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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Sarcoma de Kaposi

malignaderme(Sarcoma de Kaposi, SK, Kaposi sarcoma)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaDermatoscopiaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchadosVeja também

Conceito

O sarcoma de Kaposi é uma neoplasia multicêntrica de células derivadas do endotélio linfático infectadas pelo herpes-vírus humano 8 (HHV-8), também chamado herpes-vírus associado ao sarcoma de Kaposi (KSHV), presente em praticamente 100% dos casos, com proliferação na derme.

Qualquer que seja a forma clínica, o paciente está infectado pelo HHV-8, e o grau de imunossupressão é o principal fator para o desenvolvimento e a progressão da doença.

É classificada entre as neoplasias vasculares malignas, mas o comportamento é variável: parte dos casos corresponde a lesões reativas inflamatórias, e a instabilidade genética induzida pelo vírus pode levar a proliferações monoclonais, que representam malignidade verdadeira.

Existem quatro formas clínicas: clássica (ou mediterrânea), endêmica africana, epidêmica associada ao HIV e iatrogênica do imunossuprimido, sobretudo o transplantado de órgão sólido. Todas são HHV-8 positivas, mas diferem em extensão, agressividade e tratamento.

O diagnóstico se baseia na clínica e é confirmado por biópsia com histopatologia e imuno-histoquímica; a biópsia é obrigatória.

O objetivo do tratamento não é a cura, e sim o controle da doença, o alívio dos sintomas e a preservação da qualidade de vida. A conduta se define pela forma clínica e pela extensão: na doença associada ao HIV, a base é a terapia antirretroviral; na iatrogênica, a redução da imunossupressão e a troca para inibidores de mTOR; a doença extensa, localmente agressiva ou rapidamente progressiva exige tratamento sistêmico.

Epidemiologia

A topografia varia com o contexto: nos casos associados ao HIV predominam face e tronco; nos casos não associados ao HIV predominam os membros inferiores.

Forma clássica ou mediterrânea:

A incidência é maior nos países mediterrâneos do que nos países do norte da Europa: estimada em 0,014 caso por 100.000 pessoas-ano no Reino Unido entre 1971 e 1980 e em até 1,58 caso por 100.000 habitantes por ano na Sardenha entre 1977 e 1991.

Acomete sobretudo homens idosos de ascendência mediterrânea ou judaica asquenaze.

A razão entre os sexos é de 2:1 na Itália e de 5:1 em Israel, com tendência atual de redução dessa diferença.

A incidência aumenta exponencialmente com a idade; em Israel, a mediana de idade ao diagnóstico é de 69,5 anos nos homens e de 73,5 anos nas mulheres.

Não há aumento do risco global de segundas neoplasias.

Forma endêmica africana:

Observada em africanos subsaarianos, com predomínio em homens jovens de regiões endêmicas.

Forma epidêmica associada ao HIV:

A incidência caiu no mundo todo desde 1995 com a terapia antirretroviral combinada: a razão de incidência padronizada passou de cerca de 4,6 no início da década de 1990 para 0,3 no final da mesma década, e na África a redução também foi expressiva.

Permanece o segundo câncer mais frequente nos pacientes infectados pelo HIV nos países ocidentais e continua sendo problema de saúde pública na África subsaariana.

É descrita como mais frequente em homens que fazem sexo com homens.

Costuma emergir com contagem de linfócitos T CD4 abaixo de 250 células por milímetro cúbico, mas pode ocorrer em pacientes com infecção de longa data e bem controlada.

Forma iatrogênica (imunossuprimidos e transplantados):

Ocorre em pacientes imunossuprimidos, sobretudo transplantados de órgão sólido, portadores de neoplasia e portadores de doença autoimune sob imunossupressão.

A prevalência após o transplante acompanha a soroprevalência de HHV-8 na população: acima de 50% na África subsaariana, de 10% a 20% nos países mediterrâneos, na América do Sul e na África Ocidental, e abaixo de 5% no norte da Europa e nos Estados Unidos.

O risco no receptor de órgão sólido é 50 a 500 vezes maior do que na população geral, e a razão entre homens e mulheres varia de 2 a 40.

O risco é máximo nos dois primeiros anos após o transplante e diminui depois; a mediana de tempo entre o transplante e o aparecimento da doença é de 13 meses, com variação de poucas semanas a 18 anos.

A maioria dos casos pós-transplante decorre de reativação do HHV-8.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Infecção prévia pelo HHV-8, condição obrigatória para desenvolver a doença
  • Origem em país de soroprevalência média ou alta de HHV-8, como os países mediterrâneos
  • Residência em região endêmica da África
  • Homens que fazem sexo com homens, pela alta transmissão do HHV-8
  • Sexo masculino
  • Idade avançada
  • Contato com solo vulcânico siliciático (fator possível)
  • Exposição a insetos hematófagos (fator possível)
  • Infecção pelo HIV, sobretudo com contagem baixa de linfócitos T CD4
  • Risco elevado no paciente com HIV mesmo com contagem de CD4 normal e carga viral indetectável
  • Não estar em terapia antirretroviral (principal fator na África)
  • Transplante de órgão sólido, com risco 50 a 500 vezes maior do que na população geral
  • Idade mais avançada do receptor no momento do transplante
  • Maior número de incompatibilidades no locus HLA-B
  • Regime de imunossupressão mais agressivo
  • Primeiros dois anos após o transplante
  • Imunossupressão no contexto de neoplasia ou de doença autoimune
  • Doença de Castleman multicêntrica (também associada ao HHV-8)
  • Linfoma primário de cavidades (também associado ao HHV-8)
  • Pênfigo paraneoplásico (também associado ao HHV-8)

Patogênese

O HHV-8 é o fator etiológico do sarcoma de Kaposi e está presente em praticamente todos os casos.

As células fusiformes do tumor são infectadas pelo HHV-8 e têm origem endotelial, com características de endotélio linfático.

O vírus permanece nas células tumorais em latência e expressa o antígeno nuclear associado à latência (LANA), demonstrável por imuno-histoquímica.

Vários produtos gênicos do HHV-8 ativam vias de sinalização envolvidas na angiogênese e na diferenciação vascular.

Os tumores podem ser policlonais, oligoclonais ou monoclonais: alguns casos são provavelmente lesões inflamatórias reativas verdadeiras e, mais tarde, alterações genéticas celulares decorrentes da instabilidade genética induzida pelo vírus podem levar a proliferações monoclonais, que constituem malignidade verdadeira.

O grau de imunossupressão é o principal fator para o desenvolvimento e a progressão da doença, seja pela infecção pelo HIV, seja pela imunossupressão iatrogênica do transplantado ou do paciente com doença autoimune ou neoplasia.

A dependência da imunossupressão explica a resposta da doença à reconstituição imune com terapia antirretroviral e à redução da imunossupressão no transplantado.

Clínica

  • Máculas, placas e nódulos de cor roxa, vermelho-azulada ou castanho-escura, de crescimento lento
  • Lesões solitárias ou múltiplas
  • Podem sangrar, ulcerar e tornar-se verrucosas e hiperceratóticas
  • Linfedema é frequente e pode preceder as lesões maculopapulosas
  • Lesões purpúricas ou hipercrômicas pelo extravasamento de hemácias e pelo depósito de hemossiderina
  • O acometimento visceral inclui pulmão, trato gastrointestinal, osso e fígado

Forma clássica e forma endêmica

  • Comportamento indolente, com predomínio nas extremidades, sobretudo membros inferiores
  • Acometimento de mucosa em cerca de 5% dos casos
  • Acometimento visceral em menos de 10% e de linfonodos em menos de 10%
  • Parte dos casos progride para doença disseminada
  • Variante linfadenopática africana, com acometimento ganglionar e curso fulminante

Forma epidêmica associada ao HIV

  • Doença mais disseminada e extensa do que na forma clássica
  • Tronco e região central da face são topografias comuns; o acometimento de mucosa oral, face e genitália é mais comum do que nas demais formas
  • Acometimento de mucosa em 30% a 40% dos casos, visceral em 20% a 40% e de linfonodos em cerca de 25%
  • Pode ser agressivo e ameaçador à vida se não tratado, inclusive em pacientes com HIV de longa data e bem controlado

Forma iatrogênica, pós-transplante

  • Doença mais disseminada e extensa do que na forma clássica
  • Acometimento de mucosa em cerca de 20% dos casos, visceral em 20% a 50% e de linfonodos em 20% a 40%
  • Pode regredir com a redução da imunossupressão

Classificação

Sarcoma de Kaposi clássico ou mediterrâneo

  • Homens idosos de ascendência mediterrânea ou judaica asquenaze
  • Curso habitualmente indolente, com progressão para doença disseminada em parte dos casos

Sarcoma de Kaposi endêmico africano

  • Homens jovens de regiões endêmicas da África subsaariana
  • Inclui variante linfadenopática com acometimento ganglionar e evolução fulminante

Sarcoma de Kaposi epidêmico associado ao HIV e à aids

  • Relacionado à imunodeficiência pelo HIV
  • Forma com maior tendência à disseminação cutânea, mucosa, ganglionar e visceral

Sarcoma de Kaposi iatrogênico

  • Pacientes imunossuprimidos, em especial transplantados de órgão sólido, portadores de neoplasia e portadores de doença autoimune
  • Estadiamento ACTG (TIS), único validado e aplicável apenas à forma associada ao HIV:
  • Tumor (T0, bom prognóstico): doença confinada à pele, a linfonodos ou doença oral mínima (sarcoma de Kaposi não nodular restrito ao palato)
  • Tumor (T1, mau prognóstico): edema ou ulceração associados ao tumor, sarcoma de Kaposi oral extenso, acometimento gastrointestinal ou de outras vísceras não ganglionares
  • Imunidade (I0, bom prognóstico): linfócitos T CD4 iguais ou superiores a 150 células por microlitro
  • Imunidade (I1, mau prognóstico): linfócitos T CD4 abaixo de 150 células por microlitro
  • Doença sistêmica (S0, bom prognóstico): sem história de infecção oportunista ou candidíase oral, sem sintomas B, desempenho de Karnofsky igual ou superior a 70
  • Doença sistêmica (S1, mau prognóstico): história de infecção oportunista ou de candidíase oral, sintomas B (febre inexplicada, sudorese noturna, perda de peso involuntária acima de 10%, diarreia por mais de duas semanas), desempenho de Karnofsky abaixo de 70 ou outra doença relacionada ao HIV (doença neurológica, linfoma)
  • Na era da terapia antirretroviral, apenas os estágios T e S, e não o I, parecem úteis para identificar os pacientes de pior prognóstico
  • Nas formas clássica, endêmica e iatrogênica não há estadiamento validado; a conduta distingue três situações: doença localizada não agressiva, doença localmente agressiva e doença disseminada

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Complicações e cuidados

  • Linfedema, que pode preceder as lesões cutâneas
  • Sangramento e ulceração das lesões
  • Lesões verrucosas e hiperceratóticas
  • Disseminação cutânea
  • Acometimento de mucosas
  • Acometimento de linfonodos
  • Acometimento visceral (pulmão, trato gastrointestinal, osso, fígado)
  • Curso fulminante e fatal na variante linfadenopática africana
  • Variante anaplásica, com células muito atípicas e mau prognóstico
  • Sarcoma de Kaposi como evento de síndrome inflamatória de reconstituição imune (IRIS), com surgimento ou piora das lesões entre duas semanas e três meses após o início da terapia antirretroviral, sobretudo com linfócitos T CD4 abaixo de 50 células por milímetro cúbico
  • Eventos cutâneos de IRIS raramente exigem suspensão da terapia antirretroviral
  • Prejuízo funcional grave por excisões cirúrgicas repetidas
  • Hipopigmentação sequelar após crioterapia ou laser de CO2
  • Toxicidade cutânea tardia da radioterapia (telangiectasia, hiperpigmentação, atrofia e fibrose)
  • Maior risco de rejeição do enxerto com o uso de interferona alfa no transplantado

Prognóstico

O comportamento é variável e depende da forma clínica, do grau de imunossupressão e da extensão da doença.

Forma clássica e endêmica:

Curso indolente, com progressão lenta, lesões iniciais nas extremidades distais e progressão para doença disseminada em parte dos casos.

A mortalidade não parece aumentada: em 204 casos de registros populacionais italianos, a sobrevida foi de 69% em 5 anos e de 46% em 10 anos, com sobrevida mediana de 9,4 anos, semelhante à da população geral de mesmo sexo e idade.

São fatores de mau prognóstico a imunossupressão e a idade avançada.

A variante linfadenopática africana tem curso fulminante e desfecho potencialmente fatal.

Forma epidêmica associada ao HIV:

A doença tende a disseminar e pode ser agressiva e ameaçadora à vida quando não tratada, mas responde à reconstituição imune com terapia antirretroviral.

A mortalidade caiu de forma expressiva com a terapia antirretroviral: nos países ocidentais, a sobrevida acumulada em 24 meses vai de 71% nos pacientes com CD4 abaixo de 300 células por milímetro cúbico ao diagnóstico a 94% naqueles com CD4 acima de 300.

São fatores de mau prognóstico a idade acima de 50 anos, o surgimento do sarcoma de Kaposi no momento ou após o diagnóstico de aids, a imunodeficiência avaliada pela contagem de CD4, a viremia detectável de HHV-8, a presença de sintomas sistêmicos e a coexistência de outra doença definidora de aids.

Forma iatrogênica (pós-transplante):

O prognóstico depende da possibilidade de minimizar a imunossupressão, e não da extensão da doença.

A doença pode regredir com a redução dos imunossupressores.

A mortalidade atual é menor do que a relatada antigamente: em série francesa de sarcoma de Kaposi após transplante renal, a sobrevida do enxerto foi de 85% em 5 anos e de 75% em 10 anos, semelhante à sobrevida global dos transplantados renais.

O acometimento visceral, a doença extensa e a progressão rápida definem o pior prognóstico e exigem tratamento sistêmico.

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Referências

  1. Diagnosis and treatment of Kaposi's sarcoma: European consensus-based interdisciplinary guideline (EDF/EADO/EORTC). European Journal of Cancer. 2019.

Achados (clique para explorar)

máculaplacanóduloeritema violáceopúrpuraúlcerasuperfície verrucosasangramento fácilmucosa oralmembros inferiores

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