Síndrome de hipersensibilidade induzida por droga (DRESS)
Conceito
DRESS (drug reaction with eosinophilia and systemic symptoms), também denominada DIHS (drug-induced hypersensitivity syndrome), é reação adversa medicamentosa grave, idiossincrásica, tardia e potencialmente fatal, com acometimento cutâneo e sistêmico (multiorgânico).
Está classificada entre as reações cutâneas adversas graves a medicamentos (SCARs), ao lado de SSJ/NET, pustulose exantemática generalizada aguda (PEGA) e anafilaxia.
Caracteriza-se por uma constelação de sinais e sintomas que inclui erupção cutânea extensa (especialmente exantema morbiliforme), febre, linfadenopatia, alterações hematológicas (eosinofilia e linfócitos atípicos) e envolvimento visceral (hepatite, nefrite, pneumonite, cardite, entre outros).
É considerada resultado da interação complexa entre exposição a um fármaco (ou vacina, ou imunobiológico), predisposição genética (alelos do HLA e polimorfismos de vias metabólicas) e reativação de vírus latentes, particularmente da família Herpesviridae.
É reação de hipersensibilidade mediada por células T, classificada como tipo IVb (às vezes IVc) de Gell e Coombs, ampliada por Pichler.
O termo DRESS foi proposto por Bocquet et al. em 1996; antes disso era descrita sob várias sinonímias conforme o fármaco implicado (síndrome da dapsona, síndrome de hipersensibilidade a anticonvulsivante, síndrome da hidantoína, síndrome de hipersensibilidade ao alopurinol).
O início é tardio, geralmente 2 a 8 semanas (14 a 60 dias) após a introdução do fármaco, mais tardio do que outras reações medicamentosas.
A letra "R" do acrônimo é usada como "reaction" ou "rash"; o segundo termo pode ser inadequado, pois ocasionalmente pode haver acometimento visceral sem sintomas cutâneos.
É um diagnóstico de exclusão, alcançado após afastar infecções, doenças do colágeno e doenças linfoproliferativas.
Epidemiologia
A real incidência é desconhecida, pois não há notificação compulsória e muitos casos são subdiagnosticados ou não registrados em sistemas de farmacovigilância.
Estima-se um caso de DRESS para cada 10.000 exposições a medicamentos, particularmente anticonvulsivantes como a carbamazepina.
O risco estimado à primeira ou segunda prescrição de antiepiléptico aromático é de 1 a 4,5 por 10.000.
Entre medicações antituberculosas, a DRESS ocorre em cerca de 1,2% dos pacientes.
As SCARs são vistas em cerca de 1 a cada 1.000 pacientes hospitalizados.
Em estudo de registros hospitalares dos EUA, a prevalência de DRESS foi de 2,18 casos por 100.000 pacientes internados.
Aproximadamente 94% dos pacientes necessitam de internação, com custo estimado de pelo menos US$ 17.000 por paciente ao sistema de saúde americano.
Não há predileção clara por gênero; há leve predomínio feminino (razão homens:mulheres de 0,80 na série RegiSCAR), com mulheres discretamente mais jovens que homens, sobretudo nos casos relacionados a antibióticos.
Não há predileção por faixa etária; a comorbidade mais frequente é a epilepsia (cerca de 20%).
Cerca de 8,5% dos pacientes têm história prévia de doença reumatológica ou doença vascular do tecido conectivo.
Entre pacientes japoneses, aproximadamente metade tem história de infecção do tipo influenza-símile no mês antecedente ao quadro.
A taxa de mortalidade específica varia de 3% a 20% (frequentemente citada em torno de 10%); no estudo prospectivo RegiSCAR apenas 2 de 117 pacientes morreram na fase aguda, sugerindo mortalidade menor que a de publicações prévias.
Pacientes HIV positivos têm incidência aumentada de reações medicamentosas, incluindo DRESS.
Nos casos pediátricos o quadro não difere substancialmente do adulto: tempo médio entre a ingestão e as manifestações de 18,9 dias, recidiva em 4,8% e sequelas de longo prazo em 11% (mais comumente hipotireoidismo, em 3,8%).
