histiócitos e macrófagos que fagocitam o material.
O material resiste à degradação e permanece no citoplasma dos macrófagos, que se ativam e secretam citocinas que atraem novos macrófagos ao foco inflamatório.
Macrófagos individuais coalescem em células gigantes multinucleadas do tipo corpo estranho, e linfócitos T e fibroblastos completam a resposta; o resultado é um granuloma que isola o material indigerível.
As células gigantes surgem quando o material é grande demais para ser englobado por um único macrófago, que se funde a outros para ganhar potência; os macrófagos foram por isso chamados de "macrófagos frustrados".
A meia-vida do macrófago é de poucas horas, enquanto a da célula gigante é de cerca de sete dias.
A taxa de granuloma depende da natureza química do injetável, da estrutura e das propriedades de sua superfície e do seu conteúdo de impurezas, mas não da sua biocompatibilidade primária nem do volume injetado.
Partículas de superfície irregular ou com arestas produzem mais granulomas do que microesferas de superfície lisa.
A redução drástica do número de partículas pequenas (menores que 20 micrômetros) no polimetilmetacrilato acompanhou a queda da taxa de granulomas, sugerindo que a fagocitose e a memória imunológica dos macrófagos são estimuladas muito mais por muitas partículas pequenas do que por poucas partículas grandes.
A intensidade da reação de corpo estranho precoce, nos primeiros meses após a injeção, não prediz a formação tardia de granuloma.
O granuloma de corpo estranho típico não é uma reação alérgica tardia do tipo IV: pacientes que já haviam desenvolvido granuloma não reagiram a testes cutâneos com o mesmo material, e as culturas bacterianas foram uniformemente negativas.
A hipótese vigente é a de memória do macrófago: a estrutura química do material fica armazenada nos macrófagos, é transmitida às gerações seguintes de células e pode ser reativada por um estímulo posterior, o que explicaria o surgimento abrupto do granuloma mesmo anos após a absorção do implante.
Os únicos eventos até hoje identificados como desencadeantes são infecções sistêmicas graves, e há relatos de granuloma surgindo após bronquite, sinusite, pneumonia, otite média, abscesso dentário, enterite, quadro gripal, vacinação, trauma facial, ritidoplastia, choque psicológico, gravidez, uso de interferona e diagnóstico de doenças autoimunes e neoplasias.
No granuloma por ácido hialurônico, propõem-se impurezas da fermentação bacteriana (Streptococcus equi) desencadeando hipersensibilidade, sobretudo em quem recebeu injeções repetidas; a degradação dos produtos do material reticulado gerando resposta inflamatória; e a formação de biofilme bacteriano, cuja matriz impede a hialuronidase natural de degradar o ácido hialurônico e mantém uma infecção mínima e assintomática por meses a anos.
A reticulação torna o ácido hialurônico resistente às hialuronidases naturais e prolonga a permanência do material.
Quanto mais profunda a injeção, menor a chance de granuloma, porque a derme é o compartimento mais sensível e propenso a reações imunológicas; a injeção subdérmica na junção dermo-subcutânea causa menos granulomas do que a intradérmica.
Nos granulomas por zircônio e por níquel de piercing, o mecanismo é alérgico e a lesão só aparece em indivíduos previamente sensibilizados.
Os granulomas por sílica são interpretados como resposta às partículas de sílica coloidal e não como resultado de hipersensibilidade.
Em pacientes com HIV que iniciam terapia antirretroviral, a reação granulomatosa a corpo estranho pode emergir como manifestação da síndrome inflamatória de reconstituição imune, atribuída ao aumento da resposta T-auxiliar com ativação de macrófagos.
Classificação
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O granuloma cístico por colágeno ou ácido hialurônico dura de 2 a 12 meses se não tratado e resolve espontaneamente em menos de um ano.
O granuloma esclerosante por material particulado aparece de 6 a 24 meses após a injeção e persiste por vários anos se não tratado; sem tratamento, os granulomas por poli-L-láctico permanecem de 2 a 5 anos.
Os granulomas por preenchedor, se não tratados, crescem, permanecem clinicamente inalterados por alguns anos e resolvem espontaneamente em 1 a 5 anos.
Tratado cedo e com corticoide em dose suficiente, o granuloma não recidiva.
Na revisão de granulomas tardios por preenchimento labial, 61,8% dos casos resolveram ou entraram em remissão, mas 10,3% tiveram apenas resolução parcial ou doença persistente.
As reações a preenchedores degradados em meses (colágeno, ácido hialurônico, gel de agarose) podem ser graves, mas em geral desaparecem espontaneamente em prazo variável; as reações aos demais preenchedores tendem a ser graves e mostram pouca ou nenhuma tendência à melhora espontânea.
O granuloma da berilose sistêmica e o do zircônio são de resolução lenta e exigem retirada do agente.
A sílica tem período de incubação longo, de até 25 anos, e o granuloma se instala dentro da cicatriz.
Não é possível prever quais pacientes desenvolverão granuloma nem selecioná-los previamente, porque as razões individuais permanecem desconhecidas.
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