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Dermato Prática, por Dr. Caio Formiga

Dermatologia clínica e cirúrgica baseada em diagnóstico acurado, terapia precisa e tecnologia de ponta. Palmas, TO.

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Hanseníase

Padrão inflamatório(Doença de Hansen, Leprosy)

Revisado por Dr. Caio Formiga· Dermatologista· CRM/TO 3606· RQE 2226· SBD

Atualizado em julho de 2026

ImagensConceitoEpidemiologiaPatogêneseClínicaHistopatologiaDiferenciaisManejoProcedimentosComplicaçõesPrognósticoPérolaReferênciasAchadosVeja também

Imagens

Conceito

Hanseníase, ou doença de Hansen, é uma doença infecciosa crônica e deformante causada pelo Mycobacterium leprae.

O agente é um bacilo intracelular obrigatório, fracamente álcool-ácido resistente, que parasita macrófagos e células de Schwann e não pode ser cultivado in vitro.

A bactéria requer temperaturas mais baixas para crescer, entre 30 e 35 °C, com predileção pelas áreas mais frias da pele, como nariz, lóbulos das orelhas e testículos, e pelos nervos periféricos superficiais.

Caracteriza-se pelo acometimento da pele e dos nervos periféricos, com granulomas e neurotropismo, e por um amplo espectro clínico determinado pela resposta imune celular do hospedeiro ao bacilo.

A lesão cutânea primária é uma placa anular, eritematosa ou hipopigmentada, anestésica ou hipoestésica.

Uma espécie relacionada, o Mycobacterium lepromatosis, foi descrita como causa da forma lepromatosa difusa de Lúcio e Latapí.

É uma doença curável, e o diagnóstico precoce previne as sequelas neurológicas que geram incapacidade e estigma.

Epidemiologia

A transmissão ocorre principalmente por gotículas das vias aéreas superiores durante contato próximo e prolongado com pacientes multibacilares não tratados, sendo a mucosa nasal a principal porta de entrada e de saída do bacilo.

O período de incubação é longo, em média de 4 a 5 anos, podendo chegar a 20 anos ou mais.

Estima-se que cerca de 95% da população mundial tenha resistência natural à doença.

Em 2019 foram detectados cerca de 202 mil casos novos no mundo, concentrados sobretudo em Índia, Brasil e Indonésia, sendo o Brasil o segundo país em número absoluto de casos.

Cerca de 7% dos casos novos ocorrem em menores de 15 anos, indicador de transmissão recente, e a taxa de casos novos com incapacidade grau 2 reflete o diagnóstico tardio.

Há predomínio no sexo masculino, e a distribuição etária é bimodal, com picos na adolescência e entre a quarta e a sexta décadas de vida.

Além do ser humano, o tatu atua como reservatório natural, sobretudo nas Américas, embora o risco de transmissão a partir do animal seja baixo e localizado.

A suscetibilidade à doença e a forma clínica sofrem influência genética, com destaque para alelos do sistema HLA e genes da imunidade inata.

Fatores de risco e doenças associadas

  • Contato próximo e prolongado com paciente multibacilar não tratado, sobretudo no ambiente domiciliar
  • Suscetibilidade genética, com destaque para alelos HLA (DR2 e DR3 na forma tuberculoide, DQ1 na lepromatosa) e genes da imunidade inata como o NOD2
  • Soropositividade anti-PGL-1 em contatos, que eleva o risco de adoecer, sobretudo para a forma multibacilar
  • Idade abaixo de 15 anos em área endêmica, sinalizando transmissão recente
  • Determinantes sociais como pobreza, desnutrição e alta densidade domiciliar
  • Contato, caça ou consumo de tatu em algumas regiões das Américas
  • Gravidez e lactação, que predispõem às reações e à recidiva
  • Início da poliquimioterapia, principal fator desencadeante da reação tipo 1
  • Forma lepromatosa e índice baciloscópico alto, que predispõem à reação tipo 2
  • Comprometimento das vias aéreas superiores, com rinite atrófica e nariz em sela
  • Acometimento testicular na forma lepromatosa, levando a esterilidade e ginecomastia
  • Comprometimento renal, com glomerulonefrite e amiloidose secundária, associado a reações recorrentes
  • Acometimento ocular, hepático, da medula óssea e dos linfonodos nas formas multibacilares
  • Coinfecção com tuberculose e com HIV, esta última podendo desencadear reação tipo 1 como reconstituição imune

Patogênese

A imunidade celular específica contra o M. leprae, avaliada pelo teste de lepromina, tem papel central e define o espectro clínico da doença.

A escala de Ridley-Jopling divide a hanseníase em duas formas polares, lepromatosa (LL) e tuberculoide (TT), e três formas borderline (BL, BB e BT).

No polo tuberculoide predomina a resposta celular do tipo Th1, com interferon-gama, IL-2 e TNF-alfa, ativação dos macrófagos e contenção do bacilo, e teste de lepromina fortemente positivo.

No polo lepromatoso predomina a resposta humoral do tipo Th2, com IL-4, IL-5, IL-10 e IL-13, produção de anticorpos que não conferem proteção, disseminação bacilar e teste de lepromina negativo.

As formas polares são estáveis ao longo de toda a evolução, enquanto as formas borderline são instáveis e têm características clinicopatológicas intermediárias entre os polos.

Além do eixo clássico Th1 e Th2, subpopulações como Th17, Th22 e as células T reguladoras, além da polarização dos macrófagos em M1 e M2, modulam a resposta e ajudam a explicar as formas intermediárias e as reações.

O dano neural resulta da invasão das terminações nervosas da derme, que altera a sensibilidade das lesões, e dos troncos nervosos periféricos, causando neurite, sendo a célula de Schwann infectada capaz de desdiferenciar e favorecer a proliferação e a disseminação do bacilo.

Clínica

  • Lesão cutânea primária: placa anular, eritematosa ou hipopigmentada, anestésica ou hipoestésica
  • Perda de sensibilidade nas lesões, acometendo em sequência as sensibilidades térmica, dolorosa e tátil
  • Ressecamento, anidrose e alopecia nas lesões, por comprometimento dos anexos cutâneos
  • Nervos periféricos espessados em todas as formas, exceto na indeterminada
  • Acometimento preferencial dos troncos nervosos superficiais: V e VII nervos cranianos, mediano, radial, ulnar, auricular magno, tibial posterior e fibular comum
  • Espessamento neural tipicamente assimétrico e multifocal, característica útil ao diagnóstico
  • Comprometimento neural em padrão de mononeuropatia múltipla, com déficit sensitivo, motor e autonômico
  • Hanseníase indeterminada, o estágio mais precoce, cursa com mácula hipopigmentada solitária e mal delimitada, sem espessamento dos nervos periféricos
  • As lesões da forma lepromatosa favorecem face, extremidades e áreas mais frias do tronco
  • Forma neural pura, sem lesão cutânea e com acometimento apenas de nervo, presente em cerca de 3 a 10% dos casos

Classificação

  • Hanseníase indeterminada: estágio mais precoce; mácula hipopigmentada solitária e mal delimitada, sem espessamento de nervos periféricos; pode se resolver espontaneamente ou evoluir para uma das cinco formas (LL, BL, BB, BT ou TT)
  • Tuberculoide (TT): placas secas, descamativas, hipopigmentadas e anestésicas, com borda periférica elevada e atrofia central, com ou sem alopecia e anidrose; uma ou poucas lesões, menos de cinco, de grande tamanho; distribuição localizada e assimétrica; bem definidas, com bordas nítidas, elevadas e induradas; sensibilidade ausente nas lesões; espessamento nervoso assimétrico e localizado ao redor das lesões; paucibacilar; costuma se resolver em cerca de 3 anos
  • Borderline (BT, BB e BL): formas instáveis, intermediárias entre os polos; na BB é característica a placa com bordas externas esmaecidas, borda interna nítida e centro oval hipopigmentado, a lesão foveolar; multibacilar nas formas BB e BL; maior risco de reação tipo 1
  • Lepromatosa (LL): pequenas máculas hipopigmentadas, papulonódulos e infiltração difusa, levando a fácies leonina, lóbulos alongados e madarose; lesões inúmeras e pequenas, de distribuição ampla e simétrica em face, nádegas e pernas; lesões mal definidas; sensibilidade preservada nas lesões; espessamento nervoso simétrico; multibacilar; alto risco de reação tipo 2
  • Hanseníase histoide: subtipo da lepromatosa, com lesões semelhantes a dermatofibroma e a neurofibroma, formadas por células fusiformes repletas de bacilos
  • Hanseníase neural pura: acometimento neural sem lesão cutânea, mais frequente no polo tuberculoide
  • A classificação de Ridley-Jopling baseia-se em critérios clínicos, imunológicos e histopatológicos, e a classificação operacional da OMS divide em paucibacilar, com até cinco lesões e sem bacilos, e multibacilar, com mais de cinco lesões, acometimento neural ou baciloscopia positiva, sendo esta a que orienta o tratamento

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Complicações e cuidados

  • Estados reacionais, principal causa de dano neural e incapacidade, que surgem antes, durante ou após o tratamento em cerca de 30 a 50% dos pacientes
  • Reação tipo 1, ou reversa, mais comum nas formas borderline, com inflamação e edema das lesões preexistentes, que podem ulcerar, e neurite aguda, em geral sem sintomas sistêmicos, com maior risco nos primeiros seis meses de tratamento
  • Reação tipo 2, ou eritema nodoso hansênico, nas formas lepromatosa e borderline lepromatosa, com surtos de nódulos subcutâneos dolorosos, febre, mal-estar, neurite, artrite, dactilite, orquite, linfadenite e uveíte
  • No eritema nodoso hansênico a dor é o sintoma mais frequente, e as lesões podem ser vesicobolhosas, pustulosas, ulceradas ou necróticas, com curso agudo, recorrente ou crônico, sendo a forma crônica a mais grave
  • Fenômeno de Lúcio: vasculite necrosante grave com trombose, na hanseníase lepromatosa difusa, com máculas purpúricas e lesões bolhosas ulcerativas abaixo dos joelhos, com risco de superinfecção e sepse
  • Dano neural com deformidades: mão em garra por lesão do ulnar e do mediano, mão caída por lesão do radial, pé caído por lesão do fibular comum e anestesia plantar com úlceras neuropáticas por lesão do tibial posterior
  • Atrofia dos músculos intrínsecos, retração tendínea, reabsorção óssea e mutilações das extremidades
  • Comprometimento ocular: lagoftalmo e paralisia facial por lesão do VII par, anestesia de córnea por lesão do V par, ceratite de exposição, madarose, irite, esclerite e catarata, podendo levar à cegueira
  • Neurite silenciosa, com perda de função sem dor, detectável apenas em exame cuidadoso do sistema nervoso periférico
  • Progressão do dano neural mesmo após a cura, já que a poliquimioterapia não reverte as lesões neurais estabelecidas
  • Recidiva, geralmente após cinco anos, que exige diferenciar reação, reinfecção (comprovável por métodos moleculares) e resistência medicamentosa
  • Efeitos adversos dos fármacos: hemólise e metemoglobinemia pela dapsona, hiperpigmentação e ressecamento pela clofazimina, hepatite e síndrome gripal pela rifampicina

Prognóstico

A hanseníase é curável, e a maioria dos pacientes completa o tratamento em até um ano.

As formas polares são estáveis, a forma tuberculoide costuma se resolver espontaneamente em cerca de 3 anos e a indeterminada pode se resolver ou evoluir para uma das formas do espectro.

O curso é crônico, marcado por exacerbações reacionais, que são a principal causa de incapacidade.

A poliquimioterapia não reverte o dano neural já estabelecido, e a perda de função por mais de seis meses tende a ser permanente.

A recidiva é rara e, quando ocorre em áreas endêmicas, pode representar reinfecção, sendo o diagnóstico precoce e o tratamento das reações decisivos para prevenir sequelas.

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Referências

  1. Leprosy: review of the epidemiological, clinical, and etiopathogenic aspects - Part 1. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2014.
  2. Leprosy: a review of laboratory and therapeutic aspects - Part 2. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2014.
  3. Leprosy in the 21st century. Clinical Microbiology Reviews. 2015.
  4. Guidelines for the diagnosis, treatment and prevention of leprosy. World Health Organization. 2018.
  5. Condutas terapêuticas antimicrobianas da hanseníase. Sociedade Brasileira de Hansenologia. 2025.
  6. Towards zero leprosy: global leprosy (Hansen's disease) strategy 2021-2030. World Health Organization. 2021.
  7. Overview of the histopathology and other laboratory investigations in leprosy. Current Tropical Medicine Reports. 2016.
  8. Challenges and advances in serological and molecular tests to aid leprosy diagnosis. Experimental Biology and Medicine. 2023.
  9. Leprosy type 1 reactions and erythema nodosum leprosum. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2008.
  10. Ocular leprosy. Clinics in Dermatology. 2015.

Achados (clique para explorar)

máculalesão hipocrômicaplaca infiltradaanestesiahipoestesiamadarosepavilhão auricularalopecia não cicatricialespessamento de nervo periférico

Veja também

Método algorítmico das doenças inflamatóriasPadrões inflamatórios da peleDermatites granulomatosas não infecciosasProcessamento histológicoHanseníase (histopatologia)Infecções superficiais e infestações da epiderme
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