Fatores de risco e doenças associadas
- Incapacidade de detoxificar metabólitos areno-óxido (deficiência de epóxido-hidrolase/glutationa-transferase)
- Estado de acetilador lento (deficiência de N-acetil-transferase), associado às sulfonamidas
- Variante gênica CYP2C9*3, associada à fenitoína
- Deficiência de glutationa-S-transferase, associada à minociclina
- Alelos de risco do HLA específicos por fármaco e etnia
- Insuficiência renal preexistente (especialmente com alopurinol)
- Idade avançada, comorbidades e saúde debilitada (associadas a pior prognóstico)
- Infecção pelo HIV (aumenta a incidência de reações medicamentosas)
- Manutenção prolongada do fármaco causal e atraso no tratamento
- HLA-B*57:01 com abacavir (europeus, africanos, norte-americanos)
- HLA-B*58:01 com alopurinol (chineses Han, coreanos, taiwaneses, tailandeses)
- HLA-A*31:01 com carbamazepina (europeus, chineses, coreanos, japoneses)
- HLA-B*15:02 com carbamazepina (chineses Han, tailandeses)
- HLA-B*13:01 com dapsona (chineses, taiwaneses, tailandeses) e com salazosulfapiridina
- HLA-A*24:02 com fenitoína
- HLA-A*32:01 com vancomicina (norte-americanos e europeus)
- HLA-B*38 com sulfametoxazol
- Reativação de HHV-6, HHV-7, EBV, CMV e, por vezes, VZV
- Tireoidite autoimune, diabetes tipo 1 e outras doenças autoimunes como sequelas tardias
Medicamentos associados
Anticonvulsivantes
- Aromáticos (fenitoína, carbamazepina, fenobarbital, oxcarbazepina, primidona), que apresentam reação cruzada entre si
- Lamotrigina, com risco aumentado quando coadministrada com valproato
- Alopurinol, sobretudo em pacientes com insuficiência renal
Antimicrobianos
- Sulfonamidas antimicrobianas (sulfametoxazol-trimetoprima), sulfassalazina e dapsona (sulfona)
- Minociclina, tipicamente em adultos jovens em tratamento de acne
- Vancomicina e outros antibióticos betalactâmicos
- Antituberculosos (DRESS em cerca de 1,2% dos pacientes)
Antirretrovirais
- Abacavir, o antirretroviral que mais causa DRESS (em até 8%)
- Nevirapina
- Efavirenz
Patogênese
A patogênese é complexa e ainda não completamente esclarecida, refletindo a diversidade de fármacos implicados; há três componentes essenciais: suscetibilidade genética ligada a alelos do HLA, alterações nas vias de metabolização do fármaco e reativação de vírus da família Herpesviridae.
Mais de 60 medicamentos foram associados à DRESS.
Os alelos do HLA são um dos mais relevantes fatores de risco, sendo específicos para determinadas substâncias em etnias específicas; sua presença é necessária, mas não suficiente, para uma resposta imune completa.
Acredita-se que o fármaco interaja com seu HLA específico formando um complexo hapteno-HLA, apresentado às células T naïve (TH0) via receptor de célula T (TCR).
Três modelos explicam a estimulação imune: o modelo hapteno (ligação covalente forte do neoantígeno ao HLA), o conceito de interação farmacológica ("p-i", ligação não covalente e temporária entre fármaco, HLA e TCR sem processamento) e o modelo de repertório de autopeptídeos alterados.
Nas vias metabólicas, os anticonvulsivantes aromáticos são metabolizados pelo citocromo P450 (CYP, fase I) em metabólitos areno-óxidos, normalmente detoxificados na fase II pela epóxido-hidrolase ou glutationa-transferase; na deficiência dessas enzimas, os intermediários areno-óxidos acumulados atuam como haptenos ou lesam macromoléculas teciduais causando dano celular direto.
Pacientes com DRESS por sulfonamidas frequentemente são acetiladores lentos (baixa N-acetilação), acumulando metabólitos hidroxilamina tóxicos.
Nas populações taiwanesa, japonesa e malaia, a variante CYP2C9*3 reduz a excreção da fenitoína e associa-se a DRESS por essa medicação.
No alopurinol há sinergismo entre HLA-B*58:01 e função renal diminuída, que eleva os níveis séricos do fármaco e de seus metabólitos.
