Úlceras de perna (venosas, arteriais e neuropáticas)
Conceito
As úlceras crônicas de perna são feridas dos membros inferiores que não progridem pelas fases normais de cicatrização em tempo hábil.
A maioria decorre de insuficiência venosa crônica, doença arterial periférica, pressão prolongada ou neuropatia.
A úlcera venosa é a mais comum e resulta de hipertensão venosa e insuficiência valvar, no contexto de alterações de estase.
A úlcera arterial resulta de perfusão sanguínea insuficiente por doença arterial periférica.
A úlcera neuropática, ou mal perfurante plantar, ocorre sobre pontos de pressão em pacientes com neuropatia periférica, tipicamente diabéticos.
A distinção entre esses tipos é essencial, pois orienta condutas opostas, sobretudo quanto ao uso de compressão.
São feridas persistentes, que em média duram 12 a 13 meses e recorrem com frequência, com grande impacto na qualidade de vida.
Epidemiologia
As úlceras crônicas de perna são um problema de saúde pública prevalente e consomem grande volume de recursos assistenciais.
A úlcera venosa é a causa mais frequente de úlcera de perna.
A doença venosa crônica é muito mais comum em mulheres do que em homens.
A idade avançada e o número de gestações são fatores importantes no desenvolvimento da doença venosa.
As úlceras venosas afetam sobretudo idosos, mulheres, obesos, gestantes e pessoas que permanecem muito tempo em pé.
As úlceras arteriais associam-se a tabagismo, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia e hiper-homocisteinemia.
As úlceras neuropáticas ocorrem em diabéticos, e cerca de 15% dos pacientes com úlcera do pé diabético evoluem para amputação de membro inferior.
As úlceras crônicas de perna têm curso arrastado, com alta taxa de recorrência.
Fatores de risco e doenças associadas
- Insuficiência venosa crônica e hipertensão venosa
- Varizes e refluxo venoso superficial ou profundo
- Insuficiência de veias perfurantes
- Síndrome pós-trombótica e trombose venosa profunda prévia
- Idade avançada
- Sexo feminino
- Obesidade
- Gestação
- Permanência prolongada em pé
- Maior estatura
- Doença arterial periférica
- Tabagismo
- Diabetes melito tipo 2
- Hipertensão arterial sistêmica
- Dislipidemia
- Hiper-homocisteinemia
- Neuropatia periférica e deformidades do pé
- Imobilidade e mobilidade reduzida
- Desnutrição
- Distúrbios da coagulação (fator V de Leiden, deficiência de proteína C e S, deficiência de antitrombina III, mutação da protrombina G20210A, síndrome antifosfolípide)
- Insuficiência venosa crônica e varizes
- Síndrome pós-trombótica
- Lipodermatosclerose e dermatite de estase
- Doença arterial periférica e aterosclerose
- Diabetes melito e neuropatia periférica
- Hipertensão arterial (úlcera de Martorell)
- Distúrbios da coagulação e trombofilias
- Anemias e hemoglobinopatias
- Malignidades hematológicas
- Dermatite de contato alérgica por medicamentos tópicos, como neomicina
Patogênese
Na úlcera venosa, a incompetência das válvulas dos membros inferiores gera hipertensão venosa.
A hipertensão venosa causa distensão e extravasamento capilar, com saída de líquido, proteínas plasmáticas e hemácias.
Seguem-se edema, depósito de hemossiderina, fibrose, inflamação e microangiopatia.
Forma-se um manguito de fibrina em torno dos vasos, com redução das trocas de oxigênio e anóxia tecidual, que culmina em ulceração.
A hipertensão venosa pode originar-se em refluxo do sistema venoso superficial e profundo, em alterações das veias perfurantes ou em síndrome pós-trombótica.
A doença pode progredir de forma ascendente ou descendente ao longo do sistema venoso.
Na úlcera arterial, a doença arterial periférica reduz a perfusão e a oferta de oxigênio, causando isquemia e necrose tecidual.
Na úlcera neuropática, a perda de sensibilidade protetora, associada a deformidades do pé, leva a trauma repetido não percebido sobre pontos de pressão.
As feridas crônicas caracterizam-se por inflamação excessiva e persistente, infecções persistentes, formação de biofilmes microbianos resistentes e incapacidade das células dérmicas e epidérmicas de responderem aos estímulos de reparo.
A lesão tecidual repetida e a colonização microbiana mantêm níveis elevados de proteases e prolongam a fase inflamatória.
Clínica
Úlcera venosa
- Bordas irregulares e leito raso com base fibrinosa amarelada
- Localização clássica acima do maléolo medial, na região supramaleolar interna
- Exsudativa, geralmente pouco dolorosa
- Fundo de alterações de estase venosa com depósitos de hemossiderina castanhos e púrpura puntiforme
- Presença de varicosidades, edema e lipodermatosclerose
- Dermatite de estase com edema depressível e depósito de hemossiderina no terço distal da perna, descamação, inflamação e prurido ou dor
- Alterações cutâneas de estase que começam frequentemente no tornozelo medial e podem liquenificar por atrito
- Lipodermatosclerose com endurecimento circular firme do terço distal da perna, aspecto de garrafa de champanhe invertida
- Atrofia branca (atrophie blanche) na região supramaleolar medial
- Hiperpigmentação por hemossiderina
- Pulsos periféricos presentes na doença venosa
Úlcera arterial
- Ferida dolorosa com bordas bem definidas e base seca e necrótica, redonda, em saca-bocado
- Localização clássica em pontos de pressão, como maléolo lateral e cabeças do primeiro e quinto metatarsos
- Fundo de pele atrófica com rarefação de pelos
- Claudicação intermitente
- Pulsos pediosos diminuídos, tempo de enchimento capilar aumentado e palidez à elevação do membro
Úlcera neuropática (mal perfurante plantar)
- Base em saca-bocado, com odor, úmida e bordas caloladas
- Localização em pontos de pressão plantares, como cabeças dos metatarsos, hálux e calcâneo
- Contexto de neuropatia periférica, com ou sem deformidade do pé, como dedos em martelo
- Pode ter osteomielite subjacente
Úlcera hipertensiva de Martorell
- Bolha vermelha dolorosa que evolui para lesão purpúrica e úlcera com base necrótica e bordas eritêmato-violáceas, na face anterior ou medial da perna
Classificação
- Úlcera venosa (insuficiência venosa crônica)
- Úlcera arterial (doença arterial periférica)
- Úlcera neuropática ou diabética (mal perfurante plantar)
- Úlcera mista arterial e venosa
- Úlcera por linfedema
- Úlcera de decúbito ou de pressão
- Úlcera hipertensiva arteriolosclerótica de Martorell
- Úlcera de causa hematológica (anemias e hemoglobinopatias, malignidade hematológica, distúrbios da coagulação)
- Úlcera de causa inflamatória (vasculite, poliarterite nodosa, artrite reumatoide, pioderma gangrenoso, necrobiose lipoídica, doença de Behçet, vasculopatia livedoide)
- Úlcera de causa infecciosa (bacteriana, micobacteriana, viral, fúngica, parasitária)
- Úlcera de causa neoplásica (carcinoma espinocelular, carcinoma basocelular, linfomas, sarcoma de Kaposi, angiossarcoma)
- Úlcera de causa metabólica (calcinose cutânea, gota, calcifilaxia)
- Úlcera de causa medicamentosa (hidroxiureia, interferon, metotrexato, anticoagulantes)
- Classificação CEAP da doença venosa crônica, na qual C6 corresponde a úlcera venosa ativa e C5 a úlcera cicatrizada
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Manejo Assinante
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Procedimentos relacionados Assinante
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Complicações e cuidados
- Infecção da ferida e celulite
- Osteomielite subjacente
- Amputação de membro inferior, sobretudo no pé diabético
- Cronificação e recorrência das úlceras
- Dor e comprometimento importante da qualidade de vida
- Transformação maligna em carcinoma espinocelular (úlcera de Marjolin) nas úlceras crônicas
- Linfedema associado
- Dermatite de contato por sensibilização a produtos tópicos, comum em portadores de úlcera de perna
- Infecção secundária e retardo de cicatrização
Prognóstico
As úlceras crônicas de perna têm curso prolongado, com duração média de 12 a 13 meses e alta taxa de recorrência.
O prognóstico depende do controle da causa de base, sobretudo da hipertensão venosa ou da isquemia arterial.
A adesão à terapia compressiva é determinante para a cicatrização e a prevenção de recorrência da úlcera venosa.
A revascularização é determinante para a cicatrização da úlcera arterial.
No pé diabético, a úlcera pode evoluir para osteomielite e amputação, com cerca de 15% dos casos resultando em amputação de membro inferior.
A redução de cerca de 50% da área da ferida em quatro semanas é indicador robusto de cicatrização em três meses.
A malignização é complicação rara, porém grave, das úlceras de longa evolução.
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Referências
Achados (clique para explorar)
Dermatologia como ela acontece na prática: do diagnóstico ao tratamento.
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