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Pele normal

(Histologia da pele normal, Anatomia microscópica da pele)

Epiderme

Arquitetura e queratinização

Importância

O reconhecimento da pele normal é indispensável para compreender processos patológicos e dermatopatologia. Ao observar uma lâmina, o primeiro passo é localizar onde está o processo patológico e quais estruturas foram alteradas. Para isso, é necessário conhecer o aspecto normal da pele em diferentes topografias e em diferentes idades.

Estrutura geral

A pele é formada por duas camadas principais: epiderme e derme. A epiderme é a camada mais superficial, formada por tecido epitelial. A derme é formada por tecido conjuntivo e contém vasos, nervos e anexos cutâneos. A hipoderme, ou tecido celular subcutâneo, tecnicamente não faz parte da pele, mas é estudada em dermatologia porque alterações nessa região se manifestam como lesões percebidas no exame cutâneo.

Epiderme

A epiderme é um epitélio estratificado pavimentoso queratinizado e avascular, nutrido por difusão a partir dos vasos da derme. A camada basal é formada por uma única fileira de células colunares, com maior capacidade proliferativa. Acima dela fica a camada espinhosa, composta por várias fileiras de queratinócitos com citoplasma mais amplo e pontes intercelulares evidentes. Nas porções superiores, os queratinócitos tornam se achatados, formam a camada granulosa e depois originam a camada córnea.

Polarização epidérmica

A epiderme normal apresenta polarização habitual, com camada basal na base, camada espinhosa ocupando a maior parte da espessura epitelial, camada granulosa nas porções superiores e camada córnea na superfície. A perda dessa organização é um achado importante em vários processos patológicos, especialmente quando há proliferação neoplásica ou alterações inflamatórias intensas.

Queratinização

A camada granulosa contém grânulos de querato hialina, essenciais para a queratinização mole da epiderme. Após a queratinização completa, formam se os corneócitos anucleados da camada córnea. Em termos gerais, o percurso de uma célula basal até a queratinização leva cerca de quatorze dias, seguido por cerca de mais quatorze dias até a descamação.

Variações regionais

A pele fina reveste a maior parte do corpo e apresenta camada córnea em malha de rede, cones epidérmicos e papilas dérmicas. A pele volar, presente em palmas e plantas, apresenta camada córnea compacta, camada de Malpighi mais espessa, camada granulosa evidente, dermatoglifos e ausência de folículos pilosos. O couro cabeludo se caracteriza por grande densidade de folículos terminais. A face pode apresentar grande número de folículos velos, glândulas sebáceas e maior quantidade de estruturas neurais e musculatura estriada.

Células e junção

Melanócitos

Os melanócitos ficam entre os queratinócitos basais e transferem melanina para os queratinócitos por meio de dendritos. Em média, há cerca de um melanócito para cada dez queratinócitos basais. No processamento histológico, o citoplasma do melanócito se colaba ao redor do núcleo, deixando um vacúolo claro ao redor da célula. A melanina é empacotada em melanossomos e protege os núcleos dos queratinócitos contra os efeitos mutagênicos da radiação solar.

Células residentes da epiderme

Além dos queratinócitos e melanócitos, a epiderme contém células de Merkel e células de Langerhans. As células de Merkel não são habitualmente identificadas nos cortes de rotina e podem funcionar como receptores neurais, além de ter função neuroendócrina local. As células de Langerhans são células dendríticas apresentadoras de antígeno, importantes na imunidade adaptativa cutânea.

Zona da membrana basal

A membrana basal fica entre epiderme e derme e não é visível de rotina na hematoxilina e eosina. Pode ser evidenciada por PAS ou por imunohistoquímica para colágeno tipo quatro. A zona da membrana basal é um conceito mais amplo que inclui o citoplasma do queratinócito basal, tonofilamentos, hemidesmossomos, lâmina lúcida, lâmina densa e sublâmina densa. Entre seus componentes estão citoceratinas cinco e quatorze, antígeno do penfigoide bolhoso tipo um, plectina, antígeno do penfigoide bolhoso tipo dois, laminina cinco, colágeno tipo quatro e colágeno tipo sete.

Derme e hipoderme

Derme

Derme

A derme é tecido conjuntivo e se divide em derme papilar e derme reticular. A derme papilar é mais superficial, tem feixes colágenos mais finos, mais substância amorfa, maior proporção de fibroblastos e vasos delicados. A derme reticular é mais profunda, com feixes colágenos mais espessos, maduros e eosinofílicos. Os feixes colágenos conferem sustentação e resistência ao estiramento da pele.

Fibras elásticas

As fibras elásticas não são bem avaliadas na coloração de rotina e exigem colorações especiais, como orceína e Verhoeff van Gieson. Na derme reticular, as fibras elásticas são maduras, mais espessas e retorcidas. Na derme papilar, há fibras mais finas, incluindo fibras elaunínicas e oxitalânicas. As fibras elásticas funcionam como molas, permitindo que a pele retorne à posição original após o estiramento.

Envelhecimento e elastose solar

No envelhecimento cronológico, a epiderme pode ficar atrófica, os cones epidérmicos podem se retificar e a derme pode se afinar. Na pele cronicamente exposta ao sol, os fibroblastos produzem elastose solar, material anômalo de tonalidade basofílica que pode substituir grande parte do colágeno dérmico. Frequentemente, há uma fina faixa de colágeno superficial separando a elastose solar da epiderme.

Estruturas e hipoderme

Estruturas neurais

A pele é ricamente inervada por fibras motoras do sistema nervoso autônomo e fibras sensitivas. As fibras motoras inervam vasos, glândulas écrinas, glândulas apócrinas e músculo eretor do pelo. As glândulas sebáceas respondem principalmente a estímulos endócrinos. Os filetes nervosos têm perineuro, células de Schwann, axônios e bainha de mielina. Corpúsculos de Meissner estão relacionados ao tato fino e corpúsculos de Pacini à pressão.

Músculos cutâneos

O músculo eretor do pelo é músculo liso de contração involuntária, inserido no folículo piloso e relacionado à ereção do pelo. A musculatura dartóica é músculo liso presente na bolsa escrotal, nos grandes lábios da vulva e nas aréolas mamárias. A musculatura estriada não é habitual em cortes de pele, exceto em áreas como face e lábios, onde se insere diretamente na pele e participa das expressões faciais.

Vasos

A pele contém artérias, arteríolas, vênulas, capilares, vasos linfáticos e estruturas vasculares especializadas. Artérias e arteríolas têm parede muscular proporcionalmente mais espessa e lume menor. Vênulas têm lume mais amplo e frequentemente colabado. Capilares têm parede delgada formada basicamente por células endoteliais. Vasos linfáticos também têm parede fina e podem apresentar válvulas.

Hipoderme

A hipoderme é composta por lóbulos adiposos separados por septos interlobulares. Os septos contêm tecido conjuntivo, fibroblastos, colágeno, fibras elásticas e vasos. Os vasos de maior calibre chegam à pele pelos septos e contribuem para a vascularização da derme e do tecido celular subcutâneo. O adipócito apresenta grande vacúolo lipídico, que se perde no processamento histológico, deixando citoplasma e núcleo achatados na periferia.

Anexos

Folículo piloso

Folículos pilosos

O folículo piloso é anexo epitelial relacionado à unidade pilossebácea. O segmento superior é fixo e inclui infundíbulo e istmo. O infundíbulo se comporta como invaginação da epiderme, com camada granulosa e queratinização em malha de rede. O istmo tem queratinócitos de citoplasma mais amplo e eosinofílico, pontes intercelulares menos evidentes e queratinização compacta sem camada granulosa.

Ciclo folicular

O segmento inferior do folículo muda conforme o ciclo folicular. Na fase anágena, há matriz, papila folicular, bainha interna, bainha externa e produção da haste. Na fase catágena, a matriz desaparece, a bainha interna deixa de ser produzida, há queratinócitos apoptóticos e forma se um trato fibroso. Na fase telógena, a porção inferior já regrediu. No couro cabeludo, a maior parte dos folículos permanece em anágena.

Glândulas

Glândulas sebáceas

As glândulas sebáceas ficam ao redor dos folículos pilosos, na transição entre infundíbulo e istmo. São formadas por lóbulos secretores e ductos. Na periferia dos lóbulos há células basaloides pouco diferenciadas, que originam sebócitos maduros de citoplasma amplo, pálido e multivacuolizado por lipídios. A glândula sebácea é holócrina, pois o sebócito inteiro morre e se transforma em secreção.

Glândulas apócrinas

A glândula apócrina integra o folículo pilossebáceo apócrino e seu ducto desemboca no infundíbulo. A porção secretora tem ácinos grandes e lume amplo, com células mioepiteliais externas e células secretoras internas. A secreção por decapitação, com desprendimento de pequenas porções do citoplasma, é marcador da glândula apócrina e não ocorre na glândula écrina.

Glândulas écrinas

A glândula écrina é independente do folículo piloso. Seu ducto atravessa a derme, enovela se antes da porção secretora e se insere diretamente na epiderme. A porção intraepidérmica do ducto tem trajeto espiralado, abre se em poro na superfície e recebe o nome de acrossiríngio. O ducto apresenta células cuticulares internas e células poróides externas. A porção secretora tem ácinos menores e lume proporcionalmente menor que o da glândula apócrina.

Unha

Aparelho ungueal

O aparelho ungueal é um anexo epitelial. A dobra ungueal proximal se rebate e, ao mudar de propriedade, passa a constituir a matriz ungueal. A matriz produz a lâmina ungueal por queratinização dura, sem formação de camada granulosa. O leito ungueal produz pequena quantidade de queratina aderida à superfície ventral da lâmina. Na transição para a polpa digital fica o hiponíquio.

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