A resposta imune é predominantemente do tipo 2: as células Th2 ativadas liberam IL-4, IL-13 e IL-5, induzindo eosinofilia tecidual e sanguínea; eotaxina (queratinócitos), TARC/CCL17 (células dendríticas) e IL-33 (macrófagos, via receptor ST2 nas ILC2) promovem o acúmulo de eosinófilos.
A molécula coestimuladora OX40 (CD134) torna as células T menos responsivas à inibição pelas células T reguladoras (Tregs); na fase aguda há expansão de Tregs CD4+FOXP3+ que migram para a pele.
Células T CD8+ atraídas para a derme causam apoptose de queratinócitos pela liberação de granulisinas, com níveis elevados de IFN-gama, TNF, IL-6 e IL-15.
A reativação de vírus latentes é característica específica da DRESS; a mais prevalente é do HHV-6 (que permanece latente em linfócitos T CD4+), seguida em geral por HHV-7, EBV e, por fim, CMV.
A reativação do HHV-6 requer imunossupressão, evidenciada por queda dos níveis séricos de imunoglobulinas (IgG, IgM, IgA) e de células B no início da síndrome, e é geralmente detectada entre duas e quatro semanas após o início da DRESS, podendo associar-se à recidiva dos sintomas.
Entre 76% e 80% dos pacientes são positivos para HHV-6, HHV-7 ou EBV.
A depleção de monócitos pró-inflamatórios CD14dimCD16+ (com função antiviral) somada à expansão de Tregs favoreceria a reativação viral ao inibir os linfócitos T antivirais.
Na fase tardia há aumento de linfócitos Th1 e CD8+, muitas vezes concomitante à exacerbação da doença, com piora da hepatite e elevação de anticorpos anti-HHV-6.
A ativação da via de sinalização JAK-STAT foi evidenciada, sobretudo em casos refratários.
Clínica
- Início tardio, geralmente 2 a 8 semanas (14 a 60 dias) após a introdução do fármaco
- Pródromos de mal-estar tipo gripal, faringite, febre e linfadenopatia
- Febre alta (maior ou igual a 38,5 °C), em 75% a 100% dos casos, frequentemente precedendo a erupção em vários dias
- Exantema maculopapular (morbiliforme) extenso, o sinal cutâneo mais comum (99% a 100%), acometendo mais de 50% da superfície corporal, com progressão craniocaudal, poupando palmas e plantas
- Edema periorbital e facial, achado precoce clássico, em cerca de 76% dos casos
- Acentuação folicular, evolução do exantema para aspecto edematoso e, em parte dos casos, micropústulas
- Prurido usual e, por vezes, dor em queimação
- Lesões polimorfas: pústulas foliculares e não foliculares estéreis (simulando PEGA), púrpura, placas infiltradas, vesículas e bolhas tensas por edema dérmico (sem descolamento significativo)
- Forma eritrodérmica/dermatite esfoliativa (rara, cerca de 7% dos casos), considerada de maior gravidade
- Envolvimento mucoso leve, não hemorrágico, em até 56% dos casos (oral, labial, faríngeo, ocular, genital), distinguindo-se da SSJ/NET
- Linfadenopatia (linfonodos maiores que 1 cm em pelo menos dois sítios) em 50% a 75% dos casos
- Acometimento visceral em até 91% dos casos, com um órgão em cerca de 36% e dois ou mais em cerca de 56%
- Hepatite, a manifestação visceral mais comum (75% a 97%), tipicamente anictérica, com elevação de enzimas hepáticas (padrão colestático, misto ou hepatocelular)
- Acometimento renal (37%), de lesão renal aguda leve a nefrite intersticial grave, mais frequente e grave no DRESS por alopurinol
- Acometimento pulmonar (cerca de 32%), tipicamente pneumonite intersticial, associada à minociclina
- Acometimento cardíaco (mio ou pericardite), em média cerca de 70 dias após os sintomas iniciais, com dispneia, dor torácica, taquicardia e choque cardiogênico
- Outras manifestações menos frequentes: pancreatite, colite, colangite, encefalite/meningoencefalite, síndrome hemofagocítica, tireoidite e acometimento esplênico
- As crianças são mais propensas a exantema morbiliforme, febre e linfadenopatia, e menos propensas ao edema facial
- O acometimento sistêmico pode persistir após a retirada do fármaco
Classificação
- Síndrome de hipersensibilidade a anticonvulsivante: risco aumentado na incapacidade de detoxificar metabólitos areno-óxido; envolvimento hepático em cerca de 70%; menos comum acometer rim, pulmão ou coração; trocar por valproato ou levetiracetam
- Síndrome de hipersensibilidade ao alopurinol: geralmente em pacientes com insuficiência renal; risco muito aumentado em chineses Han com HLA-B*58:01; envolvimento hepático em cerca de 70% e renal em até 80%; associada a pancreatite e diabetes; mortalidade em torno de 25%
- Síndrome de hipersensibilidade a sulfonamida: risco aumentado em acetiladores lentos
- Síndrome de hipersensibilidade à dapsona (síndrome da sulfona): hemólise e metemoglobinemia concomitantes com icterícia; linfadenopatia em 80%; costuma faltar eosinofilia; envolvimento hepático pode ser fatal; risco aumentado em chineses com HLA-B*13:01
- Síndrome de hipersensibilidade à minociclina: tipicamente em adultos jovens em tratamento de acne, mais em mulheres; associada a deficiência de glutationa-S-transferase; forte associação com pneumonia intersticial eosinofílica; envolvimento hepático em 75% e renal em até 20%
- Forma clássica com exantema morbiliforme (mais de 80% dos casos)
- Forma eritrodérmica/esfoliativa (rara, cerca de 7%)
- Forma atípica com pústulas estéreis e vesículas simulando PEGA
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Complicações e cuidados
- Insuficiência hepática fulminante e hepatite grave com icterícia (aumento do risco de mortalidade)
- Doença renal aguda evoluindo para doença renal crônica terminal
- Pneumonite intersticial e insuficiência respiratória
- Miocardite, pericardite e choque cardiogênico
- Síndrome de ativação macrofágica/hemofagocítica
- Encefalite e meningoencefalite
- Pancreatite, colite e colangite
- Reativação do CMV com maior mortalidade específica
- Recidiva do quadro por desmame rápido do corticoide ou reexposição ao fármaco
- Sequelas autoimunes tardias: tireoidite autoimune, doença de Graves, diabetes tipo 1 fulminante, anemia hemolítica autoimune e alopecia
- SIADH
- Óbito (mortalidade de 3% a 20%)
Prognóstico
O prognóstico é variável e pouco previsível, com mortalidade específica de 3% a 20% (frequentemente citada em torno de 10%).
A mortalidade depende sobretudo do grau de envolvimento hepático e renal; a hepatite grave com icterícia aumenta o risco de morte.
Complicações graves relacionadas ou não à reativação do CMV são causa provável de óbito.
O prognóstico e a resposta terapêutica são mais favoráveis em jovens do que em idosos.
Pacientes idosos, com comorbidades e saúde debilitada, com manifestações sistêmicas evidentes, com manutenção prolongada do fármaco causal ou com atraso no tratamento tendem a ter pior prognóstico e recuperação mais lenta.
O acometimento sistêmico pode persistir por semanas a meses após a retirada do fármaco, e a normalização das enzimas hepáticas pode levar meses.
A recidiva é comum quando o corticoide é desmamado rapidamente.
Sequelas autoimunes sistêmicas (tireoidite autoimune, diabetes tipo 1 fulminante, anemia hemolítica autoimune, alopecia) podem aparecer meses a anos após a resolução, justificando acompanhamento prolongado.
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Referências
- Síndrome DRESS: uma interação entre medicamentos, vírus latentes e sistema imune. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2025.
- Drug reaction with eosinophilia and systemic symptoms (DRESS): an original multisystem adverse drug reaction. Results from the prospective RegiSCAR study. British Journal of Dermatology. 2013.
- Kardaun SH, Sidoroff A, Valeyrie-Allanore L, Halevy S, Davidovici BB, Mockenhaupt M, et al. Variability in the clinical pattern of cutaneous side-effects of drugs with systemic symptoms: does a DRESS syndrome really exist? British Journal of Dermatology. 2007.
- DRESS syndrome: part I. Clinical perspectives. Journal of the American Academy of Dermatology. 2013.
- DRESS syndrome: part II. Management and therapeutics. Journal of the American Academy of Dermatology. 2013.
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