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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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© 2026 Dr. Caio Formiga, DermatologistaCRM/TO 3606 · RQE 2226 · Membro da SBDPrivacidade
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Síndrome de Gorlin

benignaepiderme e derme(Síndrome do nevo basocelular, Síndrome do carcinoma basocelular nevoide, Síndrome de Gorlin-Goltz)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaDermatoscopiaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchados

Conceito

Genodermatose de herança autossômica dominante, causada na maioria dos casos por mutação germinativa em PTCH1, gene supressor tumoral da via Hedgehog.

Caracteriza-se por carcinomas basocelulares múltiplos e de início precoce, ceratocistos odontogênicos da mandíbula e da maxila, depressões palmoplantares (pits), calcificação lamelar da foice do cérebro e meduloblastoma na primeira infância.

Cada carcinoma basocelular é uma neoplasia maligna; o que muda a conduta é o número de tumores ao longo da vida (alguns pacientes desenvolvem mais de 100) e a necessidade de rastreio multidisciplinar e de proteção contra a radiação.

Radioterapia é relativamente contraindicada, e o exame radiológico sem consequência terapêutica deve ser evitado.

Epidemiologia

Prevalência estimada entre 1 em 31.000 e 1 em 256.000; incidência de 1 em 18.976 nascimentos.

Herança autossômica dominante, com 50% de chance de transmissão à prole; em 20% a 40% dos pacientes a doença decorre de mutação de novo.

Mutação em PTCH1 é encontrada em 50% a 70% dos pacientes com diagnóstico clínico; mutação em SUFU em cerca de 4%.

Carcinomas basocelulares em 51,4% dos pacientes acima de 20 anos e em 71,7% acima de 40 anos; o primeiro carcinoma pode surgir ainda na infância.

Depressões palmares em 70% e plantares em 50%; presentes em 30% a 65% antes dos 10 anos, em 80% antes dos 15 anos e em 85% após os 20 anos.

Ceratocistos odontogênicos em 44% a 92% dos pacientes, começando a surgir por volta dos 8 anos.

Calcificação ectópica da foice do cérebro em 65% a 95%; meduloblastoma em 1% a 4%.

Fibroma ovariano em 6% a 60% das mulheres, em geral entre 16 e 45 anos; fibroma cardíaco em 3% a 5%.

Deficiência intelectual relatada em 4% a 21% das coortes.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Mutação germinativa em PTCH1 (ou, menos comumente, em SUFU ou SMO)
  • Parente de primeiro grau com a síndrome
  • Exposição solar cumulativa, que aumenta o número de carcinomas basocelulares
  • Radiação ionizante terapêutica (radioterapia) sobre a pele
  • Radiação ionizante diagnóstica repetida, sobretudo na infância, pela maior radiossensibilidade
  • Ceratocisto odontogênico da mandíbula e da maxila
  • Meduloblastoma desmoplásico
  • Fibroma ovariano e fibroma cardíaco
  • Cistos linfomesentéricos
  • Calcificação da foice do cérebro, da tenda do cerebelo e da sela turca
  • Anormalidades oculares (hipertelorismo, estrabismo, catarata congênita, glaucoma congênito, coloboma, microftalmia)
  • Anomalias esqueléticas (costela bífida, escoliose, espinha bífida oculta, deformidade de Sprengel, quarto metacarpo curto, polidactilia)
  • Fenda labial ou palatina
  • Deficiência intelectual e atraso do desenvolvimento
  • Hipogonadismo hipogonadotrófico, rim em ferradura e outras anomalias renais

Patogênese

PTCH1 codifica a glicoproteína transmembrana PTCH1, supressora da via de sinalização Hedgehog.

No estado inativo, PTCH1 inibe o smoothened (SMO) e a sinalização a jusante fica bloqueada; o supressor of fused (SUFU) liga-se aos fatores de transcrição GLI e impede sua translocação ao núcleo.

Mutação em PTCH1 alivia a inibição sobre o SMO, os fatores GLI migram para o núcleo e a via Hedgehog fica hiperativada, com transcrição de genes de proliferação e diferenciação celular.

Mutações em outros genes da via (SUFU, SMO), germinativas ou em mosaicismo pós-zigótico, produzem o mesmo fenótipo, porém são menos comuns; a contribuição de PTCH2 é provavelmente insignificante.

Como se trata de gene supressor tumoral, basta um segundo evento mutacional (second hit) em uma célula para gerar o tumor: essa é a razão biológica pela qual a radiação ionizante, que causa dano ao DNA, multiplica os tumores nesses pacientes.

Correlação genótipo-fenótipo: o risco de meduloblastoma em portadores de mutação em PTCH1 é de 1,2% a 2,4%, e cerca de 20 vezes maior nos portadores de mutação em SUFU; ceratocistos odontogênicos não foram descritos em portadores de mutação em SUFU.

Clínica

  • O diagnóstico se estabelece por um critério maior com confirmação genética, por dois critérios maiores, ou por um critério maior e dois menores.

Critérios maiores

  • carcinoma basocelular antes dos 20 anos ou carcinomas basocelulares múltiplos
  • ceratocistos odontogênicos antes dos 20 anos
  • depressões (pits) palmares ou plantares
  • calcificação lamelar da foice do cérebro
  • meduloblastoma (variante desmoplásica)
  • parente de primeiro grau com a síndrome

Critérios menores

  • anomalias de costela (bífida, fundida ou muito alargada)
  • macrocefalia
  • fenda labial ou palatina
  • fibroma ovariano ou cardíaco
  • cistos linfomesentéricos
  • anormalidades oculares (estrabismo, hipertelorismo, catarata congênita, glaucoma, coloboma)
  • outras malformações esqueléticas e alterações radiológicas (anomalias vertebrais, cifoescoliose, quarto metacarpo curto, polidactilia pós-axial)

Carcinomas basocelulares

  • múltiplos, de início precoce, tipicamente ao redor da puberdade, podendo surgir na infância
  • todos os subtipos histológicos, pigmentados e não pigmentados
  • ocorrem tanto em áreas fotoexpostas (face, pescoço e tronco superior) quanto em áreas fotoprotegidas
  • podem simular nevos melanocíticos, mílios, acrocórdons ou ceratoses seborreicas, o que retarda o diagnóstico
  • alguns pacientes desenvolvem mais de 100 tumores ao longo da vida
  • Depressões palmoplantares (pits): depressões puntiformes, presentes desde a infância; são benignas e não exigem tratamento, mas sustentam o diagnóstico.
  • Outros achados cutâneos benignos: hamartomas foliculares basaloides, mílios faciais (30%), cistos epidérmicos (50%) e nevos múltiplos.
  • Ceratocistos odontogênicos: benignos e inicialmente assintomáticos; a progressão lenta causa deslocamento dentário importante e até fratura da mandíbula.
  • Fácies e esqueleto: macrocefalia (percentil acima de 95, em 50%), bossa frontal e biparietal, base nasal alargada, prognatismo mandibular, hipertelorismo (70%), escoliose (40%), espinha bífida oculta (40% a 60%), anomalias de costela (30% a 60%), deformidade de Sprengel (10% a 40%) e estatura média aumentada.
  • Sistema nervoso central: calcificação ectópica da foice do cérebro, da tenda do cerebelo (20% a 40%) e ponte total ou parcial da sela turca (25%); meduloblastoma desmoplásico, em geral nos 3 primeiros anos de vida.

Classificação

  • Critérios maiores: carcinoma basocelular antes dos 20 anos ou múltiplos; ceratocisto odontogênico antes dos 20 anos; pits palmoplantares; calcificação lamelar da foice do cérebro; meduloblastoma desmoplásico; parente de primeiro grau afetado
  • Critérios menores: anomalias de costela; macrocefalia; fenda labiopalatina; fibroma ovariano ou cardíaco; cistos linfomesentéricos; anormalidades oculares; outras malformações esqueléticas e radiológicas
  • Diagnóstico: um critério maior com confirmação genética, ou dois critérios maiores, ou um critério maior e dois menores

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Complicações e cuidados

  • Carcinomas basocelulares múltiplos, podendo ultrapassar 100 lesões ao longo da vida
  • Mutilação e cicatrizes por excisões repetidas
  • Aumento do risco de novos carcinomas basocelulares na área irradiada após radioterapia
  • Ceratocistos odontogênicos com deslocamento dentário e fratura de mandíbula; recidiva dos ceratocistos entre 15,4% e 50%, com tempo médio de 32 meses até a recidiva
  • Meduloblastoma na primeira infância
  • Fibroma cardíaco com obstrução de via de saída ventricular, arritmia ou insuficiência cardíaca
  • Perda de fertilidade ou menopausa precoce após cirurgia desnecessária de fibroma ovariano
  • Sofrimento psíquico e impacto na qualidade de vida
  • Aumento do risco de fibrossarcoma e rabdomiossarcoma

Prognóstico

A expectativa de vida costuma ser preservada, mas a morbidade é alta: cirurgias múltiplas, cicatrizes e visitas hospitalares frequentes, com impacto substancial na qualidade de vida.

Os ceratocistos odontogênicos tendem a diminuir após os 30 anos.

O meduloblastoma concentra-se nos 3 primeiros anos de vida e é a principal causa de mortalidade precoce.

Os carcinomas basocelulares recidivam após a suspensão dos inibidores da via Hedgehog, o que impõe seguimento indefinido.

A fotoproteção contínua reduz o número de novos tumores.

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Referências

  1. A guideline for the clinical management of basal cell naevus syndrome (Gorlin-Goltz syndrome). British Journal of Dermatology. 2022.
  2. First evidence of genotype-phenotype correlations in Gorlin syndrome. Journal of Medical Genetics. 2017.
  3. Consensus statement from the first international colloquium on basal cell nevus syndrome (BCNS). American Journal of Medical Genetics Part A. 2011.
  4. Clinical manifestations in 105 persons with nevoid basal cell carcinoma syndrome. American Journal of Medical Genetics. 1997.
  5. Features of basal cell carcinomas in basal cell nevus syndrome. American Journal of Medical Genetics Part A. 2011.
  6. Diagnosis and treatment of basal cell carcinoma: European consensus-based interdisciplinary guidelines. European Journal of Cancer. 2019.
  7. Vascular structures in dermoscopy. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2015.

Achados (clique para explorar)

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