Hanseníase, ou doença de Hansen, é uma doença infecciosa crônica e deformante causada pelo Mycobacterium leprae.
O agente é um bacilo intracelular obrigatório, fracamente álcool-ácido resistente, que parasita macrófagos e células de Schwann e não pode ser cultivado in vitro.
A bactéria requer temperaturas mais baixas para crescer, entre 30 e 35 °C, com predileção pelas áreas mais frias da pele, como nariz, lóbulos das orelhas e testículos, e pelos nervos periféricos superficiais.
Caracteriza-se pelo acometimento da pele e dos nervos periféricos, com granulomas e neurotropismo, e por um amplo espectro clínico determinado pela resposta imune celular do hospedeiro ao bacilo.
A lesão cutânea primária é uma placa anular, eritematosa ou hipopigmentada, anestésica ou hipoestésica.
Uma espécie relacionada, o Mycobacterium lepromatosis, foi descrita como causa da forma lepromatosa difusa de Lúcio e Latapí.
É uma doença curável, e o diagnóstico precoce previne as sequelas neurológicas que geram incapacidade e estigma.
A transmissão ocorre principalmente por gotículas das vias aéreas superiores durante contato próximo e prolongado com pacientes multibacilares não tratados, sendo a mucosa nasal a principal porta de entrada e de saída do bacilo.
O período de incubação é longo, em média de 4 a 5 anos, podendo chegar a 20 anos ou mais.
Estima-se que cerca de 95% da população mundial tenha resistência natural à doença.
Em 2019 foram detectados cerca de 202 mil casos novos no mundo, concentrados sobretudo em Índia, Brasil e Indonésia, sendo o Brasil o segundo país em número absoluto de casos.
Cerca de 7% dos casos novos ocorrem em menores de 15 anos, indicador de transmissão recente, e a taxa de casos novos com incapacidade grau 2 reflete o diagnóstico tardio.
Há predomínio no sexo masculino, e a distribuição etária é bimodal, com picos na adolescência e entre a quarta e a sexta décadas de vida.
Além do ser humano, o tatu atua como reservatório natural, sobretudo nas Américas, embora o risco de transmissão a partir do animal seja baixo e localizado.
A suscetibilidade à doença e a forma clínica sofrem influência genética, com destaque para alelos do sistema HLA e genes da imunidade inata.
Fatores de risco e doenças associadas
A imunidade celular específica contra o M. leprae, avaliada pelo teste de lepromina, tem papel central e define o espectro clínico da doença.
A escala de Ridley-Jopling divide a hanseníase em duas formas polares, lepromatosa (LL) e tuberculoide (TT), e três formas borderline (BL, BB e BT).
No polo tuberculoide predomina a resposta celular do tipo Th1, com interferon-gama, IL-2 e TNF-alfa, ativação dos macrófagos e contenção do bacilo, e teste de lepromina fortemente positivo.
No polo lepromatoso predomina a resposta humoral do tipo Th2, com IL-4, IL-5, IL-10 e IL-13, produção de anticorpos que não conferem proteção, disseminação bacilar e teste de lepromina negativo.
As formas polares são estáveis ao longo de toda a evolução, enquanto as formas borderline são instáveis e têm características clinicopatológicas intermediárias entre os polos.
Além do eixo clássico Th1 e Th2, subpopulações como Th17, Th22 e as células T reguladoras, além da polarização dos macrófagos em M1 e M2, modulam a resposta e ajudam a explicar as formas intermediárias e as reações.
O dano neural resulta da invasão das terminações nervosas da derme, que altera a sensibilidade das lesões, e dos troncos nervosos periféricos, causando neurite, sendo a célula de Schwann infectada capaz de desdiferenciar e favorecer a proliferação e a disseminação do bacilo.
Classificação
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A hanseníase é curável, e a maioria dos pacientes completa o tratamento em até um ano.
As formas polares são estáveis, a forma tuberculoide costuma se resolver espontaneamente em cerca de 3 anos e a indeterminada pode se resolver ou evoluir para uma das formas do espectro.
O curso é crônico, marcado por exacerbações reacionais, que são a principal causa de incapacidade.
A poliquimioterapia não reverte o dano neural já estabelecido, e a perda de função por mais de seis meses tende a ser permanente.
A recidiva é rara e, quando ocorre em áreas endêmicas, pode representar reinfecção, sendo o diagnóstico precoce e o tratamento das reações decisivos para prevenir sequelas.